Capítulo 7: A Santíssima Virgem no Templo
Vivia só para Deus

Vejamos esta bendita menina sepultada no seu retiro, e admiremos a vida santa que ali passa. Considera-se no templo como em uma casa unicamente consagrada ao serviço do Senhor; sabe que neste sagrado lugar não deve viver senão para Deus, nem pensar, senão em tornar-se cada vez mais agradável a Seus olhos pela prática de todas as virtudes. Semelhante à aurora que sempre cresce em luz, Maria sempre cresce em santidade e perfeição. Todos os dias brilhavam nela com maior esplendor as mais excelentes virtudes, a caridade, a humildade, a mortificação e a doçura. Aproveitemo-nos de tão admirável exemplo, e aprendamos desta Virgem Santíssima o ardor com que devemos trabalhar em nossa santificação. É verdade que Deus não exige de todos os cristãos, que à imitação de Maria se liguem com voto ao seu serviço; é este o destino feliz de algumas almas privilegiadas que Ele retira do mundo, para as consagrar a Si de um modo especial: mas em qualquer estado que nos encontremos, Deus exige de nós, que sigamos uma vida verdadeiramente cristã, uma vida penitente e mortificada, e que façamos todos os dias novos esforços por adiantar-nos no caminho da salvação. Tal é o resumo do Evangelho, tais as sagradas obrigações que contraímos, recebendo o Batismo. Ah! De que modo as temos cumprido até hoje?

Pensava só em Deus

Retirada no templo, Maria Santíssima viveu sempre na presença de Deus, sempre unida a Ele pelos pensamentos de seu espírito e pelos afetos de seu santíssimo coração. Meditava muito e falava pouco, diz Santo Ambrósio; o amor divino, que a abrasava, lhe fazia amar o seu retiro e não achar prazer senão nas comunicações íntimas, que tinha continuamente com o seu amado.

À imitação de Maria, vivamos só para Deus; ocupemo-nos sempre com o pensamento da Sua divina presença; elevemos a Ele muitas vezes o espírito e o coração, e pratiquemos todas as nossas ações com a intenção de Lhe agradarmos.

Trabalhava só para Deus

Maria trabalhava só para Deus. Ninguém a via jamais ociosa; a oração, o trabalho de mãos, as obras de caridade, a lição dos livros santos ocupavam-lhe todo o tempo. A cada instante adquiria novos tesouros de merecimentos diante de Deus: nunca se viu uma reunião tão completa das mais raras qualidades e das mais eminentes virtudes. Sua caridade foi sem limites, sua pureza sem exemplo, sua humildade sem medida, sua piedade sem alteração, enfim toda a sua vida foi um espelho fiel de todas as virtudes. Imitemos os exemplos desta admirável Virgem, não nos esqueçamos de que este ponto é capital, e de que a nossa devoção a Maria não poderá ser-nos deveras proveitosa, senão quando fizermos esforços por seguir suas pisadas.

ORAÇÃO

Celeste Menina, destinada para ser a Mãe do meu Redentor e a grande mediadora dos pecadores junto de Deus, aqui vedes a vossos pés um pecador infiel ao seu Deus, que vem implorar a vossa proteção. É verdade que pelas minhas ingratidões eu merecia ser de vós abandonado; porém tenho ouvido dizer, que nunca rejeitais aqueles, que cheios de confiança vos invocam; e poderia duvidar disso, sabendo eu quanto é grande a vossa misericórdia? Dignai- vos, pois, ó Maria, que sois a mais santa das criaturas, a rainha e o exemplo de todos os santos, dignai-vos socorrer um desgraçado, que por muito tempo se tem descuidado do importante negócio da salvação, e que por sua culpa se acha escravo de mil defeitos, desprovido de virtudes e carregado de iniquidades. Eu sei que sois tão agradável a Deus que Ele nada vos recusa. Sei que vos comprazeis em aliviar os miseráveis, que do coração vos imploram. Mostrai quanto é grande o vosso crédito para com Deus, alcançando-me uma graça tão poderosa, que de pecador que sou, me torne um justo e me abrace em santo ardor pela minha perfeição. Fazei, ó Maria, este milagre de bondade; fazei-o pelo amor daquele Deus que vos criou tão generosa, tão caritativa, tão poderosa, tão rica de misericórdia.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Mais uma conquista de Nossa Senhora das Vitórias

Permita-me, Sr. Cura, que lhe dê conhecimento de mais uma conquista obtida por Nossa Senhora das Vitórias:

— Um habitante de uma aldeia próxima de Paris, tinha vivido como muitos cristãos dos nossos dias, conservando um certo respeito pela religião, mas sem observar nenhum dos seus preceitos.

Primeiro absorto pelo desejo de se enriquecer e mais tarde, preso pelo respeito humano, por este miserável receio da opinião pública, tinha chegado à idade de setenta e dois anos sem pôr em ordem os seus negócios de consciência, apesar das vivas e instantes súplicas de uma de suas filhas, que abraçara o estado religioso.

Aproximava-se a hora da partida para a eternidade; passavam-se noites e dias a tratar-lhe do corpo, mas da eternidade, de Sacramentos, ninguém lhe falava. A religiosa avisada da gravidade e progresso da doença de seu pai, veio visitá-lo.

Ouçamo-la um pouco:

Havia alguns meses apenas, que meu pai, dizia ela, me tinha ido visitar ao convento. Quando agora entrei no seu quarto, fiquei surpreendida da mudança que desde então se tinha apoderado nele!

Deitado sobre o leito, com os olhos cerrados, parecia absorto em profundas reflexões: O seu rosto cadavérico, as mãos descarnadas, comoveram-me vivamente, mas o que mais que tudo me preocupava era a sua alma.

Depois de algumas perguntas sobre o seu estado de saúde, falei-lhe da consciência. Descobri então com indizível alegria a mudança que nele se tinha operado. Esta alma outrora toda terrestre, estava agora maravilhosamente esclarecida pela graça.

— Ah! Minha filha, exclamou ele, tens diante de ti o mais miserável dos homens! Como pude eu apegar-me a esta terra de misérias! Oh! Agora vejo eu claramente o nada das coisas do mundo!

E em voz alta fez-me a sua confissão. Sentia necessidade de se humilhar, parecia querer colocar-se debaixo dos pés de todos.

E todavia, como dizem muitos dos cristãos dos nossos dias, ele era um homem honesto, gozava da estima e consideração de todos; não tinha assassinado nem roubado, e não obstante desejava a confissão, a que tinha tido tanto horror e não esperava sequer que chegasse o ministro do Senhor, fazia-a em voz alta a quem o quisesse ouvir.

Fui procurar o pároco da freguesia, que lhe veio dar a absolvição, e, quando este se retirou, perguntei ao enfermo se estava satisfeito:

— Oh! Minha, filha, parece-me que princípio vida nova! Como sou feliz!

Noutro tempo, quando me ia visitar ao convento, apenas eu lhe falasse da eternidade (e falava-lhe a cada instante) meu pai apressava-se em me dizer adeus; agora falar-lhe neste assunto, era para ele uma felicidade!

Como neste momento os sinos dobraram a finados, exclamou:

— Que feliz eu seria se pertencesse já ao número dos mortos! Tenho tanto horror a este mundo, que nem quero que me falem dele!

Eu lembrava-lhe então o mérito do sofrimento e os pecados que ele expia.

—Sim, minha filha, tens razão, é preciso que eu viva ainda para sofrer; é por isso que às vezes, quando tenho vontade de me queixar, ou de pedir algum alívio, digo a mim mesmo: Cala-te, desgraçado, que juraste sofrer.

Com o amor de Deus, tinha entrado naquela alma, o amor dos sofrimentos tão oposto à nossa miserável natureza.

Durante os dias que passei junto dele não tive senão que admirar a misericórdia infinita que o Deus de bondade exercia sobre esta alma tanto tempo esquecida dos seus deveres para com ele. Sobre tudo o que eu mais notava era a felicidade, a alegria que meu pai experimentava em pronunciar o bendito nome de Maria, e soube então com verdadeira surpresa, que nunca ele tinha ido perto da igreja de Nossa Senhora das Vitórias, sem lá ter entrado para orar e colocar todos os seus negócios sob a proteção desta divina Mãe.

Um acontecimento inesperado me obrigou a voltar ao convento durante alguns dias, e julgando que não poderia assistir aos últimos momentos de meu pai, pedi à Santíssima Virgem que me substituísse junto dele pois não ignorava quanto melhor estaria entre as suas divinas mãos que nas minhas.

Desde então parecia-me ver esta boa mãe, colocada à cabeceira do enfermo, velando pela sua alma, com uma solicitude verdadeiramente maternal. Não somente a minha esperança não foi iludida, mas foi realizada ainda além dos meus desejos por que, no mesmo dia em que meu pai recebia o Sagrado Viático, minha velha mãe, enferma também, confessava-se pela primeira vez depois de 50 anos!

Esse dia foi para mim de verdadeira felicidade; aumentou em mim o amor que já sentia por Maria, refúgio dos pecadores e mostrou-me com que ternura Deus vela sobre a família daqueles que tudo deixaram para o seguir. A morte tão suave e tranquila de meu pai fez-me ver que a santíssima Virgem o continuara protegendo dessa maneira particular que prometeu aqueles que lhe fossem dedicados, e que se estende mesmo aos pobres pecadores, que ainda nomeio dos seus desvarios conservam para com esta mãe celeste, alguns sentimentos de devoção.

Vi-me obrigada a deixar minha mãe no seio de uma família sem Deus, mas espero em Maria que continuará em favor dela a obra da sua santificação já começada.

OUTRO EXEMPLO

Maria Santíssima vela por seus devotos na hora da morte

É ponto de fé para muitos santos, que a Santíssima Virgem consola e fortifica nos derradeiros momentos, com a sua divina presença, àqueles que durante a vida se voltaram ao seu serviço. Com certeza se pode dizer que a graça que mais particularmente lhes obtém é uma boa morte, em virtude da oração que tantas vezes lhe dirigem:

Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte!

Eis aqui um frisante exemplo:

Na cidade de Amiens, o Sr. Lahaye, homem de nascimento distinto e duma piedade sólida, abandonou todos os seus negócios para se entregar única e exclusivamente ao importantíssimo negócio da sua salvação. Casado com uma senhora não menos piedosa e ambos particularmente devotos da Santíssima Virgem, recitavam-lhe quotidianamente o Rosário, comungavam em todas as suas festas, e santificavam os sábados em sua honra.

Um dia o seu diretor espiritual, um venerável sacerdote, foi chamado para confessar madame Lahaye que se achava gravemente doente. Tendo terminado a sua piedosa missão, dirigiu-se para os aposentos do marido, para o cumprimentar e consolar antes de se ausentar.

Surpreendido pelo ver no leito, perguntou-lhe se também estava doente.

— Não, respondeu o Sr. de Lahaye, não sinto o menor incômodo, mas uma impressão irresistível me obrigou a deitar, sem saber a razão porque o fazia, e agora não vos deixarei sair sem que me ouçais de confissão.

O sacerdote empregou todos os meios para o convencer de que não tinha a menor razão para semelhante procedimento; que devia levantar-se e ir à igreja confessar-se e cumprir as suas devoções como os outros fiéis, porém tudo foi baldado, e o Sr. Lahaye instou tanto e tanto que o digno sacerdote comovido consentiu em ouvir-lhe a confissão. Terminada ela, o Sr.
Latyaye, pediu ao seu diretor que voltasse novamente ao quarto de sua esposa a pedir-lhe em seu nome, perdão de todos os desgostos que pudesse ter-lhe causado durante a sua união.

Ouvindo semelhante pedido, o ministro do Senhor, tornou a perguntar-se se sentia doente, ao que ele novamente respondeu que não sentia absolutamente nada, e que estava perfeitamente bem.

— Contudo, lhe replicou o sacerdote, pelo vosso procedimento dir-se-á que estais prestes a exalar o último suspiro! Como quereis que eu vá a vossa esposa, pedir-lhe perdão em vosso nome, sem despertar-lhe receios e agravar com eles o seu estado?

— Isso é verdade, respondeu o Sr. Lahaye, mas peço-vos que me não negueis este favor!

O sacerdote cedeu por fim e dirigiu-se ao aposento da enferma, a cumprir a espinhosa missão de que se encarregara.

Voltou depois para junto do Sr. Lahaye, mas qual não foi a sua surpresa vendo prestes a expirar aquele que havia apenas momentos deixara cheio de vida e saúde!

Admiremos com o digno sacerdote, a maternal providência de Maria que vela constantemente pelos últimos momentos da vida dos seus fiéis servos! Sem dúvida, velando por essa alma que lhe era tão dedicada, inspirara-lhe os desejos de se confessar e pedir perdão à esposa, dois atos de profundíssima humildade que o deviam preparar para aparecer na presença de Deus !

LIÇÃO
Sobre as vantagens da Solidão ou Retiro

A vida recolhida é um dos meios mais poderosos para conservarmos a inocência. Nada debilita tanto a virtude como a frequente companhia dos homens.

Como se há de respirar um ar tão empestado, como o do mundo, sem participar do seu contágio?

Recolhei-vos amiúde à solidão, para respirardes um ar mais puro.

Os santos solitários confessavam que nunca se acharam mais dispostos para conversar familiarmente com Deus, como depois que se retiraram dos negócios e companhias do mundo.

As delícias de Deus são habitar convosco; deleitai-vos de estar com Ele, e onde melhor O encontrareis é na solidão.

Lá podereis descobrir-Lhe com mais franqueza os vossos mais íntimos pensamentos, e desabafar os vossos sentimentos com toda a liberdade e respeitosa confiança.

No retiro fará o Senhor que mais facilmente brotem no vosso espírito pensamentos que lhe adocem as penas, acalmem os temores, dissipem as dúvidas, e lhe inculquem o seguro caminho para vos guiardes em tudo com prudência.

Enfim, na solidão o coração ouvirá a voz interior que lhe é própria: Deus vos
falará uma linguagem só entendida dos Seus amigos e que imprime na alma verdades, cujo conhecimento é puro efeito do Seu amor.

Máxima Espiritual

“De que serve a solidão do corpo, sem a solidão do coração?” (São Gregório Magno)

Jaculatória

Mater puríssima, Mater castíssima, Mater inviolata, Mater intemerata, ora pro nobis

Mãe puríssima, Mãe castíssima, Mãe inviolata, Mãe incorrupta, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 97-108)