Meditação para o 10º Domingo depois do Pentecostes. O que é Humildade?

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 18, 9-14

9Disse também a seguinte parábola, a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais:

10«Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. 11O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: ‘Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. 12Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo.’

13O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.’ 14Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»

Meditação para o 10º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos considerado todas as ações que formam parte da vida espiritual, meditaremos agora sobre as virtudes que constituem esta vida. Começaremos pela humildade, de que o Evangelho faz tão belo elogio, e a que podemos chamar a primeira de todas as virtudes, porque é a sua base. Veremos na nossa meditação:

1.° O que devemos entender por humildade;

2.º Quanto é razoável a humildade assim entendida.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos da humildade a nossa predileta virtude, e de a pedirmos a Deus com instância;

2.° De não deixarmos passar nenhum dia sem fazer algum ato de humildade, ou interior ou exterior.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Espirilo Santo:

“Humilhai-vos em todas as coisas, e achareis graça diante de Deus” – Humilia te in omnibus, et coram Deo invenies gratiam (Ecl 3, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos o Filho de Deus descido do céu à terra para nos ensinar a humildade com a sua celestial doutrina, e ainda mais com os seus exemplos, porque toda a sua vida, desde Belém até ao Calvário, foi uma lição contínua de humildade. Reconheçamos que, tendo-se a sua eterna majestade humilhado constantemente, seria para nós uma intolerável imprudência encher-nos de soberba e vaidade. Tributemos honra e glória a este Deus humilhado.

PRIMEIRO PONTO

O que se deve entender por Humildade

A humildade consiste em nos desprezarmos a nós mesmos, porque nos reconhecemos sumamente desprezíveis, e em levar a bem que os outros nos desprezem, porque é justo que o que é desprezível seja desprezado. Por conseguinte não consiste nem em proferir palavras humildes contra o que se pensa, nem em apresentar um exterior modesto, que revela uma alma que se estima e deseja captar a estima dos outros. Aquele que é humilde não quer e não ama senão o que é verdade, só quer e ama a verdade ainda quando a verdade o humilhe e confunda.

Diz de si para si: Eu nada tenho que me pertença, a minha inteligência foi formada por Deus, que m’a pode tirar a cada momento; basta um pequeno desarranjo do cérebro para que o homem mais inteligente enlouqueça, e o mais sábio perca toda a sua ciência e razão. Não tenho virtude própria: se alguma há em mim, é devida à graça, e a menor tentação pode destruí-la.

O meu mesmo corpo não me pertence: Deus fê-lo tal qual é, emprestou-o, e o menor acidente pode alterar a sua forma ou formosura. A este nada de todo o meu ser juntei o pecado, que me tornou digno dos eternos desprezos de todo o inferno. E para cúmulo de miséria, sou incapaz de todo o bem, até de um pensamento ou palavra útil à salvação; capaz de todo o mal, porque, diz Santo Agostinho, não há pecado que um homem cometa, que outro homem não seja capaz de cometer, se a graça de Deus o não impedir.

Ora, em tais condições, eu não posso estimar-me, bem querer ser estimado sem injustiça e mentira; devo desprezar-me, arriar o desprezo, a obscuridade e a humilhação por amor da verdade, que me clama, no âmago da minha consciência, que é esta a sorte do nada e do pecado. Devo por conseguinte remover todo o pensamento de soberba, de amor-próprio, de ambição, de afetação e de melindre. Devo alegrar-me de ser nada, e de ser tido em conta de nada.

É assim que, até ao presente, tenho compreendido a humildade?

SEGUNDO PONTO

A Humildade bem entendida é eminentemente razoável

Porquanto, que mais razoável que persistir na verdade? E não seria mentir a nós mesmos, não querer reconhecer o que somos, porque nos desagrada, como se bastasse não querermos, para mudar a nossa própria natureza? Deus, autor de todo o bem, semeou o bom grão no campo da nossa alma; e nós, únicos autores de tudo o que é mal, semeamos nele o joio: é admissível que nos gloriemos, e digamos:

Esta messe é obra nossa?

Que mais razoável ainda cortar a raiz do mal, logo que a conhecemos? Ora as nossas más paixões, a soberba, a ambição, a vaidade, a cobiça das riquezas e outras, que nos fazem cometer tantos pecados, que nos tornam tão desgraçados com as decepções que nos atraem, têm todas uma raiz comum, que é a estima própria com o desejo de ser estimado; e a humildade corta esta raiz.

Finalmente, que mais razoável que firmar-nos antes sobre uma coluna inabalável do que sobre uma frágil cana? Ora é o que faz o homem humilde. Tendo consciência da sua fraqueza, não se fia em si, não conta com as suas forças, e não se arrisca, confia só em Deus, que prometeu o seu auxílio a quem pusesse a sua confiança nEle só; e por isso tira a sua força de Deus, a ponto de dizer com o Apóstolo:

“Tudo posso naquele que me conforta” – Omnia possum in eo qui me confortati (Fl 4, 13);  “quando estou enfermo, então estou forte” – Cum infirmor, tunc potens sum (2Cor 12, 10)

O soberbo não ousa empreender coisa alguma, ou, se a empreende, perturba-se, inquieta-se na execução, e esmorece diante da menor dificuldade; o seu amor-próprio fá-lo temer a humilhação do mau exilo. Ao contrário, o homem humilde, depois de ter consultado a prudência, vai por diante, olhando para Deus, em quem põe toda a sua confiança (1). Firma-se sobre a coluna, que é Deus, não sobre a frágil cana, a miséria humana, e por isso é capaz das maiores coisas.

Peçamos a Deus humildade, que é a base da sabedoria, da razão e do bom senso.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) In Deo meo transgrediar murum (Sl 17, 30)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 63-67)