Jesus morre na Missa

Capítulo VI

As palavras de Nosso Senhor a Santa Mechtilde far-nos-ão compreender bem o mistério da Missa e as graças que encerra.

«Olha, disse-lhe o Senhor, dou-te todas as amarguras da minha Paixão para que as consideres um valor teu próprio e as ofereças a meu Pai»

E para nos fazer saber que esta aplicação tem lugar especialmente na Santa Missa, Nosso Senhor acrescentou:

«Aquele que oferecer a minha Paixão, que Eu lhe doei, será duas vezes recompensado e isso acontecerá tantas vezes quantas a oferecer. Sucederá como Eu disse no Evangelho: Receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna»

Que felicidade é, pois, receber das mãos do Salvador um tão grande fruto, fruto que podemos ainda aumentar tão facilmente! O homem dirige-se a Deus e diz-Lhe:

“Senhor meu Jesus Cristo, eu Vos ofereço a Vossa dolorosa Paixão; ó meu Jesus, eu Vos ofereço o Vosso preciosíssimo Sangue”

E Jesus responde-lhe:

“Pois Eu, filho, é duas vezes esse valor que te dou”

E note-se que, tantas vezes quantas oferecemos algum dos Seus sofrimentos, somos tratados com a mesma liberalidade. Que generosíssima paga! Que meio tão fácil de nos enriquecermos! Aqui não há exagero mas sim a pura verdade!

É este um dos motivos por que se renova misticamente a Paixão; mas ainda há um outro. Ao Sacrifício da Cruz não assistiram todos os fiéis. Haviam então, os que não receberam essa graça, de ser menos favorecidos que os outros? Não; o Salvador quis que colhessem à Missa os mesmos frutos que teriam colhido no Calvário se lá tivessem estado, apenas com a condição de a ela assistirem devotamente. É isto que significam as seguintes palavras de Belei:

«Repare-se como é precioso o nosso Sacramento. Não é uma simples recordação do Sacrifício da Cruz, mas sim é o próprio Sacrifício, de que produz todos os efeitos»

O Pe. Molina confirma esta formosa forma de dizer quando escreve que:

«De harmonia com a instituição feita por Jesus Cristo, a Igreja oferecerá sempre o mesmo Sacrifício que foi oferecido na Cruz, e com a mesma realidade, se bem que sob uma forma incruenta. Logo a Missa é uma fonte inesgotável de graças»

À Missa é deveras a morte de Jesus à qual cada um assiste

«O Filho de Deus — diz o sábio Mansi — ofereceu-Se no altar da cruz, como vítima cruenta; ora na Santa Missa oferece-Se de novo: daqui resulta que a celebração de uma Missa não tem menos valor que a morte do nosso Salvador»

O cardeal Hosius escreve:

«Ainda que na Missa não imolemos fisicamente Cristo, segunda vez, nem por isso deixam de nos ser aplicados os merecimentos da Sua morte, como se ela fosse atual, e acrescenta que esta morte, ainda que mística, produz os mesmos efeitos que a morte cruenta»

Depois destas expressivas palavras o cardeal insiste ainda, dizendo:

«Sim, a morte de Cristo e os frutos desta morte são-nos aplicados como se Jesus morresse fisicamente»

O Pe. Segneri acrescenta:

«O Sacrifício da Cruz foi a absolvição geral de todos os pecados; o Sacrifício do altar é o meio particular de aplicar a cada qual a virtude do sangue divino. Se por um lado a morte e os sofrimentos do Salvador são os elementos do tesouro, é na Missa que este se abre e distribui. Poderá haver melhor convite para aqueles que são falhos de merecimentos?

Reparem bem, no que é dizer e ouvir Missa. É muito simplesmente fazer com que Jesus Cristo, morto já uma vez por todos os homens em geral, morra de novo por mim, por ti, por quem quer que assiste ao Santo Sacrifício, tal qual como se desse a vida por cada pessoa»

Reflitamos agora na grandeza da graça que nos é concedida quando temos em frente de nós, sobre o altar, o sangue de Jesus. Nada há que se compare a este sangue precioso: uma só gotinha, unida à Divindade, excede o valor de todos os tesouros da terra e do Céu. Digamos mais: o sangue de Jesus Cristo não está apenas presente, é propriedade nossa, pertence-nos, como uma dádiva pertence àquele que a recebeu.

Na maneira como instituiu a Eucaristia, Jesus Cristo deixou-nos testemunho bem claro de que a Sua morte se renova no altar.

Quando, na última Ceia, instituiu este Sacramento, não o fez nem uma só vez, nem sob uma só espécie, mas sim sob duas espécies e de duas vezes. Consagrando o pão, poderia ter dito: — «Este é o meu corpo e o meu sangue»; e o pão ficaria sendo verdadeiramente o Seu Corpo e o Seu Sangue. Mas esta consagração, sob uma só espécie, não teria sido representação bastante fiel da Sua morte. Por isso quis Ele consagrar primeiro somente o pão convertendo-o no Seu Corpo sagrado e em seguida o vinho convertendo-o no Seu Sangue precioso, para nos deixar uma bem expressiva representação do Seu sacrifício. Por isso revelou à Sua Igreja que tal deve ser o rito da Consagração, para que a separação da carne e do sangue desse uma ideia mais exata da morte.

«Nosso Senhor quis cumprir o Seu sacrifício sangrento — escreve Lancicio — morrendo sobre a cruz, de morte natural; assim também a Sua Morte, no Santo Sacrifício é representada pela separação do Seu Sangue e do Seu Corpo. Porque só o Corpo está presente sob as aparências do pão, em virtude das palavras sacramentais, e só o Sangue sob as aparência do vinho. Como não reconhecer aqui o caráter de uma verdadeira Imolação?»

Todos os doutores da Igreja explicam da mesma maneira esta doutrina dos Sagrados Mistérios. Para mais completa compreensão acrescentaremos ainda outra breve explicação.

Quando o sacerdote consagra, Jesus, tornando-Se realmente presente no altar, recebe uma nova vida.

Antes das palavras da Consagração, Jesus não Se encontrava sobre o altar, ao passo que depois Se encontra ali realmente. Esta vida de Jesus na Hóstia, que, para a Corte Celeste, é origem de inefável alegria, que alcança para as almas do purgatório tantas consolações e é para nós preciosíssima, porque sob aqueles véus misteriosos o Salvador ora e suplica em nosso favor, e desarma o braço da Justiça divina — esta vida aspira Jesus naturalmente a conservá-la; mas por outro lado, desejoso de nos testemunhar o Seu amor pela Sua morte, depois de ter vivido por nós, morre por nós à face dos anjos e dos homens.

Que é, com efeito a comunhão do celebrante, senão a destruição da vida que a Vítima Divina havia recebido na Consagração? Por isso, para que a Missa seja uma verdadeira imolação, o sacerdote é obrigado não só a consagrar, mas a comungar.

Nenhuma língua humana poderia dizer quanto esta morte de Jesus comove a Deus Todo-Poderoso. Quando morre sobre o altar, Jesus testemunha ao Pai a MESMA obediência que manifestou no Calvário e por nós o MESMO amor.

Jesus foi, sem dúvida, perfeitamente submisso em tudo ao Eterno Pai, mas nenhum ato de obediência Lhe custou mais, nem tanto, como ter de abandonar a Sua vida puríssima no Calvário.

«Cristo humilhou-Se e fez-Se obediente até à morte, e morte de cruz: — E para que nós compreendamos bem quanto esta obediência foi agradável a Deus, o Apóstolo acrescenta: — Por isso O elevou Deus e Lhe deu um nome acima de todo o nome»

Ora, — acabamos de o dizer — a obediência de Jesus sobre o altar é a mesma que sobre a cruz. Ele oferece-a ao Pai com as Suas virtudes heroicas, com a Sua perfeita inocência, com a Sua incansável paciência, com o Seu ardente amor a Deus e aos homens, mesmo aos Seus inimigos, mesmo aos que O crucificaram e aos mais ingratos pecadores.

Jesus apresenta assim ao Pai as amargas dores em que acabou a Sua vida santíssima, a Sua espantosa agonia, as angústias que O invadiram, os Seus ossos quebrados, o golpe da lança que atravessou o Seu Sagrado Coração. Tudo isto Ele expõe ante os olhos de Deus e faz renascer no coração do Eterno Pai a comoção infinita que sentiu quando, há perto de 2.000 anos, viu o seu Filho imolar-Se para Sua maior glória e nossa salvação. O mesmo Jesus que então desarmou o braço do Altíssimo, atraiu a Sua misericórdia sobre os pecadores e reconciliou o Céu com a terra, recomeça e renova em cada Missa este tocante e sublime ministério.

Adolfo de Deifern

«Havia no nosso convento — refere um grave autor eclesiástico — um monge muito devoto da Santa Missa. Um dia, por ocasião do Natal, rezava ele Missa, derramando lágrimas de compunção e veneração; ao chegar ao momento da consagração viu entre as suas mãos, em vez da Hóstia, um Menino de incomparável beleza, que os próprios Anjos não se cansariam de contemplar. Tomou-o nos braços, beijou-o e sentiu a alma cheia da mais pura e inefável consolação. Ao cabo de certo tempo, o maravilhoso Menino desapareceu e o sacerdote terminou a Missa com extraordinário fervor. Pouco depois o frade caiu doente e na hora solene da morte contou ao seu superior as visões com que o Céu o favorecera. O superior referiu os mesmos fatos a um sacerdote Adolfo de Deifern, encarecendo a virtude e méritos do seu religioso. Ao ouvir a prodigiosa narrativa, o sacerdote exclamou:

— Por que manifesta Deus estas coisas a Santos já confirmados na fé? Estes favores devia reservá-los para pecadores como eu, a quem tantas vezes se oferecem dúvidas no que à Presença Real se refere.

Algum tempo depois, o padre, que tão inconsideradamente falara, estava rezando Missa, quando, ao partir a sagrada Hóstia, viu, em logar dela, um Menino de incomparável beleza, que lhe sorria afetuosamente. Assustado a princípio, readquiriu dentro de pouco a presença de espírito e sentiu uma imensa consolação e ternura invadir-lhe a alma. Depois quis saber o que havia do outro lado da Hóstia e voltando-a viu o Salvador na cruz, com a fronte ensanguentada, a cabeça pendida e os olhos velados como se estivesse prestes a expirar. O sacerdote sentiu uma tal comoção, que esteve para cair desfalecido e a compaixão arrancou-lhe abundantes e amargas lágrimas.

Os fiéis olhavam-no surpreendidos, vivamente comovidos do estado do seu pastor e não compreendiam nada do que se estava passando. Emfim, a figura de Jesus agonizante desapareceu, a Hóstia retomou o seu aspecto ordinário e o celebrante concluiu o Santo Sacrifício. No fim os assistentes pediram-lhe que explicasse o que acontecera. Subindo ao púlpito, o Padre Adolfo de Deifern, pretendeu referir as aparições com que Deus o favorecera. Mas a sua comoção era tal, que os suspiros e as lágrimas mal lhe permitiram articular uma só palavra. Vencido pela comoção desceu do púlpito e pouco tempo depois retirou-se à cela de um convento para meditar na Paixão de Jesus e chorar os seus pecados. Durante o resto da sua vida, manteve sempre tão gravada na sua alma a lembrança desta graça que não só expiou as suas faltas, mas se tornou para todos modelo de piedade e virtude»

Este exemplo mostramos bem com que eficacia Jesus coloca a Sua morte cruel sob os olhos do Eterno Pai e de toda a Corte Celeste, não para os entristecer, o que seria impossível, mas para Lhe representar o grande amor que O levou a sofrer pela salvação do mundo.

Ah! Se nos fosse concedido o favor outorgado a Adolfo de Deifern, se como a Ele nos fosse dado contemplar Jesus na Hóstia, com que devoção não assistiríamos à Missa? Mas, se bem que não O vejamos com os olhos do corpo, os da alma, sobrenaturalmente iluminados pela fé, contemplam-nO e a nossa certeza não é menor. Mais: nós prestamos assim a Deus homenagem maior e merecemos, por praticarmos a virtude da fé, uma recompensa maior.

O Jovem Maometano

Amerumnés, chefe dos sarracenos, enviara o filho de seu irmão a Ampelon, na Síria, em serviço do califa. Na localidade onde se estabeleceu o jovem turco, havia uma Igreja dedicada a São Jorge. Quando o infiel viu o templo cristão, disse aos que o rodeavam:

— Levai lá os meus camelos e dai-lhes de comer sobre o altar

Os sérvios preparam-se para obedecer; porém os sacerdotes disseram-lhe:

— Tomai cuidado, senhor, esta casa está consagrada a Deus e a ninguém é lícito profaná-la.

Sem se importar, o sarraceno mandou que introduzissem na Igreja os animais. Mas eles, mal haviam transposto os umbrais sagrados, quando caíram no chão, fulminados pela morte. Espavorido, o árabe ordenou que os retirassem dali.

Era dia de festa e o templo estava repleto de fiéis, que tinham vindo para assistir à Missa.

O sacerdote começou o Santo Sacrifício, não sem inquietação, temendo que o príncipe idólatra cometesse alguma profanação. Este, encostado a uma coluna, esperava para ver as cerimônias do culto cristão e quando, segundo o rito grego, o oficiante, com uma faca dividiu em quatro partes o pão consagrado, viu uma criancinha, em pedaços sobre a patena e cujo sangue enchia o cálice. Tomou-se de tal indignação o infiel, que teria morto o sacerdote imediatamente, se a curiosidade de saber o que ia seguir-se, o não houvesse retido. À Comunhão viu o celebrante comer uma parte das carnes do Menino e beber o Seu sangue no cálice. Viu também que todos os que se aproximavam do altar participavam das carnes do Menino.

— Os cristãos são bárbaros. No seu culto, imolam uma criança, e, como animais ferozes, devoram a sua carne palpitante. Mas por minha própria mãe eu vingarei o assassino deste inocente, punindo com a morte estes ferozes antropófagos — pensava o príncipe.

Depois da Missa, o sacerdote benzeu o pão e, distribuindo-o aos fiéis, deu um pedaço ao sarraceno. Este, horrorizado, exclamou em árabe:

— Que é isto ?
— É o pão sagrado — respondeu o sacerdote.
— Não — volveu o mouro — o que tu sacrificaste não é pão, malvado sem alma, bárbaro assassino! Não te vi eu, com os meus próprios olhos, imolar uma criança? Não vi o seu sangue numa taça e o seu corpo partido em quatro pedaços posto sobre um prato? Terás a coragem de negar isto, ímpio imundo, abominável homicida? Não te vi eu comer a carne desta criança, beber-lhe o sangue e repartir com os outros?

Surpreendido desta veemente objurgatória e compreendendo que as palavras do sarraceno, tão evidentemente sinceras, eram nascidas de algum extraordinário prodígio, replicou:

— Eu não sou mais que um pecador indigno de contemplar tais mistérios e se vós os vistes, é que sois grande diante de Deus.
— Não é então isso o que eu vi ? — interrogou o árabe.
— É, por certo — respondeu o sacerdote; — eu, porém, nada vi, porque sou mísero pecador; não vejo mais que o pão e o vinho, que nós, consagrando-os, convertemos no Corpo e Sangue do Salvador.

Assombrado por estes mistérios sublimes, para ele de todo novos, mas explicados pelo que tinha visto, o príncipe mandou a todos os seus companheiros que saíssem do templo e sob uma intensa comoção, tomando a mão do sacerdote, exclamou:

— Eu reconheço agora que a religião cristã é grande, pois com os meus próprios olhos vi este sublime mistério; instrui-me e batizai-me porque quero ser cristão.

O sacerdote, prudente ante uma conversão tão súbita, escusou-se:

— Perdoai-me, senhor, mas não posso fazê-lo. Se vosso tio viesse a ter conhecimento disso, havia de matar-nos todos e destruir esta Igreja. Mas se deveras desejais ser batizado, ide ao monte Sinai e contai ao bispo o que vos aconteceu. E quando estiverdes deveras instruído na fé, ele vos dará por certo o batismo.

Desta maneira, o príncipe, se o seu desejo fosse resultado de efêmera comoção, tinha tempo de refletir e esquecê-la ou então confirmar-se nela.

Retirou-se o árabe, mas à noite voltou a procurar o sacerdote, despiu os hábitos suntuosos, envergou as vestes de penitente e fugiu secretamente para o monte Sinai.

Aí, contou ao prelado os motivos da sua conversão, pediu algum tempo para madura reflexão e enfim foi instruído e batizado e fez-se monge sob o nome de Pacômio.

Depois de três anos de preparação voltou da côrte de seu tio, na esperança de o converter. O potentado sarraceno recebeu-o irado, procurou demovê-lo, empregou todos os meios para o trazer de novo à fé de Maomé, empregando até tormentos atrozes para lhe fazer renegar a sua crença e finalmente mandou-o lapidar. Pacômio morreu assim mártir da sua nova religião.

Esta história perfeitamente autenticada, serve para nos mostrar como Jesus é realmente imolado no altar. Devemos notar, contudo, que a divisão do Menino em quatro não é fato que suceda na Missa, mas apenas visão miraculosa, destinada a levar o infiel a procurar e reconhecer a verdade.

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(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 37-46)