Lição l: Lucas, autor do 3º Evangelho

1. São Lucas não era judeu, mas gentio de Antioquia da Síria; cf.-Cl 4,10­14. Era homem culto e formado em medicina. Não se pode dizer com segurança quando se converteu ao Cristianismo. Associou-se a São Paulo em trechos da segunda e da terceira viagens missionárias; cf. At 16,10-37; 20,5-21,18. Em 60 embarcou com Paulo para Roma (At 27,1-28,16), permanecendo-lhe fiel durante o primeiro cativeiro (cf. Cl 4,14; Fm 24): Acompanhou o Apóstolo também no segundo cativeiro romano; cf. 2Tm 4,11.

2. A este discípulo a Tradição atribui o 3º Evangelho. Eis o testemunho de um dos prólogos latinos anteposto ao 3º Evangelho em fins do séc. II:

‘Lucas foi sírio de Antioquia, de profissão médica, discípulo dos Apóstolos; mais tarde seguiu Paulo até a confissão (martírio) deste, servindo irrepreensivelmente ao Senhor. Nunca teve esposa nem filhos; com oitenta e quatro anos morreu na Bitínia, cheio do Espírito Santo. Já tendo sido escritos os Evangelhos de Mateus, na Bitínia, e de Marcos, na Itália, impelido pelo Espírito Santo, redigiu este Evangelho nas regiões da Acaia, dando a saber logo no inicio que os outros (Evangelhos) já haviam sido escritos”.

Estes dizeres, simples e claros, resumem os principais dados da Tradição sobre o assunto.

3. Vejamos o que o próprio texto permite depreender a respeito do seu autor:

a) certamente a linguagem grega de São Lucas é a de um homem culto dotado de vocabulário variado (261 palavras próprias dentro do N.T.). Corrige as construções difíceis de São Marcos; cf. Mc 4,25 e Lc 8,18.

b) O autor parece perito em medicina, a ponto de manifestar seu “olho clínico” nas seguintes passagens:

  • é o único a referir o suor sanguíneo de Jesus (22,44);
  • muito abranda o juízo pessimista que Mc 5,25.29 profere sobre os médicos; cf. Lc 8,43s;
  • os sintomas dos enfermos são descritos com particular atenção em Lc 8,27-29; 9,38s; 13,11-13; 4,38 (cf. Mc 1,30);
  • o 3º Evangelho apresenta Jesus como o Médico Divino; cf. Lc 4,23; 5,17 (comparar com Mt 9,1 e Mc 2,1 s); 6,18s; 9,1s.11. Somente em Lc Jesus restitui a orelha de Maíco amputada no Getsêmani (cf. Lc 22,50s; Mi 26,51; Mc 14,47s; Jo 18,1 Os).

c) O 3º Evangelho apresenta notável afinidade de linguagem e doutrina com o epistolário paulino. Cerca de 103 vocábulos são comuns a Paulo e Lc, e alheios aos outros escritos do N.T.

O 3º Evangelho terá sido escrito por volta de 70, com vistas aos pagãos convertidos ao Cristianismo. Estes parecem representados pelo “Excelentíssimo Senhor Teófilo”, ao qual S. Lucas dedica seu Evangelho (1,3).

Lição 2: Destinatários e plano de Lc

1. Escrevendo para pagãos convertidos, Lucas – omitiu particularidades da história que só interessavam aos judeus: as alusões à Lei de Moisés (cf. Mt 5,21-48), o uso das purificações rituais (cf. Lc 11,38 e Mc 7,1-23; Mt 15,1-20);

  • referiu com carinho o que era favorável aos gentios: 3,14; 7,2-10;10,30- 37 (o bom samaritano); 17,11-19 (o leproso samaritano…);
  • menciona com solenidade as autoridades romanas: 2,1 s; 3,1;
  • silenciou tudo o que em Mt e Mc podia ser penoso para os não-judeus: assim, por exemplo, Lc usa a palavra “pecadores” (6,33), em vez de “gentios” (Mt 5,47)

2. A catequese tradicional seguia o plano traçado por São Pedro na sua primeira pregação (At 1,22): ministério do Batista, pregação de Jesus na Galiléia, subida a Jerusalém (relato breve), morte e exaltação do Senhor. Marcos seguiu fielmente este esquema; Lucas, sem o abandonar, quis enriquecê-lo. É o que passamos a ver:

Iniciou as suas narrativas no templo de Jerusalém (1,8s), e terminou-as lá também (24,52). Jesus começa a pregar na Galiléia, mas toda a sua atividade tende para Jerusalém, teatro da exaltação final do Senhor. Em conseqüência

  • na história das tentações de Jesus inverte a ordem de Mt, colocando a tentação referente ao templo em terceiro, e não em segundo lugar (cf. Lc4,1-13 e Mt4,l-11): assim Jesus no início do seu ministério publico triunfa sobre o demônio em Jerusalém como ai há de triunfar definitivamente no fim da sua vida;
  • em Lc 9,51 Jesus inicia solene viagem para Jerusalém: “Como se aproximasse o tempo em que havia de ser arrebatado (1) deste mundo, Jesus tomou resolutamente o caminho de Jerusalém”.

Essa viagem só termina em Lc 19,28. Na seção de 9,51 -19,28 Lc inseriu muitos de seus episódios próprios (cf. Lc 1,3). O autor repetidamente observa que Jesus está a caminho de Jerusalém (o que lhe parece muito importante); cf. 13,22; 17,11 ; 18,31 ; 19,11.28.

Após a morte e ressurreição de Jesus em Jerusalém, o evangelista omite as aparições de Jesus na Galiléia: Jesus mesmo dá ordem para que os discípulos “fiquem na cidade santa até serem revestidos da força do Alto” (cf. Lc 24,49). Os Apóstolos cumprem esta ordem, de modo que o fim do Evangelho corresponde ao começo.

Pergunta-se: por que Lc quis assim orientar todo o seu Evangelho? Qual a razão deste direcionamento?

Eis a resposta: assim como Mateus apresentou Jesus como o novo Moisés, Lc quis descrever Jesus como o novo Elias ou o novo Profeta. Ora uma das características do Profeta é morrer em Jerusalém, como diz o próprio Jesus (cf. Lc 13,33). Tal é a chave da estrutura do Evangelho de Lucas. Observemos que Jesus em Lc aparece freqüentemente como “um grande Profeta” (cf. 4,24; 7,16.39; 9,8; 13,33; 24,19); Jesus mesmo comparou a sua sorte com a dos profetas Elias e Eliseu (cf 4,24-27).

Como se compreende, “profeta”, no caso, não quer dizer “mero homem dotado de graças especiais”, mas, sim, o Messias Aguardado, que, na mente de São Lucas, era o Filho de Deus feito homem (cf. Lc 1,32-35).

Lição 3: O estilo de Lc

Culto como era, São Lucas apresenta certo esmero literário:

1. Observem-se, por exemplo, as antíteses, das quais sobressai muito melhor o ensinamento de Jesus:

Lc 1,11 -22 e 1,26-38: duas aparições do anjo e dois anúncios: um a Zacarias, que, incrédulo, perde a fala; o outro a Maria, que, cheia de fé, prorrompe em cântico profético;

Lc 7, 36-50: a pecadora penitente, agradecida; o fariseu, confiante em si, repreendido;

Lc 10, 38-42: Marta ativa e Maria contemplativa;

Lc 17, 11-18: dez leprosos curados, dos quais o único samaritano é grato ao Senhor;

Lc 18, 9-14: a oração do fariseu e a do publicano;

Lc 23, 39-43: os dois ladrões em torno de Jesus.

Estes episódios são todos próprios do 3º Evangelho e bem mostram o gosto literário do autor.

2. São Lucas também quis consignar, como passagens próprias do seu Evangelho, episódios e traços que evocam nobres afetos: a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), a história da pecadora anônima compreendida pelo Senhor (7,36-50), a ressurreição do filho da viúva de Naim (7,11-17), o colóquio de Jesus com os discípulos de Emaús (24,13-35).

De modo especial, Lc deu relevo às figuras femininas, delas fazendo autêntico sinal de realidades religiosas. Assim, a mãe abençoada, Elisabete (1,23-25.39-45.57s), a virgem e mãe Maria (cc. 1-2), a viúva em quatro figuras (2,56-38; 7,11-17; 21,1-4; 18,1-8), a pecadora infame recuperada (7,36-50), a mulher apóstola (8,1-3). Esta valorização da mulher chama-nos a atenção, pois, ao mesmo tempo que Lucas, vivia Sêneca, filósofo estóico, que escrevia a respeito da mulher:

“é animal sem pudor e… feroz, que não domina suas cobiças” (De constantia sapientis XIV 1).

3. Conseqüentemente, Lucas quis omitir ou mitigar traços que na catequese anterior lhe pareciam demasiado duros:

  • a repreensão de Pedro por parte de Jesus; cf. Mc 8,31-33; Mt 16,21-23 e Lc9,22;
  • o morticínio de João Batista; cf. Mc 6,17-29: Mt 14.3-12 e Lc 3,19s;
  • os escarros infligidos a Jesus; cf. Mc 14,65; Mt 26,G7s; 27,30 e Lc 22,63s;
  • a flagelação e a coroação de espinhos; cf. Mc 15,15-20 e Lc 23,23s;
  • a expulsão dos vendilhões do Templo é sumariamente mencionada; cf. Mc 11,15-17; Mt 21,12s;Jo 2,13-22 e Lc 19,45s;
  • na história da Paixão Pilatos é poupado o mais possível; cf. Lc 23,25 e Mc 15,15; Mt 27,26.

Lição 4: A mensagem de Lc

São Mateus apresentava Jesus como o Mestre notável por seus sermões; S. Marcos o descreveu como o herói admirável por seus feitos. Lucas se detém mais nos traços pessoais e delicados da alma de Jesus, o que torna o 3o Evangelho alimento substancioso da vida espiritual.

Lc = Evangelho da salvação e da misericórdia

1. Tenhamos em vista a genealogia de Jesus conforme Lc 3,23-38: Jesus é apresentado não apenas como Filho de Abraão e Filho de Davi (cf. Mt 1,1), mas como filho de Adão (Lc 3,38). Isto quer dizer que Ele é irmão de todos os homens (judeus e gentios); Ele é o Salvador de todos.

Observemos também o episódio de Lc 2,1-11. Abre-se com a menção de César Augusto e do seu decreto de recenseamento universal; é sobre este pano de fundo que o Evangelista introduz a figura de Jesus recém-nascido e anunciado pelos anjos como o Cristo Senhor e Salvador (2,10s), Tal apresentação constituía o autêntico “Evangélion” (Boa-Nova) num mundo em que todos os cidadãos aguardavam os precários “Evangelia” (mensagens de paz e bonança) dos Césares Romanos.

Comparemos entre si Mt 3,3; Mc 1,2s e Lc 3,4-6: a mesma profecia de Is 40,5 é citada, com um acréscimo peculiar a Lc.

As palavras finais de Jesus fazem ressoar a mensagem da salvação universal: Lc 24,46s.

2. O Salvador de todos é também o portador do grande perdão. É o que se depreende especialmente de Lc 15, onde três parábolas concatenadas afirmam a condescendência de Deus, recorrendo mesmo a refrões; Lc 15,7,10.24.32.

Jesus dá o exemplo do perdão em 7,36-50 (a pecadora agraciada), em 13,10-17 (a mulher encurvada), em 19,1-10 (Zaqueu, o publicano), em 23,34 (“não sabem o que fazem”), em 23,39-43 (o bom ladrão).

São Lucas não refere o episódio da figueira amaldiçoada (cf. Mc 11,12­14.20-25 e Mt. 21,18-22), mas narra outro episódio, em que a figueira é objeto de misericórdia: 13,6-9 (parábola própria de Lc).

Por conseguinte, não sem motivo São Lucas foi chamado “o escritor da mansidão de Cristo” (Dante Alighieri).

Lc = Evangelho do Espírito Santo e da oração

O Espírito Santo era o dom prometido pelos profetas como fruto da vinda do Messias.

Ora em todo o 3º Evangelho é enfatizada a constante ação do Espírito Santo: Lc 1,15.35.41.67; 2,25-27; 3,16.22; 4,1.14.18; 10,21; 11,13; 12,10.12; 24,49 (o mesmo, aliás, se dá no livro dos Atos dos Apóstolos).

O Espírito é o inspirador da oração (cf. Rm 8,26). Por isto Lc é também, muito mais do que Mt e Mc, o mensageiro da oração.

Encontram-se um bloco de ensinamentos sobre a oração em Lc 11,1-13, e duas parábolas em Lc 18,1-8 (a viúva) e 18,9-14 (o fariseu e o publicano).

Além disto, Jesus dá o exemplo da oração. Os três sinóticos referem que Ele orou no Horto das Oliveiras (Mt 26,39; Mc 14,35; Lc 22,42); Marcos acrescenta que Ele se retirou ao deserto para rezar (1,35). Somente Lc nos diz que Jesus rezou em nove outras ocasiões: 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28s; 11,1s; 22,32; 23,34.46.

Também Lc é o único a consignar os quatro cânticos solenes da Liturgia: o de Maria SS. (1,46-55), o de Zacarias (1,68-79), o dos anjos (2T14) e o de Simeão (2,29-32).

Sendo assim, entende-se que uma das expressões mais usuais do 3o Evangelho (não ocorrente em Mt e Mc) é “louvar a Deus”; cf. 1,64; 2,13.20.28; 18,43 (cf. Mc 10,52); 19,37(cf. Mc 11,7-10); 24,53.

Lc = o Evangelho da pobreza e da alegria

A pobreza ou simplicidade de vida como quadro dentro do qual o espírito é livre de apegos e paixões era estimada desde o exílio dos judeus na Babilônia (Jeremias dá início à escola dos pobres, anawim, no séc. VI a. C.).

Ora Jesus dá o exemplo e transmite os ensinamentos de tal pobreza: Lc 9,58 (não tem onde reclinar a cabeça); 2,7 (uma manjedoura); 2,24 (a oferta dos pobres); 2,8.12 (anunciado aos pastores).

Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus em Lc se refere a situações de desconforto: pobreza material, fome material, pranto, perseguição (cf. 6,20-24); em Mt 5,1-13 as bem-aventuranças se referem primeiramente a atitudes interiores ou a qualidades éticas. Ora Jesus certamente acentuou a importância do quadro exterior pobre, indispensável para que a virtude possa florescer, e S. Lucas fez-se arauto deste aspecto das bem-aventuranças, ao passo que S. Mateus quis mostrar que o quadro exterior (a pobreza, a fome) nada vale se não é vivificado por virtudes (pobreza de coração, fome e sede de justiça).

Em Lc 12,16-21; 16,1-9 e 16,19-31 são apresentadas três parábolas de “perspectiva sapiencial”: incutem a compreensão exata dos bens que esta vida oferece; só merecem a estima do cristão se são capazes de o levar à vida eterna. A posse de riquezas pode acarretar surpresa ou inversão de sortes para quem não as usa sabiamente, isto é, à luz da eternidade.

Em Lc 8,1-3e 19,8s aparecem respectivamente as mulheres generosas e Zaqueu como tipos daqueles que sabem fazer bom uso de seus haveres.

Ao mesmo tempo que recomendava o desapego, Lucas apregoou também, mais que nenhum evangelista, a alegria. Tenhamos em vista os cantos de Maria (1,46-55), Zacarias (1,68-79), Simeão (2,28-32), a mensagem dos anjos aos pastores (2,10s). Vejam-se ainda 10,20s; 13,17; 19,37. O livro se encerra referindo a alegria dos Apóstolos, que aguardavam o Espírito prometido (24,52s).


Referências:

(1) Arrebatado = elevado gloriosamente. Páscoa!

Para aprofundamento:

BALLARINI,T., Introdução à Bíblia IV. Ed. Vozes, Petrópolis 1972. BARBAGLIO, FABRIS, MAGGIONI, Os Evangelhos. Ed. Loyola

GEORGE A., Leitura do Evangelho segundo Lucas. Ed. Paulinas, São Paulo 1982.

PIKAZA, J., A Teologia de Lucas. Ed. Paulinas, São Paulo 1978.

Perguntas sobre o Evangelho de São Lucas

  • Lucas foi um dos doze apóstolos? Explique
  • Quais são os indícios de interesse médico próprio de Lc?
  • Como S. Lucas tratou os pagãos no seu Evangelho?
  • Qual o papel atribuído por Lc à cidade de Jerusalém ? Por que assim procedeu?
  • Cite e explique três das antíteses de Lc.
  • Que papel desempenha a mulher em Lc?
  • Qual a atitude de Lucas diante de episódios violentos?
  • Desenvolva duas das características da mensagem de Lc.