Meditação para o 2º Domingo do Advento. Segunda preparação para o Natal

Meditação para o 2º Domingo do Advento

Evangelho segundo São Mateus 11, 2

Naquele tempo, como João, estando no cárcere, tivesse ouvido falar das obras de Cristo, mandou dous dos seus discípulos para lhe dizer: És tu o que hás de vir, ou devemos esperar outro? Jesus respondeu-lhes: Ide contar a João o que vistes e ouvistes. Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressurgem, o Evangelho prega-se aos pobres; e bem-aventurado aquele que não se escandalizar por amor de mim. E logo que eles se foram, começou Jesus a falar de João ao povo, dizendo-lhe: Que fostes ver ao deserto? Acaso uma cana agitada pelo vento? Mas que fostes ver? Porventura um homem vestido de roupas delicadas? Os que vestem roupas delicadas habitam os palácios dos reis. Mas que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, que ele é um profeta, ainda mais que profeta; porque dele está escrito: Eis aí envio eu o meu anjo diante de ti, que te preparará o caminho.

Sumário

Vimos na primeira preparação para o Natal, que consiste em purificar a alma para a tornar própria para receber o Verbo Encarnado. Meditaremos hoje como, depois de a ter purificado, é preciso adorná-la e embelezá-la; e veremos que este adorno se compõe:

1.° De santos afetos para com o mistério da Encarnação;

2.° Dos atos da vida cristã especialmente próprios do santo tempo do Advento.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos conservar-nos nesse espírito habitual de contemplação, que facilita os piedosos afetos para com Deus;

2.° De praticar os atos de virtude que nos sugerir o Espírito de Deus.

O nosso ramalhete espiritual será hoje, como ontem, a palavra de Isaías:

“Preparai o caminho do Senhor” – Parate viam Domini (Is 40, 3)

Meditações para o Dia

Tributemos os nossos respeitos ao Verbo Encarnado no seio de Maria; adoremo-lO como o Desejado das nações; admiremo-lO como o Supremo Senhor, que o amor reduziu a uma espécie de aniquilamento (1); agradeçamos-Lhe ter Encarnado para nos salvar: e para suprir a nossa impossibilidade de lhe agradecer como merece, ofereçamos-Lhe os respeitos de Maria, dos anjos e de todos os santos do céu e da terra (2).

PRIMEIRO PONTO
Dos tantos afetos para com o mistério da Encarnação

Os santos afetos são o alimento e a vida da piedade. São o incenso lançado no fogo: conservam-lhe a chama. São o maná do deserto: adaptam-se a todos os gostos, isto é, a todas as necessidades da alma. São como o sabor de todos os mistérios: exprimem o seu suco e a sua graça, e os fazem correr como que espontaneamente na alma, que reflete. Por exemplo, como contemplar o Verbo Encarnado no seio de Maria sem dele falar às três pessoas divinas, e dizer a cada uma delas a nossa admiração e o nosso louvor pela parte que tomaram nesse grande mistério? Como não dizer ao Pai:

«Ó Pai santíssimo, quanto Vos felicito por este primeiro templo cristão, que construístes para Vós no seio de Maria, e onde recebestes a primeira adoração digna de Vós! Quanto Vos agradeço ter-nos dado o Vosso único Filho e ter sacrificado o inocente para salvar o homem culpado!»

Como não dizer ao Verbo Encarnado:

«Ó Filho eterno de Deus, com que delícias Vos contemplo nesse tabernáculo vivo, em que vindes receber os nossos respeitos, nesse trono, em que Vos comprazeis de ser adorado e bendito, nesse leito de justiça, em que gostais de perdoar, nesse leito de repouso, em que quereis ser felicitado, nesse paraíso terreal, em que quereis ser amado! Ah! Diante desse santuário do amor, eu só posso falar-Vos de amor. Eu dou-me a Vós para sempre. Entrego-Vos tudo o que sou, para que façais de mim tudo o que Vos aprouver. Chamo a mim o Vosso espírito para me dirigir, o Vosso coração para me animar, a Vossa santa vida para ser a minha vida. Eu amo-Vos, mas fazei que Vos ame sempre mais; ainda mais amor, Senhor, sempre mais; porque Vos devo tudo; sem Vós estava perdido; por Vós serei salvo, se eu quiser»

E como não dizer ao Espírito Santo:

«Ó Espirito divino, que formastes este corpo tão puro, que lhe juntastes uma alma tão bela e os unistes ambos ao Verbo em unidade de pessoa, glorificado, louvado, amado sejais por causa deste mistério, que é obra Vossa!»

Como finalmente não dizer a Maria:

«Ó Mãe de Deus, quão sublime, quão admirável sois! Em vós estão concentrados todos os esplendores dos santos, todas as perfeições dos anjos; participais de toda a santidade de vosso Filho, que vive em vós, e em quem vós viveis. Admiro em vós a sua humildade, a sua obediência, a sua oração contínua. Vós nada fazeis senão em Jesus e por Jesus. Ó minha Mãe, quão feliz sou por contemplar, louvar, e bendizer a vossa santidade!»

É com estes afetos e outros semelhantes, que a alma se prepara dignamente para a grande festa do Natal. Proponhamo-nos preparar-nos do mesmo modo.

SEGUNDO PONTO
Atos da vida cristã próprios do santo tempo do Advento

Para conformar a nossa vida com um tempo tão santo, devemos cuidar em aperfeiçoar as nossas ações usuais, em ser mais circunspectos nas nossas palavras, mais atentos às nossas orações, e principalmente aos atos das virtudes que o profeta Isaías indica como meios de preparar o caminho do Messias, que está próximo a vir. “Endireitai as vossas veredas” – Rectas facite… semitas Dei nostri, diz ele (Is 40, 3); isto é, ide para Deus com uma reta intenção, não buscando senão Deus, não tendo em vista senão agradar a Deus. “Todo o vale seja alteado e todo o monte ou outeiro rebaixado” – Omni vallis exaltabitur et omnis mons et collis humiliabitur (Is 40, 4);  isto é, exercitai-vos na humildade, na simplicidade, na moderação. Os caminhos tortos se tomem em estrada direita; isto é, deixai os caminhos do mundo, que não são senão dobrez e mentiras, para seguir somente os de Deus, que são verdade e justiça. “Os caminhos escabrosos se aplanem” – Erunt prava in directa, et aspera invias planas (Is 40, 4); isto é, corrigi a rispidez do vosso gênio, para ser mansos e benévolos para com todos (3). — A reta intenção e a simplicidade, a humildade e, a mansidão, são, portanto, as virtudes pelas quais devemos preparar o caminho de Jesus Cristo, se quisermos que venha aos nossos corações. Esta preparação nos custará sacrifícios; mas Jesus caminha na nossa frente, e foi o primeiro a fazer muito mais do que nos pede; mas o caminho não é penoso senão à covardia, que hesita; é suave para quem o trilha resolutamente. A alegria da boa consciência faz que nem sequer se sinta que ele é penoso. Acreditemos os santos, que o experimentaram.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Semetipsum exinanivit, formam servi accipiens (Fl 2, 7)
(2) Amemus, redamemus
(3) Omnem ostendentes mansuetudinem ad mones (Tt 3 ,2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 49-52)