Capítulo IV

Apparuit benignitas et humanitas Salvatoris nostri Dei – “Apareceu a bondade do Salvador nosso Deus, e o seu amor para com os homens” (Tt 3, 4)

De toda a eternidade nos amou Deus; esta ver­dade e ele mesmo que por Jeremias profeta no-lo assegura. Mas o seu amor para conosco esteve em certo modo oculto, até ao momento em que a Jesus Cristo aprouve manifesta-lo, fazendo-se homem.

“Antes da incarnação do Verbo, diz São Bernar­do, manifestára-se-nos o poder e sabedoria de Deus na criação e governo do mundo; quando porém Je­sus Cristo consentiu em revestir-se de nossa carne, apareceu o amor que este divino Salvador tem aos homens”

Com efeito, depois de haver Jesus Cristo passado uma vida tão laboriosa e molesta, depois de o vermos expirar numa cruz no meio de tantos tormentos, máxima injuria seria o duvidarmos um ins­tante do seu amor.

Sim, Jesus Cristo ama-nos com excesso, e por isso mesmo que nos ama, de nós quer ser amado. E será possível ficarmo-nos insensíveis a este amor de Jesus? Pensemos seriamente a que medonho estado de miséria e abatimento estávamos pelo pecado reduzidos, quando veio a libertar-nos Jesus Cristo.

Estávamos manchados de crimes e condenados a morte e ao inferno, e se, consultando a sua justiça, nos houvera Deus abandonado a nossa sorte, nada teríamos a dizer-lhe:

“Pois quem ousara le­vantar-se contra os juízos do Senhor? Quem seria as­saz audacioso para o acusar, ainda quando des­truísse as nações que criou?”

Nada, absolutamente nada tínhamos que pudesse merecer-nos um dos seus olhares de benevolência ou compaixão: que digo? Hediondos e execráveis a seus olhos nos tornara o pecado; e não obstante Jesus Cristo desce do céu a terra para manifestar-nos o seu amor, morrendo numa cruz! Estávamos pobres, e ele vem-nos enriquecer de todos os bens espirituais; estávamos abismados em espessas trevas, e ele vem com o facho da sua divina doutrina iluminar-nos; estáva­mos condenados a uma eternidade de suplícios no inferno e ele vem abrir-nos as portas do céu e merecer-nos uma eternidade bem-aventurada; estávamos seus inimigos, e ele vem reconciliar-se conosco e admitir-nos a intimidade do seu amor.

Cristão! Visto como o nosso Deus nos testemunhou tanto amor ainda quando éramos tão maus; “visto como foi o primeiro a amar-nos, amemo-lo também da nossa parte com toda a extensão do nosso coração“. Que coisa mais justa e mais racional?

“Nosso Senhor Jesus Cristo”, diz São Paulo, “morreu por nós afim de que nós vivamos para ele”

E podemos nós acaso dar-nos este consolador testemunho de havermos sempre vivido para Jesus? Po­deremos nós dizer que nossas ações todas foram inspiradas pelo amor de Jesus? Ai! Que talvez nem um dia, nem uma só hora hajamos vivido para ele! Oh! Que motivos estes de confusão!

Um Deus por nosso amor a fazer tudo e nos pelo seu amor a nada fazermos! Hoje e o começar calorosamente a amar a Jesus, e a só para Jesus viver. Viver para Jesus e cumprir toda a sua santa vontade, renunciar-nos continuamente a nós mesmos, fazer-nos violência a todo o instante levar com submissão e amor a nossa cruz. Viver para Jesus, é orar incessantemente, desempenhar todos os deveres do nosso estado, mortificar-nos de continuo, exercer-nos na pratica da humildade, castidade ca­ridade para com o nosso próximo, da paz e reco­lhimento interior. Viver para Jesus, é chorar as des­ordens da vida passada, despender-nos de tudo o criado, suspirar pela bem-aventurança. E de tudo isto que fizemos até agora? Nada, ou quase nada talvez.

Ao menos saibamos sequer humilhar-nos a vista de tal covardia, e tomemos generosas resoluções para o futuro.

Ó meu Salvador! Virá ainda dia em que eu comece a reconhecer o amor que me testemunhastes? Até o presente, em lugar de amar-vos, só com ingratidões e desprezos tenho pago a vossa graça. Com tudo, por que sois a bondade infinita, perder a confiança não perco. Vós prometestes per­doar a todo o que se arrependesse; ah! Havei pie­dade de mim, e sinta eu os efeitos da vossa pro­messa. Desonrei-vos, preferindo os meus regalos e prazeres a vós; mas hoje de toda a minha alma me arrependo, e nada me dói tanto como a lem­brança de vos ter ofendido a vós, meu soberano bem. Perdoai-me, e por um laço de eterno amor pren­dei-me fortemente a vos, afim de que não mais torne a abandonar-vos, e de ora avante só viva para amar­-vos e fazer-vos a vontade. Sim, Jesus meu, só para vós quero viver, só a vós quero amar. Tempo houve em que pela criatura vos abandonei; mas agora todo me dou a vós. Amo-vos, ó Deus da minha alma ! Amo-vos mais do que a mim mesmo. Ó Ma­ria, Mãe do meu Deus, obtende-me a graça de lhe ser fiel até a morte. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Fugir em nossas Ações de Vanglória

Entra hoje seriamente em ti mesmo e vê com que intenção fazes as tuas obras. Se as fazes mecanicamente e sem intenção alguma nem boa nem má, ser-te-ão inúteis para o céu. Se as fazes com intenção de agradar aos homens e por vanglória, por boas que em si sejam, tais obras tornam-se más e dignas de castigo: se pelo contrário em todas as tuas obras só em Deus pões a mira, se tão somente pro­curas a sua glória e o cumprimento da sua vontade, és feliz: porque então tu adquires méritos e tesouros para a eternidade. Foje da vanglória; “guardai-vos, não façais as vossas obras diante dos homens, com o fim de serdes visto por ele: de outra sorte não teríeis a recompensa da mão de vosso Pai que está nos céus”.

Ó meu Deus! Pois que é essa glória do mundo senão um fumo vão! Contenta-te: em tuas boas obras,
do testemunho da tua consciência; contenta-te com saber que todas as tuas ações tens a Deus por tes­temunha e nunca vás mendigar dos homens uma glória que te faça perder a verdadeira. Lá no fundo do teu coração diz e repete continuamente:

“A Deus só seja honra e glória pelos séculos dos séculos. Senhor, dai glória não a nós mas ao vosso nome”

Oculta quanto ser possa tuas ações e tem cuidado de, antes de as começares, certificar a intenção, di­zendo com Santo Inácio de Loyola:

“Meu Deus, isto vou eu fazer por amor de vós e para vossa maior gloria”

Se no meio da tua ação vier o demônio tentar de vanglória, não a interrompas por isso; dize-lhe com São Bernardo:

“Nem por ti começou, nem por ti hei de acabar”

Tudo seja para Deus, seja tudo para sua glória. De todos os dias esta seja a tua divisa.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 33-36)