Reconciliação: Misricórdia de Deus

Capítulo XXXVIII

Nunc ergo, habitatores et viri Juda, judicate inter me et vineam meam. Quid est quod debni ultra facere vineae meae et non feci ei? – “Agora, habitadores de Jerusalém e varões de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha. Que mais podia eu fazer por ela, que lhe não tenha feito?” (Is 5, 3-4)

A quem fala assim Jesus? A quem dirige estas palavras? É a mim, pobre pecador, a mim é que ele fala; a mim é que ele diz com assento da mais viva ternura:

“Meu filho, que mais posso eu fazer por ti?”

Amar-me-ás tu agora de todo o teu coração? Acabarás de sacrificar-me de novo com teus pecados? Ah! Filho, meu caro filho! Depois de tantos sinais do meu amor, porque viveste tanto tempo longe de mim? Que mal te fiz? Em que te contristei? Responde-me.

Meu Deus! Meu Deus! Nada tenho que responder. Sou culpável, e gemo sob o peso de meu pecados; cobrem de rubor a minha face; ó Jesus meu! perdoai a um pecador suplicante. Seu culpável; nenhuma desculpa tenho a alegar, mas choro…

Filho, “que achaste tu em mim para me abandonar, e correres após a vaidade?”. De que sorte de benefícios não te hei acumulado? Por teu amor me entreguei a uma morte dolorosa! por teu amor “suportei o opróbrio, e cobriu a ignomínia o meu rosto”. Para te arrancar ás eternas chamas do inferno, “tornei-me pobre e necessitado de tudo; quis ser olhado como o ultimo dos homens; reduzi-me de alguma sorte ao nada“. Fui coberto de chagas desde os pés até à cabeça; fui oprimido de dores, de humilhações, de ultrajes: e tudo isto, tudo isto sofri por ti, filho, porque tua alma é preciosa a meus olhos; por ti, porque queria salvar-te; por ti, porque te amo. Ó meu filho! E como correspondeste tu até ao presente a tanto amor? Fala?

— Senhor, repito, nenhuma desculpa tenho que alegar; o que mais posso fazer é gemer, é lançar-me confiadamente nos braços da vossa misericórdia.

— Depois de te eu haver tirado do nada para te dar a existência, tu não cessaste de ofender-me; muitas vezes por teus pecados me hás vergonhosamente desonrado. Eu gravara em tua alma o caráter da minha divindade, e tu te deste pressa em apagá-lo; nela depusera o selo da minha santidade, e tu o manchaste; enchera-te de graças, e tu as desprezaste!

“É assim, pois, que tu testemunhas o teu reconhecimento ao Senhor? por ventura não sou eu o teu Pai, e teu Criador, o teu Salvador? Não tive eu sempre cuidado de ti como das meninas dos meus olhos?”

E tu me abandonas, e tu me esqueces! Abandonas- me por um miserável prazer, para correr após honras vãs!… Ó meu filho, ora dize-me, possuías a felicidade, enquanto andavas infiel ao meu amor? Saboreavas aquela paz tão doce que inunda o coração dos que me servem com fervor? Ah! “Compreende, pois, de uma vez quão funesto e amargo te foi o teres abandonado o Senhor teu Deus”, e volta a mim. Olha, eu estou a estender-te os braços; corre: eu serei o teu pai, e tu serás ainda o meu filho estremecido.

— Meu Jesus, venceste, sim venceste; entre-vos as armas. Eu vo-lo prometo, não mais serei in¬grato; mas por misericórdia, ó meu Deus, cessai de exprobrar-me as faltas da vida passada, e dignai-vos perdoar-nos. Quero delas fazer penitencia todos os dias da minha vida; quero amar-vos de todo o meu coração, mais que todas as criaturas, mais que a minha vida, mais que a mim mesmo. Não ter eu mil corações para todos os empregar em vos amar! Mas que digo! Provera ao céu que eu vos amasse com toda a extensão do que vós me destes! Ai! Mas ele é tão frio, tão duro, tão insensível! Contudo, ó meu Jesus! Assim mau como sou, parece-me que vos amo. Sim, ó Deus meu, eu vos amo; eu vos amo, não para que no céu me salveis, não para que me arranqueis ao inferno; não por esperança de alguma recompensa; mas ama-vos, só porque vós me amais; amo-vos só porque vós sois o meu Rei e meu Deus; amo-vos e amar-vos-ei sempre, só porque sois infinitamente digno do meu amor. Assim seja

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Pensar nas Misericórdias do Senhor para Conosco

“Das misericórdias do Senhor eu me recordarei, cantarei cânticos de louvor por tudo o que ele faz por mim, por todos os bens de que encheu a minha alma, segundo a sua clemencia e segundo a multidão das suas misericórdias. Bendizei ao Senhor, ó minha alma! Bendiga ao seu santo nome tudo o que há dentro de ti; bendizei ao Senhor, ó minha alma! E não te esqueças dos seus benefícios”

Estes de¬vem ser, meu caro Teótimo, os sentimentos de todo o cristão para quem o reconhecimento não e um fardo. Mas ai! Onde estão essas almas verdadeiramente reconhecidas que sabem agradecer a Deus todas as graças de que as encheu? Onde estão? Ó céus! Nós coraríamos de nos mostrar ingratos para com os homens, e para com Deus nada se nos dá disso! O pedir-lhe graças todos os dias lhas pedimos a grandes brados, todos os dias as recebemos em abundância, mas agradecer-lhe, nem sequer nos passa pela imaginação dizer-lhe um:

“Meu Deus, agradecido!”

Que conduta! Ó meu caro Teótimo, nunca caias neste vicio da ingratidão para com nosso bom Mestre, pois este vicio só basta para estancar todas as fontes da graça, como nos adverte São Bernardo em vinte lugares das suas obras. Recorda-te ao contrario muitas vezes de todos os benefícios gerais e particulares que de Deus recebeste. Além das graças da criação, da redenção, da conservação, que graças assinaladas não te há ele feito! Tu o ofendeste, e este bom Pai não te tratou segundo tuas iniquidades; viu a tua desgraça, ficou enternecido e teve de ti piedade. Todas as tuas faltas ele te perdoou, curou-te de todas as chagas, arrancou-te do inferno, e, porque é cheio de ternura e clemencia, restituiu-te a veste da inocência. (Ps. cu. passim.). Tu arrastarás a tua pobre alma pelo lobo, tu a desonrarás e cobriras de indignas manchas; o demônio a calcava aos pés, e de dia para dia a enterrava mais e mais no mais imundo lamaçal; e eis que o teu Deus não teve por desprezo o ele mesmo vir tira-la; em seu sangue a purificou, encheu-a de mil graças preciosas, e a acumulou de penhores do seu amor. Ah! Que bem razão tens de exclamar com o Salmista: “Quem há como o Senhor nosso Deus? Ele levanta da terra ao desvalido, e tira da imundície ao pobre, para o fazer assentar com os príncipes, com os princípios do seu povo”, isto é, com os anjos e santos. Compara o teu estado de outrora, quando vivias no pecado, com o em que Deus por sua misericórdia hoje te pôs; e, nos sentimentos do reconhecimento, dize a cada instante:

“Que darei eu em retribuição ao Senhor, por tantos benefícios de que me encheu? Ah! Eu o bendirei a todo o momento, e seus louvores sempre estarão em minha boca, e toda a eternidade não será longa para eu exaltar as suas misericórdias. Ó doce Jesus! Não permitais que eu seja ingrato; não permitais que eu mereça a exprobração que outrora fizestes ao povo judeu: Vós esqueceste-vos dos meus benefícios, e não vos recordastes da multidão de minhas misericórdias”

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 270-274)