Panegírico de Santo André, Apóstolo

Santo André, irmão de São Pedro, era como este um pescador do lago de Betsaida, e foi discípulo de São João Batista. São Pedro e ele foram os primeiros a quem Jesus Cristo chamou para seus apóstolos. Sofreu o martírio em Patras, na Achaia, onde tinha ido pregar o Evangelho. Segundo os Atos do seu martírio, o procônsul de Achaia mandou-o prender a uma cruz em forma de X (crux decussata), e a esta forma particular se deu depois o nome de cruz de Santo André.

Pregado nas Carmelitas do Faubourg Saint-Jacques, no dia 30 de novembro de 1668.

SUMÁRIO

O Exórdio, a Proposição e a Divisão. — (Não existem, porque talvez Bossuet os tivesse escrito num papel solto que porventura se perdeu).

1.º Ponto. — As circunstâncias da vocação dos Apóstolos provam a divindade do cristianismo; pois, com serem fracos, rudes e ignorantes, com ser difícil o intento a realizar e pouco eficazes os meios humanos, foram bem sucedidos na sua empresa.

2.º Ponto. — A pesca milagrosa simboliza a historia da Igreja. Para adquirirem maior liberdade, o cisma e a heresia rompem às vezes as redes da Igreja; porque no povo de Deus, como na rede dos Apóstolos, há um excesso que embaraça e compromete o bom êxito da pesca, na própria ocasião em que ela parece ser mais feliz.

3.º Ponto. — A exemplo de Santo André e dos Apóstolos, devem os cristãos ser submissos, crédulos e generosos. Os sacrifícios que fazem pela fé em breve são indenizados; pois o sacrifício dos Apóstolos e o dos mártires, animando as virtudes cristãs, asseguravam a glória e as vitória da Igreja.

Peroração. — Para termos uma vida cristã é preciso combater incessantemente os impulsos do coração.

Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum
Vinde, após de mim, e eu vos farei pescadores de homens (Mc 4, 19)

PRIMEIRO PONTO

Jesus vai começar as suas conquistas, porque já pregou o seu Evangelho e já as multidões se aglomeram para ouvir a Sua palavra. Ainda ninguém se aproximou dEle, e, no meio de tantos ouvintes, ainda Ele não alcançou um único discípulo. Por isso, não recebe indiferentemente todos os que se apresentam para o seguir. Há uns a quem Ele repele, outros a quem sonda, e outros a quem guarda para exame ulterior. Tem as Suas horas destinadas e as Suas pessoas escolhidas. Lança as redes a esse mar do século, mar imenso, mar profundo, mar tormentoso e eternamente agitado. Quer apanhar homens no mundo; mas, embora a água esteja turva, não pesca nela as cegas, porque sabe os que lhe convêm, e porque os mira e remira e os escolhe. Hoje é o dia da escolha importante, visto que vai buscar aqueles por quem resolveu ir buscar outros; vai enfim escolher os Apóstolos.

Os homens lançam as suas redes de todos os lados; e apanham todas as espécies de peixes, bons e maus, nas redes da Igreja, segundo a palavra do Evangelho. Jesus escolhe; mas como faz a escolha das pessoas, talvez comece as Suas conquistas por algum príncipe da Sinagoga, por algum sacerdote, por algum pontífice, ou por algum celebre doutor da lei, para dar crédito a Sua missão e a Sua maneira de proceder.

Pois nada disto Ele faz. Escutai, irmãos:

«Jesus andava junto ao mar da Galileia. Viu dois pescadores, Simão e seu irmão André, e disse-lhes: Vinde após de mim, e eu vos farei pescadores de homens» – Ambulans Jesus juxta mare Galileae vidit duos fratres, Simonem, qui vocatur Petrus, et Andream fratrem ejus mittentes rete in mare (erant enim piscatores), et ait illis: Venite post me, etc, (Mt 4, 18)

Ora são estes que devem realizar as profecias, distribuir a graça, anunciar a nova aliança e fazer triunfar a cruz. E então Ele não quererá os grandes da terra os ricos e os nobres e os poderosos, e
até os doutos e os oradores e os filósofos? Não, não há de desprezar; porque, nas futuras idades, virão os grandes em chusma juntar-se ao humilde rebanho do Salvador. Os imperadores e os reis inclinarão a fronte soberba para ficarem subjugados. Os fasces romanos hão de ver-se humilhados aos pés da cruz de Cristo. Os judeus farão a lei aos romanos; e Eles receberão nos seus Estados leis desconhecidas, que hão de ser mais duras do que as suas, e verão sem inveja, um império elevar-se no meio do seu império, e leis superiores as suas leis. Verão elevar-se um império acima do seu não para, o destruir, mas, pelo contrário, para o consolidar. Os oradores virão também, e hão de preferir a simplicidade do Evangelho e a sua linguagem mística a essa magnificência dos seus discursos inutilmente pomposos; e esses espíritos ilustres de Roma e de Atenas virão então aprender a falar nos escritos dos bárbaros (1): Virão igualmente os filósofos que, depois de se haverem fatigado em longas discussões, cairão finalmente nas redes dos nossos celestes pescadores, onde, felizmente enleados, abandonarão as redes dos seus inúteis e perigosos subterfúgios, em que procuravam prender as almas ignorantes e curiosas. Aprenderão, não a raciocinar, mas a ser crentes e a ver a luz numa inteligência cativa (2).

Jesus não repele, portanto, os grandes, nem os poderosos, nem os sábios.

«Não os repele, mas empraza-os» – Differantur isti superbi, aliqua soliditate sanandi sunt (S. August., Serm. LXXXVII, n. 12)

Os grandes querem que o seu poder dê impulso aos negócios, e os sábios que os seus argumentos conquistem os espíritos; mas Deus quer desentranhar-lhes e curar-lhes o orgulho. A seu tempo virão, quando tudo estiver cumprido, quando a Igreja estiver estabelecida, quando o universo tiver visto e verificado que a obra se completou sem Eles; quando já não compartilharem da glória de Deus, e baixarem dessa altivez para, na Igreja, despirem aos pés da cruz, essa preeminência que pompeiam; quando se reputarem os últimos de todos; os primeiros em toda a parte, mas os últimos na Igreja; aqueles a quem a sua própria grandeza mais afasta do céu, e a quem os seus perigos e as suas tentações mais aproximam do abismo. Sois vós deste número, ó grandes, ó doutos, a quem a religião considera como mais felizes, e a quem ela deseja melhor destino? Não; mas sois, pelo contrário, aqueles por quem ela treme, e os que ela deve humilhar tanto mais para os curar e salvar, quanto é certo tudo contribuir para os elevar e perder. Por isso a vossa necessidade e a glória do Onipotente exigem que primeiramente sejais repelidos na execução dos seus altos desígnios, para ficardes compreendendo bem o justo desprezo que mereceis.

No entanto, vinde, ó pescadores; vinde, irmãos amigos e santos, André e Simão; vós nada sois e nada tendes.

«Em vós nada há que mereça ser procurado, apenas há uma vasta capacidade a encher» – Nihil est quod in te expectatur, sed est quod in te impleatur (S. August., Serm. LXXXVII, n. 12)

Estais vazios de tudo, e principalmente vazios de vós mesmos:

«Vinde beber, vinde saciar-vos nesta fonte inesgotável» – Tam largo fonti vas inane admovendum est

Os outros regozijam-se por terem aliciado ao seu partido os grandes, e os doutos; e Jesus por ter atraído os pequenos e os simples:

Confiteor tibi, Pater Domine caeli et terrae, quia obscondisti haec a sapientibus et prudentibus, et revelasti ea parvulis – «Graças vos dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultastes estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelastes aos simples» (Mt 11, 25)

E qual foi o motivo de uma ação que tanto ofende as nossas ideias? Foi a necessidade de humilhar o fausto dos homens, e de obrigar todas as línguas a confessarem que a obra foi feita por Deus unicamente; e Jesus alegrou-se em espírito, ao considerar nesse grande desígnio da sabedoria de seu Pai: In ipsa hora exultavit Spiritu sancto (Lc 10, 21). Porque foi realmente uma coisa sublime que tanto alegrou Jesus.

«Vede, irmãos, que, dentre vós, houve uns que foram chamados á fé; e que os há, de sua natureza, pouco sábios, pouco poderosos e pouco nobres. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo, para confundir os sábios; escolheu deste mundo as coisas fracas, para confundir os fortes; e deste mundo escolheu as coisas vis e as desprezíveis e as que não existem, para aniquilar as que são grandes, e para que nenhum homem se glorie perante Ele» (1Cor 1, 26) (3)

Realmente, não havia coisa mais própria para mostrar a grandeza de Deus e a sua independência do que uma semelhante escolha. Só a Ele compete escolher para as Suas obras instrumentos que, se a primeira vista não parecem muito convenientes para o fim desejado, parecendo até obstar ao seu bom êxito, tornam-se com tudo uteis e eficazes, depois dEle lhes ter dado toda a virtude necessária. Ele é extremamente bom para que se não duvide de que tudo que existe fosse feito por Ele unicamente, e para que se não imagine que tenha de chamar cooperadores, que, aliás, seriam absolutamente ineptos para os grandes projetos que Ele pretende realizar pelo seu ministério. E assim como outrora, nas mãos dos soldados de Gedeão, uns fracos vasos de argila ocultavam a luz que devia causar o pavor no campo dos madianitas (4), assim também agora esses tesouros de sabedoria que Deus quis mostrar ao mundo, para salvação duns e confusão de outros, se encontram em vasos muito frágeis (5), a fim de que a excelência da eficácia que neles existe seja reconhecido como proveniente de Deus e não dos seus fracos instrumentos, e a fim de que tudo assim concorra para demonstrar a verdade do Evangelho.

E agora, admirai, irmãos, as circunstâncias notáveis que Deus escolheu para formar a Sua Igreja. Como tinha retardado até final a execução do começo da Sua promessa, prolonga também o pleno cumprimento dela até ao momento em que tudo deve aparecer como que espontaneamente. Abraão e Sarah são estéreis, quando Deus lhes anuncia que hão de ter um filho. Quis esperar pela velhice decrépita, esterilizada por natureza, enfraquecida pela idade, para lhes descobrir os seus planos. E então que envia um anjo, que da sua parte lhes afirma que em certo tempo (Em época determinada, – certo tempore) Sarah há de conceber; e Sarah começa a rir-se, maravilhosamente surpreendida da noticia que o anjo lhe dá, Com isto, quer Deus mostrar que essa raça prometida é obra Sua, seguindo o mesmo plano na instituição da Sua Igreja. E assim como tem poder para edificar, assim também pode destruir tudo o que lhe apraz… Por isso, depois da Sua morte, os seus discípulos dizem: Sperabamus –  «Nós esperávamos» (Lc 24, 21), porque Ele havia deixado perder tudo, inclusivamente a esperança. Quando Deus quer mostrar que uma obra, é feita unicamente por Sua mão, reduz tudo a impotência e ao desespero, e depois opera. Sperabamus: está consumado; a nossa esperança morreu e sepultou-se com Ele no túmulo.

Depois da morte de Cristo voltam os discípulos a pescar, não se tendo dedicado mais a esta ocupação enquanto Ele foi vivo, porque esperavam sempre: Sperabamus. E é Pedro quem faz a proposta:

Vado piscari; venimus et nos tecum – «Voltemos aos peixes e deixemos os homens» (Jo 20, 23)

O fundamento a separa-se do edifício; o capitão a abandonar o exército. Pedro, o chefe dos Apóstolos, volve ao seu primeiro mister, e de novo toma as redes e o barco que tinha largado. Que virá a ser de vós, ó Evangelho? Haveis de morrer, pesca espiritual? Mas eis que aparece Jesus. Reanima a fé quase extinta dos seus discípulos descoroçoados, ordena-lhes que reassumam o ministério que lhes confiou, e lembra-lhes o dever de vigiarem pelas Suas ovelhas dispersas: Pasce oves meas. É o bastante para lhes dar a paz e a coragem. Reanimados dali por diante pela Sua palavra e fortificados pelo Seu espírito, nada os há de assombrar, nem será capaz de perturbá-los: nem o sentimento da sua fraqueza, nem a vista dos obstáculos, nem a grandeza do projeto, nem a carência dos recursos humanos, nada poderia alterá-los na resolução de executarem tudo o que o seu Mestre lhes prescreveu. Armados de uma inabalável confiança no auxílio prometido, em vez de hesitarem, fortalecem-se com as próprias oposições que recebem; em vez de se arrecearem, experimentam uma alegria indizível no meio das ameaças e dos maus acolhimentos que lhes provoca a única ideia do plano que formaram; e, esperançados em toda a esperança, confiam já na revolução que meditam. Que estranha mudança se operou nesses espíritos ignorantes! Que louco orgulho, ou que sublime e celeste inspiração os anima!

Vede, na verdade, a empresa desses pescadores. Nunca príncipe algum, nunca império e nunca república concebeu um plano tão elevado. Sem mais nenhum auxílio humano, dividem eles entre si o mundo para o conquistar, e pensam em alterar por todo o universo as religiões estabelecidas, tanto as falsas como a verdadeira, entre os gentios como entre os judeus. Querem estabelecer um novo culto, um novo sacrifício e uma nova lei, porque, segundo eles dizem, assim ensinou um homem que foi sacrificado em Jerusalém (6). Esse homem ressuscitou e subiu aos céus, onde é Todo-Poderoso; e nenhuma graça é dada senão por Suas mãos, como nenhum comércio com Deus é concedido senão em seu nome. Na Sua cruz está estabelecida a glória de Deus; e na Sua morte, a salvação e a vida dos homens.

Mas agora por que artifícios conciliam eles os espíritos? Pregando esta doutrina:

«Vinde prestar culto a Jesus Cristo; todo o que a Ele se entregar, será feliz quando morrer; no entretanto, é mister sofrer os mais aflitivos transes»

É está a sua doutrina e são estas as suas provas, este é o seu fim e são estes os seus meios.

Em tão estranha empresa, não digo que obtenhamos o mesmo resultado que eles obtiveram; mas ter a constância de esperar é já uma prova invencível da verdade; porque só a verdade ou a verossimilhança podem dar esperança aos homens.

Quer um homem seja prudente, quer temerário, desde o momento que tenha esperança, não há como fugir deste dilema: ou a verdade o estimula, ou a verossimilhança o lisonjeia; ou a força daquela o convence, ou a aparência desta o ilude. Aqui tudo o que se vê assombra, tudo o que se prevê é incoerente, e tudo o que é humano é impossível. Ora, onde não há verossimilhança, é mister concluir necessariamente que só a verdade mantém a obra. Que importa que o mundo zombe, se nós devemos admitir uma causa aparente na mais forte persuasão nunca imaginada na terra, nem na coisa mais incrível, nem nas provas mais difíceis, nem pelos homens mais incrédulos e mais tímidos, o mais audacioso dos quais negou covardemente o seu mestre? Mas a simulação não é constante, nem a surpresa é eterna, nem a loucura permanente (7).

Estimulemos, porém, o raciocínio dos incrédulos e dos libertinos (8). Que pensam Eles dos nossos santos pescadores? Que inventaram uma bonita fábula para contar ao mundo? Mas Eles poderiam tê-la feito mais verosímil. Que eram insensatos e néscios (9), que não sabiam o que diziam? Mas a sua vida, mas os seus escritos, mas as suas leis e a santa disciplina que estabeleceram, e finalmente o próprio fato, provam o contrário. É uma coisa inaudita, que a argúcia tão mal inventa ou que a loucura tão felizmente executa, que nem o projeto da obra anuncia homens astuciosos, nem o bom êxito dela, homens desprovidos de entendimento. Aqui não se trata de réus, que morrem por sentimentos que receberam na infância. Não se trata de especuladores nem de curiosos que, depois de meditarem no seu gabinete em coisas imperceptíveis (10), ou em mistérios estranhos aos sentidos, idolatram as suas opiniões, defendendo-as até à morte. Esses homens não nos dizem:«Nós pensamos, ponderamos e concluímos»; porque os seus pensamentos poderiam ser falsos, as suas ponderações mal fundadas, e as suas consequências mal tiradas e defeituosas. O que nos dizem é:

«Nós vimos, ouvimos e palpamos com as nossas mãos, repetidas vezes, por muito tempo e todos simultaneamente, esse Cristo que ressurgiu dos mortos»

Se Eles dizem a verdade, que temos nós a responder? E se a inventaram, que pretendem então? Que vantagem, que recompensa ou que prêmio querem, receber de todos os seus trabalhos? A esperarem por alguma coisa, era nesta vida ou depois da morte. Esperar durante a vida, não o consente o ódio, nem o poder, nem o número dos seus inimigos, nem a sua própria fraqueza. Portanto, ficam reduzidos nos séculos futuros; e neste caso, ou esperam, de Deus a felicidade das suas almas, ou esperam dos homens a glória e a imortalidade do seu nome. Se esperam a felicidade eterna que promete o Deus verdadeiro, é claro, que não pensam em iludir o mundo; e se o mundo tem para si que o desejo de se assinarem na história foi por iludirem os espíritos ignorantes, até com os barcos de pescadores, direi eu apenas isto: Se um Pedro, se um André ou se um João, no meio de tantos opróbrios e de tantas perseguições, puderam prever de tão longe a glória do cristianismo e a que nós lhe damos, não quero razão mais enérgica para convencer todos, os espíritos discretos de que eles eram homens divinos, a quem o Espírito de Deus e a força sempre invencível da verdade mostravam, no extremo da opressão, a Vitória seguríssima da boa causa.

Eis agora o que prova a vocação dos pescadores: prova que a Igreja é um edifício tirado do nada, uma criação, e a obra de uma mão onipotente. Vede a estrutura, e não se vos depara coisa mais sublime: o fundamento é o próprio nada: Vocat ea quae non sunt (Rm 4, 17). Se o nada existe, é porque é uma verdadeira criação e se aquela massa bruta, transformada pelos lavores da arte, representa Deus, edifiquemos sobre Ele e não nos arreceemos. Deixemo-nos cativar; já que tantas vezes temos sido cativos pelas vaidades, deixemo-nos cativar uma vez por esses pescadores de homens e pelas redes do Evangelho, «que não matam o que cativam, mas o que conservam; que expõem a luz aqueles que tiram das profundezas do abismo, e transportam da terra ao céu os que nessa lama se agitam» – Apostolica instrumenta piscandi retia sunt, quae non captos perimunt, sed reservant; et de profundo ad lumen extrahunt, fluctuantes de infimis ad superna traducunt (S. Ambr., lib. IV, in Luc., n. 72).

Deixemo-nos salvar desse mar, cuja superfície está sempre mudável, sempre inconstante, e que continuamente se agita por alguma tormenta. Escutai esse grande bulício do mundo, esse tumulto, essa perturbação eterna; vede esse movimento, essa agitação, essas ondas loucamente encapeladas que, a súbitas, se quebram, não deixando mais que a espuma. Essas vagas impetuosas que rolam umas sobre as outras, que se entrechocam com grande fragor e mutuamente se aniquilam, são uma viva imagem do mundo e das paixões, que causam todas as agitações da vida humana, «onde os homens, à semelhança de peixes, mutuamente se devoram» – Ubi se invicem homines quasi pisces devorant (S. August., serm. CCLII, n. 2). E assim como no mar esses enormes peixes, esses monstros marinhos, fendem as águas tumultuosamente, não deixando após si rasto algum da sua passagem, assim no mundo passam essas grandes potências, fazendo tão grande arruído, mostrando-se com tanto luzimento, e não deixando, depois de haverem passado, um só vestígio, um único sinal.

Por consequência, vale muito mais entrar nessas redes que nos hão de conduzir a praia, do que nadar e morrermos afogados numa tão larga corrente, só porque nos acaricia a imagem de uma falsa liberdade. A palavra é a rede [que colhe as almas. Mas trabalhar sem a palavra de Cristo é lidar em vão: In verbo tuo laxabo rete – «Pela vossa palavra, Senhor, lançarei a rede». Porque é ela que dá eficácia] (11).

Filhos de Deus, vós estais dentro dessa rede; a palavra que vos colheu foi esse oráculo tão tocante da verdade:

Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur – «De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perde a alma?» (Mt 16, 26)

Desde então, penetrados pela eficácia dessa palavra saída do nada e convencidos dos perigos de um mundo enganador, dedicastes todo o vosso afeto a esses verdadeiros bens, únicos dignos de captarem os vossos corações; e, para melhor os adquirirdes, tratastes quanto antes de vos separardes de todos os objetos que poderiam, por ilusões funestas, turbar os vossos desejos e desviar a vossa aplicação desse desejo única e indispensável. Continuai vivendo nessas bem ditosas redes que vos acobertaram dos perigos desse mar tempestuoso, e livrai-vos de imitardes aqueles que, pelas diferentes aberturas que procuraram, no meio da sua agitação, fazer nas redes salutares que os encerravam, só se deram ao cuidado de alcançar uma liberdade mais deplorável do que a escravidão mais vergonhosa.

Martírio do Apóstolo Santo André (Peter Paul Rubens 1577-1640)

Martírio do Apóstolo Santo André (Peter Paul Rubens 1577-1640)

SEGUNDO PONTO

Santo André é um dos mais ilustres desses divinos pescadores, e um daqueles a quem Deus proporcionou o maior êxito nessa pesca misteriosa. Foi ele que, travando de seu irmão Simão, o príncipe de todos os pescadores espirituais, lhe disse: Veni et vide (Jo 1, 46). Isto deu ensejo a que Hesychio (12), sacerdote de Jerusalém, lhe tecesse este: elogio: André é o primeiro dos Apóstolos que vieram ao mundo, e a primeira coluna estabelecida, é o Pedro antecessor de Pedro, o fundamento do próprio fundamento, o que chamou antes de ser chamado, e o que entrega discípulos a Jesus antes de lhe ser entregue.

«O assim entrega ao Verbo os que cativa pela sua palavra» – Quos in verbo capit Verbo reddit (S. Ambr., in Luc., lib. IV, n. 73)

E como quer que toda a glória das conquistas dos Apóstolos seja devida a Jesus Cristo, é apoiados nas suas promessas que eles as empreendem: In verbo tuo laxabo rete (Lc 5, 5).

«Por isso não somos de Pedro, senão de Cristo» – Non petrianos, sed christianos, «nem Paulo foi crucificado por nossa causa» – Numquid Paulus crucifixus est pro vobis? (13)

Não tarda que André, possuído destes sentimentos, sujeite ao seu Mestre, com um zelo infatigável e uma invencível coragem, o Epiro, a Achaia, a Thracia e a Scythia, povos bárbaros e quase selvagens, «livres pela sua indócil altivez, e pelo seu caráter rústico e feroz» – Omnes illae ferocia liberae gentes. Todos estes triunfos são o efeito da ordem que Cristo lhes deu a todos:

Laxate retia – «Lançai as vossas redes»

E logo que os Apóstolos se preparam para a executar, a multidão dos povos e das nações convertidos ficaram subjugados pela palavra.

Se ponderarmos atentamente todas as circunstâncias da pesca milagrosa dos Apóstolos, veremos que toda a história da Igreja se acha figurada nos rasgos mais surpreendentes. Nela entram espíritos impacientes e inquietos, que não podem coibir-se nem reduzir o espírito à obediência: Rumpebatur autem rete eorum (Lc 5, 8). E como quer que os agite a curiosidade, que os estimule a inquietação e que os arrebate o orgulho, eles rompem as redes, escapam-se e provocam cismas e heresias, perdendo-se em eternas questões e despenhando-se no abismo das opiniões humanas. E, para darmos largas a razão, diremos ainda que todas as heresias se tornam coercivas por meio de violentas interpretações, desprezando tudo quanto possa cativar: Nos mistérios, que a razão e o entendimento não podem sondar, porque são insondáveis, quer o espírito livre e curioso desvendar tudo, tanto a Eucaristia como as palavras do Evangelho; e como afinal caem na rede que lhe está armada, rompe uma passagem e procura fugir através dos maus argumentos que sugere uma razão orgulhosa. Continuemos nós a viver dentro da Igreja, felizmente cativos nos seus laços, onde caem os maus, donde não saem os bons.

Agora, porém, surge outro inconveniente.

«Tão grande é o número dos que vão no barco, que este está prestes a ir a pique» – Impleverunt ambas naviculas, ita ut pene mergreentur (Lc 5, 7)

É esta uma figura bem sensível, que prova o que devia passar-se na Igreja onde o grande número dos que iam no barco tantas vezes receou que ele se afundasse pelo seu próprio peso: Sed mihi cumulus iste suspectus est, ne plenitudine sui naves pene mergantur (S. Ambr., in Luc., lib. IV, n. 77).

Mas ainda não para aqui, e desta vez o perigo não é menos para temer do que todos os perigos já passados:

«Pedro é agitado de nova preocupação; e até a sua preza, que ele com tantos esforços lançou a terra, se lhe torna suspeita, sendo necessário fazer um reto juízo para não ser enganado no que colheu» – Ecce alia sollicitudo Petri, cui jam sua praeda suspecta est (S. Ambr., in Luc., lib. IV, n. 78)

Viva imagem é esta das ações que os pescadores espirituais tiveram de praticar, a respeito de todos os peixes misteriosos que lhes caíram nas redes. Por falta desta prudente desconfiança e destas precauções salutares, tomou a Igreja incremento, mas a disciplina perdeu do seu rigor; aumentou o número dos fiéis, mas o ardor da fé diminuiu: Nescio quomodo, pugnante contra semetipsum tua felicitate, quantum tibi auctum est populorum, tantum pene vitiorum; quantum tibi copiae accessit, tantum disciplinae recessit,… factaque es, Ecclesia, profectu tuae fecunditatis infirmior et quasi minus valida (Salvian., adv. Avar., lib. 1). Ela decaiu pelo seu progresso e enfraqueceu pelas suas próprias forças.

Mas a Igreja é uma sagrada instituição, que só foi feita para os santos; por isso a ela são chamados os filhos de Deus, que de todas as partes afluem. Todos os que a este número pertencem nela entraram; «mas quantos não entraram sem pertencerem ao número?» – Multiplicati sunt super numerum? (Sl 39, 6). Quantos dos que estão presentes não são dos nossos? Muitos opressores da Igreja, iníquos e maus, hão de estar dentro dela com o fim único de a preencher. Os vícios penetraram até ao coração da Igreja; e aqueles, cujos nomes nem sequer nela deviam ser lembrados aparecem arrogantemente de cabeça levantada: Maledictum, et mendacium, et adulterium inundaverunt (Os 4, 2). Os escândalos ergueram-se; e a iniquidade, depois de haver entrado como uma torrente, lançou por terra a disciplina, e isto porque já não há pena nem excomunhão. Diz São Bernardo, que hoje é impossível tomar nota dos maus, porque o seu número é ilimitado; que é impossível evitá-los, porque são indispensáveis as funções que desempenham; e que não podem reprimir nem corrigir, porque muito é para temer o seu valimento e a sua autoridade (In Cant., serm. XXXIII, n. 16).

No meio desta multidão ocultam-se os bons, que muitas vezes habitam em algum lugar recôndito ou em algum vale deserto, suspirando secretamente e entregando-se aos santos gemidos da penitência. Quantos penitentes se veem? Oh! «Num enorme montão de palha apenas se veem alguns grãos de trigo» – Vix ibi apparent grana frumenti in tam multo numero palearum (S. Agost., serm. CCLII, n.4). Uns estão à vista, outros estão escondidos, conforme ao Pai celestial apraz, santificá-los pela obscuridade, ou exibi-los para servirem de bom exemplo.

Mas, no meio deste extraordinário caos, muitas vezes vacila a fé, e se escandalizam os fracos, e triunfa a impiedade; e a gente pende a crer que a piedade não é mais que um nome vão, e a virtude cristã uma espécie de hipocrisia. Alentai-vos, porém, e não vos deixeis abalar pelo avultado número dos maus exemplos. Quereis encontrar homens sinceramente virtuosos e verdadeiramente cristãos, que vos consolem neste desregramento quase universal?

«Sede vós mesmos o que desejareis ver nos outros, e podeis ficar certos de encontrardes quem vos imite ou quem convosco se assemelhe» – Estote tales, et invenietis tales

TERCEIRO PONTO

Quando a Igreja fala a seus filhos, devem Eles escutá-la muito respeitosos e submissos, e obedecer-lhe com prontidão tal que dê provas de fidelidade e de confiança da sua parte. Deus também fala e tanto que ergue a sua voz, tudo na natureza se faz como Ele ordena. Se os seres inanimados ou desprovidos de entendimento Lhe obedecem com tão provada sujeição, nós, que somos dotados de inteligência, devemos-Lhe por ventura menos docilidade quando Ele fala? Pelo fato de sermos livres, não se entende que a liberdade nos seja facultativa para hesitarmos ou disputarmos contra Ele; mas sim nos dá a possibilidade de distinguir a nossa obediência da dos seres inanimados ou irracionais. E seja qual for a nossa superioridade sobre Eles, não é motivo para nos dispensarmos de prestar a Deus a diferencia que lhe é devida porque o mesmo direito que Ele tem sobre os outros seres subsiste a nosso respeito, impondo-nos a mesma obrigação de lhe obedecermos pontualmente e sem demora. Se nos concede o direito de opção, não é com o fim de lhe tornarmos o império decadente, senão para tornarmos a nossa sujeição mais honrosa.

Os que estão habituados a dar ordens (14) conhecem melhor que os outros quanto é justa, legítima e aprazível essa obediência. Para que havemos, pois, de recusá-la ou de contestá-la? Os homens podem achar meio de se subtrair ao império dos seus semelhantes; mas a Deus é que nada deste mundo lhe resiste. Se a vontade rebelde pretende escapar-lhe ao domínio, esquivando-se por um lado, esse domínio de novo se exerce por outro com toda a impetuosidade dos esforços que ela empregara para dele se libertar. Desta forma, tudo convida, tudo estimula o homem a submeter-se ao seu Deus e a obedecer-lhe sem contradição nem detença.

Quem hesita sobre o que deve fazer, ou demora o que de si é urgente, trata a Deus com menos preço e não obedece ao menor preceito. Vocação clara e manifesta que um momento é capaz de hesitar, é susceptível de transviar-se por completo no seu rumo, sem nunca mais tornar a enveredar por Ele. É como aquele que, perdendo um dia no que há mister, é capaz de perder inutilmente todos os dias da sua vida, sem se lembrar de que as nossas paixões e os nossos negócios nunca exigem de nós mais que uma delonga. Coisa insuportável é para Deus esperar que este se vá despedir do pai que acaba de morrer, e que depois o vá enterrar (Cf. Mt 8,21; e Lc 9,59) que em seguida leia o testamento, que o execute, que o conteste, que dê conta duma missão de onde outra deriva, que o faça esperar mais um momento que as vezes se prolonga pela vida inteira… Insuportável delonga é esta para Deus! Porque não abandonamos tudo e não vamos servi-lO logo? (S. Crisóst., in Mt., homil. XXVII). Já que temos necessariamente de suspender o que nos ocupa a atenção, suspendamos logo no começo, para mais cedo nos entregarmos Aquele a quem desejamos pertencer eternamente.

E se tudo sacrificarmos, não imaginemos que ficamos sem indenização; pois os próprios sacrifícios nos darão a alma toda a confiança na bondade dum Deus tão generoso como magnificente.

Quando os Apóstolos abandonaram a sua arte desprezível, disse Pedro a Cristo, com um ligeiro ar de frieza:

«Senhor, nós abandonamos tudo» – Reliquimus omnia (Mt 19, 27)

Abandonaram tudo para O seguir. E qual é a oferenda que Eles fazem ao seu divino altar, quais as armas e qual o troféu que erigem a sua vitória? Simplesmente as redes! Parece-vos estranho e aviltante para a divindade de Jesus semelhante testemunho, de veneração? É que Ele, pela Sua infinita bondade, satisfaz-Se com tudo quanto Lhe possamos oferecer, por mais pequeno e insignificante que seja, que até nos dá o seu reino em troca da verdade! Que prazer não é servir Aquele que, por tão pouco, compreende os nossos sentimentos de gratidão e o acendrado amor que Lhe votamos, dando-nos como galardão o Seu reino! Tantum valet, quantum habes.

«Não há coisa mais vil que é a que se obtém, quando a compramos; mas mui preciosa é a que se logra, quando a merecemos!» – Quid vilius cum emitur, quid carius cum possidetur (S. Greg., hom. V, n. 2, 3)

Não basta, porém, abandonar tudo o que possuímos, parentes, amigos, bens, repouso e liberdade; é necessário também seguir Jesus Cristo, arrastar a cruz como Ele e caminhar-lhe no encalço, imitando os Seus exemplos e renunciando por este modo a todos os prazeres da vida. Sei que é dificultoso, quando tudo nos sorri e nos prospera, resistir a esses encantos sedutores dum mundo que nos entibia e nos corrompe com as suas lisonjas; que há de ser quase impossível evitar a glória e desprezar riquezas e honrarias, quando tudo parece que se nos vem oferecer espontaneamente e, para assim dizer, nos vem procurar na obscuridade em que vivemos. Quem pode afligir-se no seio da abundância? – direis vós; resistir aos seus próprios desejos, quando tudo concorre para os satisfazer? Ser carrasco de si próprio, não havendo atos que o recriminem, e entregar-se a todos os gêneros de sofrimentos, para levar uma vida verdadeiramente penitente e crucificada? Isto é o que vós dizeis; mas sabei que não há melhor maneira de imitarmos o Crucificado, e de fielmente arrastarmos a cruz como Ele.

«Ó cruz amorosa, cruz tão ardentemente desejada e agora tão felizmente aparecida; praza a Deus que eu nunca te abandone, e que a ti abraçado, ternamente e constantemente permaneça, para que Aquele que por ti me resgatou, morrendo em teus braços, por ti também me receba e me grave eternamente no seu amor!» – Ut per te me recipiat, qui per te moriens me redemit (14)

São estes os sentimentos que devem animar todos os que sinceramente desejam pertencer a Jesus Cristo, porque foram Eles que afervoraram o coração dos seus verdadeiros discípulos.

Quando viu a Igreja cristãos dignos deste nome? Foi quando, no tempo da perseguição, lia em todos os pelourinhos sentenças temíveis contra os seus sectários, e os via em todos os patíbulos e em todas as praças públicas imolados para glória do Evangelho. Durante esse tempo, irmãs, havia cristãos na terra; havia desses homens enérgicos que, afeitos as proscrições e às continuas dores d’alma, tinham adquirido um glorioso hábito de sofrer por amor de Deus. Achavam que era extremada exigência em apóstolos buscar o prazer neste mundo e no outro. E como quer que a terra fosse para eles um exílio, não desejavam nada melhor do que sair dela quanto antes. Então é que a piedade era sincera, porque ainda se não convertera numa arte; ainda não aprendera o segredo de se adaptar ao mundo e de se mancomunar com as trevas. Simples e pura como era, apenas mirava ao Céu, ao qual dava provas da sua fidelidade, por meio duma larga penitência. Tais eram os cristãos dos primeiros tempos; puros como os gerava o sangue dos mártires e como os formavam as perseguições.

Agora, porém, que uma paz prolongada corrompeu esses ânimos varonis, vemos-lo enervados desde que deixaram de experimentar todo o rigor dos sofrimentos, e o mundo então invadiu a Igreja e Cristo juntou-se com Belial. Qual foi a raça que nos proveio, desta fusão indigna? Foi uma raça mista e corrupta, composta de semi-cristãos e de cristãos seculares, os quais se deram em pábulo com uma piedade degenerada e fictícia, que toda se manifesta nos discursos e nas aparências forçadas. Ó piedade requestada! Que mofa me inspiram os teus gabos e os discursos estudados que proferes a teu bel-prazer, em quanto o mundo te zomba!

Deixa-me experimentar a tua eficácia. Vês além uma tempestade que se aproxima? Vês aquela perda de bens, aquele insulto, aquele infortúnio e aquela enfermidade? Como assim! Apavora-te o espetáculo, ó virtude falsa e viciada? Estás a vacilar, ó piedade fantástica e ineficaz! Foge, vai-te daqui, que não eras mais que um vão simulacro da piedade cristã; eras unicamente um ouropel que brilha ao esplendor do sol, mas que não resiste ao fogo, porque se volatiliza no cadinho. A piedade cristã não é essa; é perdurável, e a influência que o fogo exerce sobre ela é benéfica porque a purifica e consolida. E sendo assim, cristãos sendo necessários os sofrimentos para manter o espírito do cristianismo, peçamos a Deus que entregue em nossas mãos os tiranos; que nos entregue os Domicianos e os Neros.

Mas moderemos o nosso zelo e não façamos votos indiscretos; não invejemos aos nossos príncipes a felicidade de serem cristãos, nem exijamos perseguições que a nossa covardia não poderia tolerar. Demo-nos antes a paciência, que não faltarão meios de a exercitar convenientemente, sem ser necessário recorrer as rodas e aos cavaletes, em que outrora eram estendidos os nossos antepassados. A natureza é plena de enfermidades, a vida decorre cheia de espinhos, os homens abrigam dentro em si a injustiça, os seus juízos são assaz extravagantes, os seus caráteres bastante desiguais e insuportáveis, o mundo oferece largos escolhos, é instável nas suas recompensas e esconde cativeiros nas suas promessas mais sedutoras. Todos estes meios temos para provar a nossa paciência. Ora, se tudo nos prospera e nos sorri, sejamos os nossos próprios perseguidores, contrariando esforçadamente as nossas inclinações.

Para termos uma vida cristã, é preciso combater incessantemente os impulsos do coração, fugir do que nos atrai, perdoar o que nos irrita, repulsar miúdas vezes o que nos persegue e opor diques aos argumentos da nossa própria fortuna. Se é dificultoso recusar ao mundo uma coisa, quando ele tudo nos concede, não é menos dificultoso para um homem ter de respeitar uma mulher formosa que foi confiada a sua guarda, e que ele amaria se não tivesse de viver com ela como na companhia duma irmã, elevando-se deste modo acima de todos os sentimentos da humanidade.

«Grande firmeza tem aquele, diz São João Crisóstomo, que não deixa corromper o coração pelas grandezas e pelos bens que possui!» (In Mat., hom. V, n. 4)

Então é que ele necessita de coragem para renunciar as suas inclinações, e se abster de apreciar e desejar o que a natureza acha tão agradável e tão apetecível! Continuamente forçado a brigar consigo mesmo, para violentamente se desprender de objetos a que o arrasta todo o ardor do coração, quão mais fortemente propenso não se deve ele sentir, no momento em que tudo o que o cerca o convida e o estimula a satisfazer o seu desejo. É uma situação tão crítica e de tal modo insuportável, que é verdadeiramente necessário, para conservarmos toda a pureza, usarmos duma certa crueldade a nosso respeito, privando-nos tanto mais dos prazeres inúteis que a carne procura, quanto mais numerosos são os meios de que dispomos para no-los proporcionar. Se o espírito deseja então viver numa liberdade que não desdoure, saiba convenientemente reprimir os sentidos, para não ser dominado por eles; e santamente severo para consigo mesmo, severo para com o seu próprio corpo, procure alhear-se cada vez mais de tudo o que o não deixa regressar ao seu primitivo estado de pureza, empregando para isso uma saudável peleja em todas as arremetidas do amor-próprio e em todas as manifestações carnais. Pouco a pouco há de encontrar nas austeridades da penitência e nas humilhações da cruz, mais delícias e lenitivos do que os mundanos encontrarão em todos os estultos prazeres que o mundo lhes proporciona, e em todos os comprazimentos do seu orgulho. É assim que, pelos diferentes progressos da penitência e do alheamento de tudo o que nos cerca, nós chegamos a ser realmente mártires de nós mesmos, constituindo-nos vítimas, tanto mais convenientes para serem imoladas em Jesus Cristo, quanto mais voluntárias e perseverantes elas se tornam. Novo gênero de martírio é este, em que o perseguidor e o paciente são igualmente agradáveis, e em que Deus com a mesma mão anima o que sofre e coroa o que persegue.

Irmãs, vós já conheceis este gênero de martírio, e há muito tempo já que o aplicais com um zelo digno da fé que vos anima. Mas não satisfeitas com serdes inspiradas pela graça na generosa renúncia de tudo quanto poderia desgostar-vos, quisestes ainda declarar uma guerra contínua a todas as impressões e a todos os sentimentos de uma natureza sempre engenhosa em buscar o que pode satisfazê-la; e receando cederdes aos seus estímulos, preferistes recusar-lhe destemidamente o que poderia ser-lhe facultado a deixar-vos arrastar além dos limites estabelecidos dando-lhe tudo o que podeis absolutamente conceder-lhe. Sede perseverantes, irmãs, nessa luta gloriosa que vos há de extinguir dia a dia as saudades mais íntimas que sentis pelo mundo, e que, desprendendo-vos cada vez mais dos impulsos da carne, vos há de elevar até Deus, pelos beatíficos tormentos espirituais, a fim de nEle encontrardes essa paz não sabida dos homens, essas delicias que os sentidos não podem ante-gostar, e essa felicidade perfeita reservada as almas verdadeiramente cristãs, e para cuja obtenção eu formulo ardentes votos. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Autores a consultar: Bourdaloue, XII, 1. — Houdry, Pan, I, 1. — Pe. Faber, III, 16. 542; V, 6, 11. — L de Grenade, VI, 363, 382. — Pe. de La Rue, Pan., II. 52. — E principalmente os Atos do seu martírio que se encontram em D. Ruinart e nos Bollandistas.

Referências:

(1) Panegírico de São João.

(2) Ver o Sermão da Lei de Deus, primeiro ponto.

(3) Videte vocationem vestram, fratres, quia non multi sapientes secundum carnem, non multi potentes, non multi nobiles: sed quae stulta sunt mundi elegit Deus ut confundat sapientes; et infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia, et ignobilia mundi et contemptibilia elegit Deus, et ea quae non in conspectu ejus (1Cor 1, 26)

(4) Lagenas vacuas ac lampades in medio lagenarum (Lib Judic., VII, 16)

(5) Habemus thesaurum in vasis fictilibus, ut sublimitas sit virtutis Dei, et non ex nobis (2Cor 4, 7)

6) Pascal tem raciocínios análogos nos seus Pensamentos. «… Esses homens simples e fracos… conseguem destruir a idolatria por toda a terra»

(7) Cf. Pascal, Pensamentos: «Os apóstolos foram enganados ou enganadores. É intolerável uma coisa e outra; porque não é possível atacar um homem por haver ressuscitado…»

(8) É de notar que o príncipe de Condé, ouvinte de Bossuet neste dia, ocupava o primeiro lugar no número dos incrédulos e dos libertinos.

(9) Néscio exprime mais que insensato: «Morreu, deixando um irmão néscio…» (Boss., Hist. Univer.)

(10) Imperceptível refere-se hoje às coisas que os sentidos não podem apreender; mas Bossuet dá-lhe aqui uma significação inteiramente diferente, visto que se trata de coisas que o espírito não percebe.

(11) As palavras acolchetadas não vem no manuscrito.

(12) Bibl. Phot. cod. 269. O padre Hesychio é titulado pelos sábios como um célebre filólogo grego, constituindo o seu Dicionário, na opinião de Casaubon, uma verdadeira obra-prima. Morreu em 669.

(13) 1Cor 1, 13. Bossuet ficaria muito admirado se lesse, nas obras do nosso século, que o Cristianismo não é mais do que um Paulinismo.

(14) Esta passagem é suficiente para provar que Bossuet estava pensando em Turenne quando compunha o seu discurso.

(15) Palavras tiradas dos Atos do martírio de Santo André.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume II. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo II, p. 33-58)