Meditação para o 4º Domingo do Advento. Preparação próxima ao Natal

Meditação para o 4º Domingo do Advento

Evangelho segundo São Lucas 3, 1-6

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto.

Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um batismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:

«Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.’»

Sumário

Para nos conformarmos com o Evangelho deste dia, que nos clama que preparemos o caminho do Senhor, que está próximo a nascer nos nossos corações, meditaremos:

1.° A obrigação de nos prepararmos mais cedo para a festa do Natal;

2.° A maneira de fazer bem esta preparação.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De passar os dias, que nos separam do Natal, em uma mais perfeita contemplação e com uma mais firme atenção em praticar bem as nossas ações ordinárias;

2.° De fazer voluntariamente a Deus todos os sacrifícios que a Sua graça nos inspirar, e de formar, à maneira de orações jaculatórias, frequentes desejos da vida de Nosso Senhor em nós.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas – Parate viam Domini, rectas facite semitas ejus (Lc 7, 4)

Meditação para o Dia

Adoremos o Verbo Encarnado no seio de Maria, suspirando pelo momento de Sua aparição na terra para nos salvar (1). Admiremos este grande mistério. de amor e de bondade, com que Deus se manifestou em carne para expiar os nossos pecados: mistério que o Espírito Santo justificou com tantos milagres; mistério que foi visto dos anjos, tem sido pregado aos gentios, crido no mundo, recebido na glória (2). Não é muito justo que nos preparemos mais cedo para celebrar um tal mistério na proximidade de sua solenidade?

PRIMEIRO PONTO

Obrigação de nos prepararmos mais cedo para a festa do Natal

Assim como em outro tempo Deus encarregou os Seus anjos de anunciar aos pastores o nascimento do Salvador, assim também encarregou a Igreja, desde o princípio do Advento, de dizer-nos:

Preparai- vos para receber o Senhor, que há de vir – Venturum Dominum, venite, adoremus (In Invit. Adv.)

Hoje a Igreja renova as suas instâncias:

Estamos próximos do momento solene, nos clama ela, preparai-vos melhor ainda – Dominus prope est: venite, adoremus (In Invit. Adv.)

Com efeito, como honraremos nós dignamente o Menino Jesus, se não nos recolhermos em nós mesmos à medida que se aproxima a festa? Os sentidos não distinguirão no presépio senão a fraqueza e pobreza, nada ali verão que mova. É preciso para isto uma provisão recente, se assim posso dizer, de fé e de amor, que saiba descobrir, nesse Menino, o Filho eterno de Deus, gerado antes da aurora nos esplendores dos santos, aquele que está sentado à mão direita do Pai, aquele que os anjos adoram, que os profetas denominam Emanuel, o Deus conosco, que os Apóstolos chamam o Verbo por quem tudo foi feito, aquele que sustenta tudo pela virtude de Sua palavra e que é o resplendor da glória.

O menino Jesus, que vem nascer para nós, tem grande desejo de nascer em nós; mas não o fará senão segundo a medida de nossa preparação durante estes abençoados dias. Aos corações bem preparados dará com abundância a paz prometida aos homens de boa vontade: paz com Deus, paz com o próximo, paz conosco e com a nossa consciência; dará o seu espírito de humildade e de mansidão de pobreza e de simplicidade, de obediência e de abnegação; graças preciosas próprias do mistério do Natal; mas aos corações mal preparados fechará o Seu coração e a Sua mão. Temamos esta desgraça.

SEGUNDO PONTO

Maneira de nos prepararmos mais cedo para a festa do Natal

Há para isto três meios: o recolhimento de espírito, a santidade da vida, o frequente uso das orações jaculatórias.

1.° O Recolhimento de Espírito

Nada afasta Deus de um coração como a distração, que submerge a alma em uma multidão de pensamentos e de quimeras,e por isto mesmo a perturba e a agita (3). À medida que se avizinha o grande dia, é preciso preservar mais o nosso coração de tudo o que distrai, pensar mais vezes no mistério do Natal, no amor do Deus do presépio, nos pios sentimentos e bons propósitos que deveremos oferecer-Lhe em reconhecimento de Seu amor e bondade.

2.° Santidade da Vida

Precisamos, durante estes dias, de vigiar mais sobre nós para evitar todo o pecado, consagrar todas as nossas ações ao amor do Menino Jesus, e praticá-las com este intuito o mais perfeitamente possível; precisamos de oferecer-Lhe cada dia alguns sacrifícios, por exemplo, o sacrifício de um desejo, de uma repugnância, de uma palavra de amor-próprio ou de mau humor, e fazer de todos estes sacrifícios como que um ramalhete de mirra para oferecer ao Menino Deus; precisamos, principalmente, de pedir ao Espírito Santo que forme em nós essa terna e fervorosa piedade que atraiu ao presépio Maria e José, os pastores e os magos, e que ali tem atraído e atrai ainda hoje tantas almas santas.

3.° O uso das Orações Jaculatórias

Isto é, dos santos desejos que chamam para a alma o Deus salvador, completará a nossa preparação. A Igreja no-los exprime pelos suspiros que ela toma dos patriarcas e profetas:

O céus, derramem o vosso orvalho desde essas alturas, e chovam as nuvens ao Justo – Rorate, caeli, desuper, et nubes pluant Justum (Is 45, 8)

Ó Salvador tanto desejado, oxalá rompais os céus e desçais até nôs – Utinam dirumpere caelos et descenderes! (Is 64, 1)

Rogo-vos, Senhor, que envieis à minha alma o seu Salvador – Obsecro, Domine, mitte quem missurus es (Ex 4, 13)

Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, é dai-nos aquele que há de salvar-nos – Ostende, nobis, Domine, misericordiam tuam, et salutare tuum da nobis (Sl 84, 7)

Assinalai as vossas misericórdias, vós, que salvais aos que esperam em vós  – Mirifica misericordias tuas, qui salvos facis sperantes in te (Sl 16, 7)

As belas antifonas do Advento nos subministram ainda outros suspiros semelhantes. Repitamo-los muitas vezes, e juntemos-lhe o suspiro de São João em seu Apocalipse:

Vinde, Senhor Jesus, vinde –  Veni, Domine Jesu (Ap 22, 20)

Temos nós uma firme vontade de nos prepararmos para a festa que se aproxima, pelos três meios que acabamos de meditar?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis (Símbolo niceno-constantinopolitano)

(2) Manifeste magnum est pietatis sacramentum, quod manifestatum est in carne, justificatum est in spiritu, apparuit angelis, praedicatum est gentibus, creditum est in mundo, assumptum est in gloria (1Tm 3, 16)

(3) Non in commotione Dominus (1 Re 19,11)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 97-101)