Meditação para a Décima Oitava Segunda-feira depois de Pentecostes. Felicidade que dá a Mortificação

Meditação para a Décima Oitava Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Concluiremos as nossas meditações sobre a mortificação, considerando:

1.° A felicidade que goza a alma mortificada nas suas relações com o próximo;

2.° A felicidade que acha em si mesma.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não deixarmos um só dia de praticar algum ato de mortificação, seja da vontade, seja do gênio ou do amor-próprio; e fixaremos dois desses atos para o dia;

2.° De obedecermos ao Espírito Santo praticando todos os atos que nos sugerir, como sacrificar um capricho, um desejo, um prazer.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“Deixai tudo e achareis tudo. Abandonai a vossa concupiscência e tereis a paz” – Dimitte omnio et invenies omnia. Relinque cupodinem et invenies requiem (III Imitação 32, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor cheio de estima e de amor para com a mortificação. Era-Lhe fácil nascer na opulência, viver nas delícias, morrer sem dor; e todavia quer, por sua escolha, nascer em um presépio, viver em contínuos trabalhos, e morrer numa cruz. Oh! Quão admirável é esta escolha! Como nos revela toda a excelência da mortificação, essa incomparável virtude que nos obtém a felicidade nas relações com o próximo, e no-la faz achar em nós mesmos! Demos graças a Nosso Senhor.

PRIMEIRO PONTO

A alma mortificada acha a felicidade nas relações com o próximo

A mortificação é o segredo para estar bem com toda a gente. Nunca há discórdia, porque o homem mortificado acomoda a sua vontade e o seu gênio à vontade e ao gênio dos outros. Nunca há altercação, porque, não julgando que a sua opinião seja a única regra da verdade, não sabe disputar, e a sua conversação é sempre amena, tranquila, cheia de encantos. Nunca há rivalidades e contendas, porque prefere ceder o seu direito a mantê-lo à custa da caridade. Por isso todos o estimam e amam; e como ele cuida em fazer a felicidade dos outros, os outros cuidam em fazer a dele.

Sucede de diverso modo com o homem imortificado, que quer sempre que prevaleça a sua vontade, o seu gênio, o seu interesse, a sua opinião. Não encontra por toda a parte senão disputas e altercações; senão descontentamentos ou ódios; senão afrontas ou desenganos, que lhe ferem o amor-próprio, causados pelo conflito dos interesses, das vontades, dos gostos e dos gênios, por toda a parte onde não reina a mortificação. Assim este homem, que nenhuns desgostos quer sofrer, recebe-os de todos os lados; afasta os corações com a sua altivez e presunção; com o propósito de não prestar serviço algum, que o incomode; com o seu amor-próprio, que busca sempre o que lhe é mais cômodo, sem se importar com os incômodos dos outros; finalmente, com as suas palavras muitas vezes ásperas e desabridas, com o seu semblante carregado, com a sua impaciência e cólera.

Examinemos a nossa consciência a este respeito.

SEGUNDO PONTO

À alma mortificada acha felicidade em si mesma

O homem mortificado reputa-se sempre feliz. Mude tudo em redor dele; esteja na abundância ou na miséria; em um lugar ou em outro, está contente em toda a parte, porque a nada tem apego, não deseja senão agradar a Deus, que ele vê, adora, e ama em todas as coisas. Os objetos criados não podem perturbá-lo, porque Deus é tudo para ele, e diz gostoso consigo mesmo:

Deus só basta; quem possui a Deus possui tudo!

Eis a razão porque os santos têm sido desde este mundo os mais felizes dos homens. Superiores a todos os acontecimentos, passavam os dias numa independência e tranquilidade inalteráveis; tinham uma paz contínua, uma serenidade sempre igual; não se sentiam agitados pelos desejos, e ainda menos pelas paixões; e nenhum descontentamento lhes anuviava a alma.

«Eu pouco desejo, diz um deles, e o pouco que desejo, desejo-o muito pouco»

Nestas breves palavras, que admirável segredo de ser feliz! Com a sua prática, quantas agitações, quantos desgostos se evitam! Que ditosa liberdade! Que deliciosa paz se adquire! (1)

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Qui simplici oculo quietius? Et quid liberius nil desiderante in terris? (III Imitação 31, 1)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 44-46)