Mês de Fevereiro: A Virtude da Esperança

Mês de Fevereiro: A Virtude da Esperança

Mês de Fevereiro

Breve introdução sobre a Esperança e o Apóstolo Patrono

Quoniam in me speravit, liberabo eum, protegam eum, quoniam cognovit nomen meum – Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei; protegê-lo-ei, porquanto conheceu o meu nome (Sl 90, 14)

A esperança é uma virtude sobrenatural, pela qual, firmados nas promessas de Deus, esperamos confiadamente a salvação eterna e todas as graças que necessitamos para consegui-la. Para nos persuadirmos de grande valor desta virtude e nos estimularmos à sua prática, consideremos os motivos, os objetos, as propriedades e os efeitos da esperança.

A nossa esperança de conseguir a salvação e os meios necessários para isto deve ser certa da parte de Deus. Os fundamentos desta certeza são o poder, misericórdia e fidelidade de Deus: mas destes três motivos de confiança, o mais firme e certo é a fidelidade infalível de Deus na promessa que nos fez, por causa dos méritos de Jesus Cristo, de nos salvar e conceder-nos as graças necessárias à salvação… Todavia esta promessa é condicional, pois exige, da nossa parte, que correspondamos à graça e oremos. Aquele que ora com certeza se salva.

Crê firmemente “que ninguém esperou no Senhor e foi confundido” (Eclo 2, 11). Pondera que Deus te ama mais do que tu a ti mesmo. Davi achava consolação no pensamento:

“O Senhor cuida de mim” (SI 39, 18)

Dize também tu ao Senhor:

Senhor, lanço-me nos Vossos braços; só quero pensar em amar-Vos e agradar-Vos; Vós não só desejais o meu bem, mas cuidais igualmente de mo assegurardes. Em Vós, pois, confio, porque quereis que ponha em Vós só toda a confiança: ‘Ponde no Senhor toda a vossa solicitude, porque ele tem cuidado de vós” (Pd 5, 7)

Para te firmares mais na confiança em Deus, lembra-te muitas vezes da maneira carinhosa com que te tratou até agora e dos meios compassivos de que usou para ganhar-lo a Seu amor. Agora que estás resolvido a amar a Deus quanto possível, deves temer unicamente mostrar pouca confiança no trato com Deus. Sua misericórdia para contigo é a mais segura prova de Seu amor. A falta de confiança naquelas almas que O amam ternamente e são por Ele amadas, O desagrada sumamente. Se queres, pois, agradar Seu amoroso coração, mostra-lhe então, no futuro, a maior e mais íntima confiança que te for possível.

Um ato especial de confiança, que agrada de um modo todo particular a Deus, consiste em lançar-se a Seus pés e pedir-Lhe perdão logo depois de se ter cometido uma falta. Pondera que Deus está tão inclinado a perdoar, que Ele deplora vivamente a desgraça do pecador que vive longe dEle, privado de Sua graça. Se caíres, pois, em algum pecado, eleva imediatamente teus olhos a Deus, espera confiadamente o perdão, e dize:

“Senhor, aquele a quem amais está doente” (Jo 11, 3)

“Curai a minha alma, porque contra Vós pequei” (SI 40, 5)

O mal está feito; que devo fazer? Não quereis que eu desespere; amais-me ainda, apesar de meu pecado. Arrependo-me de todo o coração de Vos ter desagradado; perdoai- me, pois, e fazei-me ouvir as palavras que dissestes a Madalena: “Teus pecados te são perdoados” (Lc 7, 48)

Ainda que recaias cem vezes no dia no mesmo pecado, não deves deixar de recorrer a Deus depois de cada queda. Se tua alma permanecer abatida e pusilânime, teu amor arrefecerá dentro em breve; se, porém, recorreres a Deus imediatamente pedindo-Lhe perdão e prometendo-Lhe emenda, tuas faltas te servirão para maior progresso no amor de Deus.

Apóstolo Patrono para o Mês de Fevereiro: Santo André.

Sumário
I. A sua natureza
II. Dos objetos da Esperança
III. Dos motivos da nossa Esperança
IV. Das propriedades de nossa Esperança
V. Dos Efeitos da Esperança
VI. A Esperança e o Redentor
VII. A Prática da Esperança
VIII. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Mês de Janeiro: A Virtude da Esperança. Apóstolo Patrono: Santo André

Mês de Fevereiro: A Virtude da Esperança. Apóstolo Patrono: Santo André

I. Fé: a sua natureza

Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

A fé mostra-nos o nosso fim sobrenatural na posse de Deus e a possibilidade de lá chegarmos com o socorro da graça; pela esperança a nossa vontade se move a prosseguir esse fim.

A fé diz-nos que Deus quer, dando-se a nós, constituir Ele mesmo a nossa felicidade: Ego merces tua magna nimis – “eu serei a tua recompensa incomparavelmente grande” (Gn 15, 1); que no céu contemplaremos a Deus em toda a Sua beleza, sem véu, como Ele mesmo se vê, face a face: Videbimus eum sicuti est… (1 Jo 3, 2). Videmus nunc per speculum, in aenigmate; tunc autem facie ad faciem (1 Cor 13, 12); que nessa visão e nessa posse de Deus a alma provará delícias inefáveis. Diz o profeta:

“Eles serão inebriados da vossa casa; e vós os fareis beber na torrente das vossas delícias” (SI 35, 9)

Como não desejar tal felicidade?

A fé, entretanto, nos mostra ao mesmo tempo a nossa incapacidade absoluta diante desse fim.

Sem o socorro divino, sem a graça, nada podemos na ordem sobrenatural: Sine me nihil potestis facere. Não podemos sequer ter um bom pensamento nem  conceber a ideia do bem a cumprir: non quod sufficientes simus cogitare aliquid a nobis quasi ex nobis, sed sufficientia nostra ex Deo est (2 Cor 3, 5); não podemos nem pronunciar com mérito o nome de Jesus. Et nemo potest dicere Dominus Jesus nisi in Spiritu Sancto (1 Cor 12, 3).

Não somente somos incapazes, por nós mesmos, de chegar a esse fim, mas tudo em nós e ao redor de nós se une para dEle nos afastar e impedir que à Ele cheguemos. É a nossa natureza perversa, com seus instintos maus, com suas furiosas paixões; é o mundo que faz brilhar aos nossos olhos o clarão enganador de seus falsos bens e nos rouba a vista do céu; é Satanás, que, em sua inveja rancorosa, jurou privar-nos da felicidade que ele perdeu, e que anda ao redor de nós como um animal feroz que procura a sua presa.

Com o sentimento de tal fraqueza, à vista de tantos e tão poderosos inimigos que se levantam contra nós, como não temeremos perder essa felicidade, aliás, tão desejável?

Mas ao mesmo tempo em que a fé nos mostra a nossa fraqueza e o poder de nossos adversários, descobre-nos o socorro onipotente pelo qual podemos desfazer todos os obstáculos, triunfar de todos os nossos inimigos e conquistar a coroa eterna.

Ela nos diz: O que não podeis fazer por vós mesmos, o pode por Deus.

Deus é todo-poderoso; por Sua graça pode arrancar-vos às vossas misérias, tirar-vos das mãos dos vossos inimigos e levar-vos ao céu. Deus é infinitamente bom; quer a vossa salvação e a vossa felicidade; é para O procurardes, oferece-vos com abundância todos os socorros necessários.

Deus é infinitamente misericordioso e vos salvará apesar dos vossos pecados, contanto que Lhe não ponhais obstáculo por vossa impenitência.

Essas graças, que necessitais, Jesus vo-la mereceu por Sua paixão e morte; todos os méritos do Salvador são vossos se quiserdes. Em Jesus vos tornastes infinitamente ricos, de sorte que nenhuma graça vos falta. In omnibus divites facti estis in illo … ita ut nihil  vobis desit in ulla gratia (1 Cor 1,6).

Mas essas graças Deus vo-la quer conceder por vossos rogos: é a condição que Ele vos impõe, prometendo, pelas mais formais promessas, corresponder à vossa prece pela abundância dos seus socorros:

“Clama-me, que te atenderei… invoca-me… que te arrancarei das mãos dos teus inimigos… Quem pede recebe. Em verdade eu vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, ele vo-la dará”

Pedi, pois, para obter a graça; com o seu socorro cumprireis a vontade divina por obras de justiça e santidade, e o céu será a vossa herança.

Diz o santo Concílio de Trento: Deus não manda o impossível. Dando-nos os Seus mandamentos, adver­te-nos que façamos o que está em nosso alcance e peçamos o Seu socorro para o que é superior as nossas forças; e Ele dá a graça de o cumprirmos.

Não obstante, além dessas convicções e dessas luzes, que a fé nos dá, a vontade humana, para se dedicar à consecução dos bens eternos, necessita dum socorro divino, que a eleve sobre si mesma e a transporte por inspirações sobrenaturais: esse socorro é a Esperança Cristã: virtude infusa, pela qual, contando com o socorro divino, a alma se move a conquistar a eterna beatitude. Em sua moral, Santo Afonso define a esperança:

Uma expectação certa da beatitude e dos meios de consegui-la, fecundada na misericórdia de Deus e nas Suas promessas.

A esperança, pois, aguardam de Deus duas coisas: 1.° a beatitude eterna: eis o seu objeto primário e principal; e 2.° os socorros necessários para consegui-la: eis o seu objeto secundário; e apoiando-se no poder, na bondade, na misericórdia, na fidelidade de Deus, a quem lhe apresenta os méritos de Jesus Cristo, ousa pretender tão grandes bens.

Pela esperança, a alma cristã reconhece e proclama de um lado a sua incapacidade e miséria: eis a humildade e a desconfiança de si próprio; do outro lado, a bondade de Deus e o poder da graça: eis a confiança em Deus.

Ela quer chegar ao céu, mas com o socorro de Deus. Por isso caminha com passo seguro entre dois abismos: de um lado o desespero, pelo qual a alma se perde renunciando aos bens eternos; do outro, a presunção, pela qual a alma se priva do socorro divino, seja pretendendo chegar a Deus por suas próprias forças, seja querendo esperar tudo da graça, sem se esforçar por corresponder-Lhe por boas obras.

Para se alcandorar ao céu é preciso que a alma quebre as cadeias pelas quais as criaturas procuram prendê-la a terra: eis o desapego dos bens do mundo, sem o qual é impossível a esperança. Por isso S. Tomás refere à virtude da esperança a bem-aventurança da pobreza.

Do outro lado, quanto mais ardentemente alguém espera um bem, tanto mais vivamente teme perdê-lo. Ora, é o pecado que nos faz perder a bem-aventurança eterna; por isso a verdadeira esperança faz nascer no coração o temor do pecado.

Se a alma teme o pecado por causa do castigo que ele acarreta, tem o temor do escravo, o temor servil que corresponde diretamente à esperança. Se a alma teme o pecado, sobretudo porque ofende o coração divino, tem o temor do filho, o temor filial que nasce da caridade. Mesmo o temor servil é um grande dom de Deus, o qual já tem afastado muitas almas da borda do abismo.

Este nos leva a unirmos o ato de esperança ao ato de caridade, o que só pode contribuir para colocar em mais luz um e outro. Um e outro são os voos da alma que se lança para Deus e procura unir-se a Ele; ora, todo voo da alma é amor, segundo a bela doutrina de Santo Agostinho, só com uma diferença: pela esperança, a alma busca em Deus a sua própria perfeição, a sua própria felicidade: é o amor de concupiscência; enquanto que, pela caridade, a alma se eleva a Deus qual soberano Bem, amado e digno de todo o seu amor: é o amor de amizade.

Mas não é uma desordem pretender a criatura assim satisfazer-se por Deus, referindo, por assim dizer, o próprio Deus a si mesmo?  Não, certamente; procurando em Deus o seu próprio bem, a alma não quer absolutamente referir Deus a si próprio, nem mesmo que Deus se submeta à sua criatura, dignando-se ser Ele mesmo a sua alegria e a sua felicidade; mas, assim como por essa condescendência Deus manifesta a infinita bondade do Seu coração, a alma, aderindo a Ele como a seu último fim, proclama que Deus só é para ela, o princípio de toda alegria e felicidade.

Não há pelo menos alguma oposição entre a esperança e a caridade, e esta não ficam enfraquecidas por aquela? Absolutamente não; muito ao contrário, essas duas virtudes fortificam-se admiravelmente uma a outra. Porque, de um lado, só o fato de esperar um bem de alguém faz-nos já amar o benfeitor; a esperança, pois, leva a alma à caridade. Do outro lado, quanto mais amamos alguém, tanto mais confiança tem nele; o amor fortalece a caridade. A esperança torna-se então confiança. A confiança, diz Santo Tomas, é a esperança fortalecida, consolidada, ou assegurada. Mas donde vem à esperança essa força, essa segurança? Duma fé mais esclarecida, mais forte, mais viva na bondade, na misericórdia e no poder de Deus. Daí o nome de confiança (fidutia) que vem da fé (fides). Ora, é a caridade que da a fé essa força, esse vigor donde a esperança tira por sua vez aquela segurança que nada pode abalar e que provoca os seus intrépidos voos.

É próprio, enfim, da verdadeira amizade tender à união perfeita dos dois amigos que desejariam fazer-se um só; e quanto mais forte for a amizade, mais vivamente almejarão estar juntos, a fim de gozar um do outro. Assim os desejos da esperança crescem com os ardores da caridade, e, longe de destruir a esperança, a caridade a eleva e fortalece.

II. Dos objetos da Esperança

Os escritos seguintes são de Santo Afonso Maria de Ligório.

1) Objeto principal da Esperança:
A bem-aventurança eterna ou a posse de Deus

O primeiro e principal objeto de nossa esperança é a posse de Deus no céu. Não devemos crer que a esperança de possuir Deus no céu seja contrária ao amor de Deus; mui pelo contrário, a esperança da bem-aventurança eterna é inseparável do amor, visto que este só no céu encontra sua satisfação e perfeição. Segundo Santo Tomás, a comunicação de bens está contida na definição da amizade, pois já esta nada mais é que afeição mútua; é preciso que os amigos façam tanto bem um ao outro quanto lhes for possível para existir verdadeira amizade entre eles, pois ela não pode existir sem essa comunicação de bens (I II. q. 65, a. 5). Por isso Cristo declarou a Seus discípulos que os denominaria amigos, porque lhes revelara todos os segredos:

“Eu vos chamei amigos, porque vos dei a conhecer tudo que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15

Segundo a doutrina de Santo Tomás, pois, o amor não exclui a esperança da recompensa que Deus nos preparou no céu, porque ela é o objeto principal de nossa esperança; essa recompensa nada mais é que o próprio Deus, cuja visão constitui a felicidade dos bem-aventurados. A amizade, diz o Doutor Angélico (In III Sent. d. 29, q, l, a. 4) , exige que o amigo esteja na posse de seu amigo. Esta é aquela comunicação mútua ou entrega, da qual fala a esposa dos cânticos:

“Meu Amado é meu e eu sou dele” (Ct 2, 16)

No céu a alma se dá inteiramente a Deus e Deus se entrega inteiramente à alma; porém, segundo a medida da capacidade e dos méritos de cada alma.

O amor tende naturalmente à união com o objeto amado, diz o Areopagita, ou antes, conforme Santo Agostinho, o amor é uma cadeia de ouro que une os corações da pessoa que ama e da pessoa amada. E como esta união não se pode efetuar de longe, quem ama deseja sempre a presença da pessoa amada. A esposa sagrada, vendo-se separada de seu divino esposo, enlanguescia de amor e pedia a suas companheiras que o informassem de sua pena, para movê-lo a consolá-la com sua presença:

“Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu Amado, dizei-lhe que desfaleço de amor” (Ct 5, 8)

Uma alma que ama ardentemente a Jesus Cristo não poderá viver na terra sem um ardente desejo de se unir brevemente a Ele, no céu, onde será Ele mesmo sua recompensa imensamente grande.

Enquanto nossa alma não estiver unida perfeitamente a Deus no céu, não encontrará inteiro repouso. É verdade que os que amam a Cristo encontram sua paz na conformidade com a Sua santíssima vontade, mas não inteira tranquilidade, que não é possível nesta vida, mas só na outra, na posse de nosso fim último, isto é, na visão de Deus face a face e no seu amor consumado. Enquanto a alma estiver separada deste seu fim último, estará inquieta e repetirá sem cessar, em soluços:

“Eis que na paz encontro uma grande amargura” (Is 88, 17)

Meu Deus, vivo em paz neste vale de lágrimas, porque esta é a Vossa vontade; mas não posso deixar de sentir uma inexplicável amargura pensando que ainda não estou perfeitamente unido a Vós, que sois meu centro, meu repouso, meu tudo.

Assim suspiravam os santos incessantemente pela pátria celeste, porque estavam abrasados no amor de Deus. Davi se queixava da duração de seu exílio:

“Ai de mim, que o meu exílio se prolonga tanto” (SI 119, 5)

Só o consolava a esperança da eterna felicidade:

“Serei, porém, saciado, quando tua glória se me tornar visível” (SI 16, 15)

São Paulo desejava ansiosamente deixar o mundo e unir-se a Cristo.

“Desejo ser dissolvido e estar com Cristo” (Fl 1, 23)

São Francisco de Assis dizia:

“O bem que espero é tão grande, que toda a pena para consegui-lo transforma-se em um prazer”

Todas essas exclamações são outros tantos atos de amor perfeito. Santo Tomás ensina que o grau mais sublime da caridade que pode ser atingido por uma alma neste mundo é o desejar ardentemente o céu, para aí unir-se infimamente com Deus, possuí-lo e gozar sua presença para todo o sempre.

A maior pena que as almas sofrem no purgatório provém do desejo que sentem de possuir a Deus. Esta pena aflige particularmente as almas que, nesta vida, tiveram pequeno desejo do céu. O Cardeal Belarmino pensa mesmo que existe um lugar especial no purgatório (ao qual dá o nome de prisão honrosa), no qual as almas não são sujeitas a pena alguma dos sentidos, mas unicamente à privação da vista de Deus. São Gregório, São Vicente Ferrer, Santa Brígida, São Beda, o venerável, apresentam diversos exemplos de penas impostas, não em razão dos pecados cometidos, mas por causa de pouco desejo do céu.

Muitas almas aspiram à perfeição, sem, contudo, desejarem seriamente deixar a terra para poderem se unir mais depressa a Deus. Ora, sendo a vida eterna um bem infinitamente precioso, adquirido à custa da morte do Salvador, todas essas almas devem ser punidas pelo fraco desejo que tiveram do céu durante a vida presente.

2) Ainda outros objetos da esperança:
As Graças necessárias à Salvação.

De três coisas precisamos, de modo particular, para alcançarmos a salvação: do perdão dos nossos pecados, da vitória nas tentações, da graça de uma boa morte, que é a coroa de todas as outras graças. Estas três coisas constituem o objeto remoto da esperança.

O Perdão de nossos Pecados

— Pecaste, alma cristã, e certamente desejas o perdão. Pois bem, não temas, diz São João Crisóstomo (In Act. hom. 36), pois maior é o desejo de Deus de te conceder perdão do que o teu de o alcançares. Vendo Deus que um infeliz vive no pecado, espera ocasião de poder socorrê-lo (Is 30, 18). Algumas vezes mostra-lhe os castigos que merece para que entre em si: “Destes aos que Vos temem um sinal para que fujam da face do arco e assim fiquem livres os que Vós amais” (SI 59, 6); outras vezes bate à porta do coração do pecador, esperando que lha abra: “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3, 2); ora corre atrás dele e o chama como um pai misericordioso: “Por que queres te perder? Por que queres morrer, casa de Israel?” (Ez 18, 31); ora chega até a pedir-nos que não nos percamos, segundo afirma Dionísio Areopagita. E isto é confirmado pelo Apóstolo, quando pede aos pecadores, em nome de Jesus Cristo, que se reconciliem com Deus:

“Conjuramo-vos por Cristo: reconciliai-vos com Deus” (2 Cor 5, 20)

Ao que nota São João Crisóstomo:

“Cristo em pessoa vos pede, e como soa a sua súplica? Reconciliai-vos com Deus” (In 2 Cor hom. 11)

Se, apesar disto, existem corações endurecidos, que não se deixam mover, poderá ainda o Senhor fazer mais por eles? Certamente não. Contudo, estes mesmos não serão repelidos se se voltarem para Ele:

“Todo o que vier a mim, eu não o lançarei fora” (Jo 6, 37)

Declara-se pronto a receber todo aquele que tornar a Ele:

“Convertei-vos a mim, diz o Senhor dos exércitos, e eu me converterei a vós” (Zc 1, 3)

Promete perdoar a todo o pecador que desejar converter-se:

“Se o pecador fizer penitência por todos os pecados que cometeu, e se observar todos os meus mandamentos… deverá viver, sim, viver e não morrer; não mais me recordarei de todas as iniquidades que ele operou” (Ez 18, 21)

Ele vai tão longe, que chega a dizer:

“Vinde e acusai-me: se vossos pecados forem como o escarlate, tornar-se-ão brancos corno a neve” (Is 1, 18)

O salmista diz:

“Ó Deus, Vós não desprezais um coração contrito e humilhado” (SI 50, 19)

O evangelista nos descreve a grande alegria com que o Senhor abraça a ovelha perdida e o amor com que recebe o filho pródigo, que se lança a seus pés. “Maior júbilo, porém, haverá no céu por um pecador que fizer penitencia, do que sobre noventa e nove justos, que não precisam dela”, diz o Senhor em pessoa (Lc 15, 7). O motivo, segundo São Gregório, é que regularmente os pecadores arrependidos amam a Deus mais ardentemente que os justos, que mui facilmente tornam-se tíbios no Seu serviço.

Sem dúvida alguma devemos dar rigorosas contas a Deus de todos os nossos pecados. Mas quem será o nosso juiz? Consolemo-nos:

“O Pai entregou ao Filho todo o poder de julgar” (Jo 5, 22)

Será o próprio Salvador que nos há de julgar. Por isso São Paulo nos anima, dizendo:

“Quem nos há de condenar? Jesus Cristo que morreu… e que interceda por nós” (Rom 8, 34)

O divino Redentor nos há de julgar, Ele que, para não se ver obrigado a condenar-nos à morte eterna, entregou-Se a Si mesmo à morte, e, ainda não contente com isso, quis ser nosso intercessor permanente junto a seu Pai.

“Que tens, pois, a temer, ó pecador, pergunta São Tomás de Vilanova, se te arrependeres de teus pecados? Como te poderá condenar aquele que, para te não condenar, condenou-Se a Si mesmo à morte?”

São João Crisóstomo diz que cada uma das chagas de Jesus é uma boca que fala sempre pedindo a Deus o perdão de nossas culpas.

Lê-se nas revelações de Santa Maria Madalena de Pazzi que Nosso Senhor lhe dirigiu um dia estas palavras:

“Minha justiça transformou- se em clemência, pela vingança que tomou na carne inocente de meu Filho. Seu sangue não clama por vingança, como o de Abel, só pede misericórdia, e minha justiça não pode resistir à sua voz. O sangue de meu Jesus me liga as mãos, de forma que não posso levantá-las para castigar os pecadores, como fazia antes”

Os Santos Padres ensinam que quem detestar o mal que praticou, pode ficar certo do perdão de seus pecados. Ora, conforme as palavras de Santa Teresa, pode-se afirmar de cada um, que está pronto a antes morrer do que ofender novamente o Senhor, que ele detesta sinceramente os seus pecados. Se, portanto, estiveres animada de tais sentimentos, alma cristã, por que te deixas ainda atormentar pelo temor e desconfiança? Reanima-te à vista de tantos santos que, tendo sido por algum tempo inimigos de Deus, a Ele se voltaram mais tarde, arrependidos e certos de mais detestarem uma nova ofensa de Deus que a própria morte, e cheios de confiança esperavam o perdão, de seus pecados. Santa Afra, de Augsburgo, sendo ainda pagã, era tão imoral, que fez de sua casa um prostíbulo, onde tinha a seu serviço três criadas para seduzir os rapazes. Mais tarde, converteu-se com toda a sua família. Vê-se, dos Atos dos Mártires de Ruinart, que tinha sempre diante dos olhos a hediondez de seus crimes, dos quais sentia, uma dor imensa. Logo depois de abraçar o cristianismo, cuidou em distribuir aos pobres tudo o que ganhara. Quando os cristãos recusavam aceitar esse dinheiro pecaminoso, adquirido à custa de ofensas a Deus, com lágrimas nos olhos suplicava-lhes que não o desdenhassem e a recomendassem a Deus, para que ele se dignasse perdoar-lhe os pecados. Reinava então a perseguição de Diocleciano. A santa foi presa e conduzida ao juiz, de nome Caio, que assim lhe falou:

“Sacrifica aos deuses, porque isso é melhor que morrer entre tormentos”

A santa respondeu:

“Nada mais quero saber de pecado; infelizmente já cometi muitos antes de conhecer o verdadeiro Deus e por isso não posso de forma alguma fazer o que dizes e ofender novamente a meu Deus”

O juiz de novo lhe disse que fosse ao templo sacrificar. Ao que ela respondeu:

“Meu templo é Jesus Cristo, que me está presente, ao qual confesso cotidianamente os meus pecados. E já que não posso oferecer-lhe um outro sacrifício, desejo ardentemente sacrificar-me a mim mesma em Sua honra, para que este corpo, com o qual tantas vezes O ofendi, seja purificado pelo martírio que com toda a alegria sofrerei”

“Mas nada tens a esperar do Deus dos cristãos”, respondeu-lhe Caio, “já que levaste uma vida tão torpe: sacrifica, por conseguinte, aos deuses”. A santa respondeu:

“Meu Salvador Jesus Cristo declarou que desceu do céu para salvar os pecadores. Lemos no Evangelho que uma pecadora, depois de lavar com suas lágrimas os pés de Jesus, alcançou o perdão de todos os seus pecados. Nunca o Salvador repeliu os pecadores públicos, antes com eles convivia e comia”

Vendo baldados todos os seus esforços, disse-lhe Caio:

“Se não sacrificares, mandarei mar­tirizar-te e queimar viva”

A santa respondeu corajosamente:

“De boa vontade submeto a qualquer espécie de martírio este corpo, que foi o instrumento de tantos pecados; nunca, porém, ei de manchar minha alma sacrificando ao demônio”

Condenou-a então o juiz à morte. Afra, elevando ao céu os olhos, fez a seguinte oração:

Meu Senhor Jesus Cristo, que não viestes chamar os justos mas os pecadores à penitência e que nos asseverastes que ao pecador perdoais todas as suas iniquidades se ele se voltar a Vós, recebei também a mim, pobre pecadora, que, por Vosso amor, me sujeito a estes tormentos, e fazei que este fogo que vai consumir meu corpo, preserve minha alma do fogo do inferno

Terminada esta oração, ao se cruzarem as chamas sobre sua cabeça, ainda rezou:

Agradeço-Vos, Senhor, por Vos haverdes, tão inocente, sacrificado pelos pecadores; a Vós, ó amado do Pai, que quisestes morrer por nós, miseráveis, carregados de pecados e maldições, agradeço e sacrifico-me a mim mesma, por Vós, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

Com estas palavras terminou sua oração e sua vida.

A Vitória sobre nossas Tentações

— Para perseverarmos no bem, não devemos colocar nossa confiança nas nossas resoluções. Se contarmos com nossas próprias forças, estaremos perdidos. Para nos conservarmos na graça, devemos pôr nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo; com Sua assistência perseveraremos até à morte, ainda que combatidos por todos os poderes terrestres e infernais.

Sem dúvida alguma seremos assaltados algumas vezes por tantas e tão fortes tentações que nossa queda nos parecerá inevitável; guardemo-nos, porém, de perder então a coragem e de nos entregar ao desespero; recorramos com toda a pressa a Jesus Crucificado, que Ele impedirá a nossa queda. O Senhor permite que até aos santos sobrevenham tais tempestades, como a São Paulo, que afirma de si:

“Nós fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças a ponto de nos aborrecermos da própria vida” (2 Cor 1, 8)

O Apóstolo aqui mostra o que ele podia por própria força e com isso nos quer ensinar que “Deus, de vez em quando, nos deixa ver a nossa fraqueza, para que, melhor inteirados de nossa miséria, não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Cor 1, 9) e humildemente peçamos o Seu auxílio para não sucumbirmos. Ainda mais claramente disso fala o Apóstolo em outro lugar, dizendo:

“Em tudo sofremos tribulações, porém não desanimamos; somos embaraçados, porém não desesperamos” (2 Cor 4, 8)

Sentimo-nos oprimidos pela tristeza e afligidos pelas paixões, contudo não desesperamos; somos lançados num mar tempestuoso e não vamos ao fundo, porque o Senhor nos concede com Sua graça a força de resistir a todos os nossos inimigos. Mas ao mesmo tempo o Apóstolo nos exorta a que não nos esqueçamos que somos homens fracos e frágeis, que mui facilmente podemos perder de novo o tesouro da graça divina, que só poderemos conservar peia virtude divina e não pela própria força.

“Nós, porém, possuímos esse tesouro em vaso de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus e não de nós” (2 Cor 4, 7)

Ainda que, conforme o sobredito, não possamos achar em nós a força necessária para evitar o pecado, mas exclusivamente na graça de Deus, devemos empregar todo o cuidado em nos tornarmos, por culpa própria, ainda mais fracos do que já somos. Certas faltas, de que não fazemos conta, podem ser a causa de Deus nos negar a luz sobrenatural, tornando-se assim o demônio mais forte contra nós.

Tais faltas são:

  • O desejo de passar por sábio ou nobre aos olhos do mundo;
  • A vaidade no vestir;
  • A busca de comodidades supérfluas;
  • O costume de se dar por ofendido com qualquer palavra picante ou com uma simples falta de atenção;
  • O desejo de agradar a todo o mundo à custa do bem espiritual;
  • A negligência das práticas de piedade por respeito humano;
  • As pequenas desobediências;
  • Pequenas aversões contra alguém;
  • Pequenas murmurações;
  • Pequenas mentiras ou caçoadas;
  • O tempo perdido em conversas ou curiosidades inúteis,

Em uma palavra, todo o apego às coisas criadas, toda a satisfação do amor-próprio podem oferecer ao nosso inimigo ocasião para nos precipitar no abismo; estas faltas, cometidas com deliberação, nos roubarão, pelo menos, os socorros abundantes do Senhor, que nos preservam, sem dúvida alguma, da queda no pecado.

A Graça de uma Boa Morte

— Grandes são as tribulações que nos esperam na nossa última hora; só Jesus Cristo nos pode conceder a graça de suportá-las com paciência e proveito espiritual. Ao aproximar-se a morte devemos temer mais que nunca os assaltos do inferno; ele se esforçará tanto mais para nos perder quanto mais perto nos vir de nosso último fim. São Elzeário, que tinha levado uma vida extraordinariamente pura, sendo em sua última hora tentado fortemente pelo demônio, dizia aos circunstantes:

Os esforços do inferno são neste momento mui grandes, mas Jesus Cristo lhes tira toda a força pelos merecimentos de Sua paixão

Por isso, na hora de sua morte, São Francisco pediu que se lesse a história da paixão de Jesus, e São Carlos Borromeu mandou que colocassem sobre sua cama várias imagens representando o Salvador em Sua paixão, e, enquanto as contemplava, entregou sua alma ao Criador.

São Paulo diz que Cristo quis padecer a morte “para que, por meio de Sua morte, destruísse aquele que possuía o império da morte, a saber, o demônio, e libertasse os que, pelo temor da morte, estavam debaixo da escravidão” (Heb 2, 14). “Por isso teve de se tornar em tudo semelhante a seus irmãos”, continua o Apóstolo, “para que se tornasse misericordioso para conosco”. O Senhor quis tomar sobre Si a natureza humana, exceto a ignorância, a concupiscência e o pecado, para experimentar em Si mesmo a nossa miséria e ter assim compaixão de nós; pois muito melhor se aprende a conhecer a miséria alheia sofrendo-a pessoalmente que considerando-a nos outros. O divino Salvador devia assim se tornar mais disposto a nos socorrer em todas as tentações que temos de suportar durante a vida e mais na hora de nossa morte.

Se o demônio, pois, nos inquietar em ambas essas ocasiões, pondo diante de nossos olhos os pecados de nossa mocidade, devemos dizer-lhe com São Bernardo (In Cant s. 61):

“O que me falta para poder entrar no céu eu mo aproprio dos méritos de Jesus Cristo, que quis precisamente sofrer e morrer por mim, para me procurar a glória eterna, que eu não merecia”

III. Dos motivos da nossa Esperança

Primeiro motivo: as Promessas de Deus

A Sagrada Escritura oferece a cada página, por assim dizer, os mais poderosos motivos para uma confiança inabalável em Deus. Aí vemos que Deus promete a cada um, que a pede e espera, a salvação eterna, assim como todos os auxílios necessários.

“Todas as coisas que pedirdes, orando, crede que as recebereis e elas vos serão concedidas” (Mc 11, 24)

“Todo aquele que pede, recebe” (Mt 7, 8)

“O Senhor é o protetor de todos aqueles que esperam nEle” (SI 17, 31)

“Olhai para todas as nações e sabei que nenhum dos que esperam foi jamais confundido” (Eclo 2, 11)

“Aqueles que confiam em Vós não são confundidos” (SI 24, 3)

“Em Vós, Senhor, esperei, não serei confundido eternamente” (SI 70, 1)

“Porque esperou em mim, eu o livrarei… e glorificarei” (Sl 90, 14)

“Em verdade, em verdade vos digo, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23)

Estas, como inúmeras outras promessas, são dirigidas a todos os homens, sem exceção. E como a Escritura o atesta, passarão o céu e a terra, mas não as promessas e palavras de Deus.

“Retenhamos indeclinavelmente a confissão de nossa esperança, pois fiel é aquele que nos prometeu” (Hb 10, 23)

Segundo motivo: a Vontade da Deus de salvar todos os homens

— Deus ama todas as suas criaturas.

“Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que criastes” (Sb 11, 23)

Ora, segundo Santo Agos­tinho (In. Ps. 121), todo o amor possui sua virtude e não pode ficar inativo, donde se segue que o amor contém em si mesmo necessariamente a benevolência e que uma pessoa que ama não pode deixar de fazer bem à pessoa amada, quando isso está em seu poder. “O amor se esforça em executar o que considera bem para a pessoa amada”, diz Aristóteles (Rhct. 1. 2, c. 5). Se Deus, pois, ama a todos os homens, deve também querer que todos consigam a bem-aventurança eterna, que é o único e sumo bem do homem, já que ele é o único destino o fim para que fomos criados.

“Agora, tendes por vosso fruto a santificação e por fim a vida eterna” (Rm 6, 22)

Calvino proferiu uma blasfêmia execranda, ao afirmar que Deus criou alguns homens expressamente para precipitá-los no inferno; chegou mesmo a dizer que o próprio Deus obriga tais homens a pecar, para poder condená-los. Deus quer indubitavelmente que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tim 2, 4). Ele declara que deseja a conversão e salvação dos mesmos ímpios que, certamente, mereceriam a morte eterna.

“Vivo eu, diz o Senhor, que não desejo a morte do ímpio, mas que se converta de sua vida e viva” (Ez 33, 11)

Tertuliano faz observar que Deus, com as palavras vivo eu faz um juramento, para que creiamos nEle sem hesitação. Por isso o sábio Petávio se admira que ainda se possa duvidar dessa verdade (De Deo. 1. 10, c. 15). Se é lícito, diz ele, interpretar em outro sentido um texto tão claro da Sagrada Escritura, que é confirmado por um juramento do próprio Deus, que haverá então na mesma Escritura, em matéria de fé, que não possa sofrer uma outra explicação? Mas por que deseja Nosso Senhor tanto que os homens se salvem? Porque os criou por amor e por um amor que lhes dedica desde toda a eternidade.

“Eu te amei com um amor eterno, e por isso, compadecido de ti, te atraía a mim” (Jr 33, 3)

Na epístola de São Pedro lemos que o Senhor, conhecendo a fraqueza do homem, tem paciência com os pecadores e não quer que eles se percam, mas que façam penitencia por seus pecados e se salvem:

“O Senhor procede com paciência por causa de vós, não querendo que alguns se percam, mas sim que todos façam penitência” (2 Pd 3, 9)

Numa palavra:

Deus quer salvar a todos e se há infelizes que, por seus pecados, o obrigam a lançá-los no inferno, dirige-lhes esta queixa paternal, chorando de compaixão:

“Por que quereis morrer, ó casa de Israel… Convertei-vos e vivei” (Ez 18, 32)

Por que quereis perder-vos, meus filhos, e lançar-vos no suplício eterno? Se fostes tão infelizes por me abandonardes antes, voltai-vos agora contritos a mim, que vos darei novamente a vida que perdestes.

Dize-me agora, alma cristã, se é ou não verdade que Deus deseja a tua salvação. Nunca, pois, deves deixar escapar de teus lábios palavras como estas: Quem sabe se Deus quer que eu me salve? Quem sabe se é Sua vontade condenar-me por causa das ofensas que Lhe te­nho feito? Deves sempre refletir tais pensamentos, pois é certo que Deus te assiste com Sua graça e te convida encarecidamente a Seu amor.

Terceiro motivo: Os merecimentos de Jesus Cristo

— Já antes de aparecer neste mundo o divino Redentor, nEle colocava Davi toda a sua esperança:

“Em Vossas mãos encomendo o meu espírito, Vós me remistes, Senhor, Deus da verdade” (SI 30, 6)

Com quanto maior razão devemos pôr nossa confiança em Jesus Cristo, depois de ter Ele vindo e consumado a obra da nossa redenção. Cheio de confiança, cada um de nós deverá dizer, e não cessar de repetir com o Rei-profeta: Senhor, em Vossas mãos entrego o meu espirito: Vós me remistes, Senhor, Deus da verdade.

Se temos justos motivos de temer a morte eterna por causa de nossos pecados, achamos razões ainda mais poderosas para esperar a vida eterna nos merecimentos de Jesus Cristo, que tem maior virtude para nos salvar que nossos pecados para nos perder. Pelo pecado merecemos a morte eterna, mas o Salvador veio em nosso auxílio, diz o profeta Isaías (Is 53, 4), e tomou sobre Si todas as nossas culpas, para satisfazer por elas por meio de Sua paixão.

“Em verdade, Ele sofreu as nossas enfermidades e se sobrecarregou com nossas dores”

No momento infeliz em que pecamos, escreveu Deus a sentença de morte eterna contra nós. Que fez, porém, Jesus Cristo? Tomou esse decreto de condenação, diz o Apóstolo, apagou-o com Seu sangue, pregando-o na cruz, para que nunca o pudéssemos contemplar, sem, ao mesmo tempo, vermos a cruz em que o destruiu, a fim de recuperarmos, por essa maneira, a esperança do perdão e de nossa eterna salvação:

“Destruindo o quirógrafo do decreto que nos era adverso, o pôs de lado, afixando-o na cruz” (Col 2, 14)

“Aproximemo-nos, pois, com confiança do trono da graça, para alcançarmos misericórdia e obtermos graça” (Hb 4, 16)

O trono da graça é a cruz, sobre a qual Jesus se assenta como sobre um trono, para conceder a todos que recorrem a Ele graça e comiseração. Devemos recorrer a Ele, agora que podemos achar os auxílios necessários para a salvação, porque, do contrário, chegaremos tarde e suplicaremos em vão. Corramos, portanto, à cruz de Jesus e abracemo-la com grande confiança; não nos aterrorizemos com a nossa miséria, pois em Cristo encontraremos todas as riquezas e graças.

“Eu agradeço sempre a Deus por vós, diz o Apóstolo, porque cm todas as coisas fostes enriquecidos nele… de sorte que nada vos falta em graça alguma” (1 Cor 1, 4)

Os merecimentos de Jesus nos abriram os tesouros de Deus, conquistando-nos um direito sobre todas as graças que podemos desejar.

São Leão nota que as vantagens que Jesus Cristo nos alcançou por Sua morte são muito maiores que os prejuízos que o demônio nos causou pelo pecado. São Paulo ensina igualmente que o dom que nos foi feito por meio da redenção é muito maior que a perda que sofremos pelo pecado.

“Não acontece, porém, com o dom o mesmo que com o delito… onde abundou o delito, superabundou a graça” (Rom 5, 15)

Por isso o Salvador nos exorta a esperarmos todas as graças por Seus merecimentos: Ele nos ensina o modo pelo qual poderemos obter tudo de seu Eterno Pai:

“Em verdade, em verdade vos digo, se pedires a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23)

“Aquele que até a Seu próprio Filho não poupou, mas entregou-O por todos nós, como não nos deu também com Ele todas as graças?” (Rom 8, 32)

O Apóstolo afirma que Deus nos deu tudo, dando-nos seu Filho, sem excetuar uma só graça: nem o perdão de nossos pecados, nem a perseverança final, nem o amor divino, nem a perfeição e o próprio céu. É só pedir as Suas graças.

“Deus é rico para todos que o invocam” (Rom 10, 12)

Não nos esqueçamos, diz o venerável João de ÁviIa, que entre o Pai Eterno e nós existe um mediador, Jesus Cristo, ao qual estamos unidos por laços de amor tão fortes que nada nos pode separar dEle, a não ser que nós mesmos rompamos essa cadeia com um pecado mortal. O sangue de Jesus clama e pede misericórdia paru nós: Ele clama tão forte que o grito de nossos pecados não é ouvido.

Ninguém, pois, se perde por falta de satisfação, mas porque deixa de aproveitar da reparação feita por Jesus Cristo pela recepção dos santos Sacramentos. Jesus se encarregou de remediar os nossos males, como se fossem Seus próprios. Ele, que era inocente, tomou sobre Si os nossos pecados e pediu perdão por eles e isso fez com tanta instância como se rogasse por Si mesmo. Alcançou o que desejava. Deus quis que ficássemos tão intimamente unidos a Jesus, que não pudesse ser amado sem o sermos também, nem odiados sem que Ele o seja igualmente. Ora, Jesus não pode ser odiado. Logo, nós também seremos amados enquanto estivermos unidos a Jesus pelo amor. Jesus nos pode merecer muito mais eficazmente o amor do seu Pai que os nossos pecados a ira de Deus, já que Deus Nosso Senhor muito mais ama a seu Filho do que odeia o pecador. Jesus disse a seu Pai:

“Pai, desejo que aqueles que me destes estejam comigo onde eu estiver” (Jo 17, 24)

Visto que o amor é mais forte que o ódio, ele ganhou a vitória, e nós fomos perdoados e agraciados com o amor de Deus e uma união tão forte de amor nos dá a certeza de que Deus nunca nos abandonará. “Poderá talvez esquecer-se uma mulher de seu filho?… e se ela o esquecesse, eu não me esquecerei jamais de ti”, diz o Senhor no profeta Isaías (Is 49, 15).

“Eis que te trago-escrito cm minhas mãos”

O Senhor nos escreveu em Suas mãos com Seu próprio sangue. Nada, pois, nos poderá inquietar, já que é com essas mãos que Ele ordena e dirige tudo, com essas mãos que foram pregadas no madeiro da cruz em testemunho de Seu amor para conosco.

Quarto motivo: A intercessão de nossa Mãe Maria Santíssima

— São Bernardo diz que, como há um só acesso ao Pai, que é por seu divino Filho, o mediador de justiça, assim há um só ingresso para chegar ao Filho, que é sua Mãe Santíssima, a mediadora da graça, que, por sua intercessão, nos obtém as graças que Jesus Cristo nos mereceu.

“Por meio de vós, que achastes a graça, ó Mãe da salvação, podemos encontrar acesso junto ao Filho, para que nos acolha Aquele que, por intermédio vosso, nos foi dado” (In adv. Dom., s. 2)

Assim, todos os bens que recebemos de Deus nos vêm por intercessão de Maria. E por que isso? São Bernardo responde: Porque essa é a vontade de Deus. Santo Agostinho (De s. virg., c. 6) nos indica a razão especial desse privilégio de Maria, dizendo que ela pode ser chamada, com todo o direito, nossa mãe, visto ter cooperado por seu amor para nos dar a vida da graça e fazer-nos membros de Jesus Cristo, nosso chefe. Como Maria cooperou para o renascimento espiritual dos fiéis por meio de seu amor, é vontade de Deus que ela, por meio de sua intercessão, concorra para que eles consigam a vida da graça neste mundo e a vida da glória no outro. É esta a razão por que a Igreja quer que a saudemos precisamente como nossa vida, nossa doçura, nossa esperança.

Seguindo este princípio, São Bernardo nos admoesta a recorrermos sempre a esta divina Mãe, visto que suas súplicas serão sempre atendidas.

“Dirigi-vos a Maria, são palavras suas (Serm. de aquaed.), eu o digo sem temor: o Filho atenderá sem dúvida alguma a sua mãe. Ó meus filhos, ela é a escada da salvação para os pecadores, ela é a minha maior esperança; ela é o fundamento de toda a minha confiança”

Ele a chama escada dos pecadores, porque assim como numa escada não se atinge o terceiro degrau sem tocar no segundo e este sem servir-se do primeiro, também só se chega a Deus por meio de Jesus Cristo e a Jesus Cristo por meio de Maria. Além disso, o Santo a chama sua única esperança e o fundamento de sua confiança, porque, segundo sua convicção, quer Deus que passem pelas mãos de Maria todas as graças que pretende conceder-nos.

Tende, pois, sempre confiança, ó filhos de Maria, sabeis que ela recebe por filhos todos aqueles que o desejam ser. Ânimo, portanto, e confiança; pois, como podeis temer perder-vos se uma tal Mãe vos defende e protege? Quem ama a esta boa Mãe e se coloca sob sua proteção, deve exclamar com São Boaventura:

“Eu me rejubilo e alegro, pois minha sentença depende da de Jesus, meu irmão, e de Maria, minha Mãe” (Orat. 51)

O mesmo pensamento enchia de alegria e consolação a Santo Anselmo:

“Ó feliz confiança, ó seguro refúgio, a Mãe de meu Deus é também minha Mãe; com quanta segurança posso esperar, por conseguinte, minha salvação, já que ela depende da decisão de um bom irmão e de uma Mãe misericordiosa”

VI. Das propriedades de nossa Esperança

1) Nossa Esperança deve ser Firme e Certa

— A esperança da eterna bem-aventurança é, segundo Santo Tomás (II. II. q. 18, a. 4), a firme expectação da mesma. É essa também a doutrina do Concílio de Trento, que diz:

“Todos devemos esperar confiadamente o socorro de Deus, pois, como com Ele começou em nós a boa obra, também a completará, produzindo em nós o querer e o executar, se soubermos aproveitar-nos de sua graça” (Sess. 6, c. 18)

Já o Apóstolo disse:

“Eu sei em quem eu cri e estou certo que ele é bem poderoso para conservar meu depósito naquele dia” (2 Tim 1, 2)

Justamente aí é que está a diferença da esperança cristã da esperança puramente humana. A esta está unido inseparavelmente o temor de mudança de opinião ou vontade naquele que prometeu alguma coisa. A esperança cristã, pelo contrário, não tem dúvida alguma a respeito de Deus. O Senhor pode e quer inalteravelmente nos conceder a bem-aventurança eterna e a prometeu a todos que observarem os seus mandamentos, e, para esse fim, promete também a todos que suplicarem as graças necessárias para a observância de Seus preceitos. É verdade que mesmo esta esperança é acompanhada de certo temor; mas, como Santo Tomás ensina, nada temos a temer da parte de Deus, mas unicamente da nossa parte, desde que podemos deixar de corresponder à graça e pôr-lhe entraves com nossas faltas. Com muita razão, pois, o Concílio de Trento condenou os inovadores, que negavam a liberdade do homem, afirmando que todo o indivíduo deve ter uma certeza infalível quanto à sua perseverança na graça de Deus e de sua eterna salvação. Essa doutrina foi condenada porque, como dissemos, se requer a nossa cooperação para a consecução da bem-aventurança, que é sempre incerta.

O Senhor quer, pois, que, de um lado, tenhamos sempre receio, para não cairmos em presunção, confiando em nossas forças, e, de outro lado, que estejamos sempre certos que Deus nos quer salvar e conceder-nos as graças necessárias para isso, se lhas pedirmos, e, por isso, que nossa confiança na Sua bondade seja inabalável. Santo Tomás diz que, com toda a certeza, devemos esperar do poder e misericórdia de Deus a bem-aventurança eterna, crendo firmemente que Deus pode e nos quer salvar.

Às vezes acontece que nós, em razão de aridez espiritual, ou por inquietação, em razão de uma falta cometida, perdemos a confiança sensível, que tanto desejamos, na oração. Não devemos, contudo, deixar então de orar, pois nos atenderá ainda mais depressa, já que nesse caso oramos com mais desconfiança de nós mesmos e maior confiança na Sua bondade e fidelidade. Oh! Como agradamos a Deus nas nossas inquietações, ânsias e tentações, se esperamos nEle contra toda a esperança, nEle confiando apesar do sentimento de desconfiança, nascido de algum embaraço ou pena interior, a exemplo do santo patriarca Abraão, que o Apóstolo louva por “ter esperado contra toda a esperança” (Rm 4, 18).

2) Nossa Esperança deve apoiar-se unicamente em Deus

— O Senhor proibiu-nos colocar nossa esperança nas criaturas: “Não confies nos príncipes” (SI 145, 2) e “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17, 5). Deus não quer que ponhamos nossa confiança nas criaturas, porque não quer que as amemos com amor desordenado. São Vicente de Paulo nos recomenda que não contemos muito com a proteção dos homens, para que o Senhor não se retire de nós, pois, tanto mais nos adiantamos no amor de Deus, quanto mais nEle confiamos.

“Corri pelo caminho de teus mandamentos logo que libertaste o meu coração pela esperança” (SI 118, 32)

Mas se só Deus é nossa esperança, como pode a Igreja saudar a Maria como a esperança nossa? A isso responde Santo Tomás: De dois modos podemos colocar em alguém a nossa esperança. Quem espera algum favor de um rei, espera dele como do soberano, e de seu ministro ou favorito, como do intercessor. Se este lhe concede o favor impetrado, é evidente que o deve ao rei, que lho outorgou por intermédio de seu ministro. Logo, o suplicante tem razão de chamar o intercessor de sua esperança. Sendo o rei do céu a bondade infinita, deseja nos enriquecer de graças, mas como, para alcançá-las, é preciso uma grande confiança, quis dar-nos, para aumento de nossa esperança, sua própria Mãe por intercessora toda poderosa e, por isso, é desejo seu que nela ponhamos a esperança de nossa salvação e de todos os bens que podemos desejar.

Com razão são amaldiçoados os que colocam na criatura, sem atenção a Deus, suas esperanças, como fazem os pecadores que O ofendem para alcançar as boas graças e a amizade dos homens. Os que, porém, confiam em Maria, como na Mãe de Deus, já que ela tem o poder de lhes obter todas as graças e a vida eterna, são antes abençoados por Nosso Senhor. Estes causam-Lhe uma grande alegria, por­que Ele quer ver honrada aquela sublime criatura que O amou e glorificou aqui na terra mais que todos os anjos e homens juntos. Com toda a razão, pois, damos a Maria o título de esperança nossa, porque esperamos por sua intercessão obter o que não alcançaríamos por nossas orações.

“Pedimos a sua intercessão, diz Suárez, para que sua dignidade supra o que nos falta”

Pondo em Maria nossa confiança, não desconfiamos de modo algum da misericórdia de Deus, só tememos a nossa própria indignidade. A Igreja tem, por conseguinte, toda a razão de aplicar a Maria as palavras do Eclesiástico (Eclo 24, 24) “Mãe da santa esperança”, querendo com isso exprimir que ela desperta a esperança nos bens eternos.

3) Nossa Esperança deve ser Operosa

Para que nossa esperança não seja vã, deve ser operosa, isto é, devemos unir a uma confiança ilimitada em Deus o uso dos meios de salvação e santificação que a divina Providência nos dá; de outro modo, pertenceremos ao número das almas ociosas, que tentam a Deus. Devemos agir de tal modo como se a consecução de nossa salvação dependesse só de nós. Não obstante isso, devemos pôr toda a nossa confiança em Deus e ficar convencidos que somos totalmente incapazes de praticar o bem por nossas próprias forças. Deus opera tudo por meio de Sua graça, mas exige também a nossa cooperação. Se essa cooperação, por menor que seja, faltar de nossa parte, Deus se retirará e nos tratará como servos inúteis, que para nada servem senão para serem lançados às trevas exteriores e consumidos pelo fogo do inferno.

“Por isso, irmãos, esforçai-vos de mais a mais em assegurar a vossa vocação e eleição pela prática de boas obras” (2 Pd 1, 10)

Que devemos fazer para isso? Antes de tudo rezar. E por quanto tempo? Até que ouçamos a sentença favorável,diz São João Crisóstomo, que nos certifique de nossa salvação eterna, isto é, até à morte. E ele ajunta que quem diz: não cessarei de orar até que me veja salvo, salvar-se-á com toda a certeza.

“Não sabeis que aqueles que correm no estádio, todos correm, na verdade, mas um só é que obtém o prêmio? Correi, pois? de tal modo que o obtenhais” (1 Cor 9, 24)

Para a salvação, portanto, não basta que oremos, é preciso que perseveremos na oração até nos vermos na posse de Deus, que é prometida só aos que perseveraram até ao fim. Se quisermos, pois, ser salvos, devemos imitar a Davi, que tinha seus olhos continuamente voltados para o Senhor, a fim de implorar Seu socorro e não ser vencido por seus inimigos.

“Meus olhos estão continuamente voltados para o Senhor, porque Ele desvencilhará meus pés do laço” (SI 24, 15)

 

“O demônio não se cansa de nos armar laços e procurar nos perder”, “Vosso inimigo, o demônio, vos circunda como um leão que ruge, procurando a quem devorar” (1 Ped 5, 8)

Por isso devemos conservar sempre as armas nas mãos para nos defender contra tal inimigo, dizendo com o rei-profeta:

“Perseguirei os meus inimigos e prendê-los-ei e não desistirei até exterminá-los” (SI 17, 38)

Como, porém, alcançarmos essa vitória tão importante e ao mesmo tempo tão difícil? Unicamente com a oração, diz Santo Agostinho, e só com a oração perseverante. Mas por quanto tempo devemos perseverar na oração? Enquanto durar o combate e, como este jamais terminará, nunca deveremos cessar de pedir o socorro de Deus, de que necessitamos para não sucumbir, diz São Boaventura (Serm. 27 de conf.).

“Ai daqueles que perderam a constância nesse combate e deixaram a oração”

O Apóstolo nos assegura que só nos salvaremos se conservarmos a confiança e a gloriosa esperança até ao fim, isto é, até à morte.

Com o socorro que a oração nos obtém, devemos procurar cumprir com os preceitos de Deus e nos violentar para não sucumbirmos às tentações do inferno.

“O reino dos céus padece força e os violentos o arrebatam” (Mt 11, 12)

Violência nos devemos fazer nas tentações, vencendo-nos e mortificando os nossos sentidos para não sermos superados pelo inimigo de nossa alma. Quando nos reconhecermos culpados de alguma falta, diz Santo Ambrósio, façamos violência a Deus por meio da oração e de lágrimas para obtermos o perdão. Para nos animar, ajunta o mesmo Santo:

“Oh! Feliz violência, que Deus não pune com Sua cólera, mas que acolhe e recompensa com Sua misericórdia”

Quanto maior for essa violência, tanto mais agradável será a Jesus Cristo. Devemos nos violentar, quer para podermos suportar as contrariedades e perseguições, quer para vencer as tentações e maus hábitos; sem violência, porém, não conseguiremos nem um nem outro.

4 ) Nossa Esperança deve ser animada pela Caridade

A esperança pode existir numa alma que vive em pecado mortal; para que ela seja, porém, meritória e perfeita, é preciso que a caridade a acompanhe, isto é, que seja animada pela caridade, que, além disso, a aumenta também. A caridade nos faz filhos de Deus e comparticipes da natureza divina, como diz claramente São Pedro (2 Pd 1, 4). Segundo a nossa natureza, somos a obra de Suas mãos; segundo a graça, isto é, pelos méritos de Jesus, somos filhos de Deus e participantes de Sua natureza divina e “herdeiros de seu reino” (Rm 8, 17), pois é direito dos filhos habitar a casa de seu pai e dele receber a herança. A caridade, pois, aumenta nossa esperança dos bens eternos. É razão pela qual as almas que amam verdadeiramente a Deus não cessam de pedir: Venha a nós o vosso reino. Deus ama aqueles que o amam (Pr 8, 17) e, por isso, quanto mais amarmos a Deus, tanto mais confiadamente podemos pôr nEle nossa esperança.

V. Dos Efeitos da Esperança

1) A Esperança nos obtém tudo

— Parece-nos algumas vezes que Deus não quer atender às nossas orações; apesar disso, devemos continuar a orar e esperar sempre e exclamar em tais circunstâncias com o paciente Jó (Jó 13, 15):

“Se chegar a matar-me, ainda assim esperarei nEle”

Meu Deus, se me expulsásseis de Vossa presença, ainda assim não deixaria de Vos suplicar e esperar na Vossa misericórdia. Se assim procedermos, obteremos do senhor tudo o que desejamos. Foi o que experimentou a cananeia. Essa mulher, que era uma estrangeira, pagã, pediu ao Senhor que se compadecesse dela e livrasse sua filha do poder do demônio:

“Compadecei-Vos de mim, que minha filha é muito atormentada pelo demônio” (Mt 15, 22)

Respondeu-lhe o Senhor que não tinha sido enviado aos pagãos, mas aos judeus. Ela, porém, não perdeu a esperança, mas continuou a pedir, cheia de confiança: Senhor, ajudai-me; Vós podeis consolar-me; consolai-me, portanto. Não é justo tomar o pão dos filhos, disse-lhe Jesus, e lançá-lo aos cães. Ao que replicou: Assim é, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores. Comovido por uma confiança tão grande, louva-a o Senhor e concede-lhe a graça desejada, dizendo-lhe: Mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como desejas. Quem jamais o invocou, pergunta o Eclesiástico (Eclo 2, 12), e foi por ele desprezado?

Santo Agostinho diz que a oração é uma chave que abre o céu. No mesmo instante que nossa oração se eleva a Deus, diz ele, nos desce a graça que pedimos (Serm. 17). O profeta-rei nos dá a entender que nossa oração e a misericórdia de Deus são inseparáveis:

“Bendito seja Deus, que de mim não retirou minha oração nem sua misericórdia” (SI 65, 20)

Devemos nos convencer, diz Santo Agostinho, que o Senhor nos atenderá logo que nos dermos à oração. Quanto a mim devo confessar a verdade, que nunca me sinto mais consolado e em nenhuma ocasião tinha mais segura esperança de minha salvação que quando rezo e me recomendo a Deus. Julgo que com os outros se dará o mesmo. Todos os outros sinais de nossa salvação são incertos e podem nos enganar; mas que Deus atende todo aquele que ora é uma verdade tão certa como a que Deus não pode deixar de cumprir Suas promessas.

2) A Esperança vence tudo

— Se nos sentimos fracos e incapazes de resistir a uma tentação ou de vencer uma grande dificuldade ou paixão que nos impede no exercício dos mandamentos de Deus, digamos então corajosamente com o Apóstolo:

“Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4, 13)

Santa Teresa tinha uma confiança tão grande em Deus, que tudo que empreendia para a glória de Seu divino esposo, lhe saía bem, donde proveio o costume de chamarem-na — Teresa, a todo-poderosa. — As dificuldades só aumentavam a sua coragem.

“Sei por experiência que o verdadeiro meio para não cair é abraçar a cruz e confiar nAquele que nela se deixou pregar, escreve ela. Só Ele é meu verdadeiro amigo e minha confiança nEle dá-me tal força, que me julgo capaz de lutar contra o mundo inteiro”

Cheia desta confiança no Senhor, não temia nem sequer o inferno, e ela mesma confessou que os demônios não lhe causavam maior inquietação que as moscas.

Não imitemos os que dizem: Eu não posso, não tenho forças para tanto. Com nossas próprias forças, é verdade, nada podemos, mas tudo nos é possível com a assistência de Deus. Se o Senhor dissesse a alguém: Toma essa montanha sobre teus ombros e transporta-a para tal lugar, que eu te ajudarei — não seria loucura e impertinência dizer: Não posso tomá-la sobre mim, porque não tenho força necessária para carregá-la?

Não percamos a coragem, se sentimos nossa miséria e fraqueza e somos atacados por fortes tentações: elevemos então nossas vistas para o céu e digamos com David: “O Senhor é minha ajuda e eu desprezarei os meus inimigos” (SI 117, 7); com o auxílio de Deus repelirei todos os seus ataques. E se estivermos em perigo de ofender a Deus ou se, num passo importante, não soubermos o que devemos fazer, lancemo-nos nos braços do Senhor, dizendo:

“O Senhor é minha luz e minha salvação, q quem temerei?” (Sl 26, 1)

Tendo o Pe. Hipólito Durazzo resolvido deixar sua posição de dignitário da Igreja romana para se dar totalmente a Deus na Companhia de Jesus, o que fez pouco depois, dirigiu a Deus a seguinte súplica, por temer tornar-se infiel por fraqueza humana: Senhor, agora que me entreguei a Vós sem restrição, tende a bondade de me não abandonar. Ao que seguiu-se a voz de Deus, ouvida no interior: Com muito maior razão posso pedir-te que tu me não abandones. Então, cheio de confiança na bondade e auxílio do Senhor, exclamou: Pois bem, Senhor, nesse caso Vós nunca me abandonareis nem eu a Vós.

3) A Esperança conduz à Perfeição

A esperança aumenta a caridade, na qual consiste toda a perfeição. A esperança na bondade de Deus aumenta, sem dúvida alguma, o amor de Jesus em nossos corações, pois, quando esperamos alcançar de alguém alguma coisa, diz Santo Tomás (I. II. q. 40, a. 7), nos sentimos levados ou atraídos para Ele e começamos a amá-lO. São João diz que quem em Deus põe Sua esperança, infalivelmente se santifica:

“Todo aquele que põe sua confiança nEle, faz-se santo como Ele, que é santo” (1 Jo 3, 3)

Rápidos progressos faz no caminho da perfeição todo aquele cujo coração se dilata pela confiança em Deus; não só corre, mas voa, porque, posta sua confiança em Nosso Senhor, desaparece sua fraqueza e faz-se forte no Senhor, isto é, participa da virtude de Deus, dessa força que Ele comunica a todos que nEle esperam:

“Os que esperam no Senhor, mudarão de forças; tomarão asas como as águias, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão” (Is 40, 31)

4) A Esperança dulcifica tudo

— Os santos todos deviam à sua confiança em Deus a paz inalterável que gozavam mesmo no meio das maiores tribulações. Porque amavam a Deus e sabiam como é generoso para com os que O amam, colocavam nEle toda a sua confiança, achando nisso a sua paz. Eis a razão por que a esposa dos Cânticos gozava de tanta paz: não amando a ninguém, fora de seu Amado, nele se apoiava por inteiro e sentia-se continuamente feliz, sabendo como ele remunera liberalmente o amor que se lhe dedica.

“Quem é esta que sai do deserto cercada de delícias e apoiada em seu Amado?” (Ct 8, 5)

Se aqui na terra nos sentimos oprimidos pelo peso da cruz e dos sofrimentos, ergamo-nos e reanimemos a nossa esperança, procurando, por meio da esperança no céu, suportar pacientemente todas as tribulações. Tendo o Abade Zósimo perguntado a Santa Maria Egipcíaca como pudera passar tantos anos no deserto, respondeu-lhe ela: Por meio da esperança no céu. Ao se oferecer a São Filipe Néri o chapéu cardinalício, atirou seu barrete ao ar, exclamando: O paraíso! O paraíso!. Ao ouvir o nome paraíso, o irmão Egídio, franciscano, sentia-se arrebatado em êxtases. Portanto, quando nos sentirmos abatidos pelas fadigas desta vida, elevemos nossas vistas para o céu e procuremos nossa consolação na esperança dos bens eternos. Pensemos que, se permanecermos fiéis a Deus, todas essas penas, todas essas tribulações e angústias terão um fim e que nos espera aquela pátria na qual gozaremos uma felicidade perfeita enquanto Deus for Deus. Os santos do paraíso já nos esperam, assim como a Santíssima Virgem e Jesus, que tem nas mãos a coroa que nos destinou desde toda a eternidade no Seu reino feliz.

VI. A Esperança e o Redentor

Os escritos a seguir são do Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

Não se pode crer o que se vê; assim também não se pode esperar o que já se possuem. O divino Redentor, contemplando toda a verdade na essência divina, não necessitava do socorro da fé: gozando da visão beatífica, não tinha tão pouco de tender a ela pela esperança; e Santo Tomás nos ensina que a esperança, enquanto virtude teologal, é, na procura da posse de Deus, não podia encontrar-se nele.

Assim ainda, possuindo mesmo como homem a plenitude da graça, não tinha de guardar nem solicitar o seu socorro.

Unido, enfim, a seu Pai por uma caridade infinita, livre de toda mancha, incapaz de contrair sombra de pecado, o Seu coração era inacessível ao temor. O Seu amor filial não podia alarmar-se ao pensamento de contristar, por não importa que faltasse ou imperfeição, a seu Pai celeste; ainda menos tinha que temer castigos em que não podia incorrer. Ante a Majestade divina, sentia-se, todavia, penetrado de respeito infinito; e, segundo o santo doutor angélico, é desse respeito, desse temor reverencial e todo filial que fala a sagrada Escritura, quando diz que o Salvador seria repleto do espírito do temor. Replebit eum spiritus timoris Domini (Is 2, 3). Assim ainda devem-se compreender as palavras de são Paulo: Exauditus est pro sua reverentia (Hb 5, 7).

Seria necessário ajuntar que, naquele que era a inocência essencial, a penitência não tinha razão de ser, e que o coração do Salvador, substancialmente unido à Divindade, não tinha necessidade, para ir a Deus, de se desapegar das criaturas que não podiam cativá-lO?

Para que, entretanto, pudesse sofrer por nós e resgatar-nos por Seus sofrimentos, o poder divino suspendia nEle certos efeitos da visão beatífica; o Seu corpo foi submetido à dor e à morte, ao mesmo tempo em que a Sua sagrada pessoa era alvo das perseguições dos homens.

Eis por que o Salvador podia esperar e pedir para Seu corpo a imortalidade e a glorificação; podia pedir e esperar a exaltação e a glória e o império das nações, que pertenciam de direito ao Homem-Deus, segundo a promessa a Ele feita:

“A pedido teu, dar-te-ei as nações em herança” – Postula a me et dabo tibi gentes In haereditatem tuam

Também pediu a seu Pai que fizesse difundir-se por fora a glória e o esplendor que gozava desde o princípio no seio da divindade:

“Pai, glorifi­cai-me e mostrai a glória que possuo em vosso seio desde toda a eternidade” – Clarifica me, Pater, claritate quam habui priusquam mundus esset, apud te (Jo 17, 5)

E essa súplica Ele a formula com a mais firme confiança, porque sabe que, como Ele diz na ressurreição de Lázaro, as Suas preces são onipotentes junto do coração de seu Pai. Pater, gratias ago tibi quoniam audisti me. Ego autem sciebam quia semper me audis (Jo 2, 28).

Regozija-Se com o pensamento de entrar plenamente na posse da glória de seu Pai, depois de haver executado a vontade divina pela obra da nossa redenção; Ele o repete com insistência, convidando Seus apóstolos a partilhar a Sua glória e a Sua alegria: Si diligeretis me gauderetis utique, quia vado ad Patrem, quia Pater maior me est (Jo 14, 28).

Sabe que o caminho do céu deve ser para Ele o caminho do Calvário.

“E agora, diz Ele à aproximação da Sua dolorosa paixão, é agora que o Filho do Homem está para ser glorificado e que Deus será glorificado nele” (Jo 13, 31)

Mas é necessário, previamente, que seja trabalhado pelo sofrimento, como o grão, que só produz fruto quando lançado na terra onde é primeiro destruído.

“Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo que cai em terra não for primeiro destruído, ficará só; mas, quando destruído pela morte, produz fruto com abundância” (Jo 12, 24, 25).

Entra, pois, generosamente com confiança inabalável nesse caminho de sofrimento, que deve conduzi-lo à glória. Falando do suplício da cruz, diz:

“Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim” (Jo 12, 32)

Mas Jesus Cristo é a nossa cabeça e nós, os Seus membros, formamos o Seu corpo místico; Ele vivia, pois, não só para Si mesmo, mas também para nós. Eis por que a felicidade que goza na união com seu Pai e cuja plenitude Ele possuirá logo, Ele a quer também para nós:

“Pai, quero que os que me destes estejam comigo, contemplando a glória de que me revestistes, amando-me antes que o mundo existisse” (Jo 17, 24)

Veio a terra precisamente para nos proporcionar a vida da graça que deve consumar-se na vida da glória:

“Vim para que tenham a vida e a tenham com mais abundância” (Jo 10, 10)

E os Seus trabalhos, as Suas fadigas, os Seus suores, o Seu sangue, a Sua vida, tudo é oferecido para nos preparar o tesouro infinito, donde podemos haurir as graças necessárias à salvação.

Para a Sua pessoa não necessita de penitência, mas expiará os nossos pecados de que se quis carregar e cujo peso o acabrunha. Vendo-Se coberto das nossas faltas, sente-Se penetrado de confusão; cai por terra e não ousa, por assim dizer, erguer os olhos para o Pai, e, a fim de satisfazer a justiça divina, deixa-se triturar pelo lagar das Suas vinganças.

“Foi ferido por causa das nossas iniquidades e triturado por causa dos nossos crimes” (Is 53, 5)

“Se o ferí, diz ainda o Pai celeste, foi por causa dos pecados do meu povo” (Is 53, 8)

É evidente que Ele não precisava desapegar o Seu coração da criatura, mas, para encorajar-nos a praticar generosamente esse desapego tão penoso, praticará a pobreza voluntária até ao mais completo desnudamento, desde as privações do presépio até ao despojamento do Calvário.

Para formar em nós uma esperança tão firme quão legítima e arrastar-nos ao Seu seguimento no caminho do céu, ajunta aos seus eloquentes exemplos as mais insistentes exortações.

Excita em nossos corações o desejo dos bens celestes, fazendo brilhar aos nossos olhos a magnífica recompensa que nos aguarda lá nos céus: “Alegrai-vos e estremecei de júbilo, porque a vossa recompensa será abundante no céu” (Mt. 5, 12), e convida-nos a aproveitarmos o tempo que nos é dado para aumentar esses tesouros eternos que ninguém nos poderá roubar:

“Acumulai, pois, tesouros no céu, onde os ladrões os não poderão furtar nem a ferrugem estragar” (Mt 6, 20)

Ao mesmo tempo exorta-nos a desprendermos os corações de todos os bens terrenos. Que loucura, realmente, negligenciarmos a eternidade para correr atrás dos bens falsos e enganadores, que são incapazes de satisfazer plenamente a nossa alma, e que nos podem ser tirados de um momento para outro.

“Insensato, diz ele ao mau rico que só cuida de amontoar esta noite talvez serás chamado ao tribunal de Deus e a que mãos passarão essas riquezas às quais sacrificas a tua alma e a tua eternidade?” (Lc. 12, 20)

— E mesmo que pudéssemos gozar desses bens durante muitos anos: “que adianta ao homem ganhar o universo, se vier a perder a sua alma?” (Mt. 16, 26).

Para matar em nosso coração a presunção, prega- nos a desconfiança de nós mesmos: “Sem mim não podeis fazer absolutamente nada na ordem da salvação” (Jo 15, 5); a necessidade de cumprirmos a vontade de seu Pai para chegarmos ao céu: “Nem todos os que me dizem: Senhor, Senhor, serão salvos; só entrará no reino dos céus quem fizer a vontade de meu Pai celeste” (Mt 7, 21); o temor de Deus e de seus juízos: “Temei aquele que pode lançar no inferno a alma e o corpo” (Mt 10, 28); a necessidade da penitência:

“Se não fizerdes penitência, perecereis todos” (Lc 13, 5)

De outro lado, para levantar nossas almas e sustentá-las pela confiança, com que cuidado nos descreve a ternura do coração divino e Sua solicitude paternal que vela sobre todas as criaturas. Se Deus já é tão bom para os lírios dos campos, que Ele reveste com suntuosidade, para os passarinhos que ele nutre e protege que não fará por vós, que são Seus filhos? Com que insistência o nosso divino Preceptor nos repete que as nossas preces são onipotentes junto ao Seu coração e ao de Seu Pai, e que ambos estão igualmente prontos a acolhê-las com bondade!

Não nos assuste, enfim, a vista dos nossos inimigos: não os venceu ele?

“Não temais, diz ele, eu venci o mundo” (Jo 16, 33)

Fica sempre conosco para vencer por nós:

“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28, 20)

Que poderemos, pois, temer se tivermos boa vontade? Quem não se lançaria generosamente e com a mais firme confiança à conquista do céu, ao seguimento de Deus encarnado que desceu para marchar à nossa frente e nos suster por Suas palavras, por Seus exemplos e por todos os socorros da Sua graça onipotente?

VII. A Prática da Esperança

Na oração, sobretudo, é que a alma cultivará a santa esperança, esforçando-se por tomá-la tão legítima quão firme.

Trabalhará, pois, com o socorro da divina graça para formar em seu coração os sentimentos do que se compõe essa virtude.

— Para esse fim meditará:

  • O nada de tudo que não é Deus para dele desapegar o coração;
  • A grandeza dos bens que devemos esperar para se inflamar de santos desejos;
  • A sua miséria e incapacidade absoluta, para desconfiar de si própria;
  • O poder da graça, a bondade, a infinita misericórdia de Deus, bem como as divinas promessas que a graça lhe assegura;
  • A riqueza de méritos que nosso Senhor Jesus Cristo lhe preparou por Sua paixão e morte;
  • A misericórdia de Maria e o poder da sua intercessão — para se animar da mais firme confiança;
  • O perigo do abuso da graça, a necessidade de lhe corresponder e servir a Deus com vontade reta e leal para se premunir contra a presunção, se penetrar do temor do pecado e se excitar a expiar suas fraquezas por uma verdadeira penitência.

Animada desses sentimentos, ela se esforçará, após haver invocado o socorro divino, por fazer com toda a energia possível atos perfeitos de esperança.

— Fim a prosseguir:

Meu Deus deve salvar-me e salvar-me como santo, pois que esses são os Vossos desígnios a meu respeito.

Desconfiança de si mesmo:

Mas eu não sou senão miséria; abandonado à minha fraqueza só posso trair minha vocação e perder-me, e tenho merecido ser rejeitado por Vós

Motivos de confiança:

Mas a vossa graça pode tomar-me em minha miséria para me erguer até Vós e salvar-me, santificando-me.

Vós sois a bondade essencial e a Vossa misericórdia é infinita; apesar da minha miséria e indignidade, quereis salvar-me pelo socorro da Vossa graça.

Essa graça, Jesus Cristo a mereceu com abundância por Sua paixão e morte.

Maria, minha Mãe, que imploro, vo-la pede para mim

Vós me prometestes e me dareis, contanto que eu peça cada dia e me esforce por vos ser fiel.

Ato:

Apoiado nesses motivos, aguardo de Vós com confiança inabalável o céu e todos os socorros necessários para conseguir notadamente o perdão dos meus pecados, o amor e a perseverança no Vosso serviço. Quero, por uma prece fiel, pedir todos os dias o Vosso socorro, e, com a graça que me dareis, quero amar-Vos e servir-Vos sempre mais fielmente, evitar o pecado, chorar e expiar as minhas faltas passadas

Prece:

Meu Deus dê-me uma esperança sempre mais firme; fazei que Vos ame durante a minha vida e até à morte, para amar-Vos na eternidade

Outras vezes aplicará esses atos a um bem particular, a uma dificuldade especial, e dirá:

Meu Deus, para salvar-me deve praticar tal virtude, e não o posso sem o socorro da Vossa graça; essa graça eu vo-la peço com confiança em nome de Jesus Cristo e de Maria, que a mereceram e que vo-la pedem para mim

Ou então:

Não posso por eu mesmo triunfar de tal tentação, suportar tal provação, tal humilhação, mas tenho confiança em Vossa graça, que vos peço em nome de Jesus e Maria

Durante o dia, conservando-se unida a Deus e particularmente a Jesus Cristo pelo recolhimento, a alma renovará de tempo em tempo esses atos da sua meditação, mais brevemente sem dúvida, porém com não menos fervor.

Quanto ao mais, em sua conduta, examine primeiro se não há nela algum apego a terra, que a impeça de elevar-se ao céu, se não nutre algum sentimento contrário à esperança alguma preocupação exagerada em relação às coisas temporais ou à estima dos homens, etc.; se não pactua com alguma pequena desordem mais ou menos pecaminosa, recusando a Deus a boa vontade que Ele lhe pede e dirija primeiro os seus esforços contra esse defeito contrário à esperança.

Aplicar-se-á, depois, a desenvolver em si os sentimentos que animam a verdadeira prece: Grito de esperança, a verdadeira prece é de fato a confissão da nossa miséria, a protestação da nossa confiança em Deus e o primeiro ato duma vontade que quer servir sinceramente o Senhor. Os exercícios de piedade serão então cumpridos com mais fervor e confiança.

No trabalho, o cristão tem os olhos sempre fixos no divino Redentor com Ele, procura sempre a glória de Deus e a salvação das almas, abandona-se à Providência do Pai celeste e aguarda dEle com confiança a Sua eterna glorificação. Sem dúvida pede às vezes tal ou tal bem necessário à sua salvação, oferecendo o seu trabalho, as suas preces, para obter, por exemplo, o perdão das suas faltas, o triunfo sobre uma tentação, etc… mas habitualmente, a exemplo de seu divino Modelo, ergue-se até à caridade, devota-se aos interesses de Jesus Cristo e abandona os seus à solicitude divina: sabe muito bem que, quanto mais ardente a caridade, tanto mais salvaguarda os direitos da esperança e que, quanto mais alguém se dá a Deus, tanto mais pode esperar dEle.

VIII. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Eis, por fim, algumas orações de Santo Afonso para crescermos na Esperança.

Oração para alcançar a confiança

Eterno Pai, agradeço-Vos de todo o coração, em meu nome e no de todos os homens, o terdes usado de misericórdia conosco até o extremo de enviardes o Vosso Filho único à terra, para fazer-Se homem e morrer pela nossa salvação. Graças Vos dou, ó meu Deus, e oxalá Vos pudesse eu empenhar amor proporcionado com tão grande benefício. Pelos merecimentos deste divino Salvador, que satisfez à Vossa justiça e sobre Si tomou a pena que nos era devida, e que nos perdoais os pecados; por estes merecimentos é que nos recebeis na Vossa graça, a nós miseráveis pecadores, dignos tão somente de ódios e castigos; por estes merecimentos é que admitis os homens a reinar no paraíso; enfim por estes merecimentos é que Sois obrigado a não recusar dom algum, graça nenhuma, a quem quer que Vos invoca em nome de Jesus Cristo.

Para aumentar a nossa confiança, não satisfeito de nos dar Jesus Cristo para Redentor, nos destes ainda por advogada a Vossa filha muito amada, Maria, para que com o coração cheio de misericórdia, de que a dotastes, nunca deixe de socorrer, pela sua intercessão, a todo o pecador que a invoca; graças Vos dou, ó bondade infinita, por terdes dado tanto poder às suas orações, que não podeis nunca rejeitar uma só das suas petições.

Quereis então, ó meu Deus, tenhamos grande confiança nos méritos de Jesus e na intercessão de Maria; mas um dom há, e mui precioso, que de Vós deve vir, pois o concedeis só a quem Vós determinastes a salvar. Este dom é a confiança no sangue de Jesus e na proteção de Maria, que agora Vos peço pelos merecimentos mesmos de Jesus e Maria.

Dirijo-me também a Vós, querido Redentor meu. Para me conseguirdes a confiança nos Vossos méritos, sacrificastes a Vossa vida na cruz; realizai, pois, em mim o fim por que morrestes, esperando eu com inteira confiança na Vossa Paixão todas as graças.

Oração a Maria

Ó Maria, minha Mãe, e minha esperança logo depois de Jesus, alcançai-me firme confiança, primeiro nos méritos de vosso divino Filho, e depois no socorro das vossas orações, que são onipotentes junto de Deus.

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(OMER C.SS.R., Padre Saint. Escola da Perfeição Cristã para Seculares e Religiosos: Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja. Editora Vozes, 1955, p. 118-133)

(AZEVEDO C.SS.R., Padre Oscar das Chagas. As Doze Virtudes para cada Mês do Ano. Editora Vozes, p. 17-31)

(OMER C.SS.R., Padre Saint. As Mais Belas Orações de Santo Afonso: Edição atualizada e acrescida de novos exercícios e orações. Editora Vozes, 1961, p. 296-297)