Maria e João aos pés da Cruz

Capítulo XXXVII

Et inclinato capite, tradidit spiritum – “E baixando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19, 30)

Nosso Senhor já tinha perdido quase todo o sangue: estava todo abatido pelos tormentos que sofrera. O peito ía-se-lhe comprimindo, e a respiração tornando-se difícil; e como não estava deitado no leito, mas suspenso no ar pelos cravos que rasgavam os pés e as mãos, não tinha momento de repouso, e suas dores eram imensamente superiores ás que ordinariamente os homens sofrem em sua agonia: porque em nós a ponta da dor embotando-se ás aproximações da morte, cessamos de sentir, à medida que vamos perdendo o conhecimento; mas o nosso doce Salvador teve sempre o juízo perfeito até ao ultimo suspiro, e não cessou de sofrer senão quando deixou de viver (1). Alguns momentos antes de entregar a alma, sua cabeça se inclinou, os olhos começaram a eclipsar-se, e os lábios a ficarem frios e lívidos. Pouco depois, tornou a levantar a cabeça e os olhos ao céu, soltou um grande brado, e deixando segunda vez cair a cabeça sobre o peito, expirou!!!…

Alma minha, aproxima-te da cruz; olha o teu Jesus e teu Deus; acaba de expirar por amor de ti! Recolhe-te, pois, e medita, recolhe-te e chora… Senhor Jesus, depois de vos ver expirar na cruz por meu amor, parece-me poder esperar de vós todas as graças necessárias à minha salvação, parece-me poder calcar aos pés esses temores da eterna condenação que ás vezes o demônio me lança no espírito. Ó Jesus! Como ó terrível só o pensar que um dia poderei ser separado de vós para todo o sempre! Como é tão triste sorte do pobre pecador que vos ofendeu, e não sabe se vós houvestes dele misericórdia! Ver o inferno entreaberto diante de si, e não saber se devo esperar a vossa bondade ou temer a vossa justiça!

— Meu filho, querido filho, porque é que me falas assim? Em que mereci eu ser olhado por ti como um senhor duro e severo? Vês-me morrer por teu amor, não ousas confiar na minha ternura! Ofendeste-me, sim, eu bem sei; mas tu não conheces ainda o meu coração? Ignoras ainda com que facilidade ele perdoa ao pecador arrependido? Ah! Filho, eu te conjuro, lança-te com mais abandono nos braços da minha misericórdia.

— Sim, Senhor, compreendo que nunca estarei em paz senão confiando da vossa misericórdia o cuidado da minha eterna salvação; fazei-me, pois, a graça de sempre repelir para longe de mim esse temor servil que vos represente a meus olhos como um Deus pronto a punir as menores ofensas; quando vós tão somente sois um Pai cheio de toda a ternura para com vossos filhos e de compaixão para com as suas misericórdias… Mas, ó meu Deus! ó bom Jesus! Seja-me permitido derramar todo o meu coração no vosso. Muitas vezes experimento no vosso serviço momentos de trevas interiores muito penosas; então a minha alma perturba-se; parece-me que já vos não amo, que vos tenho sido infiel, que cometi alguma falta mortal, e sou tentado a abandonar-me à melancolia, a crer-me condenado, a deixar o vosso serviço. Nestas circunstâncias, pois, que devo fazer?

— Meu filho, lança os olhos sobre a minha cruz e começa por fazer um bom ato de resignação à minha vontade; depois esforça-te por te excitar à confiança no meu amor. Pois que! Filho, acreditavas então tu que, a querer-te eu condenar, ia assim morrer sobre uma cruz, no meio de tantos tormentos? Não temas nada, meu caro filho, não temos nada: eu te amo, eu te amo tanto quanto a um Deus é possível amar-te. O permitir eu essas perturbações, essas trevas da tua alma, tudo é para teu bem: não temas nada, porque eu velo por ti como pela menina dos meus olhos. Oh! Se tu souberas quanto eu amo a uma alma fiel que, apesar das suas misérias e imperfeições, não se deixa levar à turbação, e me diz incessantemente:

“Meu bom Mestre, em vós confio e não serei confundido”!

Se souberas de que graças preciosas a enriqueço, que esforços não farias para também tu te fundares solidamente nesta amorosa confiança na minha bondade!

— Ó bom Jesus! vós bem conheceis o fundo do meu coração, sabeis o quanto eu vos amo e quão ardentemente desejo ir ver-vos no céu; como é, pois, que eu temo tanto a morte e receio vosso juízo?

— O meu juízo é muito para temer, por certo, mas é para os pecadores endurecidos e impenitentes; mas é doce e cheio de misericórdia para os que me amam. Quero portanto que, todas as vezes que o pensamento do juízo se apresente a teu espírito, faças logo um ato de abandono da tua sorte eterna à minha bondade paternal: este sinal de confiança da tua parte ser-me-á a mim muito agradável, e a ti de muitíssima utilidade, porque nunca ninguém esperou em mim e foi confundido. Quanto ao temor da morte, esse é um temor natural; eu também o senti porque era homem, e porque de mais a mais queria merecer-te a graça da resignação. Em ti é também produzido por esse apego que conservas ainda ás criaturas; trabalha por te desprender de tudo, que a morte te parecerá uma coisa muito de apetecer. Desprende-te das tuas riquezas, dos teus pequenos gozos dos teus amigos, da tua família, dos teus próprios filhos; confia do meu coração o cuidado de teus interesses, de todas as pessoas que te são caras, e poderás dizer então:

“Senhor, vosso servo morrerá agora em paz, se é vossa vontade chama-lo a vós”

— Senhor Jesus, vede o vosso pobre filho ao pé da cruz; laçai sobre mim um olhar de bondade e abençoai-me. Faço-vos o sacrifício da minha vida e pronto estou a morrer apenas apraza à vossa santa vontade. Se quereis deixar-me a vida ainda por algum tempo, sejais bendito; somente a graça me dai de a empregar em amar-vos e agradecer-vos. Se quereis que eu morra em breve, sejais igualmente bendito. Submeto-me à morte, por ser vontade vossa que eu morra.

Quero morrer, afim que pelas agonias e dores da morte satisfaça à vossa divina justiça por todos os pecados, pelos quais mereci o inferno.

Quero morrer, afim de deixar de ofender-vos e desagradar-vos nesta vida.

Quero morrer, afim de vos provar o meu reconhecimento por todos os benefícios e por todas as bondades de que me acumulastes, apesar da minha indignidade.

Quero morrer, para vos provar que mais amo a vossa vontade que a minha.

Quero sobre tudo morrer para ir para o céu amar-vos de todas as minhas forças e por toda a eternidade, porque eu espero ir para essa mansão de bem-aventurança, onde estarei certo de amar-vos por toda a eternidade.

Eu vos suplico, ó meu Salvador! Meu amor, meu único bem: suplico-vos pelas vossas chagas sacrossantas, pelas dores da vossa morte, fazei-me morrer na vossa graça e no vosso amor. Comprastes-me à custa do vosso sangue, não permitais que me perca, dulcíssimo Jesus; não permitais que de vós me separe. Quando a minha alma sair deste corpo, dignai-vos vós mesmo recebe-la das mãos de Maria, vossa e minha Mãe, e dignai-vos fazer-lhe um acolhimento cheio de bondade, dizendo-lhe:

“Meu filho, todos os teus pecados te são perdoados e esqueci¬dos; vem comigo para o meu paraíso, onde eu te amarei, e onde tu me amarás por toda a eternidade”

Meu querido Redentor; ó vós que quisestes morrer por mim, e que, apesar dos meus pecados, me recebeis ainda na vossa graça! eu me estreito com a vossa cruz, e abraço vossos pés trespassados com cravos. Ai! Por quem sois, em nome do amor que me testemunhastes, uni-me por tal modo a vós que nada me possa apartar jamais de vós. Fazei que doravante me entretenha continuamente convosco; fazei que todos os meus pensamentos sejam para vós; fazei, numa palavra, que só a vós eleve todos os afetos do meu coração, que só a vós eu procure em todas as coisas. Oh! Concedei-me a graça de sempre viver na dor de vos ter ofendido; concedei-me a graça de sempre estar abrasado de amor por vós, que por meu amor destes a vida. Ó Jesus! Eu vos amo; eu vos amo, ó vós que me amais infinitamente! Eu vos amo, eu vos amo! Maria, pedi a Jesus por mim, e obtende-me que eu morra em sua santa graça. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Preparação para Morte

E1 preciso morrer, meu caro Teótimo: Jesus morreu e a santa Virgem morreu, todos os santos morreram e tu também tens de morrer. Isto não digo eu na intenção de te aterrar, pois sei que o justo vive com paciência e morre deleitosamente; o eu falar-te assim é para poder dizer-te com Jesus Cristo: Estai preparados, porque não sabeis nem o dia nem a hora da vossa morte. Para o comum dos fieis, estar preparado é não ter a consciência maculada do pecado mortal. Mas para uma alma fiel que faz profissão de amor generosamente a Jesus, estar preparado é não ter a mínima afeição ao pecado venial, é não ter o menor apego a coisa alguma deste mundo de humano e desordenado, ou ao menos trabalhar por chegar a este ponto; é estar numa submissão perfeita à vontade de Deus para saúde, doença, vida ou morte. Responde agora, meu caro Teótimo, parece-te que estás preparado? Se a tua consciência responde: “Sim”, bendiz ao Senhor, que te fez uma grande e preciosa graça; se ao contrario responde: “Não”, já, já mãos à obra, porque ai! O Senhor pode vir “e virá” com efeito “no momento em que menos o pensares”. Eis algumas práticas que muito te ajudarão a chegar a este fim:

1. Sonda bem a consciência até os seus últimos esconderijos, e vê se ela não te faz alguma censura fundada; se te causa algumas pena?, confere-as singelamente com o teu confessor, nada lhe encubras, faze uma boa confissão, e depois deixa-te estar em paz, abandonando tudo o mais à misericórdia de Deus.

2. Faze o teu testamento, se algum tens a fazer, renovando-o cada ano, caso te seja preciso. A teus negócios temporais põe tão boa ordem, que sempre estejas pronto a prestar contas exatas a quem tiver o direito de te as pedir. Deste modo, poupar-te-ás a muitas ansiedades, se a morte viesse ferir-te de repente, como feriu a tantos outros, que estavam mui longe de a esperar.

3. Satisfaz a todas as dividas, se algumas tens, e repara o mal que tenhas podido fazer ao teu próximo em seus bens, etc.

4. Vê a que coisas estás ainda preso, desapega delas generosamente o coração; a final sempre te há de ser precioso deixar essas riquezas, essas belas terras, essas belas casas, esses filhos, esses amigos; faze desde já o sacrifício, e grandes méritos alcançarás.

5. Examina que coisas à hora dá morte desejaras ter feito, e fá-las sem mais demora; examina ao mesmo tempo quais as que querias não ter feito, e abstém-te.

6. Pensa muitas vezes na morte: este pensamento a principio parece pavoroso; não tarda a tornar-se doce e consolador, além de servir singularmente para desprender-nos da terra.

7. Faz amiúde atos de resignação com a morte, como o que acabas de ler no capitulo precedente; agradam a Deus, atraem-nos grandes graças, e familiarizar-nos com o pensamento de nossos últimos momentos.

Observações:
(1) Os sofrimentos de Jesus, tom. iv.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 263-269)