Meditação para a Décima Quinta Terça-feira depois de Pentecostes. Excelência da Virtude da Penitência

Meditação para a Décima Quinta Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Consideraremos na nossa oração:

1.º A excelência da virtude da penitência;

2.° As vantagens que os verdadeiros penitentes tiram das suas quedas.

— Tomaremos a resolução:

1.° De examinarmos, depois de cada obra, os defeitos que tem, e de os repararmos fazendo melhor a obra seguinte;

2.° De aceitarmos de boamente e por penitência todas as tribulações que sobrevierem durante o dia.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Fazei frutos dignos de penitência” – Facite fructus dignos paenitentiae (Lc 3, 8)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo, o penitente por excelência de toda a Igreja: penitente no seio de Maria, onde expia os nossos pecados; penitente no presépio, onde as suas lágrimas lavam as nossas máculas; penitente em Nazaré, onde sofre com uma vida laboriosa a pena dos nossos pecados; penitente em Getsêmani, onde chora as iniquidades do mundo com lágrimas de sangue; penitente no Pretório e no Calvário, onde, como vítima dos crimes da terra, entrega o seu corpo aos tormentos e à morte. Amemo-lO e louvemo-lO neste estado, a que o reduziu o Seu amor para conosco.

PRIMEIRO PONTO

Excelência da Virtude da Penitência

Nosso Senhor preza tanto esta virtude, que no Evangelho fala muitas vezes dela com elogio. Prega-o em todos os lugares e a toda a classe de pessoas. Por mais santo e inocente que Ele seja de Si, não quer ter senão uma vida extremamente penitente, para nos mostrar a excelência da virtude da penitência e o seu grande mérito perante Deus. Todos os santos, entrando nos intuitos de Nosso Senhor, deram particular apreço à penitência. Nenhum há que a não honrasse e praticasse; nenhum, que não aceitasse com amor, por penitência, todas as provas da vida, todas as ocasiões de mortificar a carne e de domar as suas paixões.

É porque efetivamente a penitência, considerada em si mesma, é de uma admirável excelência. Destrói o império do demônio nas almas, para nelas restabelecer o reino de Jesus Cristo. De escravos de Satanás, faz-nos filhos de Deus; de culpados, faz-nos justos; de vítimas do inferno, faz-nos herdeiros do céu, coerdeiros de Jesus Cristo, e enche de alegria o céu e a terra: obtém-nos, com o perdão das nossas culpas, a glória eterna (1), diz São Cipriano. São estes os belos sentimentos de estima e amor, que temos para com a penitência? Não a aborrecemos, ao contrário, a ponto de olharmos como uma vida desgraçada a vida de penitência; a ponto de encarar como um tempo triste e desagradável a Quaresma, e qualquer outro tempo que a Igreja destine à penitência? Não temos escarnecido os que a praticam? Não temos pensado e ousado dizer que a penitência é incompatível com a saúde, e que macerar o corpo, como os santos penitentes, era ser homicida de nós mesmo?

SEGUNDO PONTO

Vantagens que os verdadeiros penitentes tiram das suas quedas

Deus, por sua infinita bondade, permite que os verdadeiros penitentes achem nos seus mesmos pecados as maiores vantagens para a sua salvação (2). As suas quedas tornam-os mais humildes, convencendo-os mais das suas fraquezas e fragilidade; inspiram-lhes uma desconfiança de si mesmos, que os leva a ser mais acautelados, a recorrer mais vezes pela oração a Nosso Senhor e à Santíssima Virgem. Excitam-os a cumprir melhor as suas obrigações; a reparar mais vezes as suas quedas, seguindo mais apressurados o caminho da salvação (3); a compensar o mal passado com as numerosas obras presentes, de sorte que haja superabundância de justiça onde tinha havido antes abundância de pecado, e façam dez vezes mais peia glória de Deus do que tinham feito contra ela (4). Dão-lhe a experiência, que lhes ensina a precatar-se do lado por onde o pecado entrou no seu coração, como o governador de uma praça, que a fortifica do lado fraco, por onde foi já uma vez surpreendida. Finalmente, operam na alma essa penitência, de que fala São Paulo, a qual leva a evitar com mais cuidado as ocasiões do pecado; a ter mais aborrecimento à própria vida, mais zelo pela perfeição, mais temor do desagrado de Deus e mais desejo de satisfazer à sua justiça (5). É destarte que o que há em nós de mais desprezível pode, se quisermos, servir-nos como de escada para nos elevarmos a Deus (6); e que as nossas mesmas quedas, se soubermos aproveitar-nos delas, podem vir a ser para nós meios de perfeição e instrumentos de salvação. Cada pecado que cometemos, deve fazer-nos evitar muitos outros. Por exemplo, faltei à caridade para com o próximo; deduzirei daí a resolução de ser mais benéfico, mais manso e humilde para com todos. Cedi a um pensamento de amor-próprio; tirarei daí a conclusão, que devo diligenciar incessantemente ser muito humilde. Desta forma o mal se tomará em nosso bem.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Non salum veniam Dei meretur, sed gloriam

(2) Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28). Etiam peccata (Santo Agostinho, Solil. 33)

(3) Santo Ambrósio, Apolog. David

(4) Sicut fuit sensus vester ut erraretis a Deo, deciet tantum iterum convertentes requiretis eum (Bar 4, 28)

(5) Quantam in vobis operatur sollicitudinem, sed defensionem, sed indignationem, sed timorem, sed desiderium, sed aemulationem, sed vindictam (2Cor 7, 11)

(6) Vitia ipsa calcantes et de vitis ipsis nobis scalam facientes (Santo Agostinho, Sermão 76, de Temp.)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 178-181)