Capítulo 42. Repouso e Meditação - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
O HOMEM moderno seria muito mais feliz se reservasse um pouco de tempo para meditação. Como o profeta do Antigo Testamento dizia: «Paz, paz e não há paz, pois ninguém se concentra no seu coração», o Evangelho diz-nos que o nosso Divino Senhor se afastara das multidões para se dirigir ao deserto, onde orava. A Marta, que estava demasiado preocupada com os seus afazeres, disse o Mestre que apenas uma coisa era necessária. Uma vida de fé e de paz de alma apenas pode ser cultivada por meio de isolamento periódico dos cuidados do mundo.

Há várias espécies de cansaço; cansaço do corpo, que pode ser remediado à sombra de uma árvore ou até tendo por travesseiro uma pedra; cansaço do cérebro, que precisa da incubação do repouso, a fim de que novos pensamentos surjam; mas, de todos eles, o mais difícil de remediar é o cansaço do coração, que pode ser curado apenas pela comunhão com Deus.

O silêncio alimenta o discurso; o retiro facilita o pensamento. Um contemporâneo de Abraão Lincoln diz-nos ter passado três semanas com este, logo após a batalha de Buli Run:

«Eu não podia dormir. Estava a repetir o papel que tinha de desempenhar num espetáculo público. Passava da meia-noite, ou melhor, aproximava-se a manhã quando ouviu sons graves que vinham do quarto, onde o presidente dormia. A porta estava entreaberta. Entrei instintivamente, e o que vi lá não mais poderei esquecer. Aí estava o presidente, ajoelhado diante de uma Bíblia aberta. A luz do quarto era muito discreta. Ele tinha as costas voltadas para mim. Por um momento fiquei silencioso, olhando maravilhado. Lincoln exclamava em tom suplicante e magoado: Senhor que ouviste Salomão na noite em que pediu inteligência e sabedoria, ouvi-me: eu não posso conduzir este povo, não posso dirigir os negócios desta nação sem o Vosso auxílio. Sou pobre, fraco e pecador. Senhor, que ouvistes a Salomão, quando ele clamou para Vós, ouvi-me e salvai esta Nação»

Gostaríamos de saber quantos funcionários públicos, sob a grande responsabilidade que lhes é imposta, alguma vez clamam a Deus, pedindo auxílio. Quando as Nações Unidas realizaram a sua primeira reunião em São Francisco, pelo receio de se ofenderem os ateus foi decidido guardar um minuto de silêncio, em vez de orar corajosamente a Deus, para iluminar e guiar as nações. No momento do insucesso de Pedro na pesca, Nosso Senhor disse-lhe:

«Faz-te ao largo»

É na altura dos nossos insucessos que a alma se deve afastar da costa.

O que o Salvador promete no retiro é «descanso para as vossas almas». Descanso é uma dádiva; não é a recompensa do trabalho, pagamento pela realização duma tarefa: é dom da graça. A cobiça, a inveja, a riqueza e a avareza põem o repouso ao nível das boas coisas do mundo; o verdadeiro repouso é a quietação das paixões, o domínio das ambições que se digladiam, a alegria de uma consciência em paz. Não há repouso sem que a vida se torne inteligível. Quase toda a intranquilidade da alma, nos nossos dias, resulta de se desconhecer por que se está aqui, ou para onde se vai, e não se reserva tempo para a solução deste problema. Não faz mesmo muito sentido a vida, sem que se saiba por que se vive.

A força para seguir viagem está sempre associada ao repouso interior; de outro modo, a energia constitui perigo de explosão e ação imprudente. Aqueles que servem a Deus, renovarão as suas forças. A renovação das forças é menos física do que espiritual. Uma alma cansada torna o corpo cansado, muito mais vezes do que um corpo cansado torna a alma cansada. O repouso que o Cristianismo ordena é menos cessação de trabalho do que libertação das ansiedades que resultam da culpa e da avareza. O restabelecimento espiritual por meio da oração, retiro, meditação, são os meios poderosos para restituir a harmonia a milhares de doentes nervosos. A vida, tal como a música, deve ter o seu ritmo de silêncio, bem como de som.

O repouso que o isolamento e a contemplação dão não é, apenas um repouso após a fadiga; é, exatamente, repouso na fadiga. A paz de Cristo não é uma planta de estufa; ergue-se para as tempestades; é paz para a batalha e alegria de consciência para aqueles que assaltam a sua própria consciência. O mundo não pode dá-lo, nem pode tirá-lo. Não é dado por circunstâncias exteriores; reina no coração; é um estado interior. Ter apreço pelos valores espirituais é ter repouso.

Voltar para o Índice do livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen

(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 166-168)