Meditação para a Duodécima Sexta-feira depois de Pentecostes. Décima Sétima razão de sermos Humildes: O Amor-próprio é um muro de separação entre Deus e o homem, e é incompatível com toda a Virtude

Meditação para a Duodécima Sexta-feira depois de Pentecostes

Décima Sétima razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma décima sétima razão de sermos humildes; e é:

1.° Que o amor-próprio é um muro de separação entre Deus e nós;

2.º Que o amor-próprio não é compatível com nenhuma virtude.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De preferirmos sempre o que nos humilha ao que nos exalta;

2.º De evitarmos o máximo possível as ocasiões de ser vistos e distinguidos.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Não nos façamos cobiçosos da vanglória” – Non efficiamur inanis gloriae cupidi (Gl 5, 26)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor sofrendo durante a sua vida apostólica todos os vitupérios que Lhe dirigem. Alguns diziam com razão:

“É um profeta, é o Cristo”

Mas outros acrescentavam:

“Não, não é: é um embusteiro; é um homem que gosta do vinho, e da boa mesa; é um samaritano, um herege, um ímpio, um inimigo do templo e do povo santo. Se livra os possessos, é em nome de Belzebu. Ele mesmo é um possesso. Pode vir de Nazaré alguma coisa boa? Certamente este homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado”

E no meio de todos estes vitupérios, Jesus Cristo cala-se; recebe a humilhação e oferece-a a seu Pai em expiação do nosso melindroso amor-próprio. Admiremos, demos graças, imitemos.

PRIMEIRO PONTO

O amor-próprio é um muro de separação entre Deus e nós

1.° A experiencia mostra que, quando sofremos com paciência e resinação a humilhação, Deus se aproxima de nós e nos unimos a Ele, e que quando nos causam prazer a estima e o louvor, e aversão o desprezo e vitupério, Deus se afasta de nós e nos separamos dEle. A razão disto é porque a estima e o louvor, em que nos comprazemos, aumenta a nossa soberba, que Deus detesta; e o desprezo bem recebido aumenta a nossa humildade, que Deus preza.

2.° O amor-próprio distrai-nos de Deus. Basta que a alma, que a principio só tinha em vista Deus e queria agradar-Lhe, chegue a pensar que a contemplam, a louvam, a admiram, para que imediatamente se desvie, se distraia de Deus, e se disponha a obrar por vanglória. Todo o louvor ou sinal de estima, não sendo desaprovado por uma sincera humildade, distrai, preocupa, seduz o coração, deslumbra-o, enleva-o. É uma espécie de encanto que nos persegue nas nossas orações, nas nossas obras e intenções, nos separa de Deus e nos faz esquecer o céu. É o que levou um autor a dizer:

“Desconfio de uma virtude que tem numerosos espectadores: a menor vista dos olhos pode fazer-lhe uma mortal ferida”

Temos nós até ao presente compreendido bem este perigo e fugimos dele?

SEGUNDO PONTO

O amor-próprio não é compatível com nenhuma virtude

Com efeito, que virtude poderia compadecer-se com o amor-próprio?

Seria a fé? Mas a fé quer que tenhamos o nosso espírito por um ignorante, que nada entende da ordem sobrenatural, e que não pode sem temeridade escrutar objetos superiores à sua compreensão; que, por conseguinte, deve aceitar com a simplicidade de um menino, sem discutir nem examinar, o que lhe diz a Santa Igreja. Ora, aquele que não é humilde, não sabe assim submeter-se: daí dúvidas e tentações contra a fé.

Seria a caridade? Mas aquele que se estima mais a si do que aos outros, julga que lhe é devida toda a preeminência, que lhe pertence a melhor parte, que devem obtemperar às suas decisões, ceder aos seus desejos: ora tudo isto é incompatível com a caridade.

Seria a sabedoria e a prudência? Mas aquele que forma boa opinião de si, expõe-se imprudentemente a todos os embaraços e perigos, prefere as suas ideias a todos os conselhos dos sábios, constitui-se mestre sobre todas as questões, e fala como doutor.

Seria o conhecimento de si próprio? Mas o bom conceito que fazemos do nosso mérito, como um prisma posto diante de nossos olhos, muda-nos a cor dos objetos, e impede de nos vermos tais quais somos. Temos defeitos que repugnam a toda gente, e somos os únicos a não os suspeitar sequer. Não queremos até que no-los advirtam; a mais moderada advertência nos indigna e irrita.

Seria finalmente o amor de Deus? Mas o amor divino não é compreendido senão pela alma que se despreza. Só é dado àquele, que sente a sua baixeza e profunda miséria, apreciar quanto é preciso que Deus seja bom, misericordioso e amoroso, para abater a sua grandeza até à nossa baixeza, a sua santidade até à nossa fragilidade, a sua bondade até à nossa ingratidão. Então, e somente então, exclama-se com São Francisco de Assis, o coração abrasado em amor:

“Quem sois vós, e quem sou eu, meu Deus?” – Quis tu, Domine, quis ego?

Ou com Santo Agostinho:

«Ó meu Deus! O abismo das minhas misérias revela-me o abismo das vossas misericórdias. Oh! Quão bem mereceis o meu amor pelo amor que tendes a uma criatura tão miserável como eu!”

Deploremos diante de Deus o obstáculo que o amor-próprio pôs em nós até ao presente à prática de todas as virtudes.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 120-123)