Meditação para a Décima Quinta Quarta-feira depois de Pentecostes. Espírito de Penitência

Meditação para a Décima Quinta Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o espírito de penitência e veremos que consiste:

1.° Na dor e pesar dos nossos pecados e das nossas misérias presentes;

2.º No firme propósito de emenda.

— Tomaremos a resolução:

1.° De nos entregarmos de toda a alma ao espírito da penitência, chorando amargamente o nosso triste passado, e lamentando humildemente as nossas culpas e misérias presentes;

2.° De fazermos alguns atos particulares de penitência.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“O meu pecado diante de mim está presente” – Peccatum meum contra me est semper (Sl 50, 5)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo, o mais perfeito dos penitentes, que se digna tomar sobre Si os nossos pecados, chorá-los com lágrimas de sangue no horto das Oliveiras, e posto de joelhos, com o rosto em terra, oferecer a reparação deles a seu Pai. Que louvores e graças não Lhe devemos dar por tão grande bondade?

PRIMEIRO PONTO

Da dor e pesar dos nossos pecados passados e das nossas misérias presentes

Um dos nossos maiores males é encobrir a nós mesmos quão pecadores e miseráveis somos; é estimarmo-nos, quando deveríamos cobrir-nos de confusão lembrando-nos dos nossos pecados, a ponto de nos envergonharmos de comparecer diante de Deus, e de viver entre os santos filhos da Igreja, a ponto de olharmos a solidão como o lugar onde mereceríamos sempre (1), a ponto de termos sempre presente esta vergonha (2). O verdadeiro penitente nunca perde de vista os seus pecados, nem deixa de os deplorar (3); considera-se réu de lesa-majestade divina e acha justo que o desprezem, que o tratem com rigor, que todas as criaturas se levantem contra ele; que o mesmo Deus o experimente com aflições, desgostos, frouxidões de espírito, desconsolações; e olha como grande favor não ser abandonado de Deus eternamente. Temendo, apesar disto, não ter bastante espírito de penitência, não cessa de o pedir ao céu: Senhor meu Deus, diz ele com Santo Anselmo, dai ao meu coração uma sincera penitência, à minha alma uma verdadeira contrição, a meus olhos uma fonte de lágrimas (4); ou com Santo Agostinho: Ai de mim, que pequei! As minhas culpas fazem-me tremer, e delas me envergonho na vossa presença (5); e desejoso de expiar os seus pecados, aceita de boa vontade todas as penitências, principalmente as que não são da sua escolha, que são contrárias às suas inclinações, mais ainda as que estão ligadas ao seu estado; finalmente, a mesma morte como justo castigo de suas culpas. Ah! Quantos cristãos, muito diferentes destes verdadeiros penitentes, nunca entram em si, vivem contentes consigo mesmos sem se humilhar e se confundir nem diante de Deus, nem diante dos homens, nem no fundo de sua consciência? Desgraçados os que se cegam, que desprezam a penitência, e seguem sempre o mesmo modo de vida, sem se emendar! Não somos nós deste número?

SEGUNDO PONTO

Do firme propósito da emenda

Se o primeiro elemento da penitência é ter dor dos pecados, o segundo é estar firmemente resolvido a não reincidir. Um é inseparável do outro, pois a sincera detestação do pecado traz consigo essencialmente a vontade de não o tornar a cometer. Não há, pois, penitência verdadeira e admissível perante a justiça divina, senão quando se tem um firme propósito de não tornar a ofender a Deus, custe o que custar, segundo a palavra de Tertuliano (6). Em vão faremos atos de contrição e confissões sacramentais: tudo isto de nada nos servirá, se não renunciarmos ao mesmo tempo os nossos maus costumes; se não estivermos decididos do íntimo da alma a viver melhor, a substituir à nossa avareza a caridade para com os pobres, à nossa soberba a humildade, à nossa sensualidade a mortificação; finalmente, à nossa vida cheia de caprichos e fantasias, uma vida regrada e utilmente empregada. São estas as nossas disposições? Quanto nos temos talvez enganado a este respeito!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ecce elongavi fugiens et mansi in solitudine (Sl 54, 8)

(2) Tota die verecundia mea contra me est (Sl 43, 16)

(3) Dolot meus incospectu meo semper (Sl 37, 18)

(4) Da Domine Deus meus, cordi meo paenitentiam, spiritui contritionem, oculis lacrymarum fontem (Ans., Or., 10)

(5) Vae mihi, quia peccavi nimis in vita mea! Commissa mea pavesco et ante te erubesco (Conf. 2, 10)

(6) Ubi emendatio nulla, ibi paenitentia necessario vana

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 182-184)