Conselhos aos que assistem à Missa

Capítulo XI

A transubstanciação é a parte mais importante, o verdadeiro centro da Missa. Por isso, para que os fiéis nela pudessem tomar uma parte íntima, quis a Igreja que o Corpo de Jesus, oculto sob as Santas Espécies, fosse imediatamente, depois da Consagração, elevado aos olhos dos fiéis. Neste momento, todo o Céu se põe em festa, as fontes de salvação brotam da terra, as chamas do Purgatório amortecem o seu ardor, os espíritos infernais tomam-se de pavor. É que nunca dom mais tocante nem mais precioso foi oferecido ao Senhor.

Mas este Sacrifício sublime contém muitas outras maravilhas. A Humanidade de Jesus, espelho puríssimo e fidelíssimo da Santíssima Trindade, jóia infinitamente superior a todos os tesouros da terra, o sacerdote não a apresenta a Deus sob uma só, mas sob muitas formas. Entre as suas mãos o Verbo encarna de novo, de novo nasce, de novo sofre a Paixão, o suor de sangue, a flagelação, a coroação de espinhos, a crucifixão, a morte. De novo Ele Se interpõe entre a Santidade infinita e o mundo culpado, entre o justo Deus, e o pobre pecador. Se o coração de Deus Pai não havia de se comover-se perante este espetáculo!

Mas não é só o celebrante que coloca Jesus Cristo ante os olhos do Altíssimo. Nas Revelações de Santa Gertrudes lemos que o Salvador Se oferece a Si próprio, de maneira que excede toda a inteligência criada. É impossível traduzir os sentimentos de Deus à vista de um tal sacrifício! Quem poderia sondar este mistério? Quem poderia mesmo imaginá-lo? Deus como que recebe um novo Filho, visto que a Presença Real se renova; contempla-Se como num novo espelho. Nenhuma boca mortal poderia dizer o admirável colóquio do Pai e do Filho, nem as provas de amor que reciprocamente Se prestam. O Pai repete, sem dúvida, as palavras que proferiu outrora, quando do batismo de Jesus:

«Tu és o meu Filho multo amado, em quem pus todas as minhas complacências»

E o Filho responde:

«Tu és o meu Pai; é de Ti que eu tiro toda a alegria, todas as minhas delícias»

São Boaventura convida então o sacerdote e o povo a dizerem a Deus Pai:

«Vede, ó Pai Eterno, o Vosso Filho único, este Filho que o mundo inteiro não pode conter, tornado prisioneiro nosso. Concedei-nos, em nome do Seu cativeiro, o que por Ele Vos pedimos com tanta instância: o perdão dos nossos pecados, a remissão da pena, o aumento da graça, o progresso na virtude, a alegria da vida eterna»

Por outro lado, o sacerdote bem pode dizer ao povo:

«Eis aqui, cristãos, o Vosso Salvador, o Vosso Santificador, o vosso Redentor. Vede-O na Hóstia, com fé viva, e abri-Lhe o vosso coração. Bem-aventurados aqueles, que, apesar do véu que O oculta, creem firmemente na Sua presença»

«Eu vi o Senhor face a face e a minha alma está salva» — podemos nós exclamar com o patriarca Jacó ou antes com mais razão do que ele, pois ele não viu mais que um Anjo enviado por Deus, ao passo que nós temos sob os olhos o próprio divino Salvador em pessoa.

À Elevação todos devemos fitar o altar, olhando com fervor o Santíssimo Sacramento. Jesus Cristo revelou a Santa Gertrudes quanto esta prática é agradável a Deus e útil ao homem.

«Todas as vezes que levantamos os olhos para a Hóstia consagrada — lemos na vida da Santa — crescemos em méritos, e a felicidade da vida eterna recompensará a fidelidade daquele que na terra contemplou o Corpo de Jesus»

É preciso que, por negligência nossa, não nos tornemos indignos de tão consoladora promessa. Não imitemos aqueles que, movidos talvez por uma pouco esclarecida reverência, se prostram profundamente, pondo-se na impossibilidade de ver o Salvador. Prescreve a Igreja que o sacerdote mantenha alguns instantes as sagradas Espécies acima da sua cabeça, a fim de as apresentar aos olhares dos fiéis. O missal acrescenta, a respeito do precioso sangue:

«Depois de O ter adorado, o sacerdote levanta-se, toma nas suas mãos o cálice e mostra-o ao povo»

Esta é, pois, a vontade da Igreja. O sacerdote que não observa esta regra, isto é, aquele que não eleva a Hóstia e o Cálice, ou que, tendo-os elevado, os depõe sobre o altar com muita pressa, torna-se culpado, porque priva o Salvador das homenagens da assembléia dos fiéis. Da mesma sorte, o cristão que, assistindo à Santa Missa, deixa de proceder em conformidade com estes ditames salutares, comete igualmente uma falta para com a Vítima eterna, que, por seu amor, Se sacrifica no altar.

A Serpente de Bronze

Há na Bíblia uma passagem que nos ensina a eficácia desta oblação. Como os israelitas, reincidentes no seu pecado de ingratidão, murmurassem contra Deus a quem deviam tantos e tão assinalados favores, o Senhor ofendido enviou contra eles grande número de serpentes de fogo, que feriram e mataram muitas pessoas. Aflitos, voltam-se os hebreus para Moisés e suplicam-lhe que consiga de Deus que os liberte de tão terrível castigo. Invoca Moisés o Senhor, que lhe diz:

«Faz uma serpente de bronze e expõe-na como um sinal: todo o ferido que a olhar, viverá»

Conforme a esta ordem, foi levantada uma serpente de bronze, e todos aqueles que haviam sido mordidos e olhavam, viviam. Que esta serpente de bronze é um símbolo, di-lo o próprio Salvador:

«Assim como Moisés ergueu uma serpente no deserto, assim deve o Filho do Homem ser levantado na Cruz»

Se uma simples imagem tinha a virtude de preservar da morte os judeus atingidos pelos répteis venenosos, com quanto maior eficácia a piedosa contemplação do Salvador não curará as almas feridas pelo venenoso farpão do pecado!

Depois, ou melhor, durante esta contemplação, façamos atos de fé sobre a presença real de Jesus na Santa Hóstia e ofereçamos o Divino Salvador ao Eterno Pai para nossa salvação. Conseguiremos desta maneira uma alta recompensa, porque há um grande mérito em crer o que os olhos não vêem, o gosto não sente e a inteligência não compreende. Porque a razão humana, por si só, não poderia por certo admitir que, pela virtude de cinco palavras apenas, um simples pedaço de pão se converta em Deus verdadeiro e que umas gotas de vinho se convertam em sangue de Cristo.

«Bem-aventurados — diz Jesus — aqueles que creram sem ver»

Isto é, bem-aventurados aqueles que apesar de todas as aparências creem firmemente na minha Presença real no Santíssimo Sacramento: eu lhes darei a vida eterna.

Hugo de São Vitor

O seguinte exemplo, tirado da vida de Hugo de São Vitor, confirma e explica o que deixamos dito. Este santo sacerdote pediu muitas vezes, com todo o fervor da sua alma, a graça de ver Jesus à Santa Missa. Um dia apareceu-lhe o Menino Jesus sobre o altar. Durou a visão algum tempo; depois o Divino Menino disse-lhe:

«Hugo, perdeste um grande mérito, querendo ver-me com os olhos do corpo»

E desapareceu, deixando o sacerdote contristado.

Este exemplo é bem próprio para fortificar a nossa fé e constitui uma consoladora prova de que, a cada olhar que levantamos para a Hóstia, como testemunho de inabalável fé, adquirimos junto de Deus um mérito imenso.

Ide dizer isso àqueles que não têm fé

Já referimos o grande exemplo de fé, que deu São Luiz, rei de França, quando lhe foram dizer que Jesus Cristo estava visível nas mãos do sacerdote.

«Pois bem — respondeu o santo Rei — ide dizer isso àqueles que não têm fé. A mim basta-me a certeza de que Jesus está sempre presente na Eucaristia»

O magnânimo Rei da França tinha de certo enorme desejo de ver a Jesus; todavia, para conservar todo o mérito da sua fé, preferiu privar-se de tão doce consolação.

São Pascoal Bailão tinha uma grande devoção pela Sagrada Eucaristia e costumava fitar, sempre que podia, a Hóstia consagrada, fazendo atos de profunda fé e amor. Quando depois da sua morte, os seus irmãos em religião celebravam a Missa do funeral, de corpo presente, à elevação da Hóstia, o cadáver do Santo abriu ambos os olhos e fixou-os nas Sagradas Espécies, com mostras de imensa alegria e amor. Todos os assistentes foram confirmados na sua fé, por este grande prodígio.

Simão de Monforte, o valente chefe da cruzada contra os albigenses, assistia todos os dias à Missa e fitando a Hóstia, dizia com todo o fervor da sua grande alma:

«E agora, Senhor, deixai ir em paz o Vosso servo, porque os meus olhos viram o meu Salvador»

Combateu os albigenses durante 12 anos, haurindo do Sacrifício incruento forças para as batalhas. Conhecedor do seu piedoso hábito, o inimigo caiu um dia de improviso sobre o seu acampamento, atacando com tão violento ímpeto, que os cruzados, colhidos de surpresa, se encheram de terror. Os oficiais correram à Igreja a participar a grave ocorrência ao seu chefe, pedindo-lhe que voasse a restabelecer a ordem nas fileiras e a incutir coragem aos soldados.

«Deixai-me — respondeu o guerreiro — deixai-me antepor às coisas terrestres as do céu e honrar o meu Salvador primeiro que tudo»

Em breve chegam outros mensageiros com novas mais aflitivas: as tropas começavam a ceder lenta, mas assustadoramente. O general obstina-se: não sairá dali sem ter visto e adorado o Salvador. Depois, implorando a Cristo, suplica-Lhe que salve o seu povo pela virtude da Santa Missa. À elevação, a sua alma ergue-se até Deus e prostrada ante a Majestade infinita oferece-Lhe a vítima imolada sobre o altar. Quando o sacerdote depôs o cálice sobre o altar, Simão levantou-se e, dirigindo-se aos seus companheiros, disse:

«Vamos e morramos, se assim aprouver a Deus, por Aquele que sobre a cruz Se dignou morrer por nós»

Dito isto, trava das armas, monta a cavalo, manda formar em três linhas alguns peões e 800 cavaleiros e em nome da Santíssima Trindade arremessa-se contra o formidável exército dos hereges, comandado pelo conde de Tolosa e Pedro d’Aragão. Os soldados de Monforte atacam o inimigo com galhardia magnifica, matam-lhe 20.000 homens e põem os restantes em fuga.

A historia atribui a Simão os louros bem merecidos daquele dia; contudo o caudilho católico não teria vencido um inimigo tão superior em número, se Deus não lhe houvesse concedido o socorro que durante a Missa implorara.

Roberto I, rei de França, cercava a cidade de Melun, cujos habitantes se defendiam com valentia e o mais denodado valor. Um dia, que o rei, à Missa, rezava fervorosamente, pedindo a Deus proteção para os seus exércitos, no momento de Elevação, as muralhas da cidade caíram por si só, como outrora as de Jericó, para dar a vitória ao piedoso rei.

Qual não deve ser a nossa Devoção durante a Missa

Como é triste ver os Católicos assistirem, em geral, com tão pouca devoção à Missa. A maior parte só se ocupam do que se passa em volta deles, olham para os que entram e saem, rezam só com os lábios sem que uma palavra lhes saia do coração. Mostram-se distraídos, ficando sentados todo o tempo, não têm a mínima ideia do ato que se pratica sobre o altar e revelam uma fé tão profundamente encoberta sob a rotina quotidiana, que mal merecem o nome de cristãos. Nunca se pode verberar demais semelhante procedimento; por isso nos impomos o dever de expor os motivos mais próprios para obrigar a sair as almas dessa culpável inércia.

A Igreja indica-nos, pelo órgão do Concílio de Trento, o respeito com que devemos assistir ao Santo Sacrifício.

«Reconhecer, diz ela, que os cristãos não podem praticar ato algum mais santo, mais divino do que este tremendo mistério, no qual a Vítima vivificante é diariamente oferecida pela sacerdote sobre o altar, é também reconhecer que nunca pode haver cuidado nem diligência suficientes em desempenhar-se dele com pureza de intenção, com devoção exemplar»

Não se exige, para esse fim uma devoção sensível; basta terdes a firme vontade de vos aplicardes a estar com a atenção conveniente, como vo-lo fará compreender o caso seguinte:

O Padre João de Schoenas, prior de Grunental conta que três religiosas assistiam, um dia, com muito fervor, à Missa. De traz delas estava uma piedosa senhora. Depois da consagração essa senhora viu com os seus olhos corporais, uma criancinha descer do altar, e a primeira das religiosos tomá-la amorosamente nos braços beijando-a. A criança voltou-se depois para outra e, levantando-lhe o véu, sorriu-lhe afetuosamente. Por fim aproximando-se da terceira deitou-lhe um olhar severo, como que repreendendo-a; chegando mesmo a bater-lhe na face; em seguida voltou para o altar. A senhora ficou muito surpreendida e muito tentada a tomar por uma grande pecadora a religiosa que tinha sido tão maltratada. Não podendo de todo compreender o sentido desta visão, suplicou ao Senhor que lh’o revelasse. Nosso Senhor disse-lhe então:

«A primeira religiosa, aquela para quem eu me mostrei tão bom, é fraca e inconstante para comigo. Se eu a não animasse com as minhas carícias, talvez cedesse ao desejo de voltar para o mundo. A segunda tem boas disposições, mas precisa que Eu a ampare com algumas consolações espirituais. Mas a terceira é a minha esposa bem-amada que me é sempre fiel, mesmo quando lhe envio tribulações e amarguras»

A piedosa senhora reconheceu assim o seu erro e compreendeu a natureza da verdadeira devoção espiritual, diversa da devoção sensível. Consiste aquela em servir a Deus, em permanecer constantemente na Sua presença, mesmo quando Ele nos não comunique nenhuma suavidade interior. Portanto não desanimeis à vista das vossas distrações involuntárias, e do sentimento da vossa tibieza. Compenetrai-vos somente da vossa indignidade e continuai a assistir fielmente à Missa. Deus vos abençoará, apesar da vossa insensibilidade contanto que procureis sair dessa apatia. Se não fizerdes esforço algum, privar-vos-eis de um grande merecimento como o prova a seguinte narrativa:

Um dia Santa Mechtilde, quando ouvia Missa, viu Cristo sentado sobre um trono de cristal, donde jorravam duas límpidas fontes. Admirada à vista desse espetáculo, foi-lhe revelado que uma dessas fontes figurava o perdão dos pecados e a outra as consolações espirituais, e que estas se comunicavam em virtude da presença de Jesus Cristo, sobretudo àqueles que assistem ao Santo Sacrifício.

À elevação da Hóstia, escreve a Santa; Jesus, tomando nas mãos o Seu Coração, elevou-O ao alto. Esse Coração divino parecia transparente e o bálsamo de que estava cheio, corria incessantemente sem nunca diminuir. Os corações de todas as pessoas presentes pairavam no espaço em volta do Salvador; alguns em que o óleo balsâmico penetrava difundiam vivo brilho; os outros caiam por terra, pesados e inertes.

Santa Mechtilde soube então que os primeiros pertenciam àqueles que ouviam Missa com devoção, e os segundos àqueles que permaneciam numa repreensível tibieza.

Notai a diferença que a Santa aponta entre os corações zelosos e os corações tíbios; os primeiros animados do desejo de honrar a Jesus Cristo enchiam-se do bálsamo que corria do Coração do Salvador, abrasavam-se no fogo do divino amor; os segundos, ao contrário, virados para a terra, absortos em pensamentos mundanos, nem uma gota absorviam do óleo da devoção. O que Deus condena neles, não é precisamente a sua falta de fervor, mas sim a sua negligência voluntária em aumentar essa devoção. Infelizmente quantos Cristãos há que merecem essa censura! Quantos por tibieza indesculpável se privam de todas as alegrias espirituais!

Mas perguntais: que devo eu fazer se, apesar de todos os meus esforços, não sentir devoção? Segui o conselho dado por Nosso Senhor a Santa Gertrudes. Um dia em que a Santa, estando no coro, se dispunha a cantar à Missa, não conseguiu, por humana fraqueza, concentrar a sua atenção. Desanimada disse consigo:

— Para que me serve rezar tão distraidamente? Mais vale não continuar.

E dispunha-se a retirar-se quando Jesus lhe apareceu; trazia nas mãos o Seu Coração e disse-lhe:

— Aqui tens o meu Coração que ponho ao teu serviço, para que lhe mandes executar tudo quanto as tuas forças te não permitem realizar. Dessa maneira nada poderás ter de repreensível aos meus olhos.

Admirada, parecia-lhe impossível, à Santa, que tão sublime Coração quisesse suprir à sua incapacidade; mas Jesus expôs-lhe a seguinte comparação:

«Se tivesses uma a voz e experimentasses grande prazer em cantar, não te pareceria mal que alguma das tuas companheiras, com voz inferior à tua, se quisesse antepor a ti? Assim do mesmo modo o Meu divino Coração deseja ardentemente que descarregues nEle todos os deveres de que não podes desempenhar-te convenientemente»

Que excelente lição! Não sentis nenhuma devoção? Dizei a Jesus:

«Sofro cruelmente de me sentir tão pouco fervoroso e suplico o Vosso Divino Coração se digne reparar as faltas do meu»

Esta piedosa súplica não vos impeça porém de recorrer a outros meios. Antes de vos dirigirdes para a Missa, refleti sobre o que ides fazer. Não entreis no templo para rezar como o fariseu, nem mesmo como o publicano, mas sim, como Davi para oferecer o Sacrifício do qual ele diz:

«Senhor, sou o vosso servo, eis porque vos oferecerei um Sacrifício de louvor e invocarei o vosso Santo Nome»

Ides, com efeito render a Deus a homenagem mais perfeita, oferecer-Lhe um Sacrifício cujo preço é infinito. Diz o Pére Gobat:

«A audição da Missa não é propriamente falando uma oração; é ato de adoração, é a oferta de um Sacrifício divino, oferta, que fazem com o padre os assistentes, se estão convenientemente dispostos»

O mesmo autor explica em seguida a natureza do sacrifício:

«Sacrificar, diz ele, é realizar o ato mais excelente, é exercer todas as virtudes. Sacrificando, reconhecemos os soberanos direitos que Deus tem de ser infinitamente honrado e glorificado; sacrificando, confessamos a nossa dependência absoluta como criaturas. Por esse motivo é o sacrifício, de todos os atos da religião, o mais agradável ao Altíssimo e o mais útil ao homem»

A Oferta da Vítima Divina

Logo depois de adorar a Hóstia, oferecei-a. Já tratamos da eficácia deste ato; no entanto, citaremos aqui esta notável palavra de Santa Gertrudes, extraída das suas Revelações:

«A oblação da Sagrada Hóstia apaga todas as faltas»

Noutros termos: não há, para nos reconciliar com Deus, meio mais eficaz. Medita nestas palavras, pecador, e à Elevação, ou imediatamente depois, oferece a Deus, com todas as veras da tua alma, a Hóstia consagrada, no intuito de obteres o perdão. Este conselho é dado não só aos grandes pecadores, como a todos os fiéis.

À Elevação da Hóstia segue-se a do Cálice, segunda cerimônia muito importante. É então, efetivamente, que o precioso Sangue de Jesus Cristo jorra de um modo místico sobre os assistentes, como se deduz das palavras do Evangelho que o Apóstolo São Tiago inseriu no seu Missal:

«Este é o meu Sangue, Sangue ida nova aliança, derramado por vós e por muitos outros em remissão dos pecados»

Idênticas expressões se encontram na Missa de São Marcos, a estabelecer que o Sangue do Salvador corre durante o Santo Sacrifício. Portanto aos pés do Altar recebereis as mesmas graças que se tivésseis estado, arrependido e compungido, ao pé da cruz sob as ondas do Sangue de Jesus.

No duodécimo capitulo do Êxodo (V. 7. 13), disse Deus aos Hebreus:

«Tome cada qual um cordeiro sem mancha e pela tarde imole-o. Com o sangue dele tingireis as soleiras das vossas portas. Vendo o sinal de sangue em vossas casas, passarei avante e vos livrarei a todos, das pragas que assolarão o Egito»

Se o cordeiro pascal salvou os Israelitas, da espada do Anjo exterminador, não nos preservará o Cordeiro sem mancha, dos assaltos do demônio, que, como leão rugidor, anda em roda de nós procurando a quem devore?

Depois da Elevação, fazei o mesmo que faz o Padre.

O Santo Sacrifício pertence-vos tanto como a ele. Ora o Padre, que antes da Consagração já por muitas vezes ofereceu a Deus a Missa, continua a oferecê-la. Na realidade nada pode fazer de mais oportuno. Por isso, logo que torna a pôr o cálice sobre o altar, diz:

«Nós, vossos servos e todo o vosso povo santo, oferecemos à Vossa sublime Majestade, um Sacrifício puro, um Sacrifício santo, o pão sagrado da vida eterna e o cálice da salvação perpetua»

«Em toda a Missa» diz Sanchez «não pronuncia o sacerdote palavras mais preciosas, porque é impossível praticar-se ação melhor que a de oferecer a Deus este augusto Sacrifício»

Portanto, se à Elevação do cálice vos entregais às vossas pobres e áridas preces, deixando de vos unir aos atos do Padre, desprezais os vossos interesses.

Miseráveis pecadores que somos! Parece que nada temos para apresentar a Deus. E no entanto, apesar da nossa pobreza, dispomos de um tesouro capaz de enriquecer o Céu e a terra, tesouro cuja existência São Paulo nos relembra nos seguintes termos:

«Como duvidar de que Deus, tendo-nos dado o seu Filho único, nos desse com Ele todas as coisas»

Não nos concede Deus este dom, por uma só vez; mas em cada Missa o renova.

Entrega-nos ao mesmo tempo todos os Seus bens, a fim de que possamos oferecer-Lhos em pagamento da nossa divida. Quereis, pois, enriquecer-vos? Oferecei muitas vezes o Sacrifício da Missa a Deus Pai. As pessoas instruídas encontram nos livros, excelentes métodos; os ignorantes podem contentar-se com a seguinte oração:

«Oh meu Deus ofereço-Vos o Vosso querido Filho, a Sua Encarnação, o Seu nascimento, a Sua dolorosa Paixão; ofereço-Vos o Seu suor de sangue, a Sua coroação de espinhos, as Suas humilhações, os Seus sofrimentos, a Sua crucificação, a Sua morte cruel, o Seu Sangue precioso; ofereço-Vos, para Vossa maior Glória e pela salvação da minha alma, tudo o que esse Vosso querido Filho passou, tudo o que Ele sofreu, numa palavra, todos os mistérios que Ele reproduz sobre o altar»

Oração bem simples, mas bem eficaz, e que o mais humilde crente pode aprender de cor.

Nunca me cansarei de aconselhar esta prática aos ignorantes. Desta maneira pedem a Nosso Senhor Jesus Cristo, que supra à sua insuficiência e que apresente, por eles, a divina oblação a Seu Pai.

Por fim guardai-vos de toda a irreverência. Abstende-vos de rir, de falar; abstende-vos também de vos sentar sem absoluta necessidade, entre a Consagração e a Comunhão. O à vontade é sumamente indecoroso na presença dAquele que Se humilha tão profundamente por nosso amor.

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(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 71-83)