Dia de Natal - II. Jesus Cristo estabelecido para Ruína e Ressurreição de Muitos

II. Sermão para o Dia de Natal

Pregado em Meaux, no dia 25 de dezembro de 1667.

Não existe manuscrito. —Déforis, IV, p. 877. – Lachat, VIII, 279. Foi por uma cópia do abade Ledieu, a quem Bossuet o tinha ditado para uma religiosa de Jouarre, que Déforis publicou este sermão. Como Sermão da Paixão, tem ele a vantagem de manifestar na sua forma definitiva o pensamento de Bossuet.

SUMÁRIO

Exordio. —Desenvolvimento do texto: Positus est hic…

Proposição e divisão. — Um dos caracteres do Messias prometido a nossos pais era ser ao mesmo tempo um motivo de consolação e um motivo de contradição; uma pedra angular e uma pedra de escândalo. O que nos desagrada é:

1° a profunda humilhação da sua pessoa;

2.° a verdade inexorável da sua doutrina e a grandeza da sua misericórdia.

1.º Ponto. — Os filósofos da antiguidade tanto se aproximavam de Deus pela sua inteligência, como se afastavam dEle pelo seu orgulho… É o que hoje fazem muitos cristãos. A exemplo de Jesus, aniquilemos tudo o que somos, pois isso não nos causará ruína, mas dá-nos a ressurreição.

2.º Ponto. — Jesus Cristo apresentando aos homens a verdade que os condenava, e apresentando-a de mais perto do que nenhum dos profetas, fizera-o com mais vivo esplendor, sublevava necessariamente contra si todos os espíritos, até aos últimos excessos.

«Amado irmão, é Jesus Cristo que te ilumina ainda… caminha, pois, com o auxílio dessa luz»

3.º Ponto. — Como na instituição dos Seus Sacramentos, sobretudo na instituição do Batismo e da Penitência, Jesus Cristo não quis limitar a Sua bondade, também os cristãos não quiseram limitar os seus crimes; não receiam pecar porque esperam arrepender-se um dia.

«Tremei… e temei… de cometer… esse pecado contra o Espírito Santo, que não se perdoa neste mundo nem no outro»

Peroração.«Vinde contemplar os mistérios do Salvador; olhai para o lugar por onde eles vos podem causar ruína e para aqueles por onde vos podem dar consolação»

Ecce positus est hic in ruinam et in resurrectionem multorum in Israel.
Eis que este é enviado para queda e ressurreição de muitos em Israel. (Lc 2, 34)

Este menino que acaba de nascer, e de quem os Anjos celebram o nascimento, a quem os pastores veem adorar ao seu presépio, a quem os Magos virão em breve procurar dos extremos do Oriente, a quem vós haveis de ver dentro de quarenta dias no templo, entre as mãos do velho Simeão: «Este menino, digo eu, é enviado para queda e ressurreição de muitos em Israel» (1), não só entre os gentios, mas também no povo de Deus e na Igreja, que é o verdadeiro Israel, «para sinal que será contradito; e uma espada trespassará a tua própria alma», e tudo isto se fará, «para que se manifestem os pensamentos ocultos, de muitos corações» (2).

A religião é um sentimento composto de temor e de alegria: inspira terror ao homem, porque ele é pecador; e inspira-lhe alegria, porque espera a remissão dos seus pecados; inspira-lhe terror, porque Deus é justo; e alegria porque é bom. É preciso que o homem trema e fique dominado de terror quando sente em si mesmo tantas inclinações perversas; mas é preciso que se regozije e que se console quando vê chegar um salvador e um médico para o curar. É por isso que o Salmista cantava: «Regozijai-vos com temor perante Deus» (3): regozijai-vos a respeito dEle, mas temei a respeito de vós, porque ainda que Ele por si só vos dê o bem, os vossos crimes e a vossa malícia poderão talvez obrigado a fazer-vos mal. É, pois, por esta razão que Jesus Cristo é enviado não só para elevação, mas para queda de muitos em Israel. E vós não haveis de reprovar que eu antecipe este discurso profético do santo velho Simeão, para vos dar uma ideia perfeita do mistério de Jesus Cristo que hoje nasce.

Um dos caracteres do Messias prometido a nossos pais era ser ao mesmo tempo um motivo de consolação e um objeto de contradição, uma pedra angular em que nós devemos firmar, e uma pedra de escândalo na qual tropeçamos e nos fazemos em pedaços. Os dois príncipes dos Apóstolos ensinaram-nos unanimemente esta verdade. São Paulo, na Epístola aos Romanos, diz:

«Esta pedra será para vós;uma pedra de escândalo, e todo aquele que nele acreditar não será confundido» (4)

Ei-lo, pois, que é ao mesmo tempo o fundamento da esperança e o motivo das contradições do governo humano.

Mas escutemos também o príncipe dos Apóstolos:

«Eis aqui, diz ele, a pedra angular, a pedra que sustenta e que une todo o edifício; e todo aquele que acreditar no que é representado por esta pedra, não será confundido» (5)

Mas também esta é uma pedra de escândalo que faz cair ou que despedaça tudo o que nela tropeça. Mas calem-se os discípulos quando fala o mestre. É Jesus Cristo que responde aos discípulos de São João Batista:

«Bem-aventurados são aqueles, diz Ele, que em mim se não escandalizarem!» (6)

Embora eu opere tantos milagres, que mostram ao gênero humano que sou o fundamento da sua esperança, muito felizes são, porém, aqueles que em mim não acharem motivo de escândalo; tal é a corrupção do gênero humano, tal é a fraqueza do órgão da vista para suportar a luz, e tal é a rebeldia dos corações à verdade! E para encaminhar esta verdade até ao primeiro princípio, é o próprio Deus que se institui para queda e ressurreição do gênero humano; porque se Ele é o objeto dos maiores louvores, também está exposto às maiores blasfêmias. E isto é como que um efeito natural da Sua grandeza, porque é absolutamente indispensável que a luz que ilumina os olhos sãos deslumbre e confunda os olhos enfermos. E Deus permite que o gênero humano compartilhe do que lhe é objeto, para que os que O servem, vendo os que O blasfemam, reconheçam a graça que os distingue e se obriguem a ser-Lhe submissos. Era, pois, em Jesus Cristo um caráter de divindade estar exposto às contradições dos homens, e servir de queda a uns e de elevação a outros. E para entrar mais profundamente num tão grande mistério, acho que Jesus Cristo é um motivo de contradição e de escândalo nas três principais situações pelas quais se declarou nosso Salvador: no estado da sua individualidade, na prédica da Sua doutrina e na instituição dos Seus Sacramentos. Que é que desagrada no estado da Sua individualidade? A Sua profunda humilhação. Que é que desagrada na Sua prédica e na Sua doutrina? A Sua severa e inexorável verdade. Que é que desagrada na instituição dos Seus Sacramentes? Di-lo-ei para confusão nossa – é a Sua bondade e a Sua própria misericórdia.

PRIMEIRO PONTO

«No princípio era o Verbo; e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele» (7)

Não é isto o que escandaliza os sábios do mundo; porque eles convencem-se de que Deus tudo faz pelo seu Verbo, pela sua palavra e pela sua razão. Os filósofos platônicos (8), diz Santo Agostinho, admiravam essa palavra e achavam-lhe grandeza, admiravam que o Verbo fosse a luz que iluminava todos os homens que vinham ao mundo (8); que a vida fosse nele como que um manancial que se espalhava sobre todo o universo, e principalmente sobre todas as criaturas racionais. Estava disposto a escrever em caracteres de ouro esses belos princípios do Evangelho de São João (9). Se o Cristianismo só tivesse de pregar essas grandes e augustas verdades, esses espíritos que se jactavam de ser sublimes teriam tido a honra de acreditar nelas e de as estabelecer, por mais inacessível que fosse a sua elevação; mas o que os escandalizou foi a continuação desse Evangelho: «O Verbo se fez homem»; e, o que parece ainda mais frágil: «O Verbo encarnou» (10); não puderam eles admitir que esse Verbo, de quem lhes davam uma tão sublime ideia, tivesse descido tão baixo. A palavra da cruz foi para eles loucura ainda maior. O Verbo nascido de uma mulher, o Verbo nascido num presépio, para enfim chegar à última humilhação do Verbo a expirar numa cruz, foi o que revoltou esses espíritos soberbos. Porque eles não queriam compreender que a primeira verdade a ensinar ao homem, a quem o orgulho perdera, era a humilhação. Era preciso, pois, que um Deus que viesse para ser o doutor do gênero humano, nos ensinasse a abater-nos, e que o primeiro passo a dar para ser cristão era ser humilde. Mas os homens cheios da sua vã ciência, não eram capazes de dar um passo tão indispensável.

«Tantos e aproximavam de Deus pela sua inteligência, como dele se afastavam pelo seu orgulho» – Quantum propinquaverunt intelligentia, tantum superbia recesserunt, diz excelentemente Santo Agostinho (Contra Julian., liv. IV, cap. lII)

Mas, direis vós, se lhes pregavam a ressurreição de Jesus Cristo e a Sua ascensão triunfante aos céus, deviam eles compreender que esse Verbo, que essa Palavra, que essa Sabedoria encarnada era qualquer coisa de sublime. É certo; mas todo o fundo desses grandes mistérios era sempre um Deus feito homem, era um Deus que se elevava muito alto, era uma carne humana, e um corpo humano que se colocava na maior altura dos céus. Era o que lhes parecia indigno de Deus; e por muito alto que Ele subisse depois de tanto se haver humilhado, não achavam que isto fosse um remédio para a degradação que eles imaginavam na pessoa do Verbo encarnado. Foi por isso que essa pessoa adorável se lhes tornou desprezível e odiosa, desprezível porque era humilde, odiosa porque, a Seu exemplo, os obrigava à humilhação. Foi assim que Ele nasceu para queda de muitos: Positus in ruinam. Mas ao mesmo tempo é também a elevação de muitos, pois, contanto que queiramos imitar as Suas humilhações, Ele ensinar-nos-á a erguermo-nos do pó (A sair do pó. É deste modo que se diz erguemo-nos do chão). Humilhai-vos, pois, Almas cristãs, se quiserdes elevar-vos com Jesus Cristo.

Mas, que infortúnio! Os cristãos tem tanta dificuldade em aprender, esta humilde lição como tiveram os sábios e os grandes do mundo. Em vez de imitar Jesus Cristo, cujo nascimento foi tão humilde, cada um se esquece da humildade do seu. Este homem que se elevou industriosamente (Pela sua astúcia, sentido do latim industria), e talvez criminosamente, pretende esquecer-se da pobreza em que nasceu. Mas os que nasceram um pouco na ordem do mundo, pensam na origem do seu nascimento, sabem quão humilde foi, quão impotente e destituído (Latim destitutus, privado, desprovido de) de qualquer auxílio é Ele propriamente? Lembram-se do que dizia, na pessoa dum rei, o divino autor do livro da Sapientia?

«Eu vim ao mundo gemendo como os outros» – Primam vocem similem omnibus emisi plorans (Sb 7, 3)

De que pode então gabar-se o homem que vem ao mundo, visto que nasce chorando, e visto que a natureza não lhe inspira outros pressentimentos nesse estado do que o que ele tem das suas misérias? Entremos, pois, em profundos sentimentos da nossa humildade, e desçamos com Jesus Cristo, se com Ele quisermos subir.

«Ele subiu, diz São Paulo, ao mais alto dos céus, porque primeiro desceu ao mais profundo dos abismos» – Quod ascendit, quid est, nisi quia et descendit primum in inferiores partes terrae? (Ef 4, 9)

Não desçamos apenas com Ele a um humilde reconhecimento das imperfeições e das humilhações da nossa natureza; desçamos até aos infernos, confessando que foi de lá que Ele nos tirou; e não somente dos infernos onde estavam as almas piedosas antes da sua vinda, ou das prisões subterrâneas onde estavam as almas imperfeitas que outrora foram incrédulas; mas das próprias profundas dos infernos onde os impios, onde Caim, onde o rico perverso eram atormentados juntamente com os demônios. É até aí que devemos descer, até a esses braseiros ardentes, até a esse caos horrível e a essas trevas eternas, visto que só lá perderíamos a Sua graça. Aniquilemos, a exemplo Seu, tudo o que somos, porque devemos considerar, meus amados irmãos, o que foi que Ele aniquilou em Si próprio.

«Como estava na forma e na natureza de Deus, diz São Paulo, não imaginou o que fosse para Ele um atentado ombrear com Deus; mas Ele próprio se aniquilou tomando a forma de escravo, depois de ter sido à semelhança dos homens» – Qui quum in forma Dei esset, non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo; sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus (Fl 2, 6-7)

Não foi, pois, somente a forma de escravo que Ele como que aniquilou em si mesmo; mas aniquilou tanto quanto pôde a forma de Deus, ocultando-a sob a forma de escravo e suspendendo, portanto, a Sua ação omnipotente e a efusão da Sua glória, levando a obediência até à morte, e até à morte da cruz (Humiliavit semetipsum factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis — Fl 2, 8); levando-a até ao túmulo, e só começando a erguer-se quando chegou ao último extremo da humildade. Não pensemos, pois, em exaltar-nos mais do que Ele, senão quando tivermos experimentado a sua completa ignomínia, e quando houvermos bebido todo o cálice das suas humilhações. Então não nos servirá Ele para queda, mas para elevação, para consolação e para alegria.

SEGUNDO PONTO

Mas, para nos lançarmos nestas ideias profundas, deixemo-nos confundir pela verdade da Sua doutrina.

Foi a segunda fonte de contradições que Ele teve de exaurir na terra. Nela só encontrou pecadores, e parecia que não deviam esses pecadores resistir a um Salvador como os doentes a um médico. Mas é que eles, sobre serem pecadores, não eram humildes. E, contudo, que havia de mais conveniente a um pecador do que a humildade e a humilde confissão das suas culpas?

Foi o que Jesus Cristo não conseguiu achar entre os homens. Encontrou fariseus cheios de rapinas, de de impureza e de comoção; encontrou doutores da lei, que a pretexto de observarem os mais pequenos preceitos com uma exatidão surpreendente, violavam os maiores. E o que os sublevou contra o Filho de Deus foi o que Ele próprio disse nestas palavras:

«Eu vim ao mundo como a luz; e os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más (11). Foi por isso que Jesus Cristo foi mais do que Moisés, mais do que Jeremias, mais do que todos os outros profetas, um objeto de contradição, de murmúrio e de escândalo para todo o povo. Este é profeta ou não? Este é o Cristo? Virá o Cristo de Nazaré? Virá qualquer coisa de aproveitável da Galileia? (12) Quando o Cristo vier, ninguém saberá donde vem; mas nós sabemos donde vem este (13). É um blasfemador e um ímpio que quer equiparar-se a Deus (14), que aconselha a que se não respeite o sábado (15). É um samaritano e um cismático (16); é um rebelde e um sedicioso, que não deixa pagar o tributo a Cesar (17); é um folgazão, e um glutão, que é amigo dos lautos banquetes dos publicanos e dos pecadores (18); tem espírito maligno, e é em seu nome que liberta os energúmenos (19)»

Em suma, é um intrujão, um impostor; o que encerrava o cúmulo de todos os ultrajes, e o que faz também que a Ele prefiram um ladrão de estrada e um assassino. Qual dos profetas esteve exposto a mais estranhas contradições? Assim era preciso, visto que apresentando aos homens a verdade que os condenava e apresentando-a de mais perto do que nenhum dos profetas fizera e com mais vivo esplendor, sublevava necessariamente contra Si todos os espíritos, até aos últimos excessos; e foi por isso que a rebelião nunca atingiu grau superior. Ele opera milagres que nunca pessoa alguma havia operado, e não desculpava de forma alguma a infidelidade dos homens. Mas quanto mais manifesta era a convicção, mais brutal e insensata devia ser a revolta. Ora vede até onde eles levam o seu furor: havia ressuscitado um morto de quatro dias em presença de todo o povo; e não só é isto que os determina a fazê-lo morrer, mas pretendem fazer morrer com Ele o que Ele havia ressuscitado, a fim de sepultarem num mesmo esquecimento o milagre, o que o havia operado e o que era objeto dele; porque ainda que eles soubessem perfeitamente que Deus, tendo operado tão grande milagre, podia reiterá-lo quando Lhe aprouvesse, atreviam-se a confiar em que não o fazia, nem alteraria tantas vezes as leis da natureza. Eis até onde eles levam as suas maquinações; e nunca a verdade estivera mais exposta às contradições, porque nunca ela fora mais clara, nem mais convincente, nem, por assim dizer, mais soberana. Foi então que se descobriram os pensamentos que muitos haviam ocultado nos seus corações. E qual foi o negro pensamento que então se descobriu? Que o homem não pode admitir a verdade; que prefere não ver o seu pecado para ter ocasião de persistir nele, a vê-lo e reconhecê-lo para ser curado; e finalmente, que ó maior inimigo do homem é o próprio homem. É este secreto e profundo pensamento do gênero humano que devia ser revelado na presença de Jesus Cristo e à Sua luz: Ut revelentur ex multis cordibus cogitationes.

Olhai, irmãos, não imiteis esses arrebatados. Tu entranhas-te no crime, pecador infeliz; e à medida que nele te entranhas, apagam-se-te as luzes da consciência; e mais uma vez se cumpre esta palavra de Jesus Cristo:

«Procurais matar-me, porque a minha palavra não cabe em vós» (20)

As luzes da tua consciência e essa secreta perseguição que no teu coração ela te faz não te comovem; por isso as queres apagar. As verdades do Evangelho são para ti um escândalo; começas a combatê-las, não com razão porque a não tens, e porque «os testemunhos de Deus são muito verossímeis» (21), mas por indiferença, por cegueira e por furor. Nos teus olhos e no fundo do teu coração só há uma luz frouxa; e a sua tibieza mostra que ela apenas brilha em ti por algum tempo:

Adhuc modicum lumen in vobis est – «A luz ainda vos brilhá por algum tempo»  (Jo 12, 35)

Além de que, meu amado irmão, é Jesus Cristo que te ilumina ainda e que ainda te fala com esse fraco sentimento; caminha, pois, com o auxílio dessa luz, para que as trevas não te envolvam. E quem anda nas trevas não sabe para onde vai (22); tropeça a cada passo, a cada passo topa numa pedra, e todos os caminhos são para ele precipícios.

TERCEIRO PONTO

Mas o que há aqui de mais extraordinário é que o último motivo do escândalo que sublevou o mundo contra Jesus Cristo, foi a Sua bondade. Se no tempo da sua paixão e em todo o curso da Sua vida foi vilmente ultrajado, foi porque «Ele se entregava à injustiça», como diz o apóstolo São Pedro – Tradebat autem judicanti se injuste (1 Pe 2, 23); e deixava-Se ferir impunemente, como um cordeiro inocente se deixa tosquiar e até se deixa conduzir ao altar para nele ser degolado como uma vítima. E, se opera milagres, é para fazer bem aos Seus inimigos, e não para impedir o mal que eles Lhe queriam fazer. Foi daí que proveio o grande escândalo que o mundo viu chegar a Israel, na ocasião em que apareceu Jesus Cristo. Mas eis que o verdadeiro escândalo cai no verdadeiro Israel e na Igreja de Deus. Na instituição dos Seus Sacramentos, Jesus Cristo não quis limitar a Sua bondade, e os cristãos também não quiseram limitar os seus crimes. Arguiram o Salvador da eficácia omnipotente do seu batismo, onde todos os crimes eram igualmente expiados; e Julião o Apóstata atreveu-se a dizer que isso era o mesmo que induzir a praticar o mal (Apud. S. Cyril Alex., lib. VII, Contra Julian). Mas a clemência do Salvador não para aqui. Novaciano e os seus sectários envergonharam-se disto, e procuraram encerrar a misericórdia do Salvador no batismo tirando todo o remédio aos que não se tinham aproveitado dele. A Igreja condenou-os, e a misericórdia que ela prega é tão sublime que ainda dá entrada para a salvação dos que violaram a santidade do batismo e mancharam o templo de Deus em si próprios. Refreemo-nos ao menos, e façamos penitência apenas uma única vez, como se fazia nos primeiros tempos. Mas a misericórdia de Jesus Cristo, irmãos, ainda vai mais longe, porque Ele não pôs limites à remissão dos pecados. Foi sem restrição que Ele disse:

«Tudo o que perdoardes será perdoado, e tudo o que absolverdes será absolvido» – Quaecumque solveritis… (Mt 18, 18)

E a todos os seus ministros disse na pessoa de São Pedro:

«Perdoareis não só sete vezes, mas até setenta vezes sete» – Domine quoties peccabit in me frater meus, et dimittam ei… usque septuagies septies (Mt 18, 22)

É que o preço do Seu sangue é infinito; é que a eficácia da Sua morte não tem limites. E é também este o grande escândalo que aparece todos os dias em Israel. Há quem diga: Eu continuo a pecar, porque espero fazer penitência. Quão insensato é este dizer! Certamente que fazer penitência não é mais do que ter arrependimento. Ora se nós nos havemos de arrepender de ter praticado uma ação, o melhor é não a praticar. Se a praticardes, ouvimos dizer todos os dias, haveis de arrepender-vos dela.

Mas para com Deus, o arrependimento é o objeto da nossa esperança; e como esperamos arrependermo-nos um dia, por isso não receamos pecar. Este absurdo pensamento devia, porém, ser igualmente revelado quando Jesus Cristo voltasse: Ut revelentur cogitationes. Mas, cristão, tu não pensas nisto quando dizes que hás de fazer penitência e que te hás de arrepender do teu desregramento e de todos os teus pecados, porque, aliás, alteras a natureza e introduzes um prodígio no mundo. Ora efetivamente o teu arrependimento não há de ser verdadeiro, pois não passará dum erro com que te hás de lisonjear no teu crime.

Tremei, pois, tremei, irmãos, e temei de abusardes do espírito da penitência que vos autoriza a pecar, para depois cometerdes esse pecado contra o Espírito Santo, que não se perdoa neste mundo nem no outro.

Porque enfim, se é certo que não há pecado que o sangue de Jesus Cristo não possa apagar e que a Sua misericórdia não possa perdoar, não é menos certo que haverá um que nunca será perdoado; e como não sabeis se será esse o primeiro que haveis de cometer, e que há, pelo contrário, grande motivo para recear que Deus se canse de vos perdoar visto que sempre abusais do seu perdão, receai tudo o que ofender uma bondade e que mudar em suplícios todas as graças que ela vos concedeu. Vinde contemplar todos os mistérios do Salvador; olhai para o lugar por onde eles vos podem causar ruína e para aquele por onde vos podem dar consolação e alegria; e em vez de considerardes a sua bondade como um titulo para mais facilmente o ofender, considerai-a como um motivo mais urgente para inflamar o vosso amor, a fim de que passando os vossos dias nas consolações que acompanham a remissão dos pecados, chegueis à bem-aventurada mansão donde o pecado e as lágrimas serão eternamente banidos. E esta a graça que vos desejo com a benção do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Assim seja.

Autores a consultar no dia de Nalal: Massilon, I, 135; de Mac-Carthy, I, 142; Lejeune, VI, 864; Lacordaire, Homílias; Monsenhor Freppel, Sermões; Monsenhor Dupanloup., etc.

Referências:

(1) A continuação do discurso prova claramente que era este o texto escolhido por Bossuet

(2) Et in signum cui contradicetur; et tuam ipsius animam pertransibit gladius, ut revelentur ex multis cordibus cogitationes (Lc 2, 35)

(3) Servite Domino in timore, et exultate ei cum tremore (Sl 2, 11)

(4) Ecce pono in Sion lapidem offensionis, et petram scandati: et omnis qui credit in eum non confundetur (Rm 9, 33)

(5) Ecce pono in Sion lapidem summum angularem… et qui crediderit in eum non confundetur (1 Pe 2, 6-7)

(6) Est beatus est qui non fuerit scandalizatus in me (Mt 6, 6)

(7) In principio erat Verbum, et Verbum era apud Deum, et Deus erat Verbum… Omnia per ipsum facta sunt (Jo 1, 1.3)

(8) Isto é, os neoplatônicos da Escola da Alexandria.

(9) Erat lux vera quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum (Jo 1, 9)

(10) Quod initium sancti Evangelii, cui nomem est secundum Joannem, quidam Platonicus, sicut a sancto sene Simpliciano, qui postea Mediolanensi ecclesiae praesedit episcopus, solebamus audire, aureis litteris conscribendum, et per omnes ecclesias in locis eminentissimis proponendum esse dicebat, Sed ideo viluit superbis Deus ille magister, quia Verbum caro factum est, et habitavit in nobis: ut parum sit miseris quod aegrotant, nisi se in ipsa etiam aegritudine extollant, et de medicina qua sanari poterant, erubescant. Non enim hoc faciunt ut erigantur, sed ut cadendo gravius affligantur (S. August., De Civit. Dei, lib. X, cap. XXX – Nota de Déforis)

(11) Et Verbum caro factum est (Jo 1, 14)

(12) Luz venit in mundum, et dilexerunt homines magis tenebras quam lucem; erant enim eorum mala opera (Jo 3, 19)

(13) Hic est vere propheta. Alii dicebant: Hic est Christus. Quidam autem dicebant; nunquid a Galilaea venit Christus? (Jo 7, 40-41)

(14) Hunc scimus unde sit: Christus autem quum venerit, nemo scit unde sit (Jo 7, 27)

(15) De bono opere non lapidamus te, sed de blasphemia; et quia tu, homo quum sis, facis teipsum Deum (Jo 10, 33)

(16) Non est hic homo a Deo, qui sabbatum non custodit (Jo 9, 16)

(17) Nonne bene dicimus nos quia Samaritanus es tu et daemonium habes?  (Jo 8, 48)

(18) Hunc invenimus… prohibentem tributa dare Caesari (Lc 23, 7)

(19) Ecce homo vorax et potator vini, publicanorum et peccatorum amicus (Mt 11, 19)

(20) Hic non ejicit daemones nisi in Beelzebud principe daemoniorum (Mt 12, 24)

(21) Quaeritis me interficere, quia sermo meus non capit in vobis (Jo 8, 37)

(22) Testimonia tua credibilia facta sunt nimis (Sl 92, 5)

(23) Qui, ambulat in tenebris nescit quo vadat (Sl 92, 5)

 

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 276-291)