Lição 1: Mateus, autor do 1° Evangelho

1. Mateus, também dito Levi, era publicano ou cobrador de impostos. Chamado por Jesus, logo deixou tudo; cf. Mt 9,9-13; Mc 2,14-17; Lc 5,27-32. Nada mais nos dizem os Evangelhos sobre Mateus. Afirmam outras fontes que, após a Ascensão de Jesus, se dedicou ao apostolado entre os judeus; depois, terá pregado aos pagãos da Etiópia, onde deve ter morrido mártir.

2. A tradição atribui a Mateus a redação do primeiro Evangelho. Tenha-se em vista o mais antigo testemunho, que é o de Pápias, bispo na Frigia, datado de 130 aproximadamente:

“Mateus, por sua parte, pôs em ordem os logia (dizeres) na língua hebraica, e cada um depois os traduziu (ou interpretou) como pôde” (ver Eusébio, História da Igreja III 39,16).

Neste texto Pápias designa o primeiro Evangelho como dizeres, “logia“, visto que realmente nesse livro chamam a atenção os discursos de Jesus, dispostos de maneira ordenada ou sistemática. Este Evangelho, escrito em língua hebraica ou, melhor, aramaica (já que o hebraico cairá em desuso no séc. VI a. C.), foi logo por diversos pregadores traduzido para o grego, já que o hebraico só era usual na terra de Israel. Vê-se, pois, que Mateus escreveu no próprio país de Jesus, tendo em vista leitores cristãos convertidos do judaísmo.

Santo Irineu (†200 aproximadamente) também testemunha:

“Mateus compôs o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja” (Adv. haereses III 1,1).

Outros testemunhos poderiam ser citados. Procuremos, porém, no primeiro Evangelho indícios da personalidade do seu autor.

3. Que diz o texto?

a) Observemos o catálogo dos apóstolos como se acha em Mc 3,16-19; Lc 6,14-16 e Mt 10,2-4. Verificaremos que os nomes se dispõem em pares; ora, no quarto par, Mateus vem antes de Tomé, conforme Mc e Lc; mas vem depois de Tomé, segundo Mt. Note-se ainda que somente em Mt o apóstolo é mencionado com o aposto “cobrador de impostos” ou “publicano”, o que era pouco honroso para um judeu. Quem terá tratado Mateus dessa maneira se não o próprio Mateus?

Em Mt 22,19, ao narrar a disputa de Jesus com os fariseus a propósito do tributo a ser pago a César, Mt usa termos técnicos em grego, que Mc e Lc não utilizam.

Mt é o único a narrar o episódio do imposto do templo, em Mt 17,24-27, o que demonstra o interesse do autor pelos tributos. Em conclusão, compreende- se que, se havia no grupo dos Apóstolos um homem, e um só, habituado à arte de escrever, calcular e dispor dados, este tenha sido o primeiro indicado (talvez mesmo pelos outros Apóstolos) para redigir um resumo da catequese pregada pelos Apóstolos Os outros estavam acostumados à pesca: tinham as mãos mais adaptadas às redes, aos remos e ao barco do que ao estilete e ao pergaminho.

Lição 2: Mt, Evangelho para os Judeus

1. Mateus escreveu para os judeus convertidos ao Cristianismo, querendo mostrar-lhes que Jesus é realmente o Messias que cumpriu as profecias.

Esta destinação de Mt se percebe claramente através de um exame do texto respectivo:

a) O autor supõe que seus leitores conheçam exatamente a língua aramaica, os costumes dos judeus e a geografia da Palestina, de modo que alude a esses elementos sem acrescentar alguma explicação. Ao contrário, Marcos e Lucas, que escreveram para não judeus, tiveram o cuidado de acrescentar a esses dados o necessário esclarecimento. Vejamos, por exemplo,

Mt 15,1 s e Mc 7,1-5. Ao falar das purificações dos judeus, Marcos abre longo parêntese para indicar o que isso significa;

Mt 27,62 e Mc 15,42. Marcos explica o que quer dizer parasceve, vocábulo técnico do ritual judaico;

Lc 8,26 localiza a região dos gerasenos, à qual Mt 8,28 alude brevemente.

b) Além disto, Mt emprega grande número de semítismos ou expressões próprias do judaísmo, que um não-judeu não entenderia: Reino dos Céus (= Reino de Deus), Cidade Santa (= Jerusalém), Casa de Israel (= povo judeu), consumação do século (= fim do mundo), Filho de Davi (=Jesus).

Em conseqüência, Mt é, dentre os evangelistas, o que mais nos aproxima do sabor primitivo dos sermões de Jesus. O sermão da montanha (M15-7), por exemplo, é uma peça na qual ressoa vivamente o linguajar semita (1) de Jesus; tenhamos em vista o esquema dentro do qual é encaixado o ensinamento sobre a esmola, a oração e o jejum: Mt 6,1-18; temos aí fórmulas que voltam constantemente para ajudar a recitação de cor, muito característica das escolas judaicas e cristãs antigas:

“Não façais como os hipócritas…”: 6,2.5,16.

“Quanto a ti, quando deres esmola (orares ou jejuares), faze assim”: 6,3.6.17;

“E teu Pai, que vê às ocultas, te recompensará”: 6,4.6.18.

2. Escrevendo na Palestina para judeus convertidos, Mateus deve ter redigido seu Evangelho por volta do ano 50. Este livro terá gozado de grande autoridade, pois continha a catequese oficial dos Apóstolos. Mas o fato de estar redigido em aramaico criava obstáculo à sua difusão; sim, o aramaico só era falado pelos judeus da Palestina; fora deste país, a língua comum era o grego. Por isto os pregadores iam traduzindo para o grego trechos ou a obra inteira de Mt, todavia nem todos com a devida competência. Para evitar a desfiguração do texto de Mt, a Igreja deu preferência a uma das traduções, que se tornou oficial e é a forma canônica do texto.

Quanto às demais traduções, perderam-se. O mesmo aconteceu com o texto original aramaico – o que bem se compreende: em 70, Jerusalém foi destruída e os judeus se viram dispersos para fora da Palestina, onde aos poucos passaram a falar o grego; em conseqüência, deixou de ser utilizado o texto aramaico de Mt, que assim veio a desaparecer.

Não se pode indicar o nome do tradutor grego de Mt aramaico. Trabalhou por volta de 80 e certamente fez mais do que traduzir; procurou tornar o texto sagrado ainda mais útil à catequese. O fato de que a autoridade da Igreja adotou esse texto retocado fornece-nos a garantia de que a tradução é substancialmente idêntica ao original. Aliás, os judeus reconheciam aos tradutores o direito de retocar os originais de acordo com a mente do autor; foi o que se deu também com o texto do Eclesiástico (escrito em hebraico e traduzido para o grego por volta de 130 a.C.).

Lição 3: A mensagem de Mt

Os quatro evangelistas apresentam a mesma figura e a mesma Boa-Nova de Jesus Cristo. Cada qual, porém, realça traços que mais importantes lhe parecem para o seu público. Tal é, certamente, o caso de São Mateus, cujas particularidades de mensagem passamos a considerar.

Mt = o Evangelho sistemático por excelência

A ordem concatenada dos temas era mais importante para Mateus do que a seqüência cronológica dos acontecimentos. Por isto o Evangelista agrupou, em blocos, acontecimentos ou sermões de Jesus que, segundo a ordem histórica, deveriam estar muito distantes uns dos outros, mas que, reunidos, melhor ajudam o leitor a compreender a mensagem do Mestre. Vejamos:

a) Mt apresenta cinco longos sermões de Jesus, que constituem como que as pilastras do seu Evangelho; têm por tema central o Reino dos céus:

  • a Magna Carta, fundamental, do Reino: Mt 5-7 (sermão da montanha);
  • o sermão dos missionários do Reino: Mt 10;
  • o sermão das sete parábolas do Reino: Mt 13;
  • o sermão comunitário do Reino: Mt 18;
  • o sermão da consumação do Reino: Mt 24s.

É possível que o evangelista, ao propor esses cinco sermões, tenha tido em vista aludir aos cinco livros da Lei de Moisés. Principalmente no sermão da montanha (Mt 5-7), Jesus se mostra como o novo Moisés ou o novo Legislador do povo de Deus. Logo após o sermão sobre a montanha, Mateus quis reunir dez milagres de Jesus (Mt 8-9), que, segundo a lente do evangelista, devem servir de comprovante à autoridade do Mestre: 8,1-4 (cura do leproso); 8,5-13 (cura do servo do centurião); Mt 8,14-17 (cura da sogra de Pedro); 8,23-27 (a tempestade acalmada); 8,28-34 (libertação de dois possessos); 9,1-8 (cura do paralítico); 9,18-26 (a filha do chefe da sinagoga ressuscitada e a hemorroissa curada); 9,27­31 (dois cegos recuperam a vista); 9,32-34 (o possesso mudo é libertado).

b) A árvore genealógica de Jesus dispõe-se em três séries de quatorze gerações cada uma – o que dá um total de 42 nomes; cf. Mt 1,1-17. Para assim chegar de Abraão até Jesus, Mateus teve que omitir alguns nomes dos antepassados de Cristo. E por que o fez? Porque 14 é o valor numérico correspondente à soma das letras do nome hebraico de Davi, DVD (daleth = 4; vau = 6; daleth =: 4); donde 3×14 significava para o judeu a plenitude dos títulos que ornavam Davi; Jesus, portanto, caracterizado pelo número 42 (3 x 14) seria designado como o Filho de Davi, o Rei messiânico, por excelência. Para Mateus, que tinha esta finalidade catequética, está claro que a enumeração completa dos nomes da lista genealógica perdia importância.

c) O emprego artificioso dos números é também característico de Mt: são sete as petições do Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13), oito as bem-aventuranças (cf. Mt 5,3-12); sete as advertências aos fariseus (cf. Mt 23,13-32); sete as parábolas do Reino (cf. Mt 13,4-50); setenta vezes sete seja o perdão concedido ao irmão pecador (cf. Mt 18,22 e Lc 17,4).

O numero três marca a estrutura de muitas passagens, como Mt 5,22.34s; 6,2-4.5s. 16-18; 7,7.22. 25.27; 8,9; 10, 40s; 17,1-4; 23,8-10.34.

Mt = o Evangelho dos judeus

Dirigindo-se a judeus convertidos ao Cristianismo, S. Mateus procurou apresentar a doutrina de Jesus de modo especialmente significativo para os hebreus.

a) Mateus recorre freqüentemente às Escrituras do Antigo Testamento para mostrar que Jesus é o Filho de Davi, Filho de Abraão (Mt 1,1), o Rei dos judeus (2,2), que veio salvar seu povo (1,21). Mateus cita dezenove vezes as profecias, ao passo que Marcos apenas cinco, e Lucas oito. É característica do estilo de Mt a fórmula:

“Isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito por…” (cf. 1,22; 2,15. 17.23).

Algumas vezes o texto da profecia influi sobre a redação do Evangelho. Por exemplo, Mateus diz que Jesus se serviu de um jumento e de seu filhote para entrar em Jerusalém (21,2-7), ao passo que os outros evangelistas mencionam apenas o jumentinho (Mc 11,2-7; Lc 19,29= 35; Jo 12,14s); assim procedendo, Mateus quis simplesmente adaptar-se às palavras da profecia de Zc 9,9s, que ele cita e cujo cumprimento ele queria incutir ao leitor. – Mateus é também o único dos evangelistas que menciona o preço pelo qual Judas vendeu o Senhor (trinta moedas de prata), e isto porque o profeta Zacarias (11,12; cf. Mt 27,9) menciona a quantia; comparar Mt 26,15 com Mc 14,11 e Lc 22,5.

b) De modo especial Mateus se refere à Lei de Moisés. Assim em Mt, 5,21-48 Jesus alude a seis preceitos de Moisés para os aperfeiçoar, aparecendo assim como o novo Moisés ou Moisés levado à plenitude.

Observemos também que o primeiro versículo do texto grego do Evangelho se abre com as palavras Biblos Genéseos… Estas lembram o titulo grego do primeiro livro do Antigo Testamento (Gênesis), talvez para indicar que nova criação e nova vida entraram no mundo por obra de Jesus Cristo.

Em suma, Jesus não veio abolir a Lei de Moisés, mas levá-la à plenitude, isto é, cumprir todas as promessas e profecias nela contidas (cf. Mt 5,17).

c) É de notar que a catequese habitual dos Apóstolos devia começar pelo Batismo de Jesus e terminar pela Ascensão do Senhor; foi assim que São Pedro concebeu os seus primeiros sermões (cf. At 1,21 s; 10,37-41). O Evangelho de Marcos se enquadra perfeitamente nesses termos. S. Mateus e S. Lucas, porém, julgaram oportuno propor no início das suas narrações algumas notícias sobre a infância de Jesus. Ora observa-se que em Mt a figura predominante dos cc. 1-2 é São José (cf. Mt 1,18-21.24s; 2,13-15.19-23), ao passo que em Lc a figura mais saliente é Maria. Isto permite concluir que os principais informantes de Mateus, no caso, foram os familiares de São José e parentes de Jesus, que eram particularmente zelosos das tradições de Israel.

Mt = o Evangelho da Igreja

Mateus quis mostrar que o Reino do Messias, muito radicado nas profecias e nos costumes do povo de Israel, é, não obstante, um reino universal católico. Por isto pôs em relevo os traços de universalismo da mensagem de Jesus.

a) A genealogia de Jesus em Mt 1,1-17, além da simetria de seus números, apresenta quatro nomes de mulheres, contrariando o estilo das genealogias: Raab, meretriz de Jericó (1,5); Tamar, pouco honesta e provavelmente cananéia (1,3); Rute, moabita (1,5) e Betsabé, esposa de Urias, hitita como seu marido (1,6). Note-se que são nomes de mulheres estrangeiras ou de má vida. – Por que o Evangelista, quebrando o estilo das genealogias, quis incluir essas mulheres entre os antepassados de Jesus? – Precisamente para mostrar que Ele é o Salvador não apenas de Israel, mas também dos estrangeiros e pecadores; Ele veio para salvar a todos indistintamente, pois em suas veias corria o sangue de judeus e de pagãos.

b) O termo “Igreja” (ekklesia, em grego) só ocorre em Mt 16,18; 18,17 dentro dos escritos dos evangelistas. Mateus também é o único a descrever a cena da promessa do primado a Pedro (Mi 16,13-20). A Igreja consta não apenas de judeus, mas também de pagãos convertidos (cf. Mt 28,16-20; 8,11),

Aliás, todo o mistério da Igreja está contido no episódio dos magos (Mt 2,1-12), que só Mt refere; conduzidos de longe por uma estrela e orientados pelos próprios judeus, os pagãos reconheceram e adoraram o Messias, ao passo que o rei Herodes e sua corte o quiseram matar.

A São Pedro Mateus dedica especial reverência, como se depreende dos episódios próprios: Mt 14,28-32; 16,17-19; 17,24-27. Compare-se Mt 26,40 com Mc 14,37.

Assim concebido, o Evangelho segundo Mateus tornou-se “o livro mais importante da história universal” (Renan), o livro insuperável das primeiras gerações cristas.


Referências:

(1) A palavra semita compreende todos os descendentes de Sem (sírios, árabes e também judeus).

Para aprofundamento:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia IV. Ed. Vozes, Petrópolis 1972.

BARBAGLIO, FABRIS, MAGGIONÍ, Os Evangelhos (I)

PIKAZA, S., A Teologia de Mateus. Ed. Paulinas, São Paulo 1978.

VÁRIOS AUTORES, Leitura do Evangelho segundo Mateus. Ed.

Paulinas, São Paulo 1982.

Perguntas sobre o Evangelho de São Mateus

  • Cite um testemunho de escritor antigo sobre a autoria do 1º Evangelho.
  • O texto do 1º Evangelho diz-nos algo sobre a personalidade do seu autor?
  • São Mateus explica aos seus leitores os vocábulos e os costumes dos Judeus? Por quê…’?
  • Cite ao menos cinco passagens nas quais ocorrem semitismos em Mt.
  • Temos ainda hoje o texto origina! aramaico de Mt? Porquê?
  • Que significa “Evangelho sistemático”? Dê alguns exemplos.
  • Como é que Mt relaciona Moisés e Jesus ? Explique.
  • Em que sentido se pode dizer que Mt é o Evangelho da Igreja ?
  • Comente a genealogia de Jesus em Mi 1.1-17 (42 nomes de homens e 4 de mulheres),