Meditação para a Quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma. Maneira de fazer o Exame de Consciência

Meditação para a Quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos na maneira de fazer o exame de consciência, e veremos:

1.° Os caracteres deste exame;

2.° Os atos que devem acompanhá-lo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De observarmos no nosso exame as regras indicadas pelos santos;

2.º De o fazermos com uma sincera dor das nossas culpas e com um firme propósito de emenda.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do santo rei Ezequias:

“Repassarei diante de vós pela memória toda a minha vida com amargura da minha alma” – Recogitabo tibi omnes annos meos in amaritudine animae meae (Is 28, 15)

Meditação para o Dia

Adoremos em Jesus Cristo o perfeito conhecimento que tem dos nossos pecados. Nem um só Lhe escapa; conhece todas as suas circunstâncias, penetra toda a sua malícia: muito diferente dos homens, que não descobrem muitas vezes senão as aparências, que se deixam surpreender pelas prevenções e ficções do amor-próprio. Louvemos este amável Salvador, que se digna fazer-nos participantes da Sua divina luz, para conhecermos a fundo todos os nossos pecados.

PRIMEIRO PONTO

Caracteres do Exame de Consciência

Este exame deve fazer-se com exatidão, rigor e sossego.

Com exatidão, isto é, que deve abranger:

1.º O mal que se cometeu, o bem que se devia fazer e que se não fez, o bem até que se fez mal;

2.° Os pecados para com Deus, para com o próximo, para conosco; os pecados externos, provenientes dos sentidos, principalmente da língua; os pecados internos, que são os pensamentos, os desejos, as inclinações, as intenções que não se dirigem a Deus;

3.º O número de vezes que pecamos, o princípio ou a origem desses pecados, as suas circunstâncias e consequências.

Para alcançar esta exatidão, compreende-se que convém empregar uma solicita investigação, não parar na superfície mas penetrar até ao fundo das coisas. É assim que fazemos?

Com rigor, isto é, que, sem ouvir o amor-próprio ou a ternura natural, que nos induz a desculpar-nos, a ocultar as nossas culpas a nós mesmos, ou ao menos a minorá-llas, devemos examinar-nos como um juiz examinaria um réu, ou como nós mesmos examinaríamos um estranho. Quem se examina com demasiada indulgência não vê muitas vezes senão ninharias onde há culpas graves: por exemplo, em certas maledicências, aversões ou invejas; em certas despesas de luxo, certas perdas de tempo, certas vaidades e certos desejos de se fazer conhecer.

Não nos enganamos frequentes vezes sobre muitos pontos, por não empregarmos bastante rigor nos nossos exames de consciência?

Com sossego, isto é, que não devemos atormentar a nossa consciência com o receio de esquecer algumas culpas; mas proceder a este exame com a tranquilidade de espírito do administrador que põe em ordem as suas contas, do juiz que instrui um processo, do médico que estuda um doente. Para que perturbarmo-nos, inquietarmo-nos? Uma falta de memória não é imputável a pecado. Quem tem a reta intenção de dizer tudo, um sincero desejo de se dar a conhecer, uma vontade bem decidida de nada encobrir, e emprega no exame tempo razoável, diz quanto é preciso. Deus não exige que digamos tudo o que fizemos, mas o que nos lembra; e tudo o que esquecemos é perdoado, como se o declarássemos.

Consolador pensamento muito próprio para nos obrigar a fazer os nossos exames de consciência com sossego, liberdade e simplicidade de coração!

SEGUNDO PONTO

Atos que devem acompanhar o Exame de Consciência

Este exame de pouco nos serviria, se não fosse senão um estudo filosófico a respeito do estado da nossa consciência. Para que nos seja verdadeiramente útil, deve ser acompanhado de três principais exercícios de piedade:

1.° Antes do exame, convém pormo-nos na presença de Deus, adorá-lO como nosso juiz, conservarmo-nos humildemente a Seus pés como pobres delinquentes, e pedir-Lhe a Sua luz, que é a única que pode descobrir as nossas culpas sem despertar as nossas paixões.

2.° Depois do exame, convém excitarmo-nos ao arrependimento das nossas culpas, deplorar tê-las cometido, formar firme propósito de não as tornar a cometer, e particularizar o que fizermos para isso: as resoluções vagas e muito gerais nenhum resultado têm.

3.° Convém pormo-nos no estado em que desejaríamos achar-nos na hora da morte, e terminar unindo-nos ao coração de Jesus Cristo, a esse coração tão cheio de horror ao pecado e de amor para com a penitência, que é a expiação do pecado.

É deste modo que fazemos os nossos exames de consciência? É por não cumprirmos estas santas práticas que tantos exames de consciência não nos têm mudado. Condenamos o pecado sem condenar o pecador, e ficamos sempre os mesmos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 102-105)