Os livros de Tobias, Judite e Ester pertencem a um gênero literário próprio: o midraxe ou a hagadá. Esta é uma maneira de propor a história que realça os aspectos edificantes e moralizantes da mesma, no intuito de promover a formação espiritual dos leitores. Distinguem-se dois períodos da literatura hagádica bíblica:

1) o período imediatamente posterior ao exílio (587-538), no qual os autores sagrados procuravam em termos tranqüilos a edificação dos fiéis (tal é o caso de Tb, Rt, Jn, Jó);

2) o período hasmoneu (sec. II/I), no qual a luta pela independência nacional alimentava antagonismo aos estrangeiros e rígido senso religioso (veja Jt, Est e partes de Dn).

Os livros de Tobias, Judite e Ester têm notas comuns:

a) referem episódios não concernentes a todo o povo israelita, mas apenas a uma determinada família (Tb), cidade (Jt) ou judeus residentes na Pérsia (Est);

b) as épocas da história universal a que aludem, não podem ser identificadas com muita precisão;

c) o texto dos três livros passou por uma história obscura, o que suscitou questões de crítica do texto e canonicidade: Tb, Jt e Est 10,4-16,24 não constam do cânon dos judeus da Palestina; são, por isto, chamados “deuterocanônicos”.

Lição 1: O livro de Tobias

1. Um certo homem, Tobite, da tribo de Neftali, foi exilado para Nínive (Assíria), com os seus; dedicava-se à caridade para com os seus compatriotas detidos, quando certa vez foi ferido pela cegueira (1,1-2,10); diante disto, a esposa o menosprezava (2,11-3,6). Na mesma época, em Ecbátana (Média), uma consangüínea de Tobite, Sara, filha de Raguel, veio a sofrer também grave tribulação por parte do demônio; era caluniada de homicídio (3,7-10). Sara, porém, orava confiante em Deus (3,11-15).

Reduzido à pobreza, Tobite enviou seu filho Tobias a Rages na Média, onde um homem chamado Gabelo possuía dinheiro emprestado do ancião enfermo (4,1-5,3). Quando Tobias, inexperiente, saia de casa, o anjo Rafael (medicina de Deus) ofereceu-se para guiá-lo na estrada (5,4-23); durante a viagem, o guia persuadiu Tobias a guardar coração, fel e fígado de um peixe que o atacara (6,1-9); a seguir, passando por Ecbátana, promoveu o casamento de Tobias com Sara; esta foi libertada do demônio, quando o esposo, na primeira noite, a conselho do anjo, queimou o fígado e o coração do peixe na câmara nupcial (6,10-8,21). Rafael foi buscar o dinheiro em Rages (9,1-6) e reconduziu o jovem casal à casa paterna em Nínive; por essa ocasião, Tobias, ainda instruído pelo anjo, curou com o fel do peixe os olhos do pai (10,1-11,20). Então Rafael se revelou e desapareceu (12,1-21). O livro termina com ação de graças do velho Tobite abençoado (13,1-14,15).

2. O livro de Tobias contém um núcleo histórico, ornamentado com objetivo didático e moral.

a) A historicidade do livro se depreende das indicações de reis assírios (Tb 1,2.16.21s…), das referências geográficas (1,1.14.21; 3,7…), sociais e políticas (1,17; 2,3…), jurídicas (5,3.14; 7,14…),

b) O autor desenvolveu com certa liberdade os dados históricos de que dispunha, pois cedeu a anacronismos. Com efeito; a história de Tobite se desenrolou sob Salmanasar e sucessores (séc. VIII/VII a.C.); mas as idéias e práticas religiosas inculcadas pelo livro não se explicariam então, pois só foram adotadas pelos judeus após o exílio: assim a entrega de dízimos aos prosélitos (1,8); as exortações morais (4,3-21; 12,6-15; 14,8-11) são as da literatura sapiencial posterior ao exílio. Além disto, os capítulos 13 e 14 supõem Nínive em ruínas, Jerusalém destruída e os judeus no exílio babilónico, circunstâncias impossíveis na época de Tobias. Estes anacronismos insinuam que o autor, posterior ao exílio (250-150 a.C.?), recorreu a uma história antiga, adaptando-a aos conceitos do seu tempo para que mais calasse no ânimo dos leitores.

Outro anacronismo de Tb: o velho Tobite presenciou em sua juventude a divisão do reino após a morte de Salomão (em 930; cf. Tb 1,4), foi deportado com a tribo de Neftali (em 734; cf. Tb 1,5.10) e seu filho Tobias veio a morrer após a ruína de Nínive (em 612; cf. Tb 14,15). Entre Rages, situada na montanha, e Ecbátana, no meio da planície, não haveria mais do que dois dias de marcha (Tb 5,6), embora Ecbátana esteja a altitude de 2000 m e as duas cidades estejam à distância de 300 km uma da outra.

A finalidade do livro é mostrar a admirável Providência de Deus para com um homem fiel posto em aflição e apresentar aos leitores um modelo de observância da Lei de Deus. Observem-se as numerosas exortações à piedade e à prática das boas obras: 1,16-19; 4,5-19. O opúsculo de Tobias também é importante pela sua angelologia; o anjo Rafael aparece aí como guarda, curador (3,25; 8,3) e intercessor (3,16; ; 12,12). As notícias referentes ao demônio Asmodeu são tiradas da tradição popular: assim o seu amor por Sara (6,15), a sua fuga para o Egito(8,3; cf. Is 13,21; 34,14; Br 4,35).

O texto original de Tb era hebraico ou aramaico; perdeu-se. São Jerônimo († 421) fez a tradução para o latim da Vulgata a partir de uma cópia aramaica. As traduções vernáculas atualmente são feitas sobre o texto grego dos LXX, do qual há três formas: LXXa, LXXb e LXXc. É preferível a LXXb; há, porém, quem traduza para o vernáculo a partir da Vulgata latina. Isto explica que o texto português de Tb varia freqüentemente nas edições vernáculas; pode variar também a numeração dos versículos.

Lição 2: O livro de Judite

1. O livro de Judite tem por cenário as conquistas de um rei assírio dito Nabucodonosor, cujo General Holofernes ia avançando pela Ásia anterior (1,1¬3,10). Os judeus, porém, dispuseram-se a resistir (4,1-15). Ao saber disto, o pagão Aquior, aliado de Holofernes, aconselhou-o a não atacar os israelitas, pois muitas vezes o Deus de Israel defendera seu povo (5,1-24). Holofernes, porém, tendo entregue Aquior aos judeus para que perecesse com eles (6,1-21), empreendeu o cerco da cidade israelita de Betúlia (7,1-18). Os habitantes desta achavam-se prestes a render-se, quando a viúva Judite resolveu intervir, prometendo lutar por seu povo (8,1-36). Depois de ter orado fervorosamente (9,1-14), revestiu-se de seus mais preciosos ornamentos, e penetrou no acampamento inimigo, encantando todos os guardas por sua formosura (10,1¬17). Holofernes, ao vê-la, mandou que residisse perto da sua tenda (10,18-12,3). Quatro dias depois, o General assírio, vencido pela paixão, deu um banquete, para o qual convidou Judite (12,10-20). A alta noite, Holofernes estava embriagado a dormir, e Judite a sós com ele, na mesma tenda. Então rezou, e com a espada do próprio Holofernes, cortou a cabeça do General; logo a seguir, regressou para Betúlia (13,1-10), onde foi recebida com grande alegria (13,11¬20). Ao ver os fatos, Aquior converteu-se à religião judaica (14,1-10). No dia seguinte, os israelitas simularam um ataque e puseram os assírios em fuga (14,11-15,7). Por fim, o povo de Betúlia canta a glória de Judite e esta louva a Deus em ação de graças (15,8-16,25).

2. Como o livro de Tobias, o de Judite encerra elementos históricos revestidos de traços teológicos, que põem em relevo o aspecto edificante da história.

Com efeito. Mais de uma vez em sua história, o povo de Israel esteve sob a ameaça de poderosos reis pagãos, que se apresentavam como senhores absolutos (et Jt4,1s; 6,2): assim foi o rei Assurbanipal (669-630?), da Assíria, cuja campanha é mencionada em 2Cr 33,11; assim também Senaqueribe (704¬681), da Assíria, conforme 2Rs 18,13-37; igualmente terrível foi a opressão exercida pelos reis selêucidas, da Síria, contra Israel, entre 200-142 a.C., conforme 1/2Mc. De todas as campanhas, a que parece fazer fundo de cena ao livro de Judite, é a de Artaxerxes III Ocos (359-338), da Pérsia, ocorrida por volta de 351 a.C.

Há, porém, anacronismos em Jt: conforme 1,1, Nabucodonosor (605¬562) era rei de Nínive, cidade que fora destruída em 612. A esta mesma época atribui-se a volta dos judeus exilados na Babilônia (587-538), a reconstrução do Templo e do altar em Jerusalém (cf. 4,3.11 s; 9.1.8.13; 15,4s.9; 16,18). O itinerário militar de Holofernes (2,21-28) é irreconhecível aos olhos da geografia.

A finalidade do autor sagrado era avivar a fé de Israel em Deus, que é capaz de libertar das calamidades o seu povo, contanto que este se mostre fiel aos preceitos da Aliança. Verifica-se que os meios que salvam Betúlia do poder inimigo, são espirituais: uma viúva fraca, munida das forças que o jejum e a oração lhe confere (8,1-9,14; 13,1-10). O rei Nabucodonosor entra em cena porque é o tipo dos perseguidores de Israel, é o adversário de Deus por excelência, “o grande rei, o Senhor de toda a terra” (Jt 2,5); a vitória de Israel sobre este adversário, síntese de todos os inimigos de Deus, é um prenúncio da vitória final do bem sobre o mal (16,2-21). O universalismo ou a proposta de salvação para todos os povos aparece na conversão de Aquior, que, vendo a gloriosa façanha do Senhor por meio de Judite, se converte à verdadeira fé (cf. 5,5-21 e 14,5-10).

É digno de nota o fato de que a heroína do livro é uma viúva. A viuvez como estado de consagração a Deus foi sendo estimada por Israel nas proximidades da era cristã (tenhamos em vista a viúva Ana de Lc 2,36-38). A Igreja vê em Judite, a mulher fortalecida pela graça de Deus, uma figura de
Maria Santíssima – Verdade é que Judite usa de ambigüidade e falsidade para com Holofernes: isto não é censurável na guerra; Holofernes é que merece ser censurado por haver cedido às paixões e não ter desconfiado da armadilha que uma mulher do acampamento inimigo poderia estar preparando contra ele: o texto, aliás, enfatiza que Judite só realizou seu papel depois de ter jejuado e orado (9,2-14; 12,5-9; 13,4-7).

O autor deve ter sido um judeu da Palestina, a nós desconhecido, que escreveu na época dos Macabeus (fins do século II a.C.); os judeus, tendo então que lutar por suas tradições religiosas e nacionais, seriam reconfortados pela evocação do episódio de Judite.

Lição 3: O livro de Ester

Como o livro de Judite, o de Ester descreve a história de uma israelita que, por sua castidade e piedade, se tornou instrumento de libertação para o povo de Deus.

1. O rei Assuero deu, certa vez, grande banquete; por essa ocasião, a rainha Vasti recusou-se a comparecer em público e foi repudiada (1,1-22). Em seu lugar, entrou Ester, israelita, prima órfã de um israelita chamado Mardoqueu, que residia em Susa (Pérsia) e servia na corte do rei (2,1-20).

Em seguida, Mardoqueu revelou ao rei a conspiração de dois oficiais contra a vida de Assuero; por isto foi inscrito nos Anais como benemérito (2,21¬23). Fiel, porém, às suas tradições religiosas, recusava-se a dobrar o joelho diante de Amã, primeiro-ministro de Assuero (3,1-4). Irritado, Amã obteve do rei um decreto que mandava exterminar todos os judeus da Pérsia no fim do ano corrente (3,5-15).

Diante do perigo, Mardoqueu pediu a Ester que intercedesse junto a Deus e ao rei pela salvação do seu povo (4,1-17). Após ter jejuado e orado, ela e os judeus de Susa, durante três dias, Ester convidou o rei e Amã para cearem com ela (5,1-5). A rainha, ajudada pela Providência Divina, conseguiu do rei novo decreto que concedia aos judeus a faculdade de se vingarem dos seus opressores no dia previsto para o extermínio dos israelitas; Amã foi enforcado por ordem de Assuero (5,6-8,14). Em conseqüência, os filhos de Israel causaram grande morticínio entre os persas (8,15-9,19). Para comemorar o acontecimento, Mardoqueu mandou instituir a festa anual de Purim (9,20-32).

2. O livro de Ester reproduz traços de história ornamentados para servir à finalidade religiosa e moral.

De um lado, o autor se refere explicitamente aos Anais dos reis da Pérsia (2,23; 10.2); as circunstâncias da corte e da administração do reino concordam com o que se conhece por outros escritos; além disto, a festa de Purim, até hoje celebrada pelos judeus, parece atestar um fato histórico. Suposto o fato histórico, o rei Assuero seria Xerxes I (486-65 a.C.).

De outro lado, chama-nos a atenção o silêncio dos autores profanos sobre episódio que tão vasta repercussão teria tido no reino persa. Já que estes não mencionam nenhuma rainha da Pérsia chamada Ester, conclui-se que a heroína israelita, assim como a repudiada Vasti, tenha sido apenas uma das concubinas prediletas de Xerxes I, que teve sempre como esposa a rainha Amestre.

Notemos também a composição artificiosa do livro de Ester, obra-prima da literatura judaica. As antíteses perpassam e dominam o livro, dando-lhe caráter dramático de admirável beleza:

a) duas jovens, concubinas do rei: Vasti, pagã, repudiada; Ester, israelita, exaltada;

b) dois homens, ministros do rei: Amã, não-judeu, exaltado, depois condenado à morte; Mardoqueu, israelita, desprezado, condenado à morte, mas, por fim, exaltado;

c) dois decretos do rei; um, contra os judeus (3,12-15); outro, em favor dos Judeus (8,9-14);

d) dois banquetes oferecidos por Ester: para Amã, significaram humilhação (5,9-14) e morte (7,3¬
10) ; para Mardoqueu, a passagem da morte (5,14) para a glória (6,11; 8,2);

e) os judeus repudiados ao extremo tornavam-se progressivamente estimados ao extremo

3. A finalidade do livro é levantar os ânimos dos judeus, que, após o exílio, viveram sempre sob o domínio estrangeiro (persas, gregos, egípcios, sírios, romanos). A Providência rege os acontecimentos e cumpre seus desígnios, mesmo que tudo pareça indicar o contrário; a chave para entender a tese do livro está em Est 4,13-17.

O texto chegou até nós sob duas formas:

a) texto hebraico, que compreende os nove primeiros capítulos até 10,3. É a única forma que os judeus reconhecem. Nunca refere o nome de Deus;

b) o texto grego, que apresenta duas recensões: a de Lisímaco (cf. 10,31) e a de Luciano. Contém as partes deuterocanônicas, que trazem caráter fortemente religioso. Algumas traduções modernas de Ester apresentam essas partes deuterocanônicas inseridas no texto protocanônico, enquanto outras as colocam em apêndice.

O livro pode ter sido escrito em hebraico na época dos Macabeus (167-160). Por volta do ano 100 a.C., terá sido traduzido para o grego e enriquecido com os fragmentos deuterocanônicos,


Para aprofundamento:
BALLARINI, T., Introdução à Bíblia, vol. Ml/1. Ed. Vozes 1983.
LÃPPLE, A., Bíblia: interpretação atualizada e catequese. Vol. 2: O Antigo Testamento-2. Ed, Paulinas 1980.
GRUEN, W-, O tempo que se chama hoje. Ed. Paulinas 1977.
MONLOUBOU-BOUYSSON, Encontro com a Bíblia. Antigo Testamento. Ed, Lumen Christi 1980.

Perguntas sobre os livros de Tobias, Judite e Ester

1) Compare entre si Tb 1-3 e Jó 1-2 e aponte semelhanças entre Tobite e Jó, se achar que existem.
2) A história de Tobite e Tobias é real ou nunca aconteceu?
3) Compare o feito de Judite com o de Jael em Jz 4,11-22; 5,6.24-27. Há semelhanças ? Aponte-as, em caso positivo.
4) O procedimento de Judite foi honesto, dado que estava em situação de guerra?
5) Qual é o significado da palavra Purim? Como era celebrada essa festa ? Procure as respostas em Est 9.
6) Em 2Mc 15,35s é mencionada uma festa. Que relação tem com o livro de Ester?