1º Domingo do Advento - I. Necessidade de Trabalhar para a Salvação da Alma

I. Sermão para o 1º Domingo do Advento

Pregado a 29 de novembro de 1665, com a assistência do rei e da corte.

SUMÁRIO

Exordio. A Igreja fala-nos no juízo final com o fim de nos excitar a trabalhar para a nossa salvação e a velar por todas as nossas disposições e ações.

Proposição e divisão. Eu hei de combater o sono, que nos insensibiliza para o trabalho da nossa salvação, e a languidez que, além de nos tornar indolentes, não nos deixando agir, ainda nos conduz de novo ao sono.

1.° Ponto — Adormecermos na indiferença a respeito da grande obra da salvação, é cometer o crime de ateísmo, porque, aqueles que não creem em Deus, também não admitem que outros creiam verdadeiramente nele. Deus não dá logo o castigo porque é misericordioso e eterno. O sono letárgico dos pecadores já é um castigo terrível. Ai de ti, pecador indiferente: Thesaurisas tibi iram.

2.º Ponto — Nós devemos consagrar à grande obra da nossa salvação todos os instantes porque a morte há de arrebatar-nos como se fosse um rapinante. A juventude, em vez de ser um tempo de dissipação e de desregramento deve, pelo contrário, ser um tempo de colheita.

Peroração — Receai a insensibilidade e praticai a vigilância contínua. Real Senhor, de que vos serviriam as vossas conquistas e a vossa grandeza, se não trabalhásseis em obras que merecem ser escritas no livro da vida. Deus compõe um diário da nossa vida, e nós devemos nos esforçar por embelezá-lo.

Hora est jam nos de somno surgere
Já é tempo de despertarmos do nosso sono (Rm 13, 11)

Quem acreditará que quase toda a natureza humana está adormecida e que, por entre estas diligências e esta atividade que há (Var.: Que, no meio desta ação tão viva a e tão ansiosa que há…) principalmente na Corte, a maior parte (Var.: Os homens) descai intimamente numa letargia mortal? Verdadeiramente não há ninguém que vele, a não ser o que cuida da sua salvação. E sendo assim, cristãos, também este auditório está imerso num sono profundo, também ele, prestando atenção, não ouve, e, mesmo com os olhos abertos, não vê, e talvez infelizmente ainda não desperte com o meu discurso! A intenção da Igreja é tira-lo hoje deste pernicioso adormecimento. É por isso que ela nos lê, nos Santos mistérios deste dia, a história do juízo final, quando a natureza, admirada da majestade de Jesus Cristo, quebrar todo o concerto dos seus movimentos, e quando se ouvir um ruído tal que se imagine ser o desabar de tremendas ruínas e estar assistindo a uma destruição pavorosa. Aquele que não despertar a este ruído aterrador é porque está profundamente adormecido, e dorme um sono mortal. Todavia, se a ele ficarmos surdos, a Igreja, para mais nos excitar, ainda faz chegar aos nossos ouvidos a palavra (Var.: A voz), do Apóstolo. O grande São Paulo eleva a sua voz no meio do ruído confuso do universo e diz-nos em tom retumbante (Var.: Retumbante e firme). Ó fiéis, «já é tempo de despertarmos» – Hora est jam nos de somno surgere. Desta forma, creio não esquecer o Evangelho, senão respeitar-lhe a intenção e o espírito, quando interpreto a epistola que a Igreja lê neste dia (Var.: Hoje). Oxalá que aquele por quem eu falo, e de quem energicamente anúncio as ameaças e, as sentenças, faça com que os que dormem nos seus pecados acordem e se convertam! É a graça que eu lhe peço por intermédio das orações à Virgem Maria.

É uma verdade provada, estabelecida pela Escritura e justificada pela experiência, que a causa de todos os crimes e de todas as infelicidades da vida humana, é a falta de atenção e de vigilância. Se os justos pecam tantas vezes após uma longa perseverança, é porque adormecem à vista das suas boas obras, julgando ter vencido completamente os seus maus desejos. A confiança que depositam nesta tranquilidade de espírito faz com que abandonem o leme, isto é, com que percam a atenção devida a si próprios e à Divindade. É por isso que perecem miseravelmente; e, por terem deixado de velar, perdem num momento todo o fruto de tantos trabalhos. Mas se a atenção e a vigilância são tão necessárias aos justos para lhes evitar o pecado funesto, mais necessárias são aos pecadores para regenerarem e corrigirem os seus erros. Por isso é que de todos os preceitos, que o Espírito Santo subministrou aos homens, o que o Filho de Deus repetiu mais vezes, o que os santos e os apóstolos inculcaram com mais persistência, foi o de velar continuamente. Em todas as Epistolas, em todos os Evangelhos, em todas as páginas da Escritura abundam estas palavras:

«Velar, orai, estai atentos e preparados a todas as horas, pois ignorais em qual há de vir o Senhor»

Com efeito, por falta de vigilância pela nossa salvação e pela nossa consciência, o nosso inimigo, que está sempre vigilante, e as nossas paixões, que estão sempre atentas ao que as determinam, surpreendem-nos, arrebatam-nos, subjugam-nos por completo e arrastam as nossas almas cativas perante o temível tribunal de Jesus Cristo, antes mesmo de pensarmos em evitar-lhe os rigores por meio da penitência. Era este perigoso adormecimento que receava o divino Salmista, quando fazia esta oração:

«Abri-me os olhos, Senhor, pois receio o sono da morte» (Sl 12, 4)

É para evitar o efeito desta letargia que hoje nos diz o Apóstolo:

«Meus irmãos, já é tempo de despertardes do vosso sono»

E eu, para seguir as suas intenções, combaterei ao mesmo tempo o sono e a languidez: o sono que nos insensibiliza; e a languidez que, além de nos tornar indolentes, não nos deixando agir, ainda nos conduz de novo ao sono. Em primeiro lugar, Cristãos, hei de mostrar-vos em dois pontos que os que não creem em Deus nem na Sua justiça adormeceram no meio duma grande indolência e duma grande infelicidade; e em segundo lugar, que já chegou a hora de despertarmos deste sono, e que essa hora é precisamente este momento em que eu vos excito e vos estou falando. Por consequência, depois de ter acordado os que dormem nos seus pecados, tratarei de vencer as delongas dos que disputam por muito tempo com a sua preguiça. É esta simplesmente e em poucas palavras a divisão do meu discurso. Concedei-me a vossa atenção, ao menos, num discurso em que se trata da própria atenção.

PRIMEIRO PONTO

Para que ninguém imagine que seja um crime pouco grave o fato de não pensar em Deus, ou de pensar nEle sem considerar quão terrível coisa é cair nas Suas mãos, vou tentar demonstrar-vos que este crime é uma espécie de ateísmo.

Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus, diz o Salmo 52: «O insensato diz firmemente: Não há Deus»

Os santos Padres ensinam-nos que, com este juízo desacertado e monstruoso, podemos ser criminosos de várias maneiras: por erro, por vontade e por esquecimento. Há em primeiro lugar, os ateus e os libertinos, que dizem abertamente que as coisas se dão ao acaso, sem ordem, sem governo, sem direção superior. Insensatos, que, no império de Deus, no meio das Suas obras e dos Seus benefícios, se atrevem a negar a existência d’Aquele a quem se deve toda a natureza! Mas na terra há poucos monstros desta índole; os próprios idolatras e os infiéis detestam-nos. E, quando na luz do Cristianismo descobrirmos algum, devemos estimar o seu encontro infeliz e abominável. Veja, porém, o homem dado ao prazer, o homem sensual, que deixa dominar os sentidos e só cuida em satisfazê-los, veja que Deus não o entrega de tal forma à tirania dos insensatos que fique imaginando depois que o que não é sensível não é real; que o que se não vê nem se toca não é mais que uma sombra e um fantasma; e que, pelo fato de predominarem as ideias sensíveis, não lhe pareçam todas as outras duvidosas ou inteiramente vãs. Porque é a isto que insensivelmente são elevados os que deixam dominar os sentidos e só cuidam em satisfazê-los. Há outros, diz o douto Theodoreto (In Psal, LII, tomo I, p. 603), que não chegam ao excesso de negar a divindade; mas que, instados e incomodados nas suas paixões desregradas pelas leis de Deus que os constrangem, pelas Suas ameaças que os assombram, e pelo receio dos Seus juízos que os perturbam, desejariam que Deus não existisse; e até mais, queriam ter espírito para acreditar que Deus não é mais que um nome vão e dizem firmemente, não por convicção, mas por, vontade própria:

Non est Deus – «Deus não existe»

Eles desejariam poder reduzir ao nada este manancial fecundo da existência.

«Ingratos e ignorantes, diz Santo Agostinho, que, pelo fato de serem desordenados, querem destruir a ordem e desejam que não haja lei nem justiça» – Qui dum nolunt esse justí, nolunt esse veritatum qua demnantur injusti (Tract. XC, in Joan, n. 3)

Também lanço estes à margem, e quero crer que nenhum dos meus ouvintes seja tão depravado e tão corrupto. Vou entrar num terceiro modo de dizer que Deus não existe, e do qual não poderemos alegar motivos de inculpabilidade.

O princípio que estabeleço é este: coisa em que não desejamos pensar consideramo-la sem valor algum para nós. Os que dizem firmemente que Deus não existe, e que não admitem que outros creiam verdadeiramente nele, mal creem na Sua verdade revelada, pela predica, na Sua majestade afirmada pelo sacrifício, na Sua justiça quando Ele dá a punição e na Sua bondade quando dá a recompensa. Finalmente, têm-no em tão pouco preço que imaginam verdadeiramente nada terem a recear, enquanto só o tiverem a Ele por testemunha. Qual de nós é que não pertence a este número? Quem não se deteve nas suas empresas, ao dar-se com um homem que não é sabedor do seu segredo nem da sua cabala? E todavia ou desprezamos, ou nos esquecemos do olhar de Deus. Não chamemos para aqui o exemplo dos que meditam n’algum roubo ou n’algum assassínio; pois tudo o que encontram os perturba, a luz do dia e a sua própria sombra os atemoriza. Até lhes custa suportar o horror do seu funesto segredo, e vivem numa soberana tranquilidade a respeito dos olhares de Deus. Mas deixemos estes trágicos atentados; e digamos o que se vê todos os dias. Quando, secretamente difamais os que lisonjeais em público; quando os ofendeis incessantemente com a vossa língua perversa; quando artificiosamente confundis a verdade com a mentira para dar verossimilhança às vossas histórias maliciosas; quando violais o sagrado depósito do segredo que um amigo muito ingênuo guardou no vosso coração, e que sacrificais aos vossos interesses a sua confiança que vos obrigava a cuidar dos seus, quantas precauções tomais para isto se não divulgar? Quantas vezes olhais para a direita e para a esquerda? E se não vedes testemunha que vos possa censurar a vossa covardia para com a sociedade, se estendeis os vossos laços tão sutilmente que sejam imperceptíveis aos olhos dos homens, dizeis:

«Ninguém nos viu» – Narraverunt ut absconderent laqueos; dixerunt: Quis videbit eos (Sl 63, 5)?

Como diz o divino Salmista. Não contais, portanto, no número dos que têm vista o que habita nos céus? E todavia ouvi o mesmo Salmista:

«Como assim? O que formou o ouvido não ouve? E o que fez os olhos é cego?» Qui plantavit aurem non audiet? Aut qui finxit oculum non considert (Sl 93)?

Porque não considerais que todo ele é vista, todo ouvidos, todo inteligência; que os vossos pensamentos lhe falam, que o vosso coração tudo lhe descobre, e que a vossa própria consciência é a sua espiã e a sua testemunha de acusação ? E todavia a estes olhos tão vivos, a estes olhares tão penetrantes, gozais placidamente do prazer de estardes escondido; entregais-vos à alegria e viveis tranquilamente no meio das vossas delícias criminosas, sem vos lembrardes de que Aquele que vo-las proíbe e que vos deixou tantas delícias inocentes, virá um dia inopinadamente perturbar os vossos prazeres duma maneira terrível pelos rigores da Sua sentença, quando menos o esperardes! E não é manifestamente tê-lO em menos preço o dizer com firmeza insensata:

«Deus não existe?» Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus

Quando procuro as causas profundas dum tão prodigioso esquecimento, começo a pensar no motivo porque o homem, tão sensível aos seus interesses e tão atento aos seus negócios, perde contudo de vista e tão facilmente a coisa mais necessária, mais temível e mais evidente do mundo, que é Deus e a Sua justiça. Acho que o nosso espírito, cujos limites são tão estreitos, não tem uma compreensão suficientemente vasta para se estender além do seu recinto; e é por isso que ele só acredita, verdadeiramente, no que o impressiona, e nos obriga a formar juízo das coisas que nos rodeiam, relativamente à nossa própria disposição. O que está encolerizado imagina que toda a gente se preocupa com a ofensa que ele recebeu, em quanto fala acerca dela. Vemos que o preguiçoso que deixa correr todas as coisas indolentemente, nunca imagina quão viva é a atividade dos que lutam contra o infortúnio. Enquanto dorme à sua vontade e está a descansar, imagina que tudo dorme também, e então só acorda quando o assalta a adversidade. É uma ilusão de tal natureza, verdadeiramente universal, que faz convencer todos os pecadores de que, enquanto eles tendem para a ociosidade, para o prazer e para a impenitência, também a justiça divina afrouxa e fica de todo adormecida. Pelo fato de se esquecerem de Deus, também imaginam que Deus se esquece deles: Dixit enim in corde suo: Oblitus est Deus (Sl 10, Hb 11): Mas o seu erro é extremo; e se Deus se aplacar por algum tempo, nem sempre se aplacará: «Eu vigiarei pelos pecadores, disse ele, quanto ao mal que praticarem e não quanto o bem» Vigilabo super eos in malum et non in bonum (Jr 44, 27). «Aplaquei-me, disse ele noutra parte, guardei o silêncio, fui paciente, mas de repente hei de enfurecer-me; por muito tempo represei a cólera no meu peito, mas hei de manifestá-la depois, hei de aniquilar os meus inimigos e hei de envolvê-los a todos numa mesma vingança» Tacui semper, silui, patiens fui sicut parturiens loquar, dissipabo et absorbebo simul (Is 42, 14). Por consequência, cristãos, não tomemos o seu silêncio por uma confissão, nem a sua paciência por um perdão, nem a sua longa dissimulação por um esquecimento, nem a sua bondade por uma fraqueza. Ele sofre com paciência as culpas dos homens porque, é misericordioso, e, se se desprezam as Suas misericórdias, muitas vezes continua sofrendo e não exerce logo a vingança, porque sabe que as Suas mãos são inevitáveis. Assim como um rei, que vê o seu trono consolidado e o seu poder estabelecido, sabe que se maquinam no seu Estado intrigas contra o seu governo (Var.: Que se imaginam no seu Estado secretos planos de revolta), porque é difícil enganar um rei que tem os olhos abertos e que sabe vigiar, e que, podendo abafar logo esta cabala, deseja todavia, baseado na sua consciência e no seu próprio poder, ver até onde chegarão as temerárias conspirações dos seus vassalos infiéis, e não precipita a sua justa vingança até eles terem chegado ao termo fatal em que ele resolveu detê-los; assim também, e com mais forte razão, esse Deus onipotente, que, do centro da Sua eternidade, desenrola toda a ordem dos séculos, e que, como sábio distribuidor dos tempos, marcou o destino de todos os momentos perante a origem das coisas, nada tem a precipitar (1). Os pecadores não lhe escapam da vista nem das mãos, porque Ele sabe o tempo que lhes deu para se arrependerem, e sabe a ocasião em que os há de humilhar. Eles chamam o céu e a terra para se ocultarem, quando podem, na confusão de todas as coisas; essas mulheres infiéis e esses homens corruptos e corruptores acobertam-se, sempre que podem, com todas as sombras da noite, envolvem (Var.: Os que se conluiam de forma a concorrerem para a sua perda envolvem…) as suas inteligências desonestas na obscuridade duma intriga impenetrável; mas eles serão descobertos no dia apresado, e a sua causa há de ser levada ao tribunal da Jesus Cristo, onde a sua criminalidade não poderá ser iludida por desculpa alguma, nem a sua pena retardada por nenhuma queixa.

Mas eu tenho de vos revelar verdades mais profundas. Não pretendo somente infundir nos pecadores o receio pelos rigores do juízo final, nem pelos suplícios insuportáveis do século futuro. Receando que o repouso em que eles agora vivem sirva para lhes alimentar no coração cego e impenitente a esperança da impunidade, o Espírito Santo ensina-nos que o seu próprio repouso (2) é uma punição. Pecadores, estai agora atentos.

Há uma outra maneira de exercer vingança, pertencente exclusivamente a Deus, que consiste em Ele deixar os Seus inimigos em repouso e puni-los por meio duma insensibilidade e dum sono letárgico, que são de maior eficácia do que se exercesse neles um castigo exemplar. A verdade, cristãos, é que sucede muitas vezes que Deus, com estar muito irritado, concentra em Si toda a Sua cólera; de maneira que os pecadores, admirados das suas longas prosperidades e do curso afortunado dos seus negócios, imaginam que nada têm a recear e não sentem a consciência perturbada. Ora isto é a indolência perniciosa, é o sono mortal em que já tantas vezes tenho falado. É este, irmãos meus, o último flagelo que Deus envia aos Seus inimigos; é o cumulo de todas as desgraças, é a mais próxima disposição para a impenitência final e para a ruína extrema e irremediável. Para o compreender, é preciso notar numa excelente máxima dos santos Doutores, que diz «que quanto mais rigorosos são os pecadores na apreciação dos seus vícios, tanto mais moderada é a sentença que Deus lhes dá» – In quantum non peperceris tibi, in tantum tibi Deus, crede, parcet (Tertul., De Paenitentia, n.° 19).

Na verdade, assim como está escrito que Deus ama a justiça e detesta a iniquidade, enquanto houver qualquer coisa em nós que clame contra os pecados e se eleve contra os vícios, também há qualquer coisa que toma o partido de Deus, e é esta uma disposição favorável (Var.: Inevitável), para o reconciliar conosco. Mas quando já somos tão infelizes em sermos pecadores, quando, pelo mais indigno dos atentados, que foi a destruição desse augusto tribunal da consciência que condenava todos os crimes, nós chegamos ao ponto de abolir em nós mesmos a santa verdade de Deus, a impressão da Sua vontade e da Sua luz, e o sinal da Sua justiça soberana, é então que o império de Deus se acha destruído, que a audácia da rebelião está consumada e que os nossos males já quase não têm remédio.

É por isso que esse grande Deus onisciente, que sabe que a soberana felicidade consiste em servi-lO e em agradar-Lhe, e que a melhor coisa que resta aos que se desviaram dele pelos seus crimes é serem perturbados e angustiados pela desgraça de Lhe ter desagradado, depois de ver desprezadas por muito tempo as Suas graças, as Suas inspirações, os Seus misericordiosos (Var.: Os seus favoráveis) conselhos e os golpes com que nos fere de vez em quando, não já para nos punir com todo o rigor, mas simplesmente para nos despertar, toma finalmente esta última resolução para Se vingar dos homens ingratos e demasiado insensíveis: retira a Sua santa luz, cega-os e insensibiliza-os; e, deixando-lhes esquecer os Seus divinos preceitos, faz com que ao mesmo tempo eles se esqueçam da sua salvação e de si próprios.

Ainda que esta doutrina pareça bem estabelecida na ordem dos juízos de Deus, eu creio que nada terei conseguido se a não provar claramente, mostrando-vos na sua Escritura o progresso dum tão grande mal (Var.: Creio que nada terei conseguido se a não provar claramente pela sua Escritura). O profeta Isaías representa-no-lo com uma taça na mão, a que ele chama a taça da sua cólera (Var.: Da cólera divina): Bibisti de manu Domini calicem irae ejus. Diz o profeta que a taça está cheia duma bebida que ele obriga a beber aos pecadores; mas duma bebida gasosa, semelhante a um vinho novo, que lhes sobe à cabeça e os embriaga. Essa bebida que embriaga os pecadores, que outra coisa será, meus senhores, a não ser os seus próprios pecados e os seus desejos violentos a que Deus os entrega? Eles bebem como pela primeira vez (Is 51) e pouco a pouco começa a cabeça a andar-lhes à roda, e, no ardor das suas paixões, a reflexão, já mais apagada, só despede clarões duvidosos. A alma, portanto, já se não acha iluminada como dantes; as verdades da religião e os terríveis juízos de Deus apenas se nos mostram como através duma nuvem espessa. É o que se chama nas Escrituras «o espírito de vertigem» (Is 19, 14) que faz os homens irresolutos e inconstantes. Mas eles ainda deploram a sua fraqueza, porque volvem de vez em quando um olhar para o lado da virtude que abandonaram.

A consciência desperta-lhes de onde a onde, e diz, soltando um suspiro abafado: Ó piedade! (Var.: Ó castidade!) Ó inocência! Ó santidade do batismo! Ó pureza do Cristianismo! Mas os sentidos prevalecem sobre a consciência; e eles continuam a beber e as forças diminuem-lhes e a vista perturba-se-lhes. Resta-lhes, contudo, um leve conhecimento e uma ligeira lembrança de Deus. Bebei, bebei, ó pecadores, bebei até à última gota, tragai até às fezes. Mas que encontrarão eles no fundo ?

«Uma bebida de extrema indolência, diz o santo Profeta, que acaba por embriagá-los até os privar de todo o sentimento» – Usque ad fundum calicis soporis bibistii, et potasti, usque ad faeces (Sl 51, 17)

E produz este efeito singular:

«Eu vejo-os, continua Isaías, caídos pelas esquinas tão profundamente adormecidos que parecem estar de todo mortos»- Filii tui projecti sunt, dormierunt in capite omnium viarum (Idem, 20)

É a imagem dos grandes, que tendo-se embriagado por muito tempo com o vinho das suas paixões e das suas criminosas delícias, perdem finalmente todo o conhecimento de Deus e todo o sentimento do mal próprio. Pecam sem escrúpulo; lembram-se dos pecados sem pesar; confessam-se deles sem contrição; neles tornam a cair sem temor; perseveram neles sem desassossego, e morrem, enfim, pecadores sem arrependimento. Abri, pois, os olhos, ó pecadores, e vede o estado em que vos encontrais.

Enquanto satisfazeis os vossos ruins desejos, bebeis um longo esquecimento de Deus; de vós se apodera um sono mortal, o vosso entendimento obscurece-se, os vossos sentidos insensibilizam-se. Todavia no coração de Deus desenvolve-se contra vós uma «acumulação de ódio e de cólera» – thesaurizas tibi iram (Rm 2, 5), como diz o Apóstolo; a Sua ira por muito tempo represada produzirá subitamente um fragor terrível. Então heis de ser acordados por um golpe mortal, mas acordados somente para sentirdes o vosso suplício intolerável. Evitai tão grande desgraça; já é tempo de acordardes: Hora est jam nos de somno surgere. Acordai para ouvirdes o conselho, se não quereis que vos acordem para ouvirdes a vossa sentença. Não vos demoreis mais; este momento em que vos falo deve ser, se fordes prudentes, o momento do vosso despertar. É do que trata a segunda parte.

SEGUNDO PONTO

Jesus Cristo ordena aos seus ministros que declarem a todos os que retardam de dia para dia a sua conversão, que serão surpreendidos infalivelmente nos laços da morte e do inferno, e que, a não vigiarem a todas as horas, ficarão sem recurso algum no momento em que os surpreender uma hora imprevista. Escutai, não a palavra dos homens, senão a palavra do próprio Cristo, em São Mateus e em São Lucas:

«Vigiai, visto que ignorais a que hora chegará o vosso Senhor. Pois sabei que se o pai de família estivesse avisado da hora a que deve vir o ladrão, certamente vigiaria e não o deixaria entrar em casa. Por isso vós estai também sempre alerta, porque o Filho do homem virá quando menos o esperardes. Qual é o criado fiel e prudente a quem o amo encarregou de vigiar por todos os outros criados e de lhes dar as refeições a horas? Feliz será esse criado, se o amo ao chegar a casa foi dar com ele entregue aos seus deveres! Em verdade vos digo que lhe dará ainda maiores bens. Mas se esse criado for mau e se disser para consigo: Meu amo não vem agora cá; e se começar a maltratar os companheiros, e a comer, e a beber, e a embriagar-se, e a levar uma vida licenciosa, o amo desse criado virá no dia em que ele o não espera e á hora a que ele ignora, e imediatamente o despede e o considera como infiel e hipócrita. Daí haverá lágrimas e ódios» (Mt 24. 42ss; Lc 12, 39ss)

Esta parábola do Evangelho mostra-nos em termos formais duas verdades importantes: a primeira, que Jesus Cristo pretende surpreender-nos; a segunda, que o único evitar a surpresa, é vigiar continuamente. Tal é o conselho de Deus e a prudente economia que este grande pai de família estabeleceu em sua casa. Quiz ter criados vigilantes e perpetuamente atentos. E foi porque ele assim dispôs o curso imperceptível do tempo, que nós nem sentimos a sua fuga nem os latrocínios que ele nos faz; de maneira que; a ultima hora surpreende-nos sempre. É necessário imaginarmos aqui esta ilusão enganadora (este engano) do tempo, e o modo como ele zomba da nossa fraca imaginação. O tempo, diz Santo Agostinho (In Psal, IX, n. 7), é uma leve imitação da eternidade. Esta (Var.: A eternidade) é sempre a mesma; o que o tempo não consegue igualar pelo seu rigor, procura imitá-lo pela continuação. Se nos rouba um dia, dá-nos subtilmente outro semelhante, que nos evita o pesar pelo que acabamos de perder. É assim que o tempo zomba de nós e nos oculta a sua rapidez. Talvez seja também nisto que consiste esta malícia do tempo de que o Apóstolo nos adverte por estas palavras: «Resgatai o tempo, diz ele, porque os dias são maus» (Ef 5, 16), isto é, enganadores e maliciosos. Na verdade, o tempo engana-nos sempre, porque, ainda que varia continuamente, mostra quase sempre o mesmo aspecto, e o ano que já passou parece ressuscitar no ano seguinte. Todavia, uma longa série descobre-nos toda a ilusão. As rugas na fronte, os cabelos grisalhos e as enfermidades provam-nos à saciedade que já perdemos por completo uma grande parte do nosso ser. Mas em tão grandes mudanças o,tempo afeta sempre alguma imitação da eternidade.

E como é próprio da eternidade conservar as coisas no mesmo estado, o tempo, para a imitar, veio-nos privando de tudo, mas a pouco e pouco, e conduz-nos às extremidades opostas por um declive tão suave e de tal forma insensível que nós vemo-nos no meio das sombras da morte antes de havermos pensado seriamente na nossa conversão. Ezequias não sente aumentar a idade, pois aos quarenta anos parece-lhe que ainda vai a nascer:

Dum adhuc ordirer, succidit me (Is 38, 12) – «Ele cortou a duração da minha vida que apenas ia a começar»

Portanto a malignidade enganadora do tempo faz com que caiamos a súbitas e impensadamente nas mãos da morte. Para nos evitar esta surpresa, Jesus Cristo apenas nos deixou um único meio na parábola do Evangelho, que consiste em estarmos sempre atentos e vigilantes:

«Vigiai continuamente, diz ele, pois não sabeis a que hora virá o Senhor»

A este respeito admiramos grandemente a cegueira dos homens, que não são menos audaciosos do que o foi outrora o apóstolo São Pedro, quando desmentiu a própria verdade. É com admiração que lemos a temeridade deste discípulo que, na ocasião em que Jesus Cristo lhe diz claramente que o há de negar três vezes, se atreve a responder-lhe em rosto:

«Não, não vos hei de negar» (Mt 26, 33.35)

Mas calemos a nossa admiração por tamanha audácia, que ele com tantas lágrimas expiou; admiremo-nos de nós mesmos e da nossa temeridade insensata. Jesus Cristo disse-nos a todos em palavras claras: Se não vigiardes continuamente, surpreender-vos-ei. E nós atravemo-nos a responder-Lhe: Não, Senhor, havemos de dormir á nossa vontade; todavia nós iremos ao vosso encontro, e faremos uma rápida confissão que nos ha-de salvar da vossa cólera. Como assim! O Filho de Deus diz que a ciência dos tempos é um dos segredos que seu Pai guardou em seu poder (At 1, 7), e nós queremos sondar este segredo impenetrável, e fundar as nossas esperanças num mistério tão oculto e que a nossa inteligência não consegue desvendar! Quando Jesus Cristo vier majestosamente para julgar o mundo, hão de precedê-lo mil acontecimentos terríveis, toda a natureza se agitará com a Sua presença; e todavia o universo, ameaçado de ruína total por um tão grande abalo, não deixará de ficar surpreendido. Está escrito que este dia finai virá como um rapinante que empolgará todos os homens inopinadamente, tal é a impenetrabilidade da sabedoria divina que nos oculta os seus conselhos. E imaginamos nós poder sentir e compreender a dissolução deste corpo frágil que traz a corrupção no seu próprio seio! Enganamo-nos e iludimo-nos crassamente. A morte não virá dum país longínquo e estrepitosamente para nos assaltar. Insinua-se com o alimento que ingerimos, com o ar que respiramos e com os próprios remédios com que procuramos evitá-la. Está no nosso sangue e nas nossas veias; e foi na própria fonte da vida que ela armou as suas secretas e inevitáveis ciladas. De lá é que ela há de sair, ora súbita, ora após uma doença declarada, mas sempre de surpresa e raras vezes prevista. A experiência mostra isto bem, e Jesus Cristo disse-nos no Seu Evangelho que foi Deus que assim o quis. Foi por um desígnio premeditado que ele nos ocultou o nosso derradeiro dia, «a fim de que, diz Santo Agostinho, vigiemos todos os dias» – Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies (Serm., XXXIX, n. 1). Visto que Ele resolveu surpreender-nos, se não vigiarmos, seremos mais industriosos em desviar a mão de Deus para que Ele não descarregue o golpe ? Ou imaginamos ter contra Ele outras precauções e outros meios diferentes do que nos deu, que foi de vigiar sempre? Que loucura! Que cegueira! Que perturbação de espírito! E não sei que outro nome devamos dar a tão grande desvario!

Consintamos todavia aos homens, se o entenderdes, que gozem tranquilamente o prazer da vida; deixemos que a juventude possa contar com dias longos, e não lhe invejemos (Var.: Não lhe arrebatemos) a triste esperança de envelhecer. Imaginais que se deva fundar a sua futura conversão nesta esperança? Desenganai-vos, cristãos, e aprendei e conhecer-vos melhor. Tal é a natureza da vossa alma e da vossa vontade, que, sendo livre, não pode ser obrigada pelos seus objetos, porque se obriga a si própria. É semelhante a manilhas de ferro e torna-se numa como necessidade pelos seus atos: é o que se chama hábito, cuja violência muito conhecida e muito experimentada não me demorarei a descrever-vos. O que desejo é declarar-vos que há um certo ardor das paixões e uma força violentíssima da natureza, que a idade pode suavizar. Mas esta segunda natureza que se forma pelo hábito, mas esta nova ardência ainda mais tirânica que nasce do costume, mais a aumenta e a consolida o tempo (Var.: Que loucura deixar fortificar um inimigo que se pode vencer!). Portanto iludimo-nos deploravelmente, quando esperamos do tempo o remédio para as nossas paixões, que a razão em vão nos apresenta. Se não adquirirmos virtuosamente e por um esforço generoso a facilidade de as vencer, é loucura manifesta imaginar que a idade no-la dá (Var.: É um erro manifesto imaginar que a idade no-la traz). E, como prudentemente diz o Eclesiástico, «a velhice não encontrará o que a juventude não juntou» – Quae in juventute tua non congregasti, quomodo in senectute tua invenies? (Ecl 25, 5). E não é necessário chamar aqui de bem longe, nem os dois velhos da Babilônia, imprudentes caluniadores da pudica Suzana, nem a deplorável velhice de Salomão, sábio doutras eras. A experiência de agora evita-nos o trabalho de procurar cuidadosamente os exemplos dos séculos passados. Volvei apenas os olhos para os vossos parentes, para os vossos amigos, para todos os que vos cercam; e só vereis todos os dias que os vícios não diminuem com a natureza, e que as inclinações não se alteram com a cor dos cabelos. Pelo contrário, se deixarmos dominar a cólera, a velhice, em vez de a moderar, irritá-la-á pela sua tristeza. E quando se entrega tudo ao prazer, diz São Basílio que, na idade mais avançada, só se vêem ideias muito fixas, desejos muito juvenis; e, para dizer tudo, pesares que renovam todos os crimes. Por consequência, começai a despertar já, vós que, recusando agora converter-vos, dizeis que vos heis de converter um dia; desenganai-vos: Hora est jam. Pois que outra hora quereis escolher? Parece-vos que haverá alguma que seja mais cômoda ou mais favorável? Conhecei o segredo do vosso coração, e ouvi a mola que faz mover uma machina tão delicada.

Eu sei que sois livres; não obstante, para vos excitar, é preciso uma razão que vos convença; e que razão mais convincente tereis então a não ser a que vos apresento? Haverá outro. Jesus Cristo, outro Evangelho, outra fé, outra esperança, outro paraíso e outro inferno? Que vereis de novo que seja capaz de vos excitar? Porque resistis agora? Porque quereis convencer-vos de que haveis de ceder mais facilmente noutro tempo? Donde virá essa nova força á verdade, ou essa nova docilidade ao vosso espírito? Quando essa paixão, que ora vos domina, quando esse secreto tirano do vosso coração tiver abandonado o império que usurpou (tiver, por assim dizer, descido do trono que usurpou), nem por isso sereis mais livre, nem mais senhor de vós. Se não vigiardes pelas vossas ações, o coração cederá o lugar a outro vício, em vez de o entregar ao legítimo Senhor, que é a Razão-Deus. Deixará, por assim dizer, um sucessor da sua raça, filho como ele da mesma cobiça. Quero eu dizer que os pecados hão de suceder-se uns aos outros; e se não fizerdes um grande esforço para interromper a sequência dessa sucessão infeliz, que só vê erros e dilações, ireis até ao túmulo. Sabei, pois, que todas essas dilações não são mais que um capricho manifesto, e que nada há mais insensato do que esperar a vitória das nossas paixões, do tempo que as fortifica.

Mas eu ainda não disse o que os pecadores adormecidos mais devem recear. A morte súbita para eles é motivo de receio; mas, como pretendem convencer-se, apesar da experiência e de todos os exemplos, de que dela os preserva o seu vigor atual, acham que têm sempre tempo demais. Mortais temerários e pouco previdentes, que imaginamos que a justiça divina apenas tem um meio de nos perder! Não, meus irmãos, desenganai-vos. Muitas vezes somos condenados e punidos terrivelmente, antes de se declarar a vingança, e antes mesmo de a sentirmos. E de certo poderíamos compreender esta verdade pelo exemplo das coisas humanas. Nem sempre se diz aos criminosos a triste situação em que se encontram; muitas vezes vemo-los cheios de confiança, enquanto se decide a sua morte. Não é pronunciada a sentença, mas já está escrita no espírito dos Juízes. Um indivíduo qualquer, cujo crédito subsistia aparentemente, perdeu toda a consideração na corte e ficou completamente excluído de todas as graças. Se a justiça dos homens tem os seus segredos e os seus mistérios, a justiça divina não há de também ter os seus? Certamente, e muito mais terríveis. Mas é preciso estabelecer isto por meio das Escrituras. Ouvi, pois, o que se acha escrito no Deuteronômio:

«Sabei que o Senhor vosso Deus pune sem demora os que o odeiam e inutiliza-os para logo, dando-lhes na mesma ocasião o que eles merecem» – Reddens odientibus se, statim ut disperdat eos, et ultra non differat, protinus eis restituens quod merentur (Dt 12, 10)

Pesai estas palavras: sem demora, para logo, na mesma ocasião. Será verdade Deus punir sempre desta maneira? Não é verdade, se considerarmos a vingança a manifestar-se; mas é verdade, se considerarmos as penas ocultas que Deus envia aos seus inimigos, penas tão grandes e tão terríveis que vos demonstrei na primeira parte do meu discurso. O que peca é punido sem demora, porque é privado da graça na mesma ocasião, porque a sua fé diminui, porque um pecado atrai outro, e, porque se cai sempre mais facilmente depois de se ter caído a primeira vez. Tais são as penas terríveis que acompanham o crime no momento em que é cometido. É que os homens corruptos perdem todo o temor de Deus, isto é, todo o freio da sua excessiva liberdade; e as mulheres acabam de perder o último sentimento da modéstia, isto é, todo o ornamento do seu sexo. Finalmente o crime já não tem para nós um aspecto estranho que nos atemorize; mas infelizmente tornou-se familiar e já não surpreende a alma insensível. Não achais isto um grande suplício? Como assim? Disse o grande Santo Agostinho; se quando pecamos, fossemos logo acometidos duma doença súbita, se perdêssemos a vista, se nos faltassem as forças, acreditaríamos na punição de Deus, e teríamos um interesse sagrado em aplacar a Sua justa cólera por meio duma penitência rápida. Não é a vista corporal, senão a luz da alma que se extingue em nós; não é essa saúde frágil que perdemos, senão Deus que nos entrega às nossas paixões, que são as nossas doenças mais perigosas. Deixamos de ver e de apreciar as verdades da fé. Cegos e endurecidos, caímos num adormecimento e numa insensibilidade mortal; e ao passo que Deus a isto nos entrega por uma justa punição, não sentimos nós a Sua mão vingadora, e imaginamos que Ele nos perdoa e nos salva (3). De que nos serve viver no meio dos homens, se afinal estamos mortos e perdidos para Deus e para os anjos? Para fazer morrer uma arvore nem sempre é necessário desarraiga-la.r Vede aquele grande carvalho seco, que já não cresce; nem floresce, nem dá bolotas, nem folhas; tem a morte no seio e na raiz: Nomen habes quod vivas, et mortuus es (Ap 3, 1): «Dizem que estais vivo; mas realmente estais morto», e continua firmando-se no tronco e estendendo os seus vastos ramos. Cristão de coração insensível, eis a tua imagem. És uma árvore estéril, a quem Deus ainda não cortou a raiz nem deitou por terra para atirar ao lume (à chama), mas a quem tirou o espírito de vida.

Receai, pois, pecador adormecido, receai a extrema insensibilidade. Acordemos que já é tempo. Porque tendes os vossos corações duros como o de Faraó? Acordai sem demora, pois, quanto mais vos demorardes mais agravares as vossas penas. Esperais talvez acordar quando de novo vos entregardes aos prazeres? E quando deve o cristão vigiar, senão quando falar Jesus Cristo? Refleti, bem; imaginais estar longe dessa mortal letargia, dessa insensibilidade funesta de que estais ameaçado tão terrivelmente por tantos oráculos da Escritura? Se pensásseis nos vossos primeiros pecados, havíeis de impressionar-vos: Percussit eum cor David (II Rs 24, 10). Os vossos remorsos eram mais vivos e as vossas graças a Deus mais frequentes. Não raras vezes derramáveis lágrimas pela vossa condenação; ao passo que, se morrêsseis, o vosso triste funeral seria pelo menos honrado com algum luto. Agora que haveis cometido o crime, já os sagrados conselhos vos não impressionam nem julgais úteis os Sacramentos. Emfim, cristãos, o que deveis recear é que Deus vos condene às penas eternas e que a vossa alma se transforme num navio feito em destroços, que já não possa conter a graça.

É do que estão ameaçados pelo Espírito Santo os que profanam os Sacramentos pelas suas reincidências e que conservam os seus maus desejos pela sua condescendência.

«Hei de parti-los, disse o Senhor, como se fossem um vaso de barro, e hei de reduzi-los a pó de tal maneira que não ha de ficar o menor fragmento em que se possa colocar uma faulha ou com que se possa tirar uma gota de água (4)»

Singular condição a desta alma despedaçada, completamente destruída! Se se aproxima do sacramento da penitência e desse manancial de graça que dele deriva, não recebe uma gota de água.

Se ouve sagrados discursos que seriam capazes de abrasar corações, não recebe a menor cintila. É um navio inteiramente despedaçado, e, se ela não fizer um último esforço para acordar o espírito da graça e para excitar a fé adormecida, perecerá sem remédio.

Mas, irmãos meus, ainda que eu assim fale, tenho esperança em que haveis de proceder melhor. Mas então será inútil a minha, palavra? Não atuará o espírito do meu Deus? Não haverá qualquer coisa no imo dos vossos corações? Se há, então viveis, e a vossa saúde não está arruinada. Não percamos este momento de energia; soltai lamentos, soltai suspiros, que são os sinais de vida que vos pede o médico celeste. Depois, deixai atuar a sua mão benfazeja.

«Pois porque desejais morrer? Eu não quero a morte do que morre; convertei-vos e vivei, disse o Senhor omnipotente» – Et quare moriemini, domus Israel? Quia nolo mortem morientis, revertimini, et vivite (Ez 18, 31-32)

Mas eu nada consegui, cristãos, em ter talvez excitado um pouco a vossa atenção com o fim de vos salvardes pela palavra de Jesus Cristo e do Evangelho, se vos não convencer de que haveis de pensar nisto a miúde. Todavia, não cabe a um mortal levar ao espírito dos outros estas verdades importantes; a Deus é que compete gravar-lhas. E como hoje nada mais fiz do que recitar-vos as Suas santas palavras, direi ainda, para acabar, o que Ele pronunciou pela Sua própria boca no Deuteronômio:

«Escutai, Israel; o Senhor vosso Deus é o único Senhor. Haveis de amá-lo de todo o vosso coração, de toda a vossa alma e com toda a vossa energia.

Gravai no coração as minhas palavras e as leis que hoje vos dou; comunicai-as a vossos filhos e vós meditai nelas, quer estando em vossa casa sentado, quer andando a caminhar (5). Tende-as sempre presentes ao deitar e ao levantar; atentai sempre nos meus preceitos, de maneira que nunca os percais de vista»

Tal é a lei inviolável dos artigos que Deus tinha dado a nossos pais. Pesai todas as Suas palavras, e vereis que ela lhes ordena que tragam gravados no coração, tanto a Deus como aos Seus sagrados mandamentos, que falem muitas vezes nele para se não esquecerem; que lhe testemunhem sempre um secreto agradecimento e que, no meio das suas ocupações; o tenham sempre na mente.

Alem disso, que dediquem um certo tempo para nEle pensarem a sós, tranquilamente, com uma aplicação particular; que acordem e adormeçam com este pensamento, para que, se o inimigo os quiser surpreender, lhe possam evitar as suas ciladas. Não me digais que esta atenção só é dada aos conventos e à vida solitária. Este preceito formal foi escrito para todo o povo de Deus. Os judeus, por serem sensuais e rudes, reconhecem ainda hoje que lhes é imposta esta obrigação indispensável. Se pretendermos que este preceito tenha menos força na lei da graça e que os cristãos se obriguem menos a esta atenção do que os judeus, desprezamos o Cristianismo e menoscabamos Jesus Cristo e o Evangelho.

O falso profeta dos árabes, cujo paraíso é sensual e cuja religião apenas consiste em política, não deixou de prescrever aos seus infelizes sectários que adorassem cinco vezes a luz, e bem vedes a que ponto chega a sua pontualidade a esta observância. Os cristãos julgar-se-iam dispensados de pensar em Deus, porque não se lhes marcou horas precisas? É porque eles devem vigiar e orar sempre. Não penseis que esta prática vos seja impossível: a passagem que eu recitei dar-vos-á um meio infalível. Se Deus ordena aos israelitas que se ocupem perpetuamente dos Seus sagrados preceitos, ordena-lhes primeiro que O amem e que se interessem vivamente pelo Seu culto. Amai o Senhor, disse Ele, e gravai no vosso coração estas santas palavras. Tudo o que temos no coração, se nos mostra facilmente, sem forçar a nossa atenção, sem cansar o nosso espírito e a nossa memória. Perguntai a uma mãe se é preciso lembrar-lhe o filho único. E será preciso aconselhar-vos a que penseis na vossa fortuna e nos vossos negócios? Quando parece terdes noutra parte o vosso espírito, não estais sempre vigilantes, sempre ativos e secretamente atentos a este respeito, bastando a menor palavra para vos acordar? Se pudésseis tomar à peito a vossa salvação eterna e considerar como negócio importante aquele que assim devia ser considerado, os nossos salutares conselhos não seriam para vós um suplício, e havíeis de pensar mil vezes por dia num interesse desta importância. Mas na verdade, se não amarmos a Deus, se não cuidarmos de nós, e se apenas somos cristãos no nome, excitemo-nos emfim, e encaremos seriamente a nossa eternidade.

Grande Rei, que sois muito superior a antecessores tão augustos, e que nós infatigalmente vemos entregue aos grandes negócios do vosso Estado, que encerram os negócios de toda a Europa, eu proponho a tão grande gênio obra mais importante e objeto mais digno da sua atenção: é o culto a Deus e a salvação da vossa alma. Porque, real Senhor, de que vos servirá terdes elevado a tão grande altura a glória da vossa França, de a terdes feito tão poderosa no mar e na terra, e, com o auxílio das vossas armas e dos vossos conselhos, haverdes feito com que o mais celebre, o mais antigo, o mais nobre reino do universo seja a todos os respeitos o mais temível, se depois de terdes enchido todo o mundo com o vosso nome e com todas as histórias dos vossos feitos, não continuardes a trabalhar em obras que sejam contadas a Deus e que mereçam ser escritas no livro da vida? Vossa Majestade não viu no Evangelho deste dia a admiração do mundo assustado, esperando o dia tremendo em que Jesus Cristo há de aparecer cheio da sua majestade? Se os astros, se os elementos, se as grandes obras que Deus parece ter querido edificar tão solidamente para as tornar eternas estão ameaçados de ruína, que virá a ser das obras que tiverem feito mãos de mortais? Não vedes o fogo devorador que precede o juiz terrível, que há de aniquilar num só dia cidades, fortalezas, cidadelas, palácios, casas de campo, arsenais, mármores, inscrições, títulos, histórias, e que de todos os monumentos reais há de fazer uma grande fogueira e pouco depois um montão de cinzas? Podemos pensar na grandeza do dia em que tudo há de ser reduzido a pó? É necessário que haja outros fatos e outros anais.

Meus senhores, Deus faz um diário da nossa vida: uma mão divina (6) escreve a nossa história, que um dia nos há de ser apresentada e a todo o universo. Tratemos, pois, de a embelecer. Façamos desaparecer por meio da penitência o que nela nos cobriria de confusão e de vergonha. Acordemos que já é tempo. As razões por que devemos,ser solícitos fortalecem-se todos os dias cada vez mais. A morte avança, o pecado vence, a insensibilidade aumenta; todos os momentos fortificam o discurso que vos fiz, e que há de amanhã atuar ainda mais energicamente do que hoje. O Apóstolo disse-o depois do meu texto: Propior est nostra salus (Rm 13, 11):

«A nossa salvação todos os dias se aproxima, cada vez mais»

Se a nossa salvação se aproxima, também se aproxima a nossa condenação; uma e outra caminham igualmente.

«Pois como havemos de salvar-nos, disse o mesmo Apóstolo, se desprezarmos a salvação?» – Quomodo nos effugiemus, si tantam negligerimus salutem (Hb 2, 3)?

Cuidemos pois da nossa salvação, visto que Deus nos envia um Salvador: Jesus Cristo virá ao mundo «cheio de graça e de verdade» (Jo 14); sejamos fiéis à Sua graça e ouçamos com atenção a Sua verdade, a fim de compartilharmos da Sua glória.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Referências:

(1) Nota marg.: – Aqueles, cujos conselhos são dados pela rapidez das ocasiões e recebidos pelo acaso, apressam-se e precipitam-se. Outro tanto não sucede com o Onipotente.

(2) Nota marg.: – Eu tento demonstrar-lhes que o seu próprio repouso…

(3) Nota marg.: – Si quis furtum faciens statim oculum perdidisset, omnes dicerent Deum presentem vindicasse oculum; cordis amisit, et ei pepercisse putatur Deus (Santo Agostinho, in Psal., LVII, n.º 18)

(4) Nota marg.: – Comminuetur sicut conteritur lagena figuli contritione pervalida: et non invenietur de fragmentis ejus testa in qua portetur igniculus de incendio, aut hauriatur parum aquae de fovea (Is 30, 14)

(5) Nota marg.: – Sedens in domo tua et ambulans in itinere, dormiens atque consurgens… Movebuntur ante oculos (Dt 6, 4ss)

(6) Nota marg.: – Escreve o que fizemos e o que deixamos de fazer.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 87-114)