Festa da Circuncisão - II. Jesus é o Cordeiro que tira os Pecados do Mundo

II. Sermão para a Festa da Circuncisão

Pregado no 1° de janeiro de 1687, em Paris, na capela da Casa professa dos Jesuítas.

SUMÁRIO

Exordio. — Desenvolvimento do texto: Ipse salvum faciet populum suum a peccatis eorum…

Proposição e divisão. —Jesus é o Cordeiro que tira os pecados do mundo:

1.º O pecado avilta a alma e dá-lhe a morte eterna, mas Jesus ressuscita-a pelo perdão;

2.° A alma perdoada é de novo arrastada ao mal, mas a graça de Jesus fortifica-a contra a tentação;

3.° Neste mundo estamos sempre, sujeitos a abusar da nossa liberdade, mas com a glória do céu torna-nos Jesus impecáveis.

1.º Ponto. — O pecado é um ato de rebelião contra Deus e de ódio contra o próprio indivíduo, um mal íntimo que apaga em nós por completo tudo que nos une a Deus. A graça de Jesus, fruto do Seu sangue divino, cura este mal nas almas penitentes.

2.º Ponto. — O pecado, entrando na nossa alma, e residindo sobretudo nela, faz-lhe chagas que não desaparecem juntamente com Ele, enfraquece a nossa natureza e produz-lhe as maiores alterações. A graça de Jesus, porém, está sempre preparada para nos lavar dos nossos pecados, para nos ajudar a triunfar, para nos premunir enfim contra novas fraquezas.

3.º Ponto. — Finalmente, para completar a sua vitória, a graça de Jesus Cristo há de ajudar-nos a alcançar o repouso eterno, isto é, esse estado em que a nossa alma, firmada na felicidade, não tornará jamais a pecar.

Peroração. — Ai do que diz:

«Eu pequei e que mal me sucedeu?»

Não se lembra de que o Omnipotente o espera no dia fatal, e que, certo do golpe que há de dar, não  precipita a sua vingança. — Elogio do zelo da Companhia de Jesus.

Vocabis nomen ejus Jesum: ipse enim salvum faciet populum suum a peccatis eorum
E vós lhe chamareis Jesus, que quer dizer Salvador, porque é Ele quem há de salvar o povo dos seus pecados (Mt 1, 21)

Se tivéssemos conservado os sentimentos que Deus a princípio tinha dado à nossa natureza, não teríamos dificuldade alguma em compreender que o pecado é o maior de todos os males, e sem o auxílio dos oradores sagrados, a nessa consciência dir-nos-ia mais do que todos os seus discursos. O que nos ilude, irmãos, o que faz com que não consideremos o pecado como um mal, é ele ser voluntário. Mas a este respeito e manifesto o nosso erro, porque, sendo por culpa nossa que ele é voluntário, o parecer-nos que não é, dá origem à sua existência; e é para vingar o abuso que dele fazemos com prejuízo nosso e para nossa vergonha, que a mortalidade, que as doenças, que o próprio inferno e todos os seus suplícios veem de tropel oprimir-nos a nosso pesar. E quem quer que seja o Salvador dos homens, deve ele unicamente inclinar-se a este princípio voluntário e universal de todos os nossos males. É por isso que Deus nos adverte que se hoje, por entre as dores da circuncisão, Ele dá a seu Filho o nome de Salvador e eleva com nome tão sublime a Sua humilhação, é porque Ele deve salvar o seu povo fiel com esse grande mal do pecado. Outros deram-lhe este belo nome por Ele ter libertado o povo dum longo cativeiro, ou dos perigos da guerra, ou dos horrores da fome. Todas as línguas devem confessar que este é um Salvador do melhor quilate, porque não vem salvar-nos como os outros das penas ou de certas consequências do pecado; vem salvar-nos do próprio pecado; e atacando o mal pela raiz, é Ele o verdadeiro Libertador e o Salvador por excelência. É esta, irmãos meus, em poucas palavras, a explicação do meu texto (Var.: É esta a significação do meu texto), e é por isso que o nome sagrado de Jesus é superior a todos os nomes. Eu poderia provar-vos com São Paulo «que a este nome tudo se humilha no céu, na terra e nos infernos» (Fl 2, 10), e por este meio despertar-vos profunda admiração e grande assombro com nome tão augusto e tão magnifico. Mas prefiro provar-vos, pelo próprio sentido do meu texto, que a este nome, o céu e a terra se enchem de alegria, de esperança, e de ações de graças, e que todo o coração se deve inflamar dum santo amor. É a este assunto que eu dedico todo o meu discurso. E como São Paulo diz que «ninguém pode pronunciar sequer o nome de Jesus senão pela graça do Espírito Santo» (1 Cor 12, 3), é humildemente que eu a peço por intercessão da bem-aventurada Virgem Senhora nossa. Ave-Maria.

A remissão dos pecados, a própria obra do Salvador e a graça particular da nova aliança começa no Batismo, continua-se durante toda a vida e completa-se no céu. É o que Santo Agostinho nos explica por uma excelente doutrina. Interpretando esta palavra de São João Batista:

«Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo» (Jo 1, 29); diz ele estas belas palavras: «O Filho de Deus tira os pecados, porque perdoa os que cometemos, porque nos ajuda a não cometer mais durante esta vida, e porque, por diferentes perigos e por diversos exercícios, nos conduz finalmente à vida feliz, em que não podemos cometer mais nenhum»

Deste modo, o reino do pecado é inteiramente destruído, e a graça do nosso Salvador alcança sobre este inimigo uma vitória completa. Porque, quando nos entregamos ao pecado, irmãos, tem ele a sua mancha que nos desdoura e que depois causa a morte eterna; e quando o pecado desaparece das almas pela graça do sagrado Batismo ou pela da Penitência, ainda deixa nelas os seus encantos enganadores e os seus atrativos que nos tentam; e no maior vigor da sua resistência, se vivemos sem pecado, pelo menos sem esses pecados que causam a morte, não vivemos sem perigos, porque temos sempre em nós essa liberdade infeliz e essa deplorável facilidade de sucumbir a um mal tão perigoso. Para ser nosso Salvador e preencher toda a latitude dum título tão glorioso, é necessário que o Filho de Deus nos liberte destes três males: que tire o mal do pecado pela graça que no-lo perdoa; que reprima o seu atrativo pela graça que nos mantém durante todo o curso da vida; e finalmente que faça desaparecer por completo todo o perigo pela graça que nos coroa e nos recompensa. Tal é a obra do Salvador. Agora, irmãos, façamos a nossa; a estas três graças que Ele nos dá, devem corresponder da nossa parte três disposições; conservai-as, cristãos.

E se quiserdes gozar da salvação que vos é oferecida em Jesus Cristo, reconhecei antes de mais nada com amor e ação de graças o perdão que nos foi concedido; combatei incessantemente o atrativo pernicioso que nos arrasta para o mal, e aspirai de todo o vosso coração ao estado feliz em que já não tereis de recear fraqueza alguma. Eis toda a vida cristã que corresponde ao nome adorável de Jesus Cristo. E agora, irmãos, muito estimarei se puder gravar-vos no coração estas três verdades.

PRIMEIRO PONTO

Para compreenderdes perfeitamente o que deveis ao Salvador, compreendei primeiro que tudo o que é o pecado, de que Ele vos liberta. Eu não quero aqui, cristãos, que considereis no pecado nem a fraqueza que o produz, nem o opróbrio que o cerca, nem o suplício terrível que de perto o acompanha; não, para o detestardes, não quero que espereis nem a sentença do juiz, nem a sangrenta execução desse juízo final, nem a sublevação universal das criaturas unidas para vingarem o ultraje do seu criador, nem o ardor dum fogo devorante, ou, como lhe chama São Paulo, a sua emulação, ignis aemulatio (Hb 10, 27), e essa força sempre nova que se irrita cada vez mais contra os maus.

Não é isto que eu quero que noteis; o que eu desejaria fazer-vos compreender, é o que tudo isto merece; o que, por consequência, é mais funesto, mais pernicioso e mais digno do nosso ódio; isto é, o desregramento, a iniquidade, a fealdade e a própria malícia do pecado.

E donde vem essa fealdade é essa malícia que o faz tão digno de execração? É fácil compreendê-lo. É que o homem esta submetido por sua natureza, e deve estar submetido por escolha sua, à vontade divina e à razão eterna que lhe dirige as ações; deve-se associar a ela de todo o seu coração, porque é o que o faz justo, o que o faz reto e o que o faz virtuoso. Quando peca, desprende-se dela; prefere a sua vontade à de Deus, a vontade dependente e subordinada à vontade soberana, a vontade errante e defeituosa à vontade reta, que é a sua própria lei; a vontade particular, que também se limita a contentar um particular, isto é, o próprio individuo, à vontade primeira e universal pela qual tudo subsiste, e onde tudo o que existe, tudo o que vive e tudo o que ouve encontra a sua ordem, a sua estabilidade e o seu repouso. Nada há mais indigno, nem mais iníquo, e não é possível levar mais além, nem a rebelião, contra Deus, nem a consequência dessa rebelião, que é o ódio contra o próprio individuo.

É este certamente de todos os males o mais pernicioso. A rebelião contra Deus:

«Contra quem vos sublevastes? Contra o Santo de Israel» (2 Rs 19, 22)

O ódio contra o próprio individuo:

«Aquele que ama a iniquidade é o inimigo da sua alma» (Sl 10, 6)

Sim, cristãos, todo o pecador é inimigo da sua alma, corruptor na sua consciência do seu maior bem, que é a inocência. Ninguém peca que não se ultraje a si próprio; ninguém atenta contra a integridade de outrem senão com perda da sua, ninguém se vinga do seu inimigo que não dê o primeiro golpe e o mais mortal no seu próprio seio; e o ódio, esse veneno mortal da vida humana, começa a sua operação funesta no coração onde é gerado, visto que apaga nele a caridade e a graça. Perjuro, que querias tornar o céu cúmplice da tua perfídia, esse depósito de boa fé que Deus confiara à tua guarda, mas que tu roubaste a ti próprio; quanto mais valia o que tu não queres reconhecer?

O pecado, por consequência, é o maior e mais extremo de todos os males; maior sem comparação do que todos os males que nos ameaçam externamente, porque é o desregramento e a completa depravação do interior; maior e mais perigoso do que as doenças corporais mais pestilentes, porque é um veneno fatal para a vida da alma; maior do que a perda da razão, porque é a perda da probidade e da virtude, e, afinal, maior perda do que a da razão é a do bom uso dela, sem o qual a própria razão não é mais do que uma loucura e um erro criminoso; mal íntimo que apaga em nós por completo tudo o que nos associa a Deus, e que, fazendo entrar a malícia até ao amago da nossa alma, a abre também de todo à vingança. Por consequência, e em conclusão, o pecado é um mal superior a todos os males; uma desgraça que excede todas as desgraças, porque é ao mesmo tempo uma desgraça e um crime; desgraça que nos oprime, e crime que nos desonra; desgraça que nos tira toda a esperança, e crime que nos tira todo o perdão; desgraça, que tudo nos faz perder, e crime que nos torna criminosos da nossa perda, não tendo nós sequer o triste direito de nos lastimarmos, e pesando sobre nós a vergonha, que é o maior de todos os infortúnios, digna ao mesmo tempo dum ódio e dum desprezo eterno.

Já basta, já basta; que eu já nem sequer posso suportar o nome de pecado. Tão grande mal eu sinto que me oprime, que a vida me foge, se não encontrar um Salvador. Pois sem esse Salvador misericordioso, onde encontrarei, ó Deus, um remédio para o mal que me tortura? Onde encontrarei um remédio para as dissoluções ou um asilo para os temores da minha consciência, tristes prenúncios dos rigores inexoráveis da Vossa justiça? Que recurso hei de procurar? Não, irmãos meus, só o Salvador nos pode dar o meio de respirarmos um momento. Não digais, como os ímpios, de que reza o Profeta:

«O Senhor não nos fará bem nem mal» – Non faciet bene Dominus et non faciet male (Sf 1, 12)

E que mal podemos nós fazer-Lhe para provocar as Suas vinganças? Ocupado em fazer girar continuamente a grande máquina do mundo, não o atingem as nossas injúrias; os nossos pecados, de que se diz que Ele se acha ofendido, não chegam até Ele. Assim fala o ímpio; e firma-se na sua impotência. Ignorante, que não vê, pelo contrário, que quem quer que seja o vingador das injustiças, deve, pela sua própria grandeza, estar acima dos seus insultos. E é em virtude da lei ser inalterável, que a injustiça e o agravo se aniquilam contra ela; é em virtude da verdade ser invencível, que a mentira e o erro se confundem na sua presença. O castigo deve partir de mão inacessível às injurias; aliás, mais entregue a defender-se dos crimes do que a puni-los, deixará triunfar a iniquidade.

Oxalá que não! Sob o império dum Deus tão santo, se os nossos pecados pudessem prejudicar o Seu reino, se pudéssemos enfraquecer o Seu poder pelas nossas rebeliões ou ofender a Sua dignidade pelos nossos ultrajes, seria Ele um vingador mui pouco para temer.

Mas porque o Seu trono está fora do nosso alcance, porque o cerca a justiça e porque o Seu juízo atua sempre poderosamente e verdadeiramente, amaldiçoado, amaldiçoado uma vez ainda, e amaldiçoado seja para sempre todo aquele que peca à Sua vista!

E esta verdade é tão importante, que era indispensável que ela existisse no próprio Salvador. É por isso, que Deus nos mostra um Salvador suspenso da Cruz, oprimido com os nossos crimes. Que era com efeito, o Salvador? Que era esse Verbo encarnado, irmãos? Que outra coisa não era senão a própria verdade manifestada na carne? Desta maneira, toda a verdade devia nEle ser manifestada; tanto a verdade dos rigores de Deus como a dos seus perdões. Deus então «estabeleceu no Salvador a iniquidade de nós todos» (Is 53, 6) como dizia o profeta; e ao mesmo tempo para conciliar todas as coisas, e com receio de que no meio dos perdões se esquecessem os rigores, fez do medianeiro da Sua graça um exemplo da Sua justiça.

Jesus Cristo suportou esse jugo por amor de nós. Desde o princípio da Sua vida recebeu a circuncisão, isto é, o sacramento dos pecadores e o sinal da servidão deles. Quando Ele começar o Seu ministério; quando, depois de haver saído do Seu profundo recolhimento, começar a obra para que foi enviado, há de receber ainda no batismo outro sacramento dos pecadores. Como assim! Jesus ser batizado! Jesus, que é a própria inocência, ser filiado no número dos penitentes! O próprio São João, a quem Ele se dirige, fica perturbado:

«Senhor, eu batizar-vos! — Que importa? responde o Salvador; é assim que devemos cumprir toda a justiça» (Mt 3, 14, 15)

Ora, se Jesus se dispôs a suportar o castigo de todos os pecadores, também é justo que eu o imite. «Deus estabeleceu então no Salvador, diz o profeta, a iniquidade de nós todos»; e suportou esse jugo voluntariamente. Portanto, o Salvador em certo modo, o maior de todos os pecadores, visto que todos eles se acham representados na sua pessoa; e ao mesmo tempo esse jugo é, o que eu não estranho, a vingança que o persegue no nascimento, na morte, e em todo o curso da sua vida. A ele teria sucumbido, se não fosse Deus.

Que novo prodígio é esse, irmãos meus! O paganismo pôde compreender perfeitamente que é preciso ser Deus para exercer a justiça em toda a sua latitude, e nós vimos transparecer esta ideia no platonismo. Mas que fosse preciso ser Deus para a suportar, é isto um mistério do cristianismo, mas mistério muito manifesto para olhos imaculados; porque o peso da vingança divina sobre o pecador é tão grande que, se for preciso um poder infinito para o enviar, não é preciso outro menor para o suster. Embora Jesus Cristo tome apenas a forma de escravo e a semelhança do pecado, embora Ele seja apenas pecador (entendei sempre pela representação de todos os pecadores a obrigação que Ele se impôs de suportar o castigo de todos os crimes), embora Ele apenas seja pecador, a cruz há de oprimi-lo com o seu peso; Ele ficará sepultado nas sombras da morte, e as prisões do inferno onde foi preciso Ele descer conservá-lo-ão eternamente cativo. Mas porque esse representante dos pecadores é com efeito um Deus omnipotente, por isso mesmo é que, como diz Davi, ficou «livre entre os mortos» (Sl 87, 6) e superior não só à pena do pecado, mas ao próprio pecado; e veio a ser, pelo Seu sangue, a propiciação de todos, os pecados e o Salvador de todos os homens.

Acudi, pois, sem demora, ó pecadores, quem quer que sejais, ou o vosso ouro constitua a vossa força, ou façais consistir a força e a confiança nos vossos disfarces (Var.: Os vossos artifícios), ou tenhais criado uma falsa divindade numa criatura tão infeliz e tão cega como vós; ou a vossa chama imanente vos deixe ainda a liberdade de vos arrependerdes, ou o vosso jugo se torne mais pesado, e endurecidos no mal pareçais ter feito com o pecado uma eterna aliança. Pela graça de Jesus Cristo que vos chama, «o vosso pacto com o inferno será anulado, e o tratado que fizestes com a morte não se manterá» (Is 28, 18). Recebereis gratuitamente a remissão dos vossos pecados pelos merecimentos do Salvador; e ouvireis da Sua boca estas palavras: «Ide em paz» (Lc 7, 50). Escutai somente pecadores, a lei suave que Ele vos impõe; e tão suave que enternecidos por tantos benefícios lhe dareis o vosso coração. Deveis-lhe, pois, o vosso amor, quando Ele vos der a graça, e mais lhe ficais devendo, depois dEle vo-la ter dado; e se quiserdes saber o grau do amor que Ele de vós espera, avaliai-o pelos vossos crimes.

Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e o outro devia-lhe cinquenta. Como não tivessem com que pagar, perdoou-lhes ambos a divida inteira. Qual dos dois lhe tem mais amor? É a pergunta que faz Jesus ao fariseu, como sabeis pela parábola do Evangelho (Lc 7, 41ss). E que responde o fariseu, isto é, que responde a própria dureza e a própria sequidão (1)? Qual dos dois lhe tem mais amor? Certamente que é aquele a quem mais se perdoa. O fariseu é assim que responde, e a sua resposta merece a aprovação do Salvador. E vós, irmãos, que respondereis? O vosso coração insensível nada dirá ao vosso Libertador? E se, conforme o seu oráculo, aquele a quem mais se perdoa é o que mais amor tem depois de tantos pecados perdoados e de tantas graças recebidas, onde encontrareis amor bastante para os reconhecer? Mas se o não tiverdes, se o vosso amor, em vez de se inflamar, apenas desfalecer e se extinguir; se a graça da penitência tantíssimas vezes desprezada, apenas produzir, por único fruto, no vosso coração ingrato, uma confiança insensata, e em contínuas reincidências uma insensibilidade espantosa, não ficais já compreendendo a vossa sentença? Se Jesus não vir manifestar-se em vós qualquer natural consequência da remissão dos pecados, e não descobrir nas vossas obras qualquer centelha de amor, não receais, insensíveis, que Ele nada vos perdoe? Não, vós não estáveis dispostos a receber semelhante graça; e, portanto, a vossa penitência não era mais que uma ilusão.

Posso dizer-vos como disse São Paulo: «Vós ainda persistis nos vossos pecados» (1 Cor 15, 17) isto é, ainda vos conservais na perdição e na morte. Que deplorável situação que é a vossa! Mas quando houverdes recebido a remissão dos vossos pecados, se o médico que vos curou não vos continuar a prestar o seu auxílio, a reincidência é inevitável. Porque Ele é esse Salvador misericordioso que não só entra quando lhe abrem a porta, mas também bate para lha abrirem (Ap 3, 20).

SEGUNDO PONTO

É chegado o momento de compreendermos o que são as fraquezas morais, as chagas da alma e o cativeiro da nossa natureza, vencida pelo pecado. Internamente e externamente tudo concorre para estabelecer o seu império. Em primeiro lugar, externamente: fascinados pela nossa boa fortuna, ciosos da fortuna dos outros, insensíveis às suas desgraças, perturbados e enfraquecidos pelas nossas menores perdas, não guardamos a devida proporção, nem para conosco, nem para com os nossos irmãos. Tudo o que externamente se manifesta é para nós motivo de escândalo. Internamente, que trevas! Que ignorância! Os verdadeiros bens são os menos conhecidos; ninguém no-los pode fazer compreender. E pelo que diz respeito aos nossos conhecimentos, ou a paixão os obscurece, ou a inconsideração, os inutiliza, como provas de desregramento no saber; ou a curiosidade os torna perigosos, como prova de impiedade e de heresia. Em todos os acontecimentos da vida, a razão dá-nos conselhos, e os sentidos estimulam-nos. É por isso que o bem nos apraz, mas entretanto o mal prevalece; a beleza da virtude atrai-nos, mas as paixões arrebatam-nos; e enquanto aquela combate frouxamente, alcançam estas mui fácil vitória, estabelecem a sua tirania e instituem um reino pacífico. Tudo o que há de melhor em nós dispara em excesso, a coragem em altivez, a atividade em zelo, e a circunspeção em incerteza. Que virá a ser de mim? Para onde me hei de voltar, homem miserável? Que hei de fazer da minha vontade, sempre enfraquecida pela contrariedade dos seus desejos? Ou a entorpece a preguiça, ou a precipita a temeridade, ou a suspende a irresolução, ou a paralisa a pertinácia e não permite que ela compreenda coisa alguma. Umas vezes assusta-a o perigo, outras vezes enfraquece-a a certeza, e ainda outras a corrompe o orgulho. Ó pobre coração humano! A quantos erros estás exposto! De quantas vaidades és o joguete! O teatro de quantas paixões! Estranha miséria do homem, a quem cega a ignorância e a quem a inteligência confunde, «para quem a sua própria sabedoria é uma armadilha, e a sua própria virtude um escolho contra o qual se lhe quebram as forças», porque a sua humildade a tudo isto sucumbe! (1)

Nesta deplorável fraqueza, irmãos, sinto-me impelido a excitar-vos a que preseis gratidão ao Salvador, não tanto pelos pecados que Ele vos remiu, como por aqueles de que vos preservou a Sua graça. Santo Agostinho exprimiu este belo sentimento no livro da Santa Virgindade: Omnia peccata sic habenda tanquam dimittantur, a quibus Deus custodit ne comittantur: «Deveis crer na remissão de todos os vossos pecados e na .graça que vos não deixou pecar» (Lib. De Sanct. Virginit, n.° 42.), porque todos nós os albergamos, por assim dizer, na grande corrupção da nossa alma. Não, irmãos, não há erro, por mais extravagante, nem paixão, por mais desordenada, que não tenha em nós a sua origem pelo que Deus, confiando-nos a nossa própria alma, como diz São Paulo (Rm 1, 24), por pouco que levante o dique, vê-la-á completamente inundada de pecados.

E não me digais que há crimes, pelos quais sentis tanta repugnância que, sem auxílio, os podeis evitar; pois quem poderia aqui representar-vos o encadeamento das nossas paixões, e a maneira como essas paixões, que amais com tanto carinho, geram, per assim dizer, outras que vos causam horror? Quão afastado da idolatria devia andar o sábio Salomão, a quem Deus se dera a conhecer por tão manifestas aparições! E no entretanto, o seu amor cego impele-o para os ídolos. Que coisa há mais oposta à clemência e ao coração magnânimo de Davi, do que derramar o sangue inocente dum dos seus servos mais fiéis, dum Urias, que ardentemente o servia? Um olhar, intempestivamente volvido e fito mui suavemente, compele-o pouco a pouco, contra o seu temperamento, a uma ação tão negra e tão sanguinária. Inimigo da imoderação era Ló, que imaculadamente se havia conservado com a sua família no meio das abominações das suas inominadas cidades e, contudo, é sabido que o vinho exerceu grande influência sobre ele.

Nabucodonosor era apenas soberbo, mas o seu orgulho desprezado torna-o cruel. E que necessidade tinha Baltasar, nos seus banquetes dissolutos, dos vasos do templo de Jerusalém? Não havia muitas outras taças douradas na Babilônia, enriquecida com o despojo de tantos reis?

«Tragam-nas contudo; correi buscá-las, horda de escravos. Embriaguemo-nos, disse ele às suas mulheres e às suas amantes, embriaguemo-nos nessas taças sagradas, donde tantas manifestações se fizeram ao Rei dos judeus!»

E desta maneira, a sua intemperança leva-o até à profanação e ao sacrilégio. Tal é a certeza que temos de que, apagada a luz divina, esquecido o princípio da retidão e enfraquecida a consciência, todos os crimes uns após outros se naturalizam, por assim dizer, no nosso coração, e nós caímos de excesso em excesso.

E agora vos pergunto: acreditaríeis nisto, se vos dissessem, na vossa juventude, que deveríeis enrugar a fronte até desprezardes todo esse tumultuar e todos esses opróbrios mundanos? Acreditaríeis nisto, se os vossos lábios, não sei como habituados a esse prazer sempre enganoso, tivessem afinal de proferir gratuitamente tantas mentiras ou mesmo tantos perjúrios como de palavras? Vós caístes gradualmente nesse, abismo; e para que descêsseis a essas profundidades que tanto horror vos causavam, bastou apenas conduzir-vos lá por um declive mais suave e mais insensível. Por isso, o divino Salvador, demais limitaria eu o meu reconhecimento para convosco, se o reduzisse apenas aos crimes que me perdoastes. Mas «eles multiplicaram-se por sobre os cabelos da minha cabeça, e o coração abandona-me quando nisto penso» (Sl 39, 13). Enfim, o seu número é ilimitado; e eu vejo erguer-se a meus olhos uma série infinita de pecados conhecidos e desconhecidos. Se as minhas mãos estão inocentes, é à bondade do Salvador que o devo. Ó graça divina! Aprendamos, pois, a conhecer a multidão dos pecados, e num só que cometermos, compreendamos a infinidade integral da nossa malícia.

Um respeito humano não vos deixa praticar uma boa ação. Enquanto vos irritais contra os devotos, corais da profissão da verdadeira piedade. Foi por um princípio semelhante que, durante a perseguição, tantas almas enfermas naufragaram na fé, e que a Igreja lamentou a sua apostasia. Se em breve não corrigirdes a indiferença desumana que votais aos infelizes e aos pobres, chegareis, compenetrada de vós mesmo e dos vossos prazeres, à insensibilidade do mau rico. Irrite-se essa vaidade que exige tanta condescendência, ou esse interesse que vos obriga a dar um passo em falso no caminho da boa-fé e da justiça, e ver-se-á nascer dum lado esses monstros de orgulho que ninguém poderá suportar, e do outro as traições e as perfídias assinaladas.

Vede, pois, nesse primeiro passo, em que vos susteve a mão do Salvador, todo o horror da queda. O que nós não tememos da nossa malícia, tememo-lo da nossa fraqueza; ou, para melhor dizer, tememos ao mesmo tempo tudo da nossa malícia e da nossa fraqueza, porque a nossa malícia conduz-nos a tudo, e a nossa fraqueza, sem proteção e exposta de todos os lados, a nada resiste. Estejamos, pois, sempre em guarda contra nós mesmos. Temos de conservar um edifício oscilante; e para lhe manter a estrutura que de todos os lados se arruína, é preciso estar sempre vigilante, sempre atento e pronto a operar, escorar dum lado, reparar do outro, consolidar o fundamento, alicerçar essa muralha arruinada que arrastará consigo todo o edifício, e cobrir de novo a cumieira; porque é por aí que a fraqueza sucumbe, é por lá que as chuvas penetram.

Para conhecermos todas estas imperfeições, não conhecemos bem o Salvador. Que este nome me confunda! Mas que me dê também alegria e confiança ! Eu, que tenho andado sempre transviado, muito careço dum Salvador a cada momento! Mas, por outro lado, devo, por assim dizer, considerar-me salvo de pecado, visto que tenho um Salvador tão poderoso e tão caritativo, um Salvador que a ninguém se recusa, «cujo nome é um perfume derramado» (Ct 1, 2) e cujas graças se
estendem a todos os pecadores, isto é, a todos os homens: que a todos abre os seus braços, a todos as suas chagas, a todos as suas mercês (2)!

«A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador» – In Deo salutari meo (Lc 1, 46.47)

«Minha alma bem-diz o Senhor, e que tudo o que em mim existe celebre o seu santo nome; minha alma, repito, bendiz o Senhor, e não esqueças nunca algum dos seus benefícios. Foi Ele quem todos os teus pecados perdoou, e é Ele quem todas as tuas fraquezas suporta (Sl 102, 3)»

Mas, para cúmulo de felicidade, é Ele quem te há de libertar de todos os teus perigos e que, elevando-te a tão alta e tão perfeita liberdade, fará com que nunca mais sejas servo do pecado.

É, portanto, esta, cristãos, a graça final, o prêmio, a perfeição e o cúmulo de todas as outras. É este o eterno sabatismo, é este o perfeito repouso que nos está prometido, e em que a nossa fidelidade não será menos garantida do que a de Deus, porque então há de Ele suspender de todo os nossos desejos erráticos por meio da plena comunicação do verdadeiro bem. Ainda vos vou dizer mais duas palavras, cristãos, sobre essa graça final.

TERCEIRO PONTO

Essa graça final será dada ao fiel pelo nosso Salvador, quando, após o termo desta vida, Ele lhe dirigir estas palavras:

«Coragem, bom e fiel servo, já que fiel fostes nas pequenas coisas, ser-vos-ão dadas as grandes: entrai no gozo do vosso Senhor» (Mt 25, 23)

Compreendeis a energia destas palavras:

«EEntrai no gozo do vosso Senhor?»

Compreendeis esse Gozo sublime, divino, incompreensível, que não entra no vosso coração como num navio mais vasto do que Ele, mas que, maior do que o vosso coração, diz Santo Agostinho (Confess., lib. IX, cap. X), o inunda, o penetra e o toma para si? Não é o seu próprio gozo que sente o fiel, é o gozo do seu Senhor onde ele entra; é a felicidade do seu Deus, porque, unindo-se com Deus, constitui, como diz São Paulo (1 Cor 6, 17), um mesmo espírito, por meio dum amor imutável; de maneira que, semelhante a Deus, e unindo-se Deus a ele em certo modo, tudo o que nEle houver de mortal é absorvido pela vida; e sentindo apenas o espírito de Deus, entra na plenitude do gozo do mesmo Deus, in gaudium Domini tui. Então não só deixa de pecar, mas também não pode pecar. Todos os seus desejos são satisfeitos; e com a capacidade da sua alma, e realizada a sua esperança. Que é feito dessa liberdade que não deixava de baquear de objeto para objeto? Já o fiel lhe desconhece o encanto.

Não há movimento do seu coração nem parte alguma de si próprio que possa escapar ao soberano bem que o possui. O princípio do nosso repouso é poder ser impecável; o fim, é tornar impossível o pecado. É este, irmãos, o alvo a que devemos mirar, este apenas o nosso grande desiderato.

«Procuremos, pois, diz São Paulo, entrar nesse repouso» (Hb 4, 11)

Mas não se consegue bem tão sublime sem ter o desejo de o experimentar. Experimentemos de antemão esse bem sacrossanto, porque Deus, já nesta vida, nos concedeu um reflexo da Glória na graça, uma prova da clarividência na fé, um ante-gosto da felicidade eterna na esperança, e uma centelha da caridade perfeita na caridade começada. Comecemos pois «a deliciar-nos com a bondade do Senhor» (Sl 33, 9).

Mas quê! Já ninguém me ouve. Tu foges-me neste momento, ouvinte distraído; e se nos ouves durante algum tempo, é em quanto pregamos uma moral sensível ou verberamos os vícios comuns do século. O homem amigo de cenas faz uma (tal é a sua loucura!) da descrição dos seus erros e dos seus defeitos, e julga ter satisfeito a tudo, quando, pelo menos, deixa censurar o que não corrige. Quando nós examinamos o que se passa no homem interior, isto é, o que faz o cristão quando executamos esses desejos do reino de Deus, esses ternos gemidos dum coração desgostoso do mundo e enternecido com os bens eternos, parece-nos ouvir uma língua desconhecida. Isto não me causa estranheza; porque esse cântico das alegrias celestes que eu começava a cantar, é o cântico de Jerusalém, E por quem são rodeados os pregadores? Quem é que compõe em geral os grandes auditórios, a não ser habitantes da Babilônia, mundanos que ostentam as suas vaidades, a sua corrupção e a sua vida sensual nestes discursos sagrados? E consente Deus que eles ainda depois condenem o pregador, se ele não souber enternecer, lisonjear com algum novo artifício, contentar ou surpreender-lhes o gosto delicado ou extravagante. E poderia eu esperar que almas assim afeitas às alegrias da terra compreendessem as alegrias do céu?

Ai de nós, ai de nós, não por esse dilúvio de males que oprimem a vida humana, nem pela pobreza e pelas doenças, pela velhice e pela morte! Ai de nós pelas alegrias que nos iludem, que nos obscurecem os olhos, que nos ocultam os nossos deveres e o fim deplorável de todos os nossos desígnios! Ai duma mocidade ébria que se glorifica nos seus desregramentos, e que se envergonha de pôr termo aos seus excessos! Ai do pecador afortunado que cegamente diz no seu íntimo:

«Eu pequei e que mal me sucedeu?» (Eclo 5. 4)

Não se lembra de que o Omnipotente o espera no dia fatal, e que, certo do golpe que há de dar, não precipita a Sua vingança. Ai do ímpio que se deleita na singularidade dos seus sentimentos! Ele recearia parecer fraco, se se lembrasse disto; mas mais fraco se torna, porque receia perder os fúteis louvores de alguns amigos, que, tão pouco firmes como ele nas verdades da vida futura, folgam contudo em experimentar até onde se pode levar a aparência da segurança no meio da incerteza e da dúvida. Mas Deus há de em breve confundir-lhes a estulta filosofia; e apesar dessa dissimulação vergonhosa, há de encontrar-lhes no coração com que os convença. «Para o ímpio não há paz» disse o Senhor. Aí finalmente dos que vivem nas delícias, porque morrerão em plena vida, como diz o Apóstolo! Jesus Cristo não há de ser o Salvador dos ímpios, porque «o seu reino não é deste mundo», e Ele não o preparou para os que querem triunfar na terra. Pelo contrário, foi a respeito deles que Ele pronunciou esta sentença: «Receberam a sua consolação», e depois: «Recebestes os vossos bens» (Lc 16, 25).

Foi o que Jesus Cristo sempre pregou pública e particularmente, ao povo como aos Seus discípulos, em todas as Suas práticas e em todas as Suas parábolas. Como assim! Há de haver apenas excessos no Seu Evangelho? Haverá Ele unicamente dito exageros, sendo necessário, acomodar todas as Suas palavras às nossas paixões para lhes atenuar os excessos?

Mas, sem alongar mais este raciocínio, chamo agora a atenção da vossa consciência: quereis acabar os vossos dias no meio desses prazeres e desse ardor constante? Respondei, mundanos, se ainda vos não esquecestes do cristianismo. Eu não vos falarei desses mercantilismos perigosos, nem dessas intrigas que se maquinam nas trevas. Não vos falarei dessas extorsões clandestinas, dessas concussões, nem de todo esse comércio de iniquidade. Mas quereis que a morte sobrevenha, enquanto, agravados pelo tumultuar do século ou entregues aos seus prazeres (Lc 21, 34); enquanto, incapazes de pensardes no século futuro, na oração, nas obras de caridade, incapazes de qualquer pensamento grave, só cuidais dum divertimento que vos ocupa os dias e as noites, ou dessas conversações em que, para não falar das maledicências com que as excitais, fazeis avultar agradáveis futilidades, que afinal é o que há de mais inocente, mas de que tereis um dia de dar conta, conforme vos ensina o Evangelho? (Mt 12, 36). Quereis passar nessas vaidades o último ano da vossa vida, que é talvez o que hoje começais? Pois que caráter particular terá esse ano fatal em que haveis de pertencerão número dos mortos? Os anos todos são igualmente enganadores; e a nós compete estabelecer a diferença entre eles.

— Mas eu depereço até morrer, nestes exercícios de piedade, nestas orações e nestes ensinamentos.

— Que vos hei de dizer? Esse desprazer é um vestígio da doença: o prazer há de voltar-vos com a saúde; tratai unicamente de vos curardes. É longo o tempo das provações.

Bastantemente no-lo repete o mundo nas suas amarguras, que demasiado nos oprimem. Mas vós, em quanto não chega o momento das consolações, ide tendo paciência: suportai o castigo da impudicícia em que há tanto tempo depereceis, e não acalenteis a esperança, como um novo Paulo, de serdes primeiro elevado ao terceiro céu. Lembrai-vos de Jesus Cristo que, antes das Suas grandes dores e do suplício da cruz, quis suportar, para salvação vossa, humilhações, tédios, extremas misérias, permiti-me o termo, e uma tristeza que O acompanhou até à morte. Tomai este remédio eficaz, e bebei o cálice da Sua paixão, que o prazer há de voltar-vos com a saúde. Mas, visto que os prazeres da terra são tão fatais para a alma, não deixemos de despertar, sobre este assunto, o gênero humano adormecido: derramemos nos discursos sagrados o balsamo da piedade, e em vez desses estremados requintes que importunam o mundo, façamos destacar a viva e majestosa simplicidade, as agradáveis promessas e a celeste unção do Evangelho.

É Vós, célebre Companhia, não debalde chamada de Jesus, e a quem a graça inspirou essa alta empresa de guiar os filhos de Deus desde a sua juventude até à maturação do homem perfeito em Jesus Cristo; a quem no declinar dos tempos Deus concedeu doutores, apóstolos e evangelistas, para fazerem realçar em todo o universo e até às regiões mais ignotas a glória do Evangelho; não deixeis de cooperar neste objeto, segundo a Vossa santa instituição, com todos os talentos do espírito e da eloquência, com a cortesia e com a literatura; e para melhor executardes tão grande obra, recebei com toda esta assembleia, em testemunho duma eterna caridade, a sagrada benção do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.

Autores a consultar: Bourdaloue, Lejeune, Palu, Massilon, o Pe. Faber, São Francisco de Sales, Luiz de Granada, De la Luzerne, e Pe. Chaignon.

Referências:

(1) Nota marg.: Não respondeis, irmãos, mais duramente que ele.

(2)  Nota marg.: Cui sua fit laqueus sapientia, cui sua virtus est scopulos (São Próspero, Carm. de Ingratis)

(3)  Nota marg.: Seja qual for o vosso temperamento, a vossa idade e a vossa condição, não vos arreceeis de vos aproximardes dAquele que não só entra quando Lhe abrem a porta, mas que por si mesmo bate sempre para que lha abram (Ap 3, 20). Essa pecadora encontrou a seus pés um objeto mais digno do seu amor, das suas essências e dos seus longos cabelos (Lc 8). Os pecadores ignorantes purificaram nEle os seus pensamentos; os publicanos enriqueceram-se com o seu verdadeiro tesouro; um São Paulo tirou da sua cruz uma ciência mais eminente do que a que tinha adquirido aos pés de Gamaliel (At 22, 3); a contemplação e a ação experimentam nEle delícias semelhantes; finalmente Ele consola, todos os males, tem atrativos para todas as compleições e defesas para todas as enfermidades.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 329-351)