Mês de Março: A Virtude da Caridade ou do Amor de Deus

Mês de Março: A Virtude da Caridade ou do Amor de Deus

Mês de Março

Breve introdução sobre a Caridade e o Apóstolo Patrono

Para obter o grande tesouro do amor a Jesus Cristo, é necessário:

1.° Desejá-lo ardentemente;

2.° Pedi-lo muitas vezes;

3.º Dar-lhe lugar, expelindo do nosso coração todo o apetite desordenado;

4.° Fazer frequentes atos de amor;

5.° Meditar assiduamente na Paixão de Jesus Cristo.

A Caridade é a rainha das virtudes, as quais a seguem onde quer que entre para lhe formarem vistosa corte.

Persuade-te que nem teu pai, nem tua mãe, nem homem algum te dedica maior amor que Deus, teu Senhor. Consequentemente, não deves amar a ninguém mais do que a Deus. Deves dizer-Lhe:

Meu Deus se deu inteiramente a mim; também eu me entrego a Ele sem restrição. Ele escolheu minha alma para Sua amiga; eu O escolho dentre todos para meu único amigo. Ó meu Deus, por que me amais tanto? Que bem vedes em mim? Já Vos esquecestes das ofensas que Vos fiz? Visto que me tratastes tão amorosamente, em vez de me condenardes ao inferno, e me concedestes tantas graças, como poderei amar, no futuro, outra coisa fora de Vós, meu Deus e meu tudo?

Além disso, deves nutrir um grande desejo de progredir cada vez mais no amor de Deus. Os santos desejos são as asas com que nos elevamos a Deus. Pede muitas vezes ao divino Salvador Seu santo amor. Logo que despertares, de manhã, faze um ato de amor a Jesus e, de noite, não te esqueças de fazer, antes de dormir, um ato de contrição. Deves igualmente desejar e te esforçar para que outros amem também a Jesus e, para isso, deves falar muitas vezes a teu próximo do amor de Deus.

Quem muito ama a um amigo, sente, muitas vezes, maior alegria com seu bem-estar do que com o próprio. Por isso deve causar-te especial consolação o pensamento de que Deus é infinitamente feliz. Dize-Lhe muitas vezes:

Meu Senhor e Deus, alegro-me de vossa felicidade, muito mais do que meu bem-estar, porque eu Vos amo mais do que a mim mesmo

Não te esqueças também de suspirar muitas vezes pelo céu. Anela por deixar este lugar de desterro, esta região de pecado e de perigo para a alma e entrar na pátria do amor, onde amarás a Deus com todas as tuas forças. Dize-lhe muitas vezes:

Ó Senhor, enquanto eu vivo, estou no perigo de tornar-me infiel a Vós e perder o Vosso amor; quando poderei deixar esta vida, na qual Vos ofendo incessantemente, para Vos amar de toda a minha alma?

Esforça-te continuamente para conformares perfeitamente tua vontade com a vontade de Deus; esse deve ser o fim de todas as tuas ações, desejos, meditações e orações. Oferece-te, pois, a Deus amiúdo durante o dia, dizendo-lhe:

Senhor, eis-me aqui: fazei de mim o que Vos aprouver. Que devo fazer? Dizei-me, que estou pronto para tudo

Sumário
I. A sua natureza
II. Da Natureza e Importância do Amor de Deus
III. Da Obrigação de Amar a Deus
IV. Meios para Alcançar o Amor de Deus
V. Da Maneira de Exercer o Amor de Deus
VI. Sinais certos do Amor de Deus
VII. A Caridade no Redentor
VIII. A Prática do Amor de Deus
IX. Aspirações Amorosas
X. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Mês de Março: A Virtude da Caridade ou do Amor de Deus. Apóstolo Patrono: São Tiago Maior


I. Caridade: a sua natureza

Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

Fé, Esperança, Caridade: três virtudes admiráveis, mas, diz o apóstolo São Paulo, a maior é a Caridade (1 Cor 13, 13).

A fé, archote divino, mostra-nos o alvo a atingir e traça-nos o caminho a seguir para alcançá-lo. Ao mesmo tempo em que nos manifesta o nada dos falsos bens da terra, faz-nos ver em Deus o bem supremo, termo de todas as nossas aspirações, oceano de, delícias onde o nosso coração sedento poderá dessedentar-se eternamente.

Tranquilizando a nossa miséria com a graça que lhe dá por apoio à própria força de Deus, a esperança triunfa das nossas hesitações e apegos terrenos; repelindo o que nos quisera prender a terra, clama:

“Avante, à conquista do céu! É Deus que me conduz! Quero lá reinar um dia”

E ela lança-nos à procura do nosso fim. Só a caridade, porém, é que pode atingi-lo; só ela transpõe a distância infinita que separa o Criador da Sua criatura, para unir o coração do homem ao de seu Deus.

Assim, pois, a fé contempla na união com Deus à felicidade para a qual fomos feitos; a esperança aspira a essa união divina, mas é a caridade que a realiza em toda a sua sublimidade. Já sobre a terra essa união admirável é tão verdadeira e perfeita, que nem a morte a pode destruir. A fé desaparecerá nos clarões da visão beatífica; a esperança se esvairá na alegria da posse de Deus, só a caridade, voltando os corações a Deus, sua fonte única e inesgotável, entrará triunfante no céu, para lá reinar eternamente.

É essa virtude régia da caridade, princípio e fim, glória e grandeza da vida cristã, que vamos estudar. Para tratar dignamente desse assunto, seria necessária a pena inspirada e o coração abraçado do discípulo amado ou do apóstolo dos gentios. De fato, como dar em linguagem humana essa maravilha do Deus de caridade a penetrar de Seu amor as criaturas e a reconduzi-las, depois, pela força desse mesmo amor, ao Seu coração, para inebriá-las de delícias? Mas Deus, que se compraz nos louvores do seu Verbo, os únicos dignos de Sua infinita bondade, aceita também com benevolência os cânticos sublimes dos serafins e o humilde zumbido do inseto que Lhe dá glória, a seu modo, oculto na relva do prado.

Exporemos, pois, os nossos fracos pensamentos nesse assunto, e Deus, que assiste à alma de boa vontade, suprirá a nossa insuficiência em favor dos nossos caros leitores.

O que é Caridade?

A teologia define a caridade: Uma virtude teológica pela qual amamos a Deus por causa dEle mesmo, a nós mesmos e ao próximo por causa de Deus. Em sua Moral, Santo Agostinho define-a assim:

Um amor de amizade, em virtude do qual somos movidos a querer bem a Deus e pelo qual lhe desejamos todos os bens, por causa da perfeição infinita e soberana da sua natureza divina

Para serem bem compreendidas, essas definições exigem a explicação de algumas noções gerais que elas encerram ou supõem; importa, sobretudo, dizer claramente o que é o amor de amizade.

É certo que todo ser vivo quer e procura a sua conservação, seu bem-estar, seu repouso, sua perfeição: numa palavra, ele se ama. Por isso, quando descobre em um objeto uma relação de conveniência com ele, experimenta um sentimento feito de complacência, de simpatia, de atrativo que o impele para esse objeto: esse sentimento é o amor. E como o que nos convém e quadra com a nossa natureza e os nossos gostos é para nós o bem, é forçoso concluir que o objeto do amor é o bem, naturalmente, como no-lo ensina a filosofia, o bem conhecido, porque não se pode amar o que não se conhece.

Se, pois, tivéssemos uma natureza perfeita e se jamais o erro pudesse insinuar-se em nossos conhecimentos, o nosso amor seria sem desfalecimentos e sem sobressaltos: não poderíamos amar senão o verdadeiro bem. Mas a nossa natureza foi viciada pelo pecado, os nossos instintos se depravaram, a nossa inteligência encheu-se de trevas; e os seus olhos enfraquecidos, obscurecidos também pela fumaça das paixões, não percebem muitas vezes senão sob a falsa luz os bens enganadores do mundo. Também o coração iludido desencaminha-se muitas vezes e procura com frenesi o próprio mal, no qual os sentidos ou as paixões lhe mostram as aparências do bem. Daí as palavras da Escritura: “Quem ama a iniquidade, odeia a sua alma” (SI 10, 6), fabrica a sua desgraça, crendo encontrar o bem. É o que se dá com os que, cedendo as paixões, se deixam arrastar pelo amor desregrado das riquezas, das honras ou dos prazeres.

O coração pode aplicar-se ao objeto das suas complacências de duas maneiras:

Ou descobriu nesse objeto como que outro ele mesmo, e, sem preocupação de interesse pessoal, o envolve com sua benevolência: é o amor de amizade. É com razão, nota Santo Tomás, que o amigo é chamado outro eu, e que Santo Agostinho faz sua a palavra dum autor falando de seu amigo e chamando-o a metade de sua alma. Tal o amor duma mãe a seu filho, no qual se reencontra e cujo bem quer mesmo a custo dos maiores sacrifícios.

Ou quem ama percebe no objeto que o atrai a satisfação de um dos seus desejos ou de suas paixões e nele procura apenas a sua própria vantagem: é o amor de concupiscência; amor imperfeito e incompleto, porque o movimento de amor termina e repousa, não no bem querido, mas naquele para quem se quer esse bem. Tal um pai que ama para seu filho a fortuna ou a glória, o seu amor não para nesses bens, que procura, aliás, com ardor, mas no filho, a quem quer proporcioná-los: ama esses bens com amor de concupiscência, ao passo que tem a seu filho um amor de amizade.

Num e noutro caso o coração inclina-se para aquilo que ele ama; a união de afeição não lhe basta; suspira pela união real: pelo interesse, e para possuir o objeto amado, no amor de concupiscência, por pura complacência, no amor de amizade ao qual nada é mais delicioso do que a presença do amigo. Nesse caso, sobretudo e, precisamente porque o ama como outro eu, o coração quer unir-se ao objeto do seu amor, tirar-lhe é por assim dizer arrancar-lhe a alma, segundo a bela expressão de Santo Agostinho; a separação causa-lhe violência e perturbação, só a união pode outorgar-lhe repouso.

Mas se sempre a posse do objeto amado produz alegria no coração, resta à diferença de que no amor de amizade o coração goza porque ama, enquanto no amor de concupiscência ama porque goza. Essa alegria que o amigo sente com a presença de seu amigo não é egoísmo, mas fruto dum amor verdadeiro e desinteressado, bem como a satisfação que alguém acha em devotar-se por aqueles que amam. Daí se segue que a caridade, longe de destruir a esperança, a eleva e fortalece.

Importa ainda, para sermos exatos, não confundir o amor de amizade com a própria amizade. O amor de amizade, já o sabemos, supõe entre os que amam e o objeto de seu amor à semelhança e, por isso, certa comunhão de bens: igualdade de sangue, de gosto, de aptidões, de caráter, etc… A amizade supõe, além disso, a reciprocidade no amor, porque a amizade não pode travar-se senão entre dois corações amigos. O amor de amizade deve, pois, existir e existem muitíssimas vezes sem essa reciprocidade, isto é, sem amizade. Quantas vezes o amor mais devotado e sincero não encontra a mais negra ingratidão?

Dessas poucas considerações é fácil concluir que o amor é o princípio da atividade humana e que faz dela a grandeza ou ignomínia, a felicidade ou a desgraça. Todo ato humano, com efeito, procede da vontade e tende a um fim; ora, a vontade não prossegue senão o bem que a inteligência lhe mostra e é pelo amor que ela se lança sobre o bem. É, pois, o amor que dirige toda a vida humana, a vida de um homem corresponde necessariamente a seu coração.

Além disso, como já dissemos, o amor procura a união com o objeto amado; o amor eleva ou rebaixa a alma. Se, enganada pela inteligência ou arrastada por maus instintos, a vontade se apega a bens falsos, inferiores, indignos dela, avilta-se com eles; se, ao contrário, se une aos bens nobres e verdadeiros, com eles sobe e se enobrece.

Se amares a terra, diz ainda Santo Agostinho, é também terra, mas se amas a Deus, ousarei dizê-lo? És também Deus: Si terram diligis, terra es; si Deum diligis, quid dicam? Deus es

Se o coração, enfim, se extravia na procura dos bens enganadores do mundo, neles encontrará só o vácuo, a vaidade, a amargura, o remorso; se, ao contrário, se apega ao verdadeiro Bem para o qual foi criado, encontra nele, com a satisfação dos seus desejos, o repouso e a paz; veremos isso mais tarde. Voltemos por ora à caridade.

Santo Afonso, como dissemos acima, definiu a caridade:

Um amor de amizade em virtude do qual nos inclinamos a querer bem a Deus e pelo qual lhe desejamos todos os bens por causa da perfeição soberana e infinita da sua divina natureza

A essa definição assim enunciada surge imediatamente ao espírito uma questão: Como pode a vontade humana pretender unir-se a Deus pelo amor? Como é possível a amizade entre a infinita perfeição e a miséria, entre o Criador e a Sua criatura, entre o Eterno e o ser de um dia? Com a reciprocidade no amor, a amizade supõe uma semelhança real, uma comunhão de bens que faz que o amigo descubra e ame no seu amigo outro eu. Quem poderá realizar tal maravilha entre Deus e o homem? — O que o homem nunca teria podido desejar nem mesmo conceber, Deus o fez por Sua onipotência posta a serviço da Sua infinita bondade. Deus, que é a caridade, quer ser amado, pois é uma necessidade para o amor verdadeiro ser correspondido. Deus, pois, quis que Sua criatura racional, objeto privilegiado da Sua ternura, pudesse corresponder a Seu amor; e, para tornar possível esse doce comércio duma amizade verdadeira, estabeleceu pelo prodígio da graça santificante uma real comunhão de natureza entre Ele e a Sua criatura.

É doutrina de fé que a graça nos faz participantes da natureza divina: divinae consortes naturae (2 Pd 1, 4), somos como que deificados, e, diz São João, somos filhos de Deus não só de nome, mas em toda a realidade: ut filii Dei nominemur et simus (1 Jo 3, 1). A graça faz-nos nascer para uma vida nova, para a vida divina: é como uma segunda natureza acrescentada à primeira.

E do mesmo modo como da essência da nossa alma jorram duas faculdades admiráveis, a inteligência e a vontade, princípios imediatos dos atos intelectuais, assim da graça santificante emanam as virtudes da fé, da esperança e da caridade, princípios dos atos sobrenaturais que nos levam até Deus.

Do mesmo modo, ainda como pela graça santificante participamos da natureza divina, pelas virtudes da fé, esperança e caridade participamos da inteligência e do coração de Deus. É por isso que se atribui, por apropriação, a infusão da graça santificante em nossas almas ao Pai Eterno, fonte e primário princípio de todo o ser, a infusão da fé é atribuída ao Filho, Verbo de Deus, luz que ilumina todo homem que vem a este mundo e ao Espírito Santo, amor substancial do Pai e do Filho, a comunicação da divina caridade. “Deus difundiu a sua caridade em nossos corações”, diz o apóstolo, dando-nos o Espírito Santo: Caritas Dei diffusa est in cordibus nostris per Spiritum Sanctum qui datus est nobis (Rm 5, 5). Assim podemos pensar como Deus pensa, amar como Deus ama, é, pois, a vida divina que passou em nós.

E essa vida da graça, que Deus nos comunica sobre a terra, é, em germe, a vida da glória que Ele nos dará no céu. O doutor angélico chama a graça santificante “o começo e como que a aurora da glória eterna em nós”: Quaedam inchoatio gloriae in nobis (2ª. 2ªº, q. 24, a. 3). Diz ainda o apóstolo: “A graça de Deus é a vida eterna”: Gratia Dei vita aeterna (Rom 6, 23) sobre a terra em germe, no céu em pleno desabrochamento.

Há, pois, realmente, pela bondade infinita, comunhão de bens entre Deus e nós: Deus partilha conosco a Sua felicidade, a Sua própria vida.

Há reciprocidade no amor. Deus quer o bem das Suas criaturas, e, depois de as enriquecer dos Seus mais preciosos bens, contempla-as com infinita complacência. Por sua vez, a vontade humana, divinizada pela caridade, compraz-se com delícias na perfeição e alegria de seu Deus, a quem quer todo bem, toda glória, todo amor.

Estabeleceu-se, pois, pela caridade a mais verdadeira e sublime amizade entre Deus e o homem.

Dessas reflexões resulta que o motivo formal da caridade não é um atributo particular de Deus, v. gr., a sua veracidade, o seu poder, a sua misericórdia, como na fé ou na esperança, mas a bondade infinita de Deus enquanto é o complexo de todas as perfeições. Pela fé cremos em Deus, porque Ele é a verdade essencial, incapaz de enganar-Se ou de enganar-nos; pela esperança pomos a nossa confiança nEle, porque é misericordioso e fiel às Suas promessas, pela caridade amamo-lO porque é, por natureza, o soberano Bem.

O que precede indica-nos igualmente os diferentes objetos da caridade e a ordem que deve reinar entre eles.

A caridade tem por fundamento a maravilhosa comunhão da natureza ou da vida, realizada entre Deus e as Suas criaturas pela graça santificante, deve, pois, estender-se a todos quantos entram na participação dessa natureza, dessa vida divina: Deus que é a sua fonte e o seu princípio, nós mesmos, e todos os que como nós a recebem da Sua bondade, e que, para nós, constituem “o próximo”. São: os Anjos e os Santos, os justos da terra e até os pecadores, porque embora estes últimos sejam privados da graça divina, são susceptíveis, enquanto vivem neste mundo, de recuperá-la e de entrar assim na grande família divina; não estão irrevogavelmente cortados, mas a ela pertencem de certo modo: a caridade irradia-se sobre eles para acalentá-los, como a chama que se lança à procura dum elemento novo para enlaçá-lo e abrasá-lo dos seus ardores (2º. 2° q. 25).

Somente os seres privados da razão, incapazes de partilhar da vida divina, e os condenados que se acham na impossibilidade de recuperá-la jamais, estão excluídos das ternuras da caridade e das inesgotáveis finezas do seu zelo.

Quanto à ordem pela qual a caridade se deve exercer nesses diferentes objetos, ela acha igualmente a sua razão de ser e a sua justificação na maneira com que cada um deles participa da vida íntima, que é o fundamento da caridade.

Essa vida divina está em Deus como em sua fonte, ou antes, é o próprio Deus. Em nós e no próximo acha-se apenas por participação. Deus é assim o princípio do bem de todos, é o bem comum. Do mesmo modo como numa sociedade bem organizada cada qual coloca o bem comum acima do bem particular, do mesmo modo como em nós a mão se expõe para a defesa do coração ou da cabeça, pela caridade amamos, mais do que a nós mesmos, Deus, o soberano Bem, fonte e princípio da felicidade para todos (2ª. 2ªº, q. 26, a. 3).

E se, depois de Deus, compararmos entre si os outros objetos da caridade compreenderá facilmente que no exercício dessa virtude o próximo vem depois de nós, e que os nossos devem preceder aos estranhos. A participação da graça santificante estabelece, sem dúvida, entre nós e o próximo, a união de semelhança, mas de nós a nós há unidade ou identidade. Assim, pois, como a unidade é mais forte e íntima do que a união, o amor legítimo de nós mesmos deve avante dar-se sobre o amor de outrem (2ª. 2ªº, q. 26, a. 4).

Daí a palavra: Caritas bene ordinata incipit a semetipso: caridade bem ordenada começa por si. E se é permitido fazer ao próximo o sacrifício de qualquer interesse menor, sacrifício, aliás, compensado pelo proveito espiritual que dele resulta, seria desordenado e culpável causar a si próprio, pelo pecado, um dano espiritual, seja qual for a vantagem que o próximo possa ter disso (Santo Tomás, ibid. 28).

De outro lado, a graça que não destrói a natureza, mas a enobrece e aperfeiçoa, só pode fortalecer a união que já nos liga ao próximo e intensifica a nossa afeição por ele que a própria natureza nos manda amar. De resto voltaremos a esses diferentes pontos quando falarmos da caridade para com o próximo, basta por ora ter formulado esses princípios que emanam da natureza da caridade.

Do que ficou dito, é fácil concluir, enfim, que a caridade é realmente o princípio e o coroamento ou a perfeição de todas as virtudes, a consequência da verdade acima estabelecida, de que o amor é o princípio de toda atividade humana. A caridade é, pois, necessariamente a base e a alma da vida cristã. Ademais, criado para glorificar a Deus e unir-se intimamente a Ele, o homem deve dirigir toda a sua vida para esse fim último determinado pelo Criador. De fato, nenhum ato humano pode ser perfeito sem que seja ordenado a esse fim divino; é mau se a ele se opõe; será necessariamente imperfeito se, sem desviar o homem do seu último fim, não contribuir para aproximá-lo dele. Ora, pertence à caridade dirigir, orientar o ato humano para Deus, enquanto é o soberano Bem. Também o doutor angélico nos ensina que uma virtude, cujos atos estivessem em oposição com o último fim, não seria senão contrafação de virtude: assim a prudência do avarento, a virtude que, procurando um bem particular, v. gr., o devotamento à pátria, fizesse abstração do fim último seria virtude imperfeita; perfeita é só a virtude que age sob a inspiração, sob o impulso da caridade (2ª. 2ªº, q. 23, a. 7).

Em sua admirável epístola aos coríntios, o apóstolo declara-nos que, sem a caridade, tudo o mais não é nada; nem o dom das línguas, nem o dom da profecia, nem o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, nem a vigor da fé, nem a abundância das esmolas, nem mesmo o martírio, mas que pela caridade todas as virtudes desabrocham na alma (1 Cor 13).

Toda virtude nasce, pois, e se desenvolve ao sopro da caridade. Por sua vez, essas virtudes, postas em ação pela caridade, contribuem para aproximar-nos de Deus e unir-nos mais intimamente a Ele, são como poderoso alimento de que a caridade se nutre e se fortalece. Grande, pois, é a sabedoria de Santo Afonso, que diz:

“Começai por amar a Deus, o amor divino fará nascer em vosso coração todas às virtudes, e essas virtudes atiçarão em vós as chamas da caridade, que é a perfeição”

Todo ato de virtude verdadeira e perfeita depende da caridade, não que ela seja o seu princípio imediato, mas porque vem do seu impulso. A caridade tem, entretanto, seus atos próprios e que lhe pertencem essencialmente, é a complacência que se alegra do bem de Deus e o exalta por seus louvores, é a benevolência para com Deus, a qual se manifesta pelo cumprimento perfeito da sua vontade na provação como na alegria, pelo oferecimento de si próprio e pelo devotamento absoluto à glória divina e à extensão do reino de Deus. E ao mesmo tempo em que quer com ardor o bem de Deus, a caridade repele com força o mal de Deus, isto é, o pecado, tem dele ódio implacável, concebe tristeza profunda diante dele e combate-o em toda parte com zelo devorador.

Para poder elevar-se às alturas do amor de Deus, a alma deve, enfim, necessariamente desprender-se, pela renúncia, do amor-próprio que a procura cativar. Antes do pecado, a alma, guiada pela graça, atirava-se naturalmente e sem esforço para Deus, amando-O sobre todas as coisas; mas o pecado transtornou nossa pobre natureza e o instinto do nosso coração é voltar constantemente para si mesmo para se substituir a Deus. Desde então é impossível irmos a Deus sem a renúncia desse eu egoísta que pretende reinar em nós. E no coração do homem trava-se sempre a grande luta entre esses dois antagonistas: Deus e o eu. Daí a palavra de Santo Agostinho:

“Dois amores constituem as duas cidades: o amor de Deus levado até ao desprezo do próprio eu, a cidade de Deus; o amor do eu levado até ao desprezo de Deus, a cidade de Satanás”

Não é que Deus queira que nos odiemos a nós mesmos; não, pois que, ao contrário, manda que nos amemos. Mas quer que nos amemos retamente, isto é, nEle e para Ele. E é nesse olvido, nesse sacrifício de si próprio por Deus que o homem acha a sua verdadeira grandeza e a sua paz. Quando ele se procura, acha-se, mas com suas misérias, paixões, pecados e remorsos; quando, ao contrário, adere a Deus pela caridade, torna-se semelhante a Deus: é para ele a verdadeira nobreza, a felicidade e a paz.

II. Da Natureza e Importância do Amor de Deus

Os escritos seguintes são de Santo Afonso Maria de Ligório.

1) A caridade é uma virtude sobrenatural infusa, pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas como ao sumo bem, por causa dEle mesmo.

A razão pela qual devemos amar a Deus é Sua perfeição infinita, que por si só merece todo o nosso amor, mesmo que não houvesse recompensa para os que O amam nem castigo para os que deixam de amá-lO. Quem ama a Deus por achar nEle sua felicidade própria, tem um amor interesseiro que não pertence propriamente à caridade, mas à esperança. Quem ama a Deus, porém, porque Ele merece ser amado por Si mesmo, ama-O com amor verdadeiro, amor de amizade.

Os companheiros de São Luís, rei de França, encontraram uma vez uma senhora que levava um facho numa das mãos e noutra um jarro d’água. Interrogada sobre o que significava isso, respondeu: Com este facho desejaria incendiar o céu e com esta água extinguir o fogo do inferno, para que os homens não mais amassem a Deus em razão das recompensas do céu e das penas do inferno, mas exclusivamente porque Ele merece ser amado.

Contudo, a caridade perfeita não exclui a esperança do céu. Amamos a Deus porque Ele merce ser amado por Si mesmo e O amaríamos também mesmo que não houvéssemos, de ser, por isso, recompensados; mas como sabemos que Ele nos quer dar uma recompensa, e até exige que a esperemos, é nosso dever a ela aspirar com toda a confiança. Desejar o céu para possuir a Deus e amá-lO mais perfeitamente é verdadeira e perfeita caridade, já que a glória eterna é complemento desse amor. Só os santos do céu, esquecidos de si mesmos e livres de todo o amor-próprio, amam a Deus com o mais puro amor, e, por isso, se diz deles que estão imersos em Deus.

2) No amor de Deus consiste toda a perfeição, porque a caridade é a virtude que nos une mais intimamente a Deus.

Todas as outras virtudes não tem valor se não forem acompanhadas da caridade. Esta traz, porém, em sua companhia, todas as outras virtudes, como ensina São Paulo:

“A caridade é paciente e benigna, não é invejosa, não obra levianamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo oculta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4)

“A caridade é o complemento da lei” (Rom 13, 10)

Isso levou Santo Agostinho a dizer:

“Ama e faze o que queres” (In ep.. ad Parth.)

Quem ama a alguém, evita causar-lhe o menor incômodo, antes faz tudo que o pode satisfazer. Assim também quem ama a Deus tem a maior aversão a tudo que O possa ofender e procura agradar-Lhe o mais possível.

III. Da obrigação do amar a Deus

1) O primeiro e principal mandamento que o Senhor nos deu exige que O amemos de todo o coração:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Dt 6, 5)

Já que Deus nos ama ternamente, deseja que também nós O amemos sinceramente; requer mesmo com instância o nosso amor e quer possuir todo o nosso coração:

“Meu filho, dá-me o teu coração” (Pr 23, 26)

“Que outra coisa deseja o Senhor teu Deus de ti a não ser que o respeites, trilhes os seus caminhos, o ames e sirvas de todo o teu coração e de toda a tua alma?” (Dt 10, 12)

No Antigo Testamento mandou o Senhor que o fogo em seu altar fosse conservado sem interrupção. Esse altar, diz São Gregório, simboliza nosso coração, no qual deve arder continuamente o fogo do amor divino, conforme o preceito do Senhor. Por isso, ao preceito de amá-lO de lodo o coração, ajunta Deus a exortação: “E as palavras que hoje te dirijo, devem viver em teu coração: deves meditá-las quando estiveres sentado em tua casa e te achares em viagem, ao te deitares e ao levantares; deves trazê-las como um sinal em tuas mãos, devem pairar diante de teus olhos, escrevê-las nas portas e soleiras de lua casa” (Dt 6, 6-9), para sempre te recordares delas e não deixares de orientar por elas as luas ações. Como recompensa de nosso amor, Deus nos promete entregar-Se inteiramente a nós: “Eu sou teu protetor e tua recompensa imensamente grande”, disse Ele a Abraão (Gn 15, 1). Os príncipes deste mundo recompensam seus vassalos fiéis com terras, honras e privilégios; Deus, porém, dá-Se a Si mesmo àqueles que O amam. Já seríamos suficientemente recompensados com a só certeza de que Deus ama os que O amam, como tantas vezes atesta na Escritura:

“Eu amo os que me amam” (Pr 8, 1)

“Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele” (Jo 4, 16)

“Quem me ama é amado por meu Pai e eu também o amarei” (Jo 14, 21)

E, afinal, Ele chega até ao ponto de se dar todo a nós em recompensa.

2) Se soubéssemos que em uma terra longínqua vive um príncipe belo, santo, sábio, amável e misericordioso, certamente o amaríamos, mesmo que não nos tivesse feito bem algum.

Que serão, porém, todas essas excelentes qualidades de um tal príncipe, em comparação com as de Deus? Deus possui toda a perfeição em grau infinito. Haverá talvez um objeto mais nobre, mais magnífico, mais poderoso, mais rico, melhor, mais belo, mais terno, mais grato, mais amável, e mais amoroso, mais digno do amor de nosso coração que nosso Deus?

Quem é mais nobre do que Deus? Os grandes deste mundo se ufanam de sua nobreza ascende a 500 ou 1000 anos; a nobreza de Deus, porém, é eterna.

Quem é superior a Deus? Ele é o senhor de todas as coisas; os Anjos do céu e os grandes da terra são, diante dEle, como uma gota de orvalho, como um exíguo pó (Is 40, 15). O mundo recebeu o ser com um simples aceno e com um outro será aniquilado. Quem é mais rico que Deus? Ele possui todos os tesouros do céu e da terra.

Quem é mais belo que Deus? Ante a Sua magnificência desaparece toda a beleza das criaturas.

Quem é mais benfazejo que Deus? Santo Agostinho diz que o empenho de Deus em nos fazer benefícios é maior que o nosso desejo de recebê-los.

Quem é mais misericordioso que Deus? Mal um pecador se humilha diante dEle e se arrepende de seus pecados, já lhe perdoa e o recebe novamente, mesmo que tenha sido o homem mais abominável do mundo.

Quem é mais reconhecido que Deus? Nunca deixa sem recompensa a mínima coisa que fazemos por Seu amor.

Quem é mais amável que Deus? Só Sua vista já causa uma tal alegria aos santos no céu que por toda a eternidade se sentem plenamente felizes, sendo a maior pena dos condenados o não poderem amá-lO, conhecendo a Sua amabilidade infinita.

3) Devemos, pois, amar a Deus de todo o coração, porque Ele é digno, por Si mesmo, de todo o amor.

Donde se conclui ainda que Deus, pelo grande amor que nos consagra, merece toda a nossa gratidão. Se pudéssemos reunir em um só coração o amor de todos os anjos, santos e homens juntos, o amor desse coração não se poderia comparar com a mínima parcela do amor que Deus dedica a uma única alma.

São João Crisóstomo diz que Deus nos ama mais do que nós mesmos nos podemos amar. “Com amor eterno eu te amei” (Jr 31, 3), diz Nosso Senhor a cada um de nós. Os que primeiro nos amaram foram nossos pais; eles, porém, começaram a amar-nos só depois de nós existirmos. Deus nos amou já antes de possuirmos o ser; ainda não existiam nossos pais, e já Deus nos amava; amava-nos já antes de existir o mundo e desde quando? Não podemos contar os anos e os séculos, porque nos amou desde toda a eternidade, desde que Ele é Deus, desde que ama a Si mesmo. Tinha, pois, razão de responder, aos que pretendiam o seu amor, a heroica Inês: Um outro amante já vos precedeu. Não, ó mundo, não, ó criaturas, eu não posso vos amar; já que Deus me amou primeiro, é justo que eu Lhe consagre meu coração inteiro!

Deus nos amou desde que Ele é Deus. Por puro amor nos tirou do nada, nos escolheu e colocou no mundo, podendo dar a existência a uma infinidade de outras criaturas que não criou. Por nosso amor criou o céu, as estrelas, os montes, os mares, as fontes e todas as outras coisas que admiramos no mundo. Para nosso proveito foram todas essas criaturas tiradas do nada, para que possamos amar a Deus por gratidão.

“Céus e terra, exclama Santo Agostinho, e todas as coisas que vejo na terra e no céu, me falam e me convidam a amar-Te, ó Deus; todas me dizem que as criastes por meu amor”

O Abade Rancé, fundador dos Trapistas, ao considerar de sua cela as colinas, as fontes, os pássaros, as estrelas, o céu, e ao pensar que Deus tinha criado tudo isso para lhe patentear o seu amor, sentia seu coração todo inflamado de amor por Ele. Santa Maria Madalena de Pazzi ficava igualmente toda arrebatada de amor pela só vista de uma bela flor, e dizia:

“O bom Deus pensou desde toda a eternidade em criar esta flor para conquistar meu amor”

Santa Teresa costumava dizer, à vista de árvores, fontes, lagos ou prados floridos, que essas belas coisas a acusavam de ingratidão e a repreendiam de seu fraco amor para com seu Criador, que as criara para que ela O amasse.

4) Deus não se contentou, porém, com dar-nos bens que jaziam fora dEle: Seu amor para conosco não se satisfaz antes de se dar a Si mesmo a nós.

“Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5, 2); a isso o moveu a desgraça em que nos tinha lançado o pecado. O pecado nos havia privado da graça de Deus, excluído do céu e feito escravos do inferno. Deus nos poderia remir de diversas maneiras; quis, contudo, descer pessoalmente à terra, fazer-se homem, para nos livrar da morte eterna e nos conquistar o céu que perdêramos; certamente um milagre de amor, capaz de encher de pasmo o céu e a terra. Como não ficaríamos admirados se um rei deste mundo se fizesse escravo por amor a um escravo! Que diríamos então se se fizesse um verme por amor a um verme? Ora, infinitamente maior é o amor que o Filho de Deus nos mostrou, fazendo-se homem por amor de nós.

“Ele se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de escravo, fazendo-se semelhante aos homens, e sendo reconhecido exteriormente como homem” (Fl 2, 7)

Tão grande foi o amor que nos teve, que O obrigou a revestir-Se de nossa carne.

“E o Verbo se fez carne” (Jo 1, 13)

Maior deve ser ainda a nossa admiração ao vermos quanto fez e padeceu por nós, miseráveis vermes da terra, o Filho de Deus, depois de encarnado. Uma única gota de sangue, uma única lágrima derramada por Ele, ou mesmo uma única súplica Sua, bastaria para nossa redenção, porque essa gota de sangue, essa lágrima, essa oração, oferecida pelo Homem-Deus pela nossa salvação, teria um valor infinito e suficiente para remir o mundo inteiro e até infinitos mundos. Jesus Cristo, porém, não só queria remir-nos, mas também tornar-se o único objeto de nosso amor, comprovando-nos o Seu amor infinito para conosco. Para isso escolheu para si uma vida penosa e desprezada, que se findou com a mais amarga é ignominiosa morte.

“Ele humilhou-se a si mesmo e fez-se obediente até à morte e mesmo até à morte da cruz” (Fl 2, 8)

Se o Salvador não fosse nosso amigo, que mais nos poderia fazer que dar sua vida por nós?

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13)

Que dizes a tudo isto, alma cristã? Crês que Jesus morreu por amor de ti? E se crês, podes ainda amar outra coisa fora dEle? Um célebre escritor diz que o homem, antes da Encarnação, poderia duvidar se Deus o amava em verdade; depois de o Verbo eterno fazer-se homem e morrer por nós, não há mais lugar para essa dúvida; pois o Senhor não poderia patentear mais claramente Seu amor pelo homem, que padecendo tantas dores e desprezos e, finalmente, a morte mais atroz, para nos remir e salvar.

Ah! Nós estamos muito acostumados a ouvir falar da Encarnação, da Redenção, do Nascimento de um Deus em um estábulo, de Sua flagelação, coroação de espinhos, de Sua crucifixão e morte! Ó santa fé, iluminai-nos e fazei-nos conhecer a grandeza do amor de que Deus nos deu provas, fazendo-Se homem e morrendo por nós!

Se Jesus Cristo não é amado pelos homens, provém isso do não refletirem no amor que lhes dedicou, porque seria impossível pensar nisso e viver sem amá-lO. “O amor de Cristo nos constrange”, diz São Paulo (2 Cor 5, 14), isto é, uma alma que considera o amor de Jesus Cristo para com ela, se sentirá constrangida a amá-lO. Os santos, ao meditarem a paixão do Salvador, abrasavam-se tanto em amor que, às vezes, ficavam fora de si, de pasmo e amor. Santa Maria Madalena de Pazzi, em um êxtase, tomou em suas mãos um crucifixo e exclamou:

Ó Jesus, Vós Vos tornastes louco de amor; eu o digo e repetirei sempre: Vós vos tornastes louco de amor, ó meu Jesus!

Se a fé não nos convencesse da verdade do grande mistério de nossa Redenção, quem poderia julgar possível que o Criador do universo desejasse padecer e morrer por Suas criaturas? Se Jesus não tivesse morrido por nós, quem ousaria exigir de Deus que Ele se fizesse homem e sofresse a morte para nos remir? Quem não teria por loucura só o pensar nisso? E, de fato, os pagãos, ao ouvirem a pregação da morte de um Deus feito homem, consideravam-na uma fábula e denominavam-na de incrível loucura. “Nós, porém, pregamos a Jesus Crucificado, que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios”, dizia São Paulo (1 Cor 1, 23). Sim, diz São Gregório, isso lhes parecia uma loucura, porque não podiam imaginar que um Deus, que de ninguém depende, que é infinitamente feliz em si mesmo, tivesse querido descer à terra, tomar a natureza humana e morrer pelos homens, criaturas Suas miseráveis, a não ser que se afirmasse que o tal Deus tinha enlouquecido. E, contudo, é uma verdade da fé que Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, por amor de nós, homens pobres e ingratos, se entregou aos tormentos, à ignominia, à morte:

“Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5 2)

E por que Jesus Cristo fez tal? “Ele o fez para que o homem conhecesse o amor inefável que lhe tem”, diz Santo Agostinho (De catec. rud. 4). O divino Salvador nos deu a entender a mesma coisa, dizendo:

“Eu vim trazer o fogo à terra e que desejo eu, senão que ele se inflame? (Lc 12, 49). Quero acender o fogo do amor divino na terra, e não tenho outro desejo a não ser que os corações dos homens se consumam por essas santas chamas”

São Bernardo considera como Jesus Cristo, qual um criminoso, deixa-se prender pelos soldados, e exclama:

“Ó meu Jesus, que tem Vosso santo corpo com as cordas e cadeias, já que Sois o rei dos céus e a santidade mesma? Nós, servos ingratos, nós merecemos ser ligados com elas. Quem Vos pôs em tal estado, qual um malfeitor desprezível e perverso? Quem fez isso? Foi o amor, que se esquece da dignidade, quando se trata de ser correspondido. Deus, pois, que não pode ser vencido por ninguém, foi vencido pelo amor. Seu amor para conosco levou-O a fazer-Se homem e a sacrificar Sua vida em um mar de opróbrios e dores”

O mesmo São Bernardo, considerando o divino Mestre diante de Pilatos, dirige-lhe as seguintes palavras:

“Dizei-me, Jesus amado, que Sois a inocência mesma, que fizestes para merecer a cruel sentença que Vos condenou à morte da cruz? Ah! Eu bem sei a causa de Vossa morte; conheço o crime que praticastes; é o Vosso amor para conosco; não foi Pilatos, mas sim Vosso amor que pronunciou a sentença e Vos deu o golpe mortal”

Com toda a razão, pois, São Francisco de Paula exclama, à vista do crucifixo:

“Ó amor, ó amor, ó amor!”

Oh! Se ao menos pensassem os homens, à vista do Salvador crucificado, no amor que Ele lhes tem!

“Em que amor não nos sentiríamos abrasar, diz São Francisco de Sales, se víssemos as chamas de amor que ardem no coração do Salvador! Que felicidade para nós, se fôssemos consumidos pelo mesmo fogo que devora o nosso Deus! Que alegria para nós, se estivéssemos presos pelos laços do amor a nosso bom Deus”

As chagas, do Redentor, como diz São Boaventura, deveriam comover os corações mais insensíveis e abrasar em amor as almas mais frias. Quantas setas de amor não partem dessas santas chagas e transpassam os corações mais duros. Quantas chamas não despede o coração ardente de Jesus, para inflamar os corações mais enregelados dos homens.

“Que é o homem para que o eleves? Ou por que prendes teu coração nele?” pergunta Jó. Ó meu Deus, que é o homem miserável, para que tanto o honres? Que bem recebeste dele, para estares assim disposto a fazer-lhe benefícios e demonstrar-lhe tanto amor? Santo Tomás afirma que o amor em que se abrasa o coração de Deus nos leva quase sempre a pensar que Ele considera o homem como seu deus e que não pode ser feliz sem que o seja também o homem. Em verdade, alma cristã, se fosses o deus de Jesus, poderia Ele fazer mais por ti do que fez, levando por tantos anos uma vida tão penosa e suportando uma morte tão cruel? E se se tratasse de salvar Jesus a vida de seu próprio Pai, poderia fazer mais do que fez por ti? Mas, ó meu Deus, onde está a nossa gratidão? Se o último criado nosso tivesse padecido por nós o que o nosso divino esposo quis sofrer por nosso amor poderíamos jamais esquecer-nos dEle? E viver sem amá-lO? Ah! Cada um de nós, ao considerar a morte de Jesus, deveria abrasar-se em amor e exclamar, sem interrupção, com São Pascoal:

Meu amor foi crucificado por mim, meu amor por mim morreu!

O que deixamos de fazer até agora, podemos ainda fazer no futuro, pois Deus nos dá tempo para isso. São Paulo diz que Jesus morreu por nós, para dominar soberanamente em nosso coração por meio de seu amor:

“Por isso morreu Cristo, para dominar sobre os mortos e sobre os vivos” (Rm 14, 9)

“Cristo morreu por todos, diz o mesmo Apóstolo, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu por eles” (2 Cor 4, 15)

Os santos corresponderam perfeitamente a essa intenção do divino Salvador. Julgavam fazer muito pouco por Ele, quando por seu amor sacrificavam tudo o que possuíam e até sua própria vida. Quantos grandes, quantos reis, rainhas e imperatrizes, não renunciaram a suas riquezas, seus parentes e sua pátria, e mesmo ao trono, encerrando-se num claustro, para aí se dedicarem totalmente ao amor de Jesus Cristo! Quantos milhões de mártires não julgaram uma grande felicidade poderem sacrificar sua vida, no meio dos mais atrozes tormentos, por Jesus Cristo. Quantos jovens e donzelas ricas não renunciaram às mais invejáveis núpcias e, com júbilo, dirigiram-se à morte para corresponderem, ao menos de algum modo, ao amor de um Deus que se entregou à morte por amor deles.

E tu, que tens feito de grande até agora, por amor de teu divino Salvador? Que provas de amor já Lhe tens dado? É certo que Jesus tão bem morreu por ti como por uma Santa Lúcia, uma Santa Ágata, uma Santa Inês. Quantos reis, príncipes e personagens altamente colocados nasceram em países heréticos ou pagãos? Quantos desses não hão de perder-se miseravelmente, porque desprovidos dos Sacramentos, da instrução religiosa e outros meios de salvação, ao passo que tu tiveste a felicidade de nascer no seio da verdadeira Igreja e de uma família na qual podes operar a tua salvação com maior felicidade que inúmeros outros. Pensa, além disso, na grande misericórdia que Deus te mostrou, perdoando-te tantas ofensas que fizeste. Para movê-lo a perdoar-te, bastou pedir-lhe unicamente perdão. Infelizmente pagaste-Lhe com ingratidão e tornaste a ofendê-lO. Ele de novo te perdoou e com o mesmo amor te cumulou de graças, luzes e inspirações, em vez de te castigar, como merecias. Até no momento em que isto lês, continua o Senhor a convidar-te a Seu amor. Eia, pois, que pretendes fazer? Não queiras resistir por mais tempo. Por que adias ainda? Queres talvez esperar até que Deus não mais te chame e te abandone?

IV. Meios para alcançar o amor de Deus

Santa Teresa diz que é uma graça extraordinária ser chamado ao amor perfeito de Deus. Ora, tu pertences ao número desses felizes. Para te consagrares, porém, ao inteiro amor de teu divino Esposo, deves usar magnanimamente dos meios de que necessitas para atingir esse fim.

1) O primeiro meio é um desejo ardente desse amor perfeito. Com esse desejo está dado um grande passo, pois Deus comunica Suas graças com abundância só àqueles que delas sentem uma grande fome, como nos ensina a Santíssima Virgem, no seu cântico admirável:

“Encheu de bens os que tinham fome” (Lc 1, 53)

Este desejo é-nos ainda imperiosamente necessário, porque, sem ele, não nos submeteremos com perseverança aos esforços que devemos fazer para adquirir o grande tesouro do amor divino, pois pouco nos esforçamos para conseguir uma coisa que pouco desejamos, ao passo que todo o trabalho nos parece leve e doce, quando desejamos ardentemente algum bem. Por isso o Salvador denomina felizes os que têm fome, isto é, um grande desejo de santidade, “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5, 6).

2) O segundo meio para alcançar o perfeito amor de Deus é renunciar a todo outro amor que não se refere a Deus. Deus quer possuir sozinho o nosso coração, e não tolera ninguém junto a si. Santo Agostinho refere que o senado romano, sem dificuldade, aprovou o culto a trinta deuses, mas não quis reconhecer ao Deus dos cristãos, por ser Ele, conforme afirmava, um Deus cioso, que quer ser adorado, com exclusão de todos os outros deuses.

Ora, com toda a razão exige nosso Deus essa adoração exclusiva, porque é Ele o único e verdadeiro Deus, e também o único que nos ama verdadeiramente e, por isso, não é para admirar que exija O amemos com amor indiviso. Se quisermos, pois, alcançar o perfeito amor de Deus, devemos expelir de nosso coração toda a afeição que não tenha a Deus por objeto. São Francisco de Sales, que vivia abrasado por completo no amor divino, dizia:

“Se eu conhecesse uma única fibra de meu coração que não fosse de Deus, em Deus o para Deus, arrancá-la-ia imediatamente”

Enquanto nosso coração não estiver despojado de inclinações terrestres, não pode o amor de Deus nele se alojar; logo que se desprender, porém, das criaturas, acender-se-á nele o fogo do amor divino e aumentar-se-á de instante a instante. Santa Teresa costumava dizer:

“Desapega teu coração das criaturas e procura a Deus, que imediatamente O encontrarás. O Senhor não pode retrair-Se àquele que o busca”.

“Bom é o Senhor para a alma que o busca” (Jer 5, 25)

“Ele se entrega totalmente àquele que deixa tudo por amor dele” (Lam.)

Ele mesmo disse um dia a Santa Teresa:

“Agora, que és inteiramente minha, serei também totalmente teu”

É o que dirá também a ti, alma cristã, se te desprenderes de tudo, para pertenceres inteira e exclusivamente a Ele. O Pe. Ségneri, o moço, escreveu uma vez a uma pessoa piedosa:

“A caridade divina é uma ladra benfazeja que nos despoja de todas as inclinações terrestres, de tal forma que a alma pode dizer a seu amado esposo: Que desejo eu fora de ti?”

São Francisco de Sales exprime-se de modo semelhante:

“O amor puro de Deus consome tudo que não é Deus, para transformar tudo em amor, pois tudo que se faz por Deus é amor” (Cartas 131, 203)

Quem, portanto, desejar ver seu coração cheio de amor divino deve, primeiramente, expelir dele todas as inclinações terrenas. Nisso deve imitar São Paulo, que considerava todas as coisas deste mundo como lodo para alcançar o amor de Jesus Cristo:

“Eu considero tudo como esterco, para ganhar a Cristo” (Fl 3, 8)

Peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine com Sua graça, porque então desprezaremos todas as riquezas, alegrias, honras e dignidades deste mundo, que são a causa da perdição da maior parte dos homens e que, afinal, não passam de vaidades e ninharias.

O amor de Deus, apossando-se de um coração, este não aprecia mais o que o mundo preza.

“Se o homem der todos os seus bens em troca do amor, se reputará isso como nada” (Ct 8, 7)

Quando uma casa se incendeia, diz S. Francisco de Sales, joga-se tudo pela janela fora, isto é, logo que um coração se abrasa no amor divino, procura, por si mesmo, sem admoestação alheia, desprender-se de todas as coisas terrenas e não amar coisa alguma fora de Deus. Um coração que ama sinceramente a Deus acha duro e insuportável dividir seu amor entre Deus e o mundo: e não poderá amar ao mesmo tempo a Deus e às criaturas. Segundo São Bernardo, o amor divino é incomparável com qualquer outro amor, pois Deus não permite em um coração qualquer comparte de seu amor, mas quer possuí-lo sozinho. Exige Deus muito talvez, querendo ser amado exclusivamente? Não, responde São Boaventura, Deus, a suma amabilidade, a infinita bondade, que merece um amor infinito, exige, com todo o direito, que um coração, criado expressamente para amá-lO, lhe pertença de fato, sem restrição, tanto que Deus se sacrificou inteiramente por esse coração, para se tornar seu único possuidor.

Cuidemos, pois, de não prender nosso coração às criaturas, para que ele ame exclusivamente a Deus. Numa palavra, devemos nos tornar “jardins fechados”, à semelhança da esposa dos Cânticos:

“És um jardim fechado, minha irmã” (Ct 4, 12)

Um jardim fechado é a alma que é inacessível a afeições terrenas. Grande, diz São Gregório, é a felicidade de uma alma que acha intolerável todo o amor que não é de Deus. Se uma certa criatura quiser arrebatar o nosso coração, devemos impedir-lhe a entrada e dizer a Jesus:

Ó Jesus, Vós só me bastais, não quero amar outra coisa fora de Vós

“Deus de meu coração e minha partilha por toda a eternidade” (SI 72, 26): Vós deveis ser o único senhor de meu coração e meu único amor.

3) Em terceiro lugar, para se alcançar o perfeito amor de Deus, é preciso abnegar-se a si mesmo, abraçando de boa vontade o que contraria ao amor-próprio e recusando-se-lhe o que ele deseja. Santa Teresa, achando-se doente, por todo um mês foi-lhe servida uma comida saborosa; ela, porém, a rejeitou e, instada pela enfermeira a prová-la, por estar muito bem preparada, respondeu-lhe a Santa: Pois é justamente por isso que me privo dela. É o que devemos também fazer: rejeitar as coisas que nos agradam, exatamente por nos serem agradáveis. Por exemplo, devemos desviar nossos olhos deste ou daquele objeto, justamente por ser belo; abster-nos deste ou daquele divertimento, exatamente porque achamos gosto nele; prestar serviços a uma pessoa ingrata, precisamente por ser ela ingrata; tomar um remédio amargo, por isso mesmo que ele é amargo.

Segundo São Francisco de Sales, nosso amor-próprio deseja se ingerir em tudo, mesmo nas coisas santas; ele faz-nos crer que nada é bom, se aí não encontrar satisfação. Por isso, devemos amar a própria virtude sem apego, diz o mesmo Santo. Assim, devemos amar a oração e a solidão, mas, quando a obediência ou a caridade do próximo nos põem obstáculos a uma e a outra, não devemos nos inquietar com isso, mas, conformados com a vontade de Deus, aceitar tudo o que nos sucede contra as nossas inclinações. O venerável Pe. Baltasar Álvarez costumava dizer que Deus permite muitas vezes que as criaturas nos desprezem e abandonem, para que nos voltemos a Ele. Nós, porém, alma cristã, não queremos esperar até que as criaturas nos deixem; não, nós renunciamos a elas imediatamente e nos entregamos por completo a Deus.

4) O quarto meio para se adquirir um perfeito amor de Deus é a assídua meditação da Paixão de Jesus Cristo. Santa Madalena de Pazzi dizia que quem por completo se deu ao amor de Jesus Crucificado, deve ter, em todas as suas ações, as vistas voltadas para a cruz, ocupando-se unicamente com a meditação do amor infinito que Jesus Cristo lhe testemunhou. Se alguém tivesse suportado, por amor de seu amigo, injúrias, pancadas e prisão, que satisfação não sentiria, sabendo que seu amigo o reconhece e pensa muitas vezes nisso. Se, pelo contrário, esse amigo, todas as vezes que se tocasse nesse assunto, mudasse de conversa e nem sequer gostasse de pensar nessa prova desamor, que dor e desgosto não causaria a seu amigo e benfeitor uma tal ingratidão! Pois é exatamente o que fazem Jesus sofrer aquelas almas que pouco pensam nas dores e opróbrios que Ele sofreu por amor delas, ao passo que muita satisfação Lhe causam os que a miúdo pensam e meditam na Sua paixão.

Parece que o divino Salvador quis padecer tantas e tão diversas penas e contumélias como prisão, bofetadas, flagelação, coroação de espinhos, escárnios e crucificação, para oferecer às almas que Lhe são caras, diversos mistérios à meditação. Por isso vemo-lO coberto de suor de sangue no Jardim das Oliveiras, preso com cordas por soldados brutos, apupado e revestido de branco, como louco, dilacerado pelos açoites, coroado de espinhos, como um rei de zombarias e dores, conduzido à morte, com a cruz às costas, pregado nela com três cravos e ainda traspassado com uma lança, depois da morte.

Contudo, não devemos meditar a paixão de Cristo para haurir dai consolação e doçuras espirituais, mas para nos inflamar no amor de nosso divino Salvador e nos animar a fazer o que de nós exige, e declarar-nos prontos a sofrer tudo com paciência, por amor dEle, que tanto sofreu por nosso amor.

O Senhor revelou a um eremita que não há oração mais própria para acender o fogo do amor de Deus em nossos corações, que a meditação de Sua dolorosa Paixão. Por isso, os santos tomaram por objeto de suas meditações contínuas os sofrimentos de Jesus, e com isso tornou-se, por exemplo, um São Francisco de Assis um serafim. Encontrou-o uma vez alguém banhado em lágrimas e soltando sentidos suspiros, e, perguntado pelo motivo de sua tristeza, respondeu:

“Choro por causa das dores e injúrias irrogadas a meu divino Mestre; mais, porém, me aflige o pensar que os homens, por quem tanto padeceu, nem sequer cogitam em suas dores”

Ao dizer isto, mais abundante correram-lhe as lágrimas, vendo-se a tal pessoa obrigada a chorar com ele. Ao ouvir o santo um cordeiro balar ou vendo qualquer coisa que lhe trazia à memória seu Jesus padecendo, começava imediatamente a derramar lágrimas. Achando-se uma vez doente e e aconselhado a ler um livro edificante, respondeu: Meu livro é Jesus Crucificado. Exortava continuamente a seus irmãos que meditassem na Paixão dolorosa de Jesus. Quem não se sentir abrasado no amor de Deus, considerando a Jesus moribundo na cruz, nunca chegará a amá-lO seriamente.

5) O quinto meio para alcançar o grande tesouro do amor de Deus é a oração. A alma cristã deve, por isso, exclamar continuamente:

Ó meu Jesus, dai-me o Vosso santo amor.

Ó Maria, alcançai-me o amor de Deus.

Ó santo Anjo de minha guarda, ó meus santos Padroeiros, alcançai-me o amor de Deus

Basta que pronuncies a palavra — amor —; Deus sempre a ouvirá com gosto e te inspirará sempre um pensamento piedoso, acenderá em teu coração uma nova chama de amor e santos desejos. O Senhor é muito liberal na distribuição de Seus dons; com gosto especial, porém, concede Seu santo amor a quem o pede, desde que seu mais ardente desejo é vê-lo arder em nossos corações. Devemos suplicar-Lhe não tanto um amor terno como um amor forte, um amor com o qual vençamos todo o respeito humano e toda a resistência do amor-próprio, tornando-nos prontos a executar sem demora tudo o que lhe apraz.

Acostuma-te, portanto, alma cristã, a procurar em tudo, mesmo nas coisas mais insignificantes, o maior agrado de Deus, visto que, assim, te habilitas para grandes coisas. E se temes não possuir a força suficiente para te venceres em uma coisa grave, põe tua co¬fiança cm Deus e dize:

“Tudo posso naquele que me conforta”

V. Da maneira de exercer o amor de Deus

1) Quem ama alegra-se com a felicidade da pessoa amada. É esse o amor chamado de complacência. Regozija-te, pois, muitas vezes, alma cristã, da felicidade infinita de teu Deus, mesmo mais do que se fosse tua, pois deves amar o teu divino Esposo mais que a ti mesma. Tua maior alegria deve consistir em pensar que nada falta a teu divino Salvador para ser infinita e eternamente feliz. Alegra-te também com o pensamento de que tantos milhões de anjos e santos, no céu, O amam do modo mais perfeito possível. Compraze-te igualmente, ouvindo que uma alma tem um grande amor a Jesus Cristo.

2) Quem ama, deseja que o objeto de seu amor seja por todos amado. É o amor de benevolência, que, igualmente, deves exercer, desejando ardentemente que Jesus seja amado por todos, os homens. Para isso deves falar muitas vezes do amor de Deus, para acender o figo do amor divino nos corações das pessoas com quem falas. Deves desejar que teu divino Esposo seja conhecido e amado por todos os que ainda não O conhecem nem amam. Deves sentir grande dor ao ver que Ele é tão desprezado por tantos infelizes. Será uma esposa amante a que insensivelmente vê seu esposo injuriado e maltratado? Quanto, pois, não te devem afligir e doer as ofensas pessoais que cometeste contra teu Deus? Continuamente deves te arrepender disso, com o que exercerás o amor chamado doloroso.

3) Quem ama prefere o objeto de seu amor a todas às outras coisas. Este é o amor de preferência, que Deus de nós exige de modo especial. Devemos estar prontos a ser antes despojados de todos os bens, que perder a graça divina. Exige talvez Deus muito, se requer que O prefiramos a todos os bens deste mundo? Que são eles, em comparação com Deus? Deveríamos propriamente nos envergonhar de dizer: Senhor, eu Vos amo mais que todas as outras coisas, desde que isso é o mesmo que declarar: Senhor, eu Vos tenho em maior consideração que a palha e o lodo.

E, contudo, Nosso Senhor contenta-Se se O amamos mais que as criaturas, apesar de serem elas, a Ele comparadas, ainda inferiores à palha e ao lodo. O Pe. Vicente Carafa, da Companhia de Jesus, dizia que, se possuísse o mundo inteiro, só o nome de Jesus bastaria para movê-lo a tudo renunciar incontinente. De nossa parte, devemos estar sempre prontos a antes sacrificar tudo que possuímos, nossos bens, nossa honra, nossa própria vida, que perder a Deus. Com São Paulo devemos dizer:

“Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem o que há de mais sublime ou de mais profundo, nem outra criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus, que é em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rom 8, 38)

4) Quem ama não recusa padecer pela pessoa amada, antes alegra-se com isso, dando-lhe assim uma prova certa de seu amor. É este o amor de sofrimento ou padecente, de que o divino Salvador é o modelo mais perfeito. Quem possui este amor, suspira sempre pelas ocasiões de padecer alguma coisa por Deus. As tribulações abrem às almas amantes o caminho da união com Deus e aumentam o amor que a Ele as prende. “Quem se entrega à vontade de Deus, no tempo das aflições, se aproxima dEle com passos acelerados”, diz o Pe. Baltasar Álvarez. Tudo o que sobrevém às almas amantes de Deus, quer seja alegre, quer triste, serve para uni-las mais estreitamente a Ele.

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus” (Rom 8, 28)

“Com o mesmo amor com que criei o homem, dirijo tudo o que lhe envio para o seu maior bem, quer seja felicidade, quer infelicidade”

Ama, pois, alma cristã, a teu divino esposo, tanto nos acontecimentos tristes, como nos alegres. Segundo São Francisco de Sales, é o Senhor tão amável e amoroso quando te envia aflições, como quando te envia consolações, visto que em tudo visa unicamente teu maior bem. Em particular deves cuidar em te conservar unido a Deus no tempo da enfermidade; precisamente nessa ocasião deve mostrar se alguém possui em verdade o amor de Deus.

5) Quem ama, pensa sempre no objeto amado. É o amor efetivo. Uma alma, que ama a Deus, entretêm-se ininterruptamente em seus pensamentos com Ele e patenteia a todo o instante o seu amor para com Ele por meio de suspiros amorosos e ferventes jaculatórias. Cuida, pois, de dia como de noite, em dizer a teu Salvador, quer estejas só ou em companhia de outrem:

Ó meu Deus, nada desejo fora de Vós; sacrifico-me inteira e irrevogavelmente a Vós. Quero tudo o que quereis. Fazei de mim o que Vos aprouver.

Basta dizeres: Meu Deus, eu Vos amo, ou, meu amor, meu tudo.

6) Quem ama, trabalha incessantemente pela pessoa amada. É o amor afetivo ou operativo. O amor não se contenta com simples afetos do coração, mas exige obras. Alguns são só amigos de nome; dizem sempre: Meu amigo, és senhor de tudo o que eu tenho; mas, na realidade, nada dão, ou só muitíssimo pouco. Outros, que são realmente amigos, dão antes o que possuem de melhor e ainda oferecem o restante.

Se quisermos nos entregar sem restrição a Deus, devemos nos despojar de todas as coisas terrenas, em que se prende o nosso coração, e formar o propósito de submeter a Deus todas as nossas inclinações, renunciar à nossa própria honra e consentir que sobre nós venham desprezos e zombarias. Uma alma assim disposta caminha com segurança: toda sua confiança está em Deus e está pronta a suportar todas as contrariedades, tudo faz com pura intenção, sentindo-se sempre levada a implorar o auxílio de Jesus e Maria, para a execução de seus propósitos, tendo só em vista, em todas as coisas, complacência e agrado de Deus. Se no caminho encontra dificuldades, sua resolução dá-lhe ânimo para exclamar:

“Só uma coisa desejo: o que agrada a Deus, ainda que isso me custe a vida”

Se cai em alguma falta, essa sua disposição a reergue e a anima pela esperança de proceder melhor outra vez. Uma tal resolução, porém, de tantas consequências, deve ser renovada muitas vezes, por exemplo: de manhã, depois da meditação, da santa comunhão, durante a visita ao Santíssimo Sacramento. De manhã, ao levantar-se, diga-se:

Ó meu Deus, eu me entrego de novo inteira e irrevogavelmente a Vós, prometo-Vos fazer sempre o que me pareça ser-Vos mais agradável. Uno este meu sacrifício ao que fizestes de Vossa  própria pessoa a Vosso Pai celestial; dai-me a graça de Vos permanecer inviolavelmente fiel; Vossa Paixão é minha esperança; deponho toda a minha confiança em Vossas promessas e Vosso amor. Ó Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim; alcançai-me a perseverança no amor de Vosso divino Filho

VI. Sinais certos do amor de Deus

A prova mais certa de amor, que podemos dar a Deus, está insinuada nas palavras de Sâo Paulo a Jesus Cristo, depois de sua conversão:

“Senhor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6)

É, pois, a conformidade de nossa vontade com a vontade de Deus. Alguns querem amar a Deus, mas unicamente da maneira que apraz às suas inclinações; esses são escravos de seu amor-próprio e não possuem o amor de Deus. Tenhamos muito cuidado em querer sempre só aquilo que Deus quer e poderemos então estar certos que o amor de Deus habita em nossos corações. Para termos disso certeza, consideremos os quatro pontos seguintes:

1) Acostumemo-nos, antes de tudo, a submeter nossa vontade à de Deus nas contrariedadezinhas que ocorrem cada dia. Suportemos, por exemplo, pacientemente uma palavra ofensiva, uma mosca impertinente, o latir de um cão, o apagar da luz e coisas semelhantes. É de máxima importância que nos proponhamos suportar essas pequenas coisas com perfeita resignação com a vontade de Deus, já por sobrevirem mais amiudadas vezes pequenos sofrimentos, já porque de tal modo adquirimos mais depressa o costume de nos submetermos também nas coisas mais difíceis à Sua santíssima vontade.

2) Conformemo-nos então à vontade de Deus nos acontecimentos desagradáveis da natureza. Quando está fazendo calor ou frio, quando chove ou faz sol, em uma carestia ou peste, de forma alguma devemos dizer:

Que calor insuportável! Que frio terrível! Que desgraça! Que infelicidade! Que tristes tempos!

Evitemos tal modo de falar, que exprime nossa repugnância contra as determinações da Providência.

3) Sujeitemo-nos à vontade de Deus também no que se refere a nossos defeitos, quer corporais, quer espirituais: um entendimento vagaroso, memória fraca, miopia, surdez, etc. Se alguém te lançar em rosto tais defeitos, responde-lhe em conformidade com a vontade de Deus:

“Foi o Senhor quem nos fez e não nós a nós mesmos” (SI 99, 3)

Nós somos pobres e devemos nos contentar com a esmola que o Senhor nos dá. Que dirias de um mendigo que se queixasse de não ser tão bela como ele desejava a veste que se lhe deu, ou de não ser tão saborosa como desejava a comida recebida? Fiquemos contentes com o que o Senhor nos deu, e não aspiremos a coisas mais altas, pois Deus poderia ter-nos deixado no abismo de nosso nada. Quantos não deveriam a sua salvação à falta de agudez de espírito, de beleza corporal e outros dotes naturais. Quantos, pelo contrário, não se tornaram criminosos e se perderam por causa de seus dotes extraordinários, beleza, nobreza e riqueza. Contentemo-nos com os bens que Deus nos deu e nada mais desejemos.

“Prefiro ser o verme mais abjeto seguindo a vontade de Deus, diz o piedoso Henrique Suso, a ser um serafim seguindo a minha vontade própria”

4) Pratiquemos a conformidade com a vontade de Deus também no tempo da doença e mal-estar. Quem deseja agradar a Deus, deve suspirar pelas ocasiões de adquirir Suas graças. Cristãos piedosos consideram graças o que o mundo chama desgraças, e tanto mais as prezam quanto mais duras e dolorosas forem essas tais desgraças. Os enfermos que tem de padecer muito e não se conformam com a vontade de Deus, são os homens mais dignos de compaixão, não por padecerem, mas porque não sabem avaliar os tesouros que Deus lhes oferece com os sofrimentos. Eles convertem em veneno o que devia servir-lhes de remédio, já que os males do corpo são os remédios mais eficazes para a cura da alma enferma, segundo a expressão do Sábio:

“Os males são expelidos pelo livor das feridas” (Pr 20, 30)

“Quem no tempo da tribulação e das dores se conforma com a vontade de Deus, caminha com passos ligeiros para a união com Deus, diz o Pe. Baltasar Álvarez, ou move a Deus a unir-se a Ele”

Isto mesmo revelou Nosso Senhor a Santa Gertrudes, dizendo-lhe que, quando vê uma alma aflita, sente-se atraído por ela, experimentando uma grande alegria em estar com os doentes e com os que sofrem. Se, pois, estivermos doentes, podemos e até devemos usar dos remédios que o médico nos prescrever, porque Deus o quer, mas devemos igualmente entregar tudo à vontade de Deus. Podemos pedir-Lhe a saúde, na intenção de empregá-la em Seu serviço, mas com inteiro abandono em Suas mãos, para que faça conosco o que Lhe aprouver: é este o melhor meio de readquirir de Deus a saúde. Quem procura, em suas orações, a si mesmo em vez de Deus, não será atendido; quem, pelo contrário, só tem em vista, nas suas orações, Deus e Sua vontade, obterá tudo.

“Eu procurei o Senhor, e ele me atendeu” (SI 33, 5)

Possuímos um remédio excelente contra todas as enfermidades nas palavras: Senhor, faça-se a Vossa vontade.

Submete-te, portanto, quando te sobrevier alguma doença, à vontade de Deus, e mostra-te pronto a sofrer tudo que te enviar; une-te a Jesus na cruz, e não queiras descer dela enquanto lhe aprouver ver-te nela; resolve-te a morrer aí, se for essa a Sua santíssima vontade. Deves ter sempre em vista teu Salvador crucificado; padecerás com muito maior resignação, pois, se comparares tuas dores com as que Jesus sofreu por teu amor, parecer-te-ão insignificantes e toleráveis.

Quanto não se enganam os que dizem desejarem a saúde não para se verem livres de seus sofrimentos, mas para melhor poderem servir ao Senhor, para irem à igreja, receberem a comunhão, fazerem penitência, estudarem e trabalharem. Mas por que desejas fazer essas coisas? Pergunto-te. Para agradar a Deus, respondes. Mas se não é vontade de Deus que te entregues à meditação, que recebas amiúdo a santa comunhão, que pratiques obras de penitência, te consagres ao estudo ou te preocupes com qualquer outra coisa, mas sim que suportes paciente e resignadamente as doenças e dores que te envia, que queres mais? Se, presos ao leito de dores, quisermos agradar a Deus, digamos simplesmente estas palavras do Senhor: Seja feita a vossa vontade, e tornemos s repeti-la cem, mil vezes ou, antes, sem interrupção, visto que assim agradamos mais a Deus que praticando toda a espécie de mortificações e devoções. O melhor modo de servir a Deus é conformar-se alegremente com Sua vontade.

O tempo da doença é a pedra de toque dos espíritos, pois exatamente nesse tempo vem à luz quem possui na realidade a virtude. Se alguém suportar a enfermidade, sem perder a tranquilidade, sem se queixar ou desejar alguma coisa, se obedecer ao médico e aos seus superiores, se se entregar inteiramente à vontade de Deus, pode-se dizer sem perigo de errar que possui verdadeira virtude. O contrário deve-se dizer do doente que se queixa ora do mau tratamento, ora de dores intoleráveis, ora da ineficácia dos remédios, ora da ignorância dos médicos e até do próprio Deus, que o trata mui rigorosamente.

5) Pode-se ouvir, às vezes, da boca de alguns cristãos palavras como estas: De boa vontade aceito todas as dores e cruzes que Deus me enviar por suas próprias mãos; mas como poderei suportar com ânimo tranquilo o mau trato da parte dos outros e suas injustas perseguições? É certo que quem me persegue, peca, e Deus não quer o pecado. Logo, não é vontade de Deus que eu sofra isso! A isso respondo: Não sabes, querido amigo, que “tudo provém de Deus, os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza?” (Ecle 11, 14). O Senhor não quer o pecado daquele que te persegue, mas quer que sofras essa perseguição injusta e, nesse sentido, é Ele mesmo quem ta envia. Quando o piedoso Jó foi privado de todos os seus haveres, Deus não queria o crime dos ladrões, mas que Jó suportasse essa perda. Por isso exclamou Jó:

“O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; como aprouve ao Senhor, assim se deu; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1, 21)

A este respeito nota Santo Agostinho:

“Jó não diz: o Senhor mo deu e o demônio mo tirou, mas o Senhor mo deu, o Senhor mo tirou”

Da mesma forma Nosso Senhor não queria o pecado dos judeus que crucificaram a Jesus, e, afinal, disse o Salvador a São Pedro:

“Não deverei beber o cálice que meu Pai me deu?” (Jo 18, 11)

Com isso deu a entender que a morte que os judeus haviam de infligir-lhe era-lhe enviada por seu Eterno Pai. São Doroteu diz que quem se vinga, por causa de agravos sofridos, assemelha-se aos cães, que correm atrás da pedra que os feriu, sem olhar para a mão que a atirou. Nos ultrajes todos que recebemos dos outros, devemos olhar para a mão de Deus, que no-los envia para que nos conformemos com a Sua santa vontade.

6) De modo particular devemos nos submeter prontamente à vontade de Deus no tempo da aridez espiritual. Se em tal estado não pudermos fazer coisa alguma, procuremos ao menos, nessas trevas espirituais, nos aniquilar diante de Deus e entregar-nos por completo nos Seus braços, confessando a nossa miséria, como uma pedra que se desprende de um monte para rolar morro abaixo, sem saber para onde vai. Quer envoltos em trevas, quer banhados em luz, devemos repetir sempre:

“Conduzi-me, Senhor, pela vereda que Vos aprouver; fazei somente que se cumpra a Vossa vontade e nada mais desejo”

7) O que se disse da aridez de espírito vale também das tentações. É verdade que devemos evitar, quanto está em nosso poder, as tentações: quando Deus, porém, permite que sejamos tentados a respeito da fé, da castidade, ou de qualquer outra virtude, não devemos nos queixar disso, mas conformar-nos também então com a vontade divina. “Minha graça te é suficiente” (2 Cor 12, 9), disse o Senhor a São Paulo, quando Lhe suplicou que o livrasse das tentações impuras. Digamos também, ao ver que Deus não atende as nossas súplicas:

“Fazei, Senhor, tudo, e tudo permiti que Vos aprouver, assisti-me unicamente para não perder a Vossa graça, que ela só me basta”

Não é a tentação, mas o consentimento nela, que nos priva da graça de Deus. As tentações, quando lhes resistimos, tornam-nos humildes, aumentam nossos merecimentos e obrigam-nos a recorrer mais repetidas vezes a Deus, ofendendo-O assim mais raras vezes, antes progredindo no Seu santo amor.

8) Mesmo quanto à medida da graça e ao grau da glória futura, devemos nos conformar com a vontade de Deus. É verdade que devemos estar possuídos do desejo de amar mais a Deus que os mesmos serafins; mas, mesmo assim, devemos nos contentar de boa mente com o grau de amor que Deus nos destinou. Não resta dúvida que devemos empregar todos os nossos esforços para adquirir a perfeição; mas, novamente, se cairmos em alguma falta, não devemos perder a paz da alma e a conformidade com a vontade de Deus, que isso permitiu; antes, sem perder a coragem, devemos nos levantar incontinente, arrepender-nos de nossos pecados, pedir a Deus maiores graças e continuar tranquilamente o nosso caminho.

Apesar de nos ser lícito receber no céu um lugar entre os serafins, não para gozar de uma glória maior, mas para melhor amar e glorificar a Deus, contudo, devemos nos conformar com Suas santas disposições quanto à medida do amor e grau de glória que nos caberá em partilha.

Alguns, que leram livros de mística, aspiram àquela união extraordinária com Deus, chamada união passiva; porém eu desejaria muito mais que aspirassem à união ativa, isto é, à perfeita conformidade com a vontade de Deus, na qual se realiza a verdadeira união da alma com Deus, segundo Santa Teresa (Fund. c. 5). Se morrermos a nós mesmos, se renunciarmos satisfazer aos nossos próprios desejos, para que a vontade de Deus viva e impere soberana em nós, realizar-se-á em nós a palavra do Apóstolo:

“Vivo eu, não porém eu, Cristo é que vive em mim” (Gl 2, 20)

Seria uma grande falta desejar êxtases, visões, revelações e coisas semelhantes. Os mestres da vida espiritual chegam mesmo a dizer que quem se vê enriquecido com tais graças, deveria pedir a Deus que lhas retirasse para que o possa amar no caminho comum da fé, que é o mais seguro. Muitos santos alcançaram a perfeição sem essas graças extraordinárias; somente as virtudes e, em especial, a conformidade com a vontade de Deus nos tornam santos. Se, pois, não aprouver ao Senhor nos elevar a um alto grau de perfeição e glória, entreguemo-nos à Sua santa vontade e roguemos-Lhe nos conceda a bem-aventurança ao menos por misericórdia. Se assim procedermos, não será pequena a recompensa que, em Sua bondade, nos concederá, visto que Ele ama sobremaneira as almas que se conformam com Sua santa vontade.

9) Assim também devemos suportar, resignados com a vontade de Deus, a morte de nossos pais, filhos, benfeitores e amigos. Se me disseres que isso muito te custa por te parecer castigo de Deus, pergunto-te: Não são talvez os castigos que Deus nos envia nesta vida outras tantas graças e favores? Se ofendemos a Deus de qualquer maneira, devemos satisfazer a Sua Justiça ou nesta ou noutra vida. Digamos, pois, com Santo Agostinho:

“Aqui queimai, aqui cortai, não me poupeis aqui, Senhor, mas na eternidade” (Serm. 20, c. 2, n. 2)

Devemos, a exemplo do piedoso Jó, encontrar um objeto de consolação nos sofrimentos desta vida.

“Esta seja a minha consolação, que me não poupe, afligindo-me com dores” (Jó 6, 10)

De fato, para quem mereceu o inferno, deve ser consolação ver que Deus o castiga desta maneira, podendo daí concluir, com toda a confiança, que Deus o quer preservar das penas eternas. Imitemos neste ponto o sumo sacerdote Heli, exclamando com ele:

“Ele é o Senhor, faça o que parecer bem a seus olhos” (1 Rs 3, 18)

10) Finalmente, devemos aceitar das mãos de Deus, com toda a resignação, a nossa própria morte. O venerável Luís de Blois nos assegura que quem faz um ato de perfeita conformidade com a vontade de Deus na hora da morte, será preservado não só do inferno, mas até do purgatório, mesmo que tivesse cometido todos os pecados imagináveis; pois quem aceita a morte com perfeita resignação, alcança um mérito semelhante ao dos santos mártires, que sacrificaram voluntariamente sua vida por amor de Jesus Cristo. Além disso, quem está inteiramente conformado com a vontade de Deus, morre tranquila e alegremente, mesmo tendo de suportar as maiores dores. Quanto à espécie de morte, devemos estar convencidos que a que Nosso Senhor nos destinou é a melhor para nós. Todas as vezes que pensarmos na morte, devemos dizer:

“Senhor, deixai-me morrer como Vos aprouver; dai-me unicamente a bem-aventurança”

Também quanto ao tempo de nossa morte, devemos nos submeter por completo à von¬tade de Deus.

Este mundo nada mais é que uma prisão na qual padecemos e nos achamos a cada instante no perigo de perder a Deus. Por isso exclamava o Rei-profeta:

“Arrancai do cárcere a minha alma” (SI 41, 8)

Compenetrada dos mesmos sentimentos, sem interrupção suspirava Santa Teresa pela morte e, ouvindo o relógio dar horas, alegrava- se, pensando que passara mais uma hora de sua vida e, com isso, mais uma hora de perigo de perder a Deus.

Segundo o São João d’Ávila, deve desejar a morte cada homem que de algum modo está preparado para ela, visto que nos achamos continuamente em grande perigo de perder a graça de Deus. Por uma morte feliz alcançamos a certeza de não perdermos jamais a amizade de Deus. Ora, que coisa existe mais preciosa e desejável que essa certeza? Talvez digas: Eu, porém, nada fiz até agora, nada adquiri para a minha alma. Respondo: Se Deus quer que morras agora, que bem poderás fazer se viveres contra Sua vontade? E quem sabe se, depois, terás uma morte tão feliz como podes atualmente esperar ter? Quem sabe se não mudarás de sentimentos, caindo em muitos pecados e perdendo-te eternamente? Devemos nos compenetrar da verdade que tudo o que nos acontece e nos sucederá no futuro nos vem da mão de Deus. Em todas as nossas ações, devemos ter diante dos olhos, como nosso fim único, o cumprimento da santa vontade de Deus. Tudo o que fizermos, deve ser feito unicamente porque Deus o quer. Se assim procedermos, certamente nos faremos santos.

VII. A Caridade no Redentor

Os escritos a seguir são do Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.

Se no coração do pobre pecador, que recuperou a graça de Deus, a caridade divina brilha com fulgor que deslumbra os nossos olhos e cuja sublimidade a língua humana não pode exprimir, em que termo poderá falar da caridade de Jesus Cristo para com seu Pai celeste? Jesus é ao mesmo tempo Deus e homem. Como Deus, luz de luz, não está somente unido ao Pai por uma real comunhão de natureza e por uma semelhança perfeita, mas é um com o Pai na indivisível unidade duma mesma natureza. Tudo o que o Pai é, comunica-o a seu Filho, salvo a sua divina Paternidade, e tudo o que é o Filho, o Pai o possui, salvo a divina Filiação. Como seu Pai, o Filho é, desde a eternidade, a perfeição, a sabedoria, o poder, a beleza, a justiça, a majestade. Não somente há entre Pai e o Filho reciprocidade de amor, mas exalam o seu amor num comum impulso, numa mesma vontade, num mesmo movimento de complacência, num mesmo sopro, no mesmo amor fazem passar todo o seu ser e esse amor substancial do Pai e do Filho é o Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que procede do Pai e do Filho.

Não somente o Filho louva o Pai, mas Ele é o louvor substancial, infinito, porque é a palavra ou o Verbo pelo qual Deus se diz a Si mesmo; Verbo dum brilho infinito, “esplendor da glória do Pai e fiel imagem da sua substância” (Hb 1, 3) no qual Deus se contempla num eterno embevecimento.

Mas que podem significar nossas pobres expressões terrestres, quando se trata dessa família divina, dessa adorável Trindade em que tudo são perfeição e vida? Que são as amabilidades, as ternuras, as finezas, as complacências e os devotamentos, as alegrias e os ardores, os transportes e a embriaguez mesmo do amor humano, diante desse amor vivo, infinito, que constituem a natureza, o próprio ser divino? Só o Espírito Santo pode sondar-lhe as grandezas e as profundezas, abranger-lhe a imensidade, conhecer-lhe os estremecimentos, as delícias e os encantos.

Como Deus, o Redentor ama a seu Pai com amor infinito; mas como homem, no arrebatamento da visão beatífica que gozou constantemente e sob o impulso do Espírito Santo que lhe formou o coração, a sua caridade é tal que só Deus pode medir-lhe a extensão, não podendo ser mais ardente. Também aqui é forçoso renunciar a qualquer descrição. São coisas que o homem não pode exprimir: Quae non licet homini loqui, diz o apóstolo São Paulo, falando dos transportes dos eleitos diante da essência divina, com mais forte razão, a caridade da alma do Redentor hipostaticamente unida à divindade escapa às nossas fracas concepções.

Dissemos que o verdadeiro amigo procura antes de tudo a presença e os entretenimentos do seu amigo, goza a sua felicidade, compraz-se em suas perfeições, toma a peito todos os seus interesses, e combate com abrasado zelo tudo quanto possa prejudicá-lo ou contristá-lo. Trabalhando na salvação dos homens, Jesus permanecia sempre em comunicação íntima com seu Pai, todavia, de tempo em tempo, interrompia os trabalhos do seu sublime ministério para estar só com Deus. Muitas vezes, após longa jornada de pregações e fadigas, ao cair da tarde, retirava-se à solidão para passar a noite em oração e entreter-se docemente com seu Pai (Lc 6, 12).

De resto, desde a Sua infância, declara querer se ocupar de tudo quanto se refere ao culto, à honra e à glória de seu Pai (Lc 2, 49). “É para meu Pai que vivo” dirá mais tarde: Ego vivo propter Padrem (Jo 6, 58). A Ele consagra todo o Seu tempo, o Seu trabalho, os Seus suores, o sangue das Suas veias.

Abandonando-Se com confiança toda filial à divina Providência e deixando-lhe o cuidado de glorificá-lO quando chegar a hora, esquece-se de Si próprio para vivo, dirá mais tarde: Ego vivo propter Patrem (Jo 30). A Ele refere toda a honra das obras maravilhosas que faz (Jo 8, 28) e da Sua sublime doutrina que causam a admiração dos que a ouvem (8, 16).

Abrasar as almas do fogo do amor divino, eis o fim da Sua vinda ao mundo:

“Vim trazer o fogo a terra e que desejo, senão que ele se inflame?” (Lc 12, 49)

Mas para alguém amar a Deus deve conhecê-lO; para isso tendem todos os esforços do Senhor: manifestar aos homens o poder, a majestade, a justiça, a bondade e a misericórdia de Deus para fazê-lo amado, eis a sua preocupação constante.

Se prega a justiça divina e seus terríveis castigos, é porque o temor é o início da sabedoria e para preparar o caminho ao amor.

Mas com que complacência o fala, sobretudo, daquela divina bondade que só Deus possuem por essência e da qual é a única fonte (Lc 28, 19), que difunde com tanta liberalidade os mais preciosos benefícios sobre todas as suas criaturas, e que faz luzir o sol sobre os pecadores e sobre os justos! (Mt 5, 45). Com que fervor exalta aquela Providência que dá aos lírios dos campos o seu fresco adorno (Lc 12), que vela com tanta solicitude sobre o humilde passarinho e sem cuja permissão não cai nenhum cabelo da nossa cabeça! (Lc 12). Com que emoção descreve aquela misericórdia infinitamente terna que acolhe paternalmente o filho pródigo quando este reconhece e deplora os seus desvarios! (Lc 15). Com que transporte de coração, enfim, aclama aquele amor assombroso que levou o próprio Deus a sacrificar o seu Filho unigênito pela redenção dos homens! (Jo 3, 16).

Buscai, pois, conclui o Salvador, busque primeiro o reino de Deus e a Sua justiça e, quanto ao mais, confiai filialmente em Sua bondade, que proverá a todas as vossas necessidades. São os Seus filhos e Ele é o vosso Pai não é mais precioso a seus olhos do que a ave ou a flor dos campos? (Lc 12). Amai, pois, a Deus que tanto vos ama, amai-O de todo o vosso coração, de todo o vosso entendimento, de toda a vossa alma e com todas as vossas forças, é isso que Ele exige de vós, é esse o primeiro e o maior mandamento que Ele vos impõe.

Jesus exorta-nos a praticar toda a justiça, para que nos assemelhemos a nosso Pai celeste e para que Deus seja glorificado em nós.

“Sede, pois, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 16)

E ainda:

“A luz das vossas virtudes brilhe aos olhos de todos, a fim de que, testemunhas das vossas boas ações, deem glória a vosso Pai que está nos céus” (Jo 17)

Admiremos ainda com que abandono filial, com que ternura de afeição e reconhecimento fala a seu Pai, exprimindo-Lhe os Seus desejos, rendendo-Lhe graças pela bondade com que são acolhidas as Suas preces, pedindo-Lhe vele sobre os apóstolos nas horas terríveis de Sua paixão e em todos os assaltos que lhes fará o mundo rancoroso e invejoso. E quer que, a Seu exemplo, os Seus discípulos falem a Deus, não como servos a temer diante do Seu senhor, mas como filhos a Seu pai. É esse doce nome de Pai que lhe darão em Suas preces. Eis como deveis orar:

“Padre nosso que estais no céu” (Mt 6, 9)

Eles também devem preferir os interesses de seu Pai aos seus próprios interesses; antes de pedirem o pão de cada dia e as graças de que necessitam, dirão a Deus: Santificado seja o Vosso nome; venha a nós o Vosso reino; seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu.

Mas, já o sabemos, a sinceridade do amor manifesta-se pelo cumprimento da vontade divina; diz o Salvador: no céu entrará não o que tiver clamado:

“Senhor, Senhor, mas quem em tudo tiver feito à vontade de meu Pai” (Mt 6, 21)

Alhures declara não reconhecer por Seus senão os que praticam para com Deus essa filial submissão. Disseram-lhe uma vez:

“Eis que vossa mãe e vossos parentes vos estão esperando lá fora. Estendendo as mãos sobre os discípulos, responde: Eis a minha mãe e os meus irmãos, quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 46-50)

É esse o primeiro ensinamento que Jesus nos dá, não só por suas palavras, mas, sobretudo por seus exemplos.

Muito antes do Seu nascimento, o profeta põe-lhe nos lábios as palavras:

“Na testada do livro da minha vida está escrito, meu Deus, que cumprirei fielmente a vossa vontade” (Hb 10, 8)

E mais tarde Ele poderá dar de Si mesmo este testemunho:

“Em tudo procuro o beneplácito de meu Pai” (Jo 8, 29)

É esse, diz Ele, o alimento da minha alma:

“A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4, 34)

Ele cumprirá essa divina vontade mesmo nas coisas penosas.

“Seja qual for a sua amargura, não deverei eu beber o cálice que meu Pai me apresenta?” (Jo 18, 11)

Inclina sempre a fronte, dizendo:

“Sim, meu Pai, seja assim, porque este é o vosso beneplácito” (Mt 11, 26)

E quando a sua natureza vacila e cai sob o peso, implora, para consolar a nossa fraqueza, a piedade de seu Pai: “Meu Pai se é possível, afasta de mim este cálice” (Mt 26, 39), mas acrescenta logo:

“Não se faça, porém, a minha vontade, mas a vossa” (Lc 22, 42)

Mas Deus quer que ele sofra e morra pela salvação dos homens: entrará, pois, generosamente no caminho doloroso do Calvário. É assim que quer provar ao mundo o quanto ama a seu Pai:

“A fim de que o mundo saiba que amo a meu Pai e que cumpro a sua vontade, levantai-vos, disse a seus apóstolos, e vamos ao com¬bate que devo travar” (Jo 14, 31)

Jesus, enfim, combate o mal de Deus, isto é, o pecado com o mesmo ardor com que procura a glória de Deus. Se for toda bondade para com o pecador que confessa a seus erros e os chora sinceramente, com vigor repreende os fariseus hipócritas, cujo orgulho se obstinava na iniquidade. Em Seu zelo devorador pela honra de Deus e da Sua casa, toma o azorrague e expulsa, sem piedade, do templo, os vendedores, que por seu sórdido comércio desonravam o lugar santo, e lança lhes as palavras inflamadas:

“Está escrito: a minha casa é casa de oração e vós fizestes dela um covil de ladroes“ (Mt 21, 13)

Quão profundo era o seu horror ao pecado! Quão ardente o seu ódio a esse monstro horrendo! E quão viva a sua dor ao vê-lo arruinar tantas almas criadas para amar e glorificar a Deus!

Daí aquela tristeza que bastaria para dar-lhe a morte, e que o acompanhou toda a vida, daí aquela agonia que o inunda de suor de sangue e em que Ele nos deixa entrever algo da horrível violência que comprimia constantemente a Sua alma diante dos atentados renovados sem cessar contra a Majestade divina.

A honra de Deus ultrajado exigia, entretanto, uma reparação que os homens não podiam oferecer-Lhe, e a divina justiça devia manter os seus direitos.

Que satisfação, com efeito, apresentavam a Deus os sacrifícios da lei antiga, em que animais eram imolados como vítimas do pecado? Diz o Senhor:

“Que necessidade tem eu da carne dos bois ou do sangue dos bodes?” (SI 49, 13)

Não, diz a seu turno São Paulo, não é pelo sangue dessas vítimas que os pecados podem ser tirados (Hb 10, 4). Já ao entrar no mundo, disse Jesus a seu Pai:

“Os sacrifícios dos homens por seus pecados não vos puderam satisfazer: mas preparastes-me um corpo que vos posso imolar eis-me pronto para oferecê-lo para a vossa glória” (Ibid)

Ao mesmo tempo, pois, que Jesus pregara aos homens o amor de seu Pai e o espírito de penitência, Ele será a vítima do pecado. A Sua vida será uma imolação perfeita e perpétua, será sempre o homem das dores padecendo antecipadamente em Seu coração todas as torturas a Ele reservadas para as horas da Sua cruel paixão, vítima generosa e voluntária que sobe ao altar para ser consumida pelo fogo do Seu amor.

Antes, enfim, de expirar sobre a cruz, o Salvador lança um olhar para a sua existência neste mundo, e verifica que tudo está cumprido, como filho amante e submisso, fez tudo quanto seu Pai dele exigia: doravante Deus será conhecido, amado, glorificado, a Sua honra está reparada, a Sua justiça abundantemente satisfeita até ao fim dos tempos a terra oferecerá ao céu uma vítima pura e sem mancha que, fazendo as delícias de Deus, assegurará aos homens a eterna misericórdia. Tudo está consumado, Jesus pode morrer. “Pai, diz ele, em vossas mãos encomendo o meu espírito” (Lc 23, 46); depois dessa última palavra de amor e abandono filial, exala o Seu derradeiro suspiro.

Jesus, vítima de amor, comunique à minha alma uma centelha do fogo divino que Vos devora; derramai em nossos corações o Vosso ódio ao pecado. Descestes do céu para abrasar a terra das chamas da eterna caridade; que essas chamas nos enlacem e nos consumam e, fazendo-nos, enfim, morrer a nós mesmos, nos faça viver em Vós, por Vós e para Vós.

VIII. Prática da Caridade

A primeira condição para adquirir o santo amor de Deus e nele fazer sempre novos progressos é, evidentemente, desejá-lo sincera e ardentemente. Santo Afonso escreve que, para avançar no amor de Jesus Cristo, “o primeiro meio” é desejar com ardor chegar a esse perfeito amor. Os desejos ardentes o acrescentam, são as asas pelas quais os santos se elevaram até à união com Deus por um perfeito amor. Se não tendes esse desejo, ao menos o pedi a Deus, porque sem isso não podereis jamais chegar a nenhum grau de santidade, com esse desejo, ao contrário, lá chegareis depressa… Quão grandes são os nossos pensamentos, disse ele com Santa Teresa, porque é deles que virá o nosso bem. Não devemos limitar os nossos desejos, devemos, ao contrário, esperar que, apoiando-nos em Deus, nós, por constantes esforços sustentados por sua graça, poderemos chegar pouco a pouco aonde chegaram muitos santos (R. S. Cap. XXI § II).

Em segundo lugar, como o observamos mais acima, o coração não pode elevar-se a Deus se não for livre e desapegado de toda afeição terrena. Daí ainda as palavras de Santo Afonso:

“O segundo meio necessário para amarmos a Deus de todo o coração é o desapego de todo amor que não tem a Deus por objeto… É preciso, pois, começar por banir do coração toda afeição que não é para Deus”

“Desapegai o vosso coração de todas as coisas, diz Santa Teresa, e procurai a Deus, que o achareis”

Desprendida das afeições terrenas e movidas do desejo de unir-se a Deus por um perfeito amor, a alma se imergirá na oração, que é, diz Santo Afonso, a fornalha em que a alma se abrasa da divina caridade. É na oração que a alma considera os motivos que tem de amar a Deus e os títulos que o Senhor possui a seu amor. É lá que ela contempla as perfeições divinas e tantas provas que Deus deu do seu amor. E para mover-nos ao amor de Jesus Cristo, Santo Afonso nos recomenda de modo especial meditar com frequência o Salvador. O terceiro meio, diz ele, para obter o perfeito amor a Jesus Cristo, é meditar muitas vezes a Paixão… Não devemos meditar a paixão de Jesus Cristo para ter consolação e ternuras, mas unicamente para inflamar-nos de amor ao nosso Redentor e para saber o que ele exige de nós, e devemos oferecer-nos a suportar todos os males por seu amor, já que ele tanto sofreu por amor de nós. Segundo uma revelação feita a um santo ermitão, não há exercício mais próprio para abrasar-nos de amor divino do que a meditação da Paixão.

A oração é ainda a fornalha em que a alma se abrasa de amor divino, porque na oração é que se podem oferecer a Deus atos perfeitos de amor e depois de fazer esses atos na oração, a alma terá mais facilidade de oferecê-los a Deus durante o dia, enquanto que, sem a oração, não se terá nem o pensamento de se entregar a essa prática salutar. Ora, nada mais eficaz do que esses atos frequentes para desenvolver o amor de Deus em nosso coração. Ouçamos ainda Santo Afonso:

“O quarto meio para chegar ao amor perfeito é exercer-se frequentemente em fazer atos de amor. O fogo alimenta-se da lenha e o amor, de atos”

A alma de boa vontade esforçar-se-á, pois, por fazer e com toda a perfeição possível, em toda a verdade e sob todas as suas formas, o ato de caridade, primeiro na meditação. Em união com Jesus Cristo e com o auxílio do Espírito Santo, considerando as infinitas perfeições de Deus, a alma desprende-se de si mesma e das criaturas e volta-se para Deus, bem supremo, para aderir a Ele, preferindo-O a tudo, comprazendo-se em Seu bem, em Sua felicidade infinita e na glória que Lhe proporciona o amor das Suas criaturas fiéis, desejando vê-lO mais amado e mais glorificado, repelindo com horror o mal de Deus e deplorando com tristeza tantas ofensas cometidas contra Ele, devotando-se inteiramente à glória do Senhor pela execução perfeita da Sua divina vontade e pelo zelo mais ardente para a expansão de Seu reino nas almas.

Invocação — Jesus, para me assemelhar a Vós e Vos agradar, quero conVosco unir-me a Deus com perfeito amor; mas sou a própria miséria… ajudai-me com a Vossa graça, dai-me o Vosso Espírito. Espírito de caridade venha ao meu coração e acendei nele o fogo do Vosso amor.

Motivos — Meu Deus, Sois soberanamente bom e sobrenaturalmente amável, enquanto que eu não passo de uma pobre criatura que tirastes do nada.

Renúncia — Renuncio a mim mesmo, já não quero viver para mim, já não quero comprazer-me em criatura alguma, nem em mim mesmo.

Ato de amor (Preferência) — Mas amo-Vos, soberano Bem, de todo o meu coração, de todas as minhas forças e sobre todas as coisas, preferindo-Vos a tudo e sacrificando ao Vosso amor tudo o que não é Vós.

Complacência — Comprazo-me em Vossas perfeições infinitas, exulto em saber que Sois infinitamente felizes e em Vos ver amado pelos anjos, pelos santos e pelos justos da terra, uno a minha voz a seus concertos, para cantar os Vossos louvores e aclamar as Vossas perfeições, sobretudo a Vossa bondade, o Vosso amor e a Vossa infinita misericórdia.

Benevolência — Se pudesse, quisera aumentar ainda a Vossa felicidade. Ao menos, meu Deus, desejo ver o Vosso reino estender-se entre os homens, quisera ver a Vossa vontade executada em tudo sobre a terra, tão perfeitamente como no céu.

Ódio do pecado — Já que Vos amo de todo o meu coração, de todo o coração detesto o pecado, porque é o Vosso mal, e deploro com dor tantas ofensas cometidas cada dia contra Vós por Vossas criaturas rebeldes.

Conformidade — Quero satisfazer-Vos plenamente pelo cumprimento perfeito da Vossa divina vontade, nas penas e nas alegrias, aceitando de antemão todos os sacrifícios que Vos aprouver exigir de mim: não quero senão o que Vós quereis, e quero tudo o que quereis.

Zelo — E porque Vos amo, consagro-me inteiramente à Vossa glória e quero devotar-me e sacrificar- me para Vos conquistar corações. Jesus comunique-me o Vosso amor para com o Vosso divino Pai. Maria, minha Mãe, faça que eu ame o meu Deus, fazei que o ame toda a minha vida, na hora da morte e durante a eternidade.

Outras vezes faremos esses atos a Jesus Cristo, que deve ser o nosso modelo e, ao mesmo tempo, o objeto do nosso amor.

No correr do dia, unidos a Deus e a Jesus Cristo por um recolhimento contínuo, faremos esses atos com a máxima frequência possível. Santo Afonso desejava que os nossos dias fossem cheios deles. Para esse fim ele os difundiu em todas as magníficas súplicas saídas do seu coração abrasado de amor, e cujo uso nos recomenda com tanta insistência. E para facilitar-nos a sua prática, distingue e classificam todos esses diferentes atos e dá-nos fórmulas variadas para cada um deles. Após haver exortado a alma, que quer unir-se a Jesus Cristo, a multiplicar os atos de amor de preferência, de amor de complacência, de amor de benevolência, de amor de conformidade e de amor doloroso, termina recomendando ainda a prática das orações jaculatórias, que partem da alma como setas que vão diretamente ao coração divino.

“Quem ama, diz ele, pensa sempre no objeto amado. Assim a alma que ama a Deus pensa sempre nEle, e procura sempre testemunhar-Lhe o seu amor por suspiros ardentes e fervorosas orações jaculatórias, é o que se chama amor aspirativo”

Procurai, pois, repetir muitas vezes a vosso Esposo crucificado, de dia e de noite, na cela e alhures, só ou em companhia:

Meu Deus não quer senão a Vós, disponde de mim como Vos aprouver, dou-me a Vós e quero tudo o que quereis

Basta até dizer-Lhe:

Meu Deus, eu Vos amo

Ou uma só palavra:

Meu amor e meu tudo!

“Podeis ainda, sem falar, dar suspiros de amor, elevar o vosso espírito a Deus ou os vossos olhos ao céu, lançar um olhar de afeto ao Santíssimo Sacramento ou ao crucifixo; esses atos são talvez os melhores, porque mais fáceis e podem ser feitos mais vezes e com mais fervor” (R. S. XXII § II)

Ofereceremos, pois, a Deus, com todo o fervor de que somos capazes, todos esses atos que o santo doutor nos recomenda e assim exerceremos o amor afetivo. Mas não esqueceremos jamais que o amor afetivo chama o amor efetivo, é preciso que a conduta não desminta a palavra do coração. Depois de dizer a Deus que O prefere a tudo e só quer a Sua vontade, a alma reta e generosa conserva-se realmente desprendida das criaturas, e não segue em nada a sua vontade própria: é o amor efetivo unido ao amor afetivo.

Recordando-se que a caridade, virtude que deve ser exercida, é também e antes de tudo um dom de Deus, o dom que Jesus e Maria concedem com mais gosto, a alma fiel pedirá, por orações jaculatórias frequentes e fervorosas, o aumento do santo amor, será esse o fim principal de seus exercícios de piedade. Comprazer-se-á em invocar frequentemente o Espírito Santo pelo Veni, Sancte Spiritus.

No trabalho e no meio das diferentes ocupações, lembrar-se-á que as duas grandes provas de amor que Jesus nos pede são o cumprimento da Sua vontade e o zelo pela salvação das almas. Aplicar-se-á, pois, a não procurar em tudo senão a vontade de Deus, para realizá-la integralmente e com perfeita pureza de intenção, ordenando toda a sua vida para a glória e o beneplácito de Deus e, pelo amor de Deus, para a salvação das almas.

Praticará, enfim, por amor, a penitência perfeita, expiando as menores fraquezas, deplorando antes de tudo, em suas faltas, o mal de seu Deus, e unindo as suas expiações às do divino Redentor.

IX. Aspirações Amorosas

Inflamemos nossos corações com diversas jaculatórias recomendadas por Santo Afonso ao longo do dia.

Eu Vos amo, ó Jesus, que por mim morrestes

Ó Jesus, Vós só me bastais

Dai-me o Vosso santo amor e fazei de mim o que Vos aprouver

A quem deverei eu amar senão a Vós, ó meu Deus?

Eis-me aqui, Senhor, disponde de mim segundo o Vosso agrado

Ó meu Deus, quando serei Vosso inteiramente?

Quando poderei dizer: Ó meu Deus, agora não posso Vos perder mais?

Quem sou eu, Senhor, para que desejeis o meu amor?

Ó meu Deus, só a Vós quero e nada mais. Em todas as coisas só quero o que quereis

Oh! Pudesse eu sacrificar-me inteiramente por Vós, que Vos aniquilastes todo por mim

Para com os outros tenho sido grato: só a Vós paguei com ingratidão

Demais Vos tenho ofendido; de agora em diante nenhum pecado mais

Se tivesse morrido no pecado, não poderia mais amar-Vos

Deixai-me morrer antes que mais uma vez Vos ofender

Tendes-me suportado com tanta paciência, para que Vos ame. Pois bem: amar-Vos-ei sempre

Todo o resto de minha vida deve ser consagrado ao Vosso amor

Ó Jesus, atraí-me todo a Vós

Vós não me abandonareis e eu nunca mais Vos hei de abandonar

Ó Deus de meu coração, espero que permaneceremos sempre unidos no amor

Ó Jesus, fazei-me todo Vosso antes de morrer

Fazei que Vos ache inteiramente aplacado no dia de Juízo

Muito direito tendes ao meu amor. Eu Vos amo, ó Jesus, sim, eu Vos amo!

Não desprezeis o amor de um pecador que tão gravemente Vos ofendeu

Vós Vos destes inteiramente a mim; eu também desejo ser todo Vosso, sem restrição alguma

Desejo amar-Vos ternamente neste mundo, para amar-Vos ainda mais ardentemente no céu

Fazei-me conhecer que grande bem sois Vós, para que Vos ame de todo o coração

Vós amais a todos os que Vos amam; pois bem, eu Vos amo, amai-me também Vós

Dai-me o amor que de mim exigis

Alegro-me, porque Sois infinitamente feliz

Oh! Tivesse eu Vos amado sempre! Oh! Tivesse eu morrido antes de Vos haver ofendido!

Fazei que calque tudo aos pés para Vos agradar

Eu Vos entrego minha vontade inteira; de mim disponde como Vos aprouver

Toda a minha alegria consiste em Vos causar alegria, ó bondade infinita

Ó Deus eterno, espero amar-Vos eternamente

Vós me seguistes quando eu Vos fugia; não me repelireis agora que eu Vos busco

Ainda me dais tempo para Vos amar; agradeço-Vos e Vos amo por isso

Hoje deve ser o dia em que eu me entrego inteiramente a Vós. Castigai-me como quiserdes, mas não me priveis de Vosso amor

Ó Deus, eu quero Vos amar sem restrição alguma

Aceito de boa vontade todas as dores e calúnias, contanto que possua Vosso amor

Oh! Pudesse eu morrer por Vós, que morrestes por amor de mim

Oxalá que todos Vos amassem como Vós o mereceis

Quero fazer tudo que Vos possa causar alegria

Vosso gosto me é mais caro que todos os gozos do mundo

Ó vontade de Deus, eu Vos amo de todo o meu coração

X. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Eis, por fim, algumas orações de Santo Afonso para crescermos na Caridade.

Oração a Jesus Cristo para obter o Seu Santo Amor

Ó amor crucificado, amabilíssimo Jesus meu, creio e confesso que Sois verdadeiramente o Filho de Deus e o Salvador do mundo; adoro-Vos desde o abismo das minhas misérias, e Vos agradeço terdes querido sofrer a morte para granjear-me a vida da graça divina. Oh! De todos os amigos o mais fiel, de todos os irmãos o mais terno, de todos os mestres o mais amável, amadíssimo Redentor meu, a Vós é que devo a minha salvação; Vós me livrastes do inferno; Vós me perdoastes os pecados; Vós me destes a esperança do paraíso! Mas ai! Que ingrato que sou! Pois após tantas misericórdias, após tantos penhores especiais do Vosso amor, em vez de vos amar, de novo Vos ofendi. Em punição de tanta ingratidão, merecia estar condenado a não Vos poder amar nunca mais. Mas não, meu Jesus, escolhei para mim outro castigo qualquer, que não este; se no passado Vos ultrajei, agora Vos amo e desejo amar de todo o meu coração. Sabeis, porém, que, sem a Vossa assistência, nada posso. Pois me ordenais Vos ame, dai-me o dom do Vosso santo amor.

Dignai-Vos, ó meu Jesus, minha esperança, meu único amor, minha vida, meu tesouro, meu tudo, dignai-Vos de esclarecer a minha alma com a luz da verdade e inflamá-la no fogo do amor que viestes trazer ao mundo. Fazei conheça eu cada vez mais os belos títulos que adquiristes para reclamar o meu amor, pois quisestes sofrer e morrer por mim. Ah! Dai-me este mesmo amor com que amais o Vosso Pai eterno; e como Ele é em Vós e uma mesma coisa conVosco, assim seja eu em Vós por um amor verdadeiro, e uma mesma coisa conVosco pela perfeita união da minha vontade com a Vossa. Ó meu Jesus, concedei-me, pois, a graça de Vos amar sempre de todo o meu coração, e também a mercê de Vos pedir sem cessar a graça de Vos amar, a fim de que, terminando a minha vida no Vosso amor, tenha a felicidade de ir para o céu, amar-Vos com amor mais puro e perfeito, sem nunca cessar de o fazer, possuindo-Vos eternamente

Ato de Amor de Complacência

Mui deveras, e mui dentro do coração me alegro, ó meu Jesus, de que sejais infinitamente ditoso, e de que Vos ame o Vosso Pai tanto como a si mesmo.

Ato de Amor de Benevolência

Desejo, ó meu Jesus, que sejais conhecido e amado de todo mundo.

Ato de Amor de Preferência

Ó meu Jesus, amo-Vos sobre todas as coisas; mas pouco é isto. Amo-Vos mais que a mim mesmo; é pouco ainda; Amo-Vos de todo o meu coração, de toda a minha alma; ainda é pouco. Ó meu Jesus, ouvi-me: dai-me mais amor, mais amor, mais amor!

Ato de Caridade Perfeita

Meu Deus, eu Vos amo acima de todas as coisas, e em todas as coisas, e de todo o meu coração, porque Vós mereceis ser infinitamente amado.

Oração a Maria

Ó Mãe do belo amor, Virgem Santíssima, minha advogada, minha Mãe, minha esperança depois de Jesus Cristo, oh! Das criaturas a mais abrasada no amor divino, o vosso mais ardente desejo é ver o Senhor amado de todas as almas; pois bem, pelo amor deste divino Filho, morto sob os vossos olhos para me salvar, obtende-me amá-lO sempre de todo o meu coração. A vós é que peço esta graça, de vós é que a espero.

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(OMER C.SS.R., Padre Saint. Escola da Perfeição Cristã para Seculares e Religiosos: Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja. Editora Vozes, 1955, p. 134-152)

(AZEVEDO C.SS.R., Padre Oscar das Chagas. As Doze Virtudes para cada Mês do Ano. Editora Vozes, p. 31-56)

(OMER C.SS.R., Padre Saint. As Mais Belas Orações de Santo Afonso: Edição atualizada e acrescida de novos exercícios e orações. Editora Vozes, 1961, p. 297-299)