Meditação para a Quinta-feira da Paixão. A Cruz, Ciência do Cristão

Meditação para a Quinta-feira da Paixão

SUMARIO

Consideraremos a cruz como um sagrado púlpito, onde Jesus Cristo nos ensina:

1.° A conhecermos Deus;

2.° A conhecermo-nos a nós mesmos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De conservarmos em nós um grande respeito para com Deus e Suas infinitas perfeições, e de lh’O manifestarmos com a nossa profunda devoção na oração e no lugar santo;

2.º De aborrecermos todo o pecado, e de tomarmos a peito a salvação da nossa alma.

O nosso ramalhete espiritual será a oração de Santo Agostinho:

“Senhor, conheça-Vos eu para Vos amar; conheça-me eu para me odiar” – Domine, noverim te, noverim me: noverim te ut amem te; noverim me ut oderim me

Meditação para o Dia

Honremos a cruz de Jesus Cristo como o livro dos escolhidos, a ciência dos santos; é ali que se aprende melhor que na leitura de todos os livros, melhor que na escola de todos os mestres, o que é Deus e o que nós somos. Demos graças a Nosso Senhor por estes ensinos.

PRIMEIRO PONTO

A Cruz ensina-nos a conhecer Deus

Conhecer Deus, não é somente o primeiro, o mais excelente de todos os conhecimentos; é também o mais necessário: porque ninguém sabe adorar a Deus, respeitá-lO, e humilhar-se diante dEle, senão em proporção do conhecimento que tem das Suas grandezas; ninguém sabe louvá-lO e bendizê-lO, senão tanto quanto conhece a Sua sabedoria infinita; ninguém O serve com uma vida santa, senão segundo o conhecimento que tem da Sua infinita santidade; finalmente, ninguém O ama, senão tanto quanto sabe quão bom Ele é. Ora, esta grandeza, esta sabedoria, esta santidade, esta bondade, é a cruz que as ensina, e delas dá as mais sublimes ideias.

1.° Diz-nos quanto Deus é grande. Sem dúvida os céus narram a Sua glória, e esses inumeráveis mundos no meio dos quais toda a terra, de que fazemos tão pequena parte, é menos que uma gota de água, realçam a Sua grandeza. Sem dúvida, o profeta Baruc causa-nos admiração, quando mostra, a voz de Deus, o sol e a lua correndo a colocar-se no lugar que lhes foi designado, os astros vindo por seu turno dizer a Deus: Eis-me aqui! E avançando ao seu mando, o como um exército disposto em bela ordem de batalha. Isaías não é menos admirável, quando nos faz ver todas as nações como tão pouca coisa diante de Deus, que são menos que a gota de água que brilha em um vaso; são como se não existissem. Mas a cruz dá-me ainda de Deus as mais elevadas ideias. Ali eu vejo um Deus-vítima, oferecido a Deus por um Deus-sacerdote, e digo comigo: Se se avalia a grandeza de um rei pela excelência dos dons que lhe fazem e pela dignidade dos que o servem, ó Deus eterno, que grande sois Vós diante de quem um Deus se humilha tão profundamente, Vós que tendes por ministro um Deus-sacerdote, e recebeis das Suas mãos um Deus-vítima! Sim, sois verdadeiramente de infinita grandeza, e Vós mesmo não podeis conceber uma expressão mais sublime do que sois.

2.° A cruz mostra-nos a infinita sabedoria de Deus: e que outra senão uma sabedoria infinita teria podido encerrar a imensidade em um ser limitado, conciliar todas as dores com a visão beatífica, fazer morrer o imortal, oferecer à justiça divina uma reparação superior à ofensa, e em que se ostentam ao mesmo tempo todas as magnificências da misericórdia? Ó sabedoria divina, que obras na cruz semelhantes maravilhas, Vós sois verdadeira mente infinita!

3.° Todavia a santidade de Deus não resplandece aqui menos. Nós vemo-la perseguir em um Filho amado até a sombra do pecado, castigar as Suas aparências com inflexível rigor, e lavá-las no mesmo sangue desse amado Filho.

4.º Que diremos da bondade divina da bondade de Deus Pai, que sacrifica o seu Filho por um escravo rebelde, mau, ingrato; da bondade de Deus Filho que, entrando nos desígnios de seu Pai, se entrega aos tormentos e à morte para nos salvar? Não é este o mais sublime ideal da bondade? Ó perfeições divinas, ó grandeza, ó sabedoria, ó santidade, ó bondade, quão magnificamente Vos faz sobressair a cruz! Eu não Vos tenho suficientemente conhecido até ao presente; mas agora, que Vos vejo tão belas, tão encantadoras, quero dedicar o resto da minha vida a adorar-Vos, louvar-Vos, agradecer-Vos, e amar-Vos.

SEGUNDO PONTO

A Cruz ensina-nos a Conhecermo-nos a nós mesmos

Consulto a cruz a respeito da minha natureza, e responde-me que eu sou um agregado misterioso de grandeza e de baixeza. Que grandeza em mim! A dignidade da minha natureza é tão eminente, que Deus a resgatou com preferência aos anjos, que deixou sem redenção. A minha salvação é tão prezada de Deus que, para a operar, um Deus desceu dos céus e veio morrer na cruz. A minha alma é tão estimada de Deus que, para a remir, deu o sangue de seu Filho (1). Sublimes verdades, que nos ensinam a antepor a nossa salvação a tudo, a não deixar a nossa alma tão grande rebaixar-se até às afeições terrestres e sensuais, mas a conservar-se sempre na altura da sua excelência com uma vida sempre santa e pura.

Ao lado da nossa grandeza, a cruz mostra-nos a nossa baixeza e miséria: ela diz-nos que o pecado nos lançou em tão profunda miséria, que éramos, por nós sós, incapazes de nos levantarmos, incapazes até de oferecer a Deus ofendido a menor reparação; diz-nos que o pecado original depositou em nós uma propensão para o mal, uma aversão ao que é mandado, um coração tão duro, tão mau, que só um Deus pode ganhar-nos à custa de Sua morte na cruz, e ainda assim, conseguiu-o bem pouco. Oh! Quão desprezíveis e miseráveis somos! Quão humildes e penitentes, contritos e mortificados devemos ser!

Tais são as lições que nos dá a cruz.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) O anima, tanti vales!

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 196-199)