Dom Henrique Soares da Costa

Por Dom Henrique Soares da Costa

Chegaram, para nós, os sagrados dias da Quaresma: dias de oração, penitência, esmola, combate aos vícios e leitura espiritual. Esses dias tão intensos nos preparam para as alegrias da Santa Páscoa do Senhor. Estejamos atentos, pois não celebrará bem a Páscoa da Ressurreição quem não combater bem nos dias roxos da Quaresma.

A Palavra que o Senhor nos dirige já neste Primeiro Domingo é uma séria advertência neste sentido. A leitura do Gênesis nos mostrou como Deus é cheio de boas intenções e bons sentimentos em relação a nós: depois de haver lavado todo pecado da terra pelo dilúvio, como deseja nos purificar neste Tempo santo, misericordiosamente, o Senhor nosso Deus fez aliança com toda a humanidade e com todas as criaturas:

“Eis que vou estabelecer Minha aliança convosco e com todos os seres vivos! Nunca mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio”

E, de modo poético, comovente, como um guerreiro que desiste da guerra e pendura o seu arco, o Senhor colocou no céu o Seu arco, o arco-íris, como sinal de paz, de ponte que liga a criatura ao Criador:

“Ponho Meu arco nas nuvens, como sinal de aliança entre Mim e a terra!”

Com esta imagem tão sugestiva, a Escritura Sagrada nos diz que os pensamentos do Senhor em relação a nós são de paz e salvação. Podemos rezar como o Salmista:

“Mostrai-me, ó Senhor, Vossos caminhos; sois o Deus da minha salvação! Recordai, Senhor, meu Deus, Vossa ternura e a Vossa salvação, que são eternas! O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores!”

Ora, caríssimos, se já a aliança após o dilúvio revelava a benignidade do Coração de Deus, é em Cristo que tal bondade, tal misericórdia, tal compaixão se nos revelam totalmente:

“Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o Justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus!”

Não é este Mistério tão grande que vamos celebrar na Santa Páscoa? Nosso Senhor, morto na Sua natureza humana, isto é, morto na carne, foi justificado, ressuscitado pelo Pai no Espírito Santo para nos dar a salvação definitiva, selando conosco a Aliança eterna, da qual aquela de Noé era apenas uma prefiguração.

Deus nos salvou em Cristo, dando-nos o Seu Espírito Santo, recebido por nós nas águas do Batismo, que purificam mais que aquelas outras, do dilúvio! Nunca esqueçamos: fomos lavados, purificados, gerados de novo, no santo Batismo. Somos membros do Povo da aliança nova e eterna, somos uma humanidade nova, nascida “não da vontade do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,12). Somos o Povo santo de Deus, Povo resgatado pelo sangue de Cristo, Povo que vive no Espírito Santo que o Ressuscitado derramou sobre nós.

Uma grande miséria dos cristãos destes tempos nossos é terem perdido a consciência que somos um Povo sagrado, vivendo entre os outros povos do mundo. Brasileiros, argentinos, mexicanos, estadunidenses, europeus, asiáticos, africanos… não importa: aqueles que creem em Cristo e Nele foram batizados, são a Sua Igreja, são o Povo santo de Deus, congregado no Corpo do Senhor Jesus, para formar um só Templo santo no Espírito de Cristo!

Povo de Deus não são os brasileiros, são os batizados em Cristo!

Povo de Deus não são os argentinos, os italianos, os mexicanos, são os membros da Igreja, no mundo inteiro!

Povo de Deus não são os ricos, não são os pobres, são os que creram em Cristo e, no Batismo, foram incorporados em Cristo!

Povo de Deus não são os brancos, os negros, os amarelos; são os que em Cristo se tornaram novas criaturas pelo Batismo!

Povo de Deus não é o povão, não é o povinho, não é a elite, não são os perfeitos, não são os fracos, mas todos aqueles que, batizados no Cristo e alimentados na Eucaristia, procuram sempre crescer no seguimento e na conversão ao Senhor Jesus Cristo!

Povo de Deus não é gente de esquerda, de direita ou de centro, mas todo aquele que, iluminado pelo Senhor no Batismo, tem Nele sua vida, seu critério, seu fundamento, sua luz!

Somos um povo que vive entre os pagãos, um povo que vive espalhado por toda a terra, Igreja dispersa pelo mundo inteiro, que deve viver no mundo sem ser do mundo!

A miséria nossa é querermos ser como todo mundo, viver como todo mundo, pensar e agir como todo mundo. Isso é trair a nossa vocação de Povo sagrado, Povo sacerdotal, Povo que deve, com a vida e a boca cantar as maravilhas Daquele que nos chamou das trevas para a Dua luz admirável! (cf. 2Pd 2,9) Convertamo-nos! Sejamos dignos da nossa vocação!

Eis o tempo da Quaresma! Somos convidados nestes dias a retomar a consciência de ser este Povo santo. E como fazê-lo?
Como Jesus, o Santo de Deus, nosso Senhor e nossa Cabeça, que passou quarenta dias no deserto em combate espiritual, sendo tentado por Satanás.

A Quaresma é um tempo de deserto, de provação, de combate espiritual contra Satanás, o Pai da mentira, o enganador da humanidade. Sem combate não há vitória e não há vida cristã de verdade!

A Igreja, dá-nos as armas para o combate: a oração, a penitência e a esmola. A Igreja nos pede neste tempo, que combatamos nossos vícios com mais atenção e empenho; a Igreja nos recomenda a leitura da Sagrada Escritura e de livros edificantes, que unjam o nosso coração. Deixemos a preguiça, cuidemos do combate espiritual!

Que cada um programe o que fazer a mais de oração. Há tantas possibilidades: rezar um salmo todos os dias, rezar todo o saltério ao longo da Quaresma, rezar a via-sacra às quartas e sextas-feiras.

Quanto à penitência, não enganemos o Senhor! Que cada um tire generosamente algo da comida durante todos os dias da Quaresma (exceto aos domingos); que se abstenha da carne às sextas-feiras, como sempre pediu a tradição ascética da Igreja, que tire também algo das conversas inúteis, dos pensamentos levianos, dos programas de TV tão nocivos à saúde da alma!

E a esmola, isto é, a caridade fraterna? Há tanto que se pode fazer: acolher melhor quem bate à nossa porta, aproximar-nos de quem necessita de nossa ajuda, reconciliarmo-nos com aqueles de quem nos afastamos, visitar os doentes e presos, dar mais atenção e ajuda aos que mais precisam do nosso socorro e da nossa caridade… Recordemos também que a Igreja no Brasil nos convida, na Quaresma deste ano, a combater e superar todas as formas de violência que possamos provocar e pelas quais possamos ser responsáveis… Sejamos, pois, construtores da paz, como nos ordena o Cristo nosso Senhor: paz nas ações, paz nas palavras, paz nas atitudes, paz na família, paz no trabalho, paz na escola, paz no trânsito, paz nos nossos relacionamentos. Toda violência é uma forma de prepotência, é um modo de se impor ao irmão e ao próximo, que é sempre sagrado, porque é imagem de Deus nosso Senhor!

Quanto ao combate dos vícios, que cada um veja um vício dominante e cuide de combatê-lo com afinco nesses dias! Escolha também uma leitura espiritual para o tempo quaresmal, leitura que alimente a mente e o coração. Esta leitura, mais que um estudo, deve ser uma oração, um refrigério para o coração, uma leitura edificante, que nos faça tomar mais gosto pelas coisas de Deus…

Vamos! Deixemos a preguiça, combatamos o combate da nossa salvação! Finalmente, que ninguém esqueça a confissão sacramental, para celebrar dignamente a Páscoa sagrada. Se alguém não puder se confessar por se encontrar em situação irregular perante Cristo e a Igreja, que não se sinta excluído! Procure o sacerdote para uma direção espiritual, uma revisão de vida e peça uma bênção, que, certamente, não lhe será negada. Não é a confissão, não permite o acesso à comunhão sacramental, mas é também um modo medicinal de aliviar o coração e ajudar no caminho do Senhor!

O importante, caríssimos, em Cristo, é que ninguém fique indiferente a mais essa oportunidade que a misericórdia do Senhor nos concede! Notem que somente depois do combate no deserto é que Jesus nosso Senhor saiu para anunciar a Boa Nova do Reino. Também cada um de nós e a Igreja como um todo, somente poderá testemunhar o Reino que Cristo nos trouxe se tiver a coragem de enfrentar o deserto interior e combater o combate da fé! Não recebamos em vão a graça de Deus! Que Ele, na Sua imensa misericórdia, nos conceda uma santa Quaresma! Amém.

Outros Pontos para aprofundar a Palavra de Deus deste Domingo

1. Pontos para meditar a primeira leitura

Depois do Dilúvio, Deus continua a reclinar-se com amor sobre a humanidade e não desiste de chamá-la para Si: através de Noé faz uma aliança com todos os homens e animais da terra, isto é, com todos os seres vivos. Assim, a finalidade do Dilúvio não era simplesmente destruir, mas purificar a criação de Deus, com vistas à chance de um novo começo.

Leia Gn 8,20-22 e observe a benignidade de Deus e Sua boa vontade para com a humanidade e Sua criação:
o Senhor aceita o sacrifício de Noé como um perfume agradável,
o Senhor jura que nunca mais amaldiçoará a terra, apesar da fraqueza do coração humano,
o Senhor promete que nunca mais fará perecer a vida na terra e, finalmente, garante que Sua fidelidade aparecerá no próprio ciclo da criação, que terá sua ordem mantida, como sinal da benevolência imutável e fiel do Senhor.

O Senhor promete: “Nunca mais nenhuma criatura será exterminada” – é uma bela expressão da benignidade de Deus e de Seu amor pelos seres por Ele criados. Leia e medite Sb 11,21-26.

O sinal da aliança de Deus com todas as criaturas em Noé é o arco-íris (para os antigos era um sinal da benevolência de Deus): poeticamente falando, na visão bíblica, Deus tem Suas armas, que são os meteoros (cf. Eclo 39,28-30), empunha o Seu arco (cf. Hab 3,9), dispara Suas flechas (cf. Sl 17/18,15). Eis a imagem: agora Deus aposenta Seu arco, pendura-o, como sinal de que não mais irá utilizá-lo para punir sua criação. É uma ideia muito bonita!

Observe as três grandes alianças de Deus no Antigo Testamento, todas preparando a nova e eterna Aliança em Jesus Cristo nosso Senhor:

a aliança com Noé: tem como sinal o arco-íris e é com toda a humanidade;
a aliança com Abraão: tem como sinal a circuncisão (cf. Gn 17,9-14) e é com todos os descendentes de Abraão segundo a carne;
a aliança com Israel: tem como sinal o sábado (cf. Ex 31,16-17).
A Aliança nova e eterna, definitiva, em Jesus Cristo, tem como sinal Seu Corpo e Sangue imolado e ressuscitado, oferecido em cada Sacrifício eucarístico (cf. Mt 26,28).

2. Agora, a segunda leitura

Observe a sequência de afirmações importantíssimas do v. 18:

(1) Cristo morreu uma vez por todas: Sua morte, único e irrepetível tem uma eficácia plena e eterna, salvando toda a humanidade. Em cada Celebração eucarística, esse eterno e único e suficiente sacrifício do Senhor Jesus torna-se realmente presente sobre o Altar para ser oferecido por nós ao Pai no Espírito Santo.

(2) A morte de Cristo foi pelos nossos pecados. Ainda que historicamente muitos tenham sido os que contribuíram para a morte do Senhor, teologicamente, o motivo de Sua Paixão e Morte foi redimir o mundo de seus pecados.

(3) Jesus, o Justo, isto é, o Inocente, morreu pelos injustos, os pecadores. Ele é o Servo Sofredor que leva sobre Si os pecados da multidão, tal como anunciado por Isaías.

(4) A morte de Cristo expia nossos pecados e nos reconcilia com o Pai, dando-nos a salvação.

⇒ Ainda o v. 18: Jesus foi morto como homem, morto “na carne”, isto é, na Sua natureza humana igual à nossa, foi “vivificado no Espírito”, isto é, foi ressuscitado pelo Pai na força do Espírito Santo.

⇒ Agora, o v. 19: cheio do Espírito Santo, ressuscitado em Glória, Jesus pode atingir com Sua salvação e Seu juízo toda a humanidade, de Adão até o último homem que vier a este mundo. Nada nem ninguém, em nenhuma época, em nenhuma cultura, em nenhum lugar, ficará fora do influxo e do julgamento de Cristo Jesus. Pensando nisto, releia o v .22.

O Autor sagrado usa a recordação do dilúvio porque ele é imagem do Batismo, pelo qual Cristo Jesus nos livra do naufrágio do pecado humano: por esse sacramento, todo ser humano pode mergulhar e sair da água renovado, como o mundo saiu do Dilúvio purificado. Observe como fica claro que o Batismo confere a remissão dos pecados: não é mero rito exterior, que purifica o corpo, mas dando ao batizado o mesmo Espírito Santo de Jesus, purifica nossa consciência de todo pecado. Por isso a Igreja batiza para a remissão dos pecados.

Observe também que a Igreja aparece de modo implícito na imagem da Arca de Noé: nela se entra pelo Batismo, que é salvação do mar imenso do pecado: mar do pecado, mar das águas batismais…

3. Tome o Evangelho e observe

Este texto de hoje recorda-nos que Jesus, passando quarenta dias no deserto, consagra a observância quaresmal, iniciada no próprio Antigo Testamento: os quarenta dias de purificação da terra pelo Dilúvio, os quarenta anos de Israel no deserto, os quarenta de Moisés sobre o Monte Sinai para receber a Lei, os quarenta dias de caminho de Elias até o Horeb (= Sinai).

O cristão e a Igreja inteira entram com o seu Senhor neste deserto de combate espiritual rumo à santa Páscoa.

Cristo vence Satanás, mas para isso luta: foi realmente tentado. Não há vitória contra Satanás em nós sem participarmos da luta de Cristo pela oração, a penitência e a esmola. Tudo isto nos deve levar à conversão! A primeira palavra após o anúncio do Evangelho é “Convertei-vos!” Ninguém pode mudar isto! É palavra do Cristo Jesus, único Senhor e Mestre da Igreja!

Observe que o texto diz que Jesus vivia entre os animais selvagens e os anjos O serviam.
Que significa isso? Que Ele, vencendo a Satanás, restaura a paz do paraíso (viver entre as feras) e reúne a terra ao céu (os anjos do céu passeiam na terra). Mas tudo isso é fruto de uma luta, que será travada ao máximo na Cruz – e da qual o cristão é chamado a participar com Cristo pelo combate quaresmal.

Finalmente, o resumo da pregação do Senhor: pregar o Evangelho, a Boa Notícia do Pai para Israel e a humanidade: com Jesus o Reinado de Deus chegou, finalmente! Que fazer para acolhê-lo? Deixar-se a si mesmo, abrir o coração pela conversão e crer nesta Boa Notícia!

4. Recordando: para uma boa Quaresma

⇒ Oração – Aumentar a prática da oração. Pode-se rezar um salmo por dia.
⇒ Penitência – Tirar algo da alimentação (menos aos domingos) e às sextas-feiras não comer carne.
⇒ Esmola – Realizar neste tempo atos de caridade fraterna quem se convive e para com os necessitados.
⇒ Meditação da Palavra de Deus – Procurar ler e meditar diariamente na Sagrada Escritura.
⇒ A confissão sacramental – Procurar confessar-se para bem celebrar a Santa Páscoa.