Lição 1: Os Salmos

1. A palavra salmo vem do grego psallem, o que significa cantar hino com o acompanhamento de instrumentos de cordas. O salmo é, por conseguinte, um canto que originariamente era acompanhado. Psaltérion é o nome desse instrumento, em grego; saltério hoje designa, para nós, a coleção de 150 salmos colecionados em livro próprio na Bíblia.

A numeração dos salmos varia nos textos hebraico, grego e latino, conforme a seguinte tabela:

Texto HebraicoSetenta (grego) e Vulgata (latim)
1-81-8
9-109
11-11310-112
114-115113
116,1-9114
166, 10-19115
117-146116-145
147, 1-11146
147, 12-20147
148-150148-150

As razões destas divergências são várias: uso litúrgico, anotações musicais, erros de copistas… Alguns salmos ocorrem duas vezes: segundo a numeração dos LXX, Sl 13 = Sl 52; SI 69 = SI 39,14-18; Sl 107 = Sl 56,8-12 t Sl 59,8-14.

Para evitar ambigüidades, neste curso citamos os salmos segundo os dois sistemas de numeração, colocando em primeiro lugar a numeração dos LXX.

2. Os salmos são orações destinadas ao uso comunitário litúrgico ou simplesmente redigidas para servir à piedade particular. Supõem as mais diversas situações de ânimo: adoração, louvor, perseguição, saudades do santuário, desejo de Deus, confissão dos pecados, alegria, tristeza, doença…

Para melhor estudá-los, os autores costumam agrupar os salmos em dez categorias principais: súplicas, lamentações, imprecações, orações de confiança, ação de graças, hinos, louvores à realeza de Deus, oráculos messiânicos, cânticos de Sion, cantos didáticos:

a) As súplicas geralmente pedem o fim de alguma calamidade. Podem ser coletivas, tendo em vista a hostilidade dos pagãos, a infidelidade dos compatriotas judeus, o exílio; assim os Sl 43(44), 73(74), 79(80), 137(138)… Podem ser individuais, em vista de perigo de morte, doenças, perseguições, pecados; assim os Sl 3, 5, 6, 7, 16(17), 21(22)… As súplicas costumam terminar em expressão de confiança e de ação de graças.

b) As lamentações descrevem minuciosamente a indigência do orante e a perversidade do inimigo; ver Sl 12(13), 37(38), 76(77), 87(88), 88(89), 39-52…

c) As imprecações arguem os inimigos do salmista e lhes desejam males; cf. Sl 34(35), 51 (52), 58(58), 58(59), 108(109)… Essas preces, que podem escandalizar à primeira vista, devem ser bem entendidas; o salmista geralmente se julga defensor da causa de Deus, enquanto seus adversários são os adversários de Deus; por isto é radical em seu modo de apreciar os inimigos; além disto, usa de figuras da linguagem militar e da hipérboles a que não estamos habituados. O cristão reza os salmos imprecatórios, desejando a ruína não das pessoas, e sim das instituições más. Diz Santo Agostinho:

“Odeia o pecado, e ama o pecador”

d) As orações de confiança são súplicas nas quais prevalecem os sentimentos de confiança e esperança. Ver Sl 4, 10(11), 13(14), 15(16), 22(23), 26(27), 61 (62)…

e) As orações de ação de graças exaltam a intervenção divina em favor do orante. Geralmente se abrem com louvor ao Deus Salvador; segue-se a descrição dos perigos de que foi libertado; acrescentam-se novos louvores e, às vezes, a promessa de cumprir votos feitos na angústia. Ver Sl 9,1-21, 29(30), 31(32), 33(34), 39(40), 65(66), 117(118).

f) Os hinos celebram a grandeza de Deus espelhada ou nas obras da criação ou nos acontecimentos da história de Israel. Temos:

  • hinos cósmicos: Sl 8, 18 (19), 1-7. 28 (29), 64(65), 103(104)…;
  • hinos históricos: Sl 67 (68), 104 (105), 105(106), 113 (114)…;
  • hinos didáticos: Sl 32(33), 91 (92). 110 (111)…;
  • hinos mistos: Sl 102 (103), 112 (113), 134 (135), 135 (136)…

g) Os salmos que louvam a realeza de Javé, eram cantados talvez na festa de entronização de Javé ou de renovação da Aliança, no início do ano ou no início da primavera. São, p. ex., os Sl 46(47), 92(93), 95(96), 96(97), 98(99), 99(100).

h) Os oráculos messiânicos tem por tema o rei Davi e sua descendência, à qual foi prometido o Messias. São orações ou do próprio rei, como os Sl17(18), 100(101), 143(144); ou em favor do rei, como os Sl19(20), 20(21), 71(72), 88(89); ou em louvor do rei e dos seus feitos, como os Sl 2, 44(45), 109(110), 131(132)… Esses salmos geralmente ultrapassam o ambiente histórico e humano da casa de Davi e descrevem a realidade sobrenatural e definitiva do Messias e do seu Reino.

i) Os cânticos de Sion louvam a Cidade Santa, juntamente com aspectos históricos e geográficos da mesma; aludem ao Reino do Messias prometido a Sion. Ver Sl 23(24), 45(46), 75(76), 83(84)… Fazem eco aos louvores a Sion encontrados em Is 40-66.

j) Os cantos didáticos tem caráter sapiencial; transmitem ensinamentos da Lei, da história, e advertências sobre o juízo de Deus. Ver Sl14(15), 49(50), 77(78), 111(112), 118(119), 138(139)…
Como se compreende, há salmos que se poderiam classificar em mais de uma categoria, pois exprimem tanto a confiança como a ação de graças, a súplica, a penitência…

3. Davi é, sem dúvida, o autor de muitos salmos (cf. At 1,16.20; 2,25s; 4,25; Rm 4,6-8; Mt 22,43s…). Mas não é o único salmista de Israel; enumeram- se também Asaf, Emã, Etã, os filhos de Core, Moisés nos títulos de alguns salmos; cf, Sl 38(39), 41-48 (42-49), 49(50)… Certos salmos podem datar da época posterior ao exílio (587-538 a.C.).

Os salmos têm parte relevante na oração da Igreja (Missa, Sacramentário e Liturgia das Horas). Por isto o cristão deve procurar iniciar-se especialmente na compreensão dos mesmos. Cristo, como membro do povo de Israel, rezou-os; fez passar por esses cânticos os sentimentos da sua santíssima alma na tristeza, na perseguição, na alegria…; o cristão, que é membro de Cristo, há de rezar os salmos em união com o Senhor Jesus nas diversas ocasiões da sua vida; há de proferi-los também com a Igreja, que prolonga a obra de Cristo através dos séculos.

Verdade é que a linguagem dos salmos não é fácil para os cristãos: recorre, por exemplo, a muitos antropomorfismos (Deus é configurado à semelhança do homem), atribuindo a Deus braços, mãos, pés, ouvidos, olhos, boca, lábios.,, comparando Deus com fenômenos da natureza (trovão, vento, chuva, rochedo, montanha) ou com obras humanas (cidadela, muro de proteção, refúgio, escudo, espada…). Este modo de falar quer dizer que Deus está muito perto do homem e se relaciona com este de maneira viva e dinâmica. Outra fonte de dificuldades para se entenderem os salmos é o conceito de cheol, no qual bons e maus, inconscientes, se encontrariam após a morte. Este conceito, porém, foi cedendo ao de vida póstuma consciente, como se nota, por exemplo, em SI 72(73), 25s. 28; 26(27), 13s; 15(16), 9-11; 48(49), 16.

Tais elementos não impediram que toda a tradição, com seus santos e místicos, encontrasse nos salmos uma vívida expansão de afetos cristãos.

Lição 2: Os Provérbios

1. O livro dos Provérbios é o mais representativo da literatura sapiencial bíblica, pois consta, em boa parte, de normas muito antigas (séc. X a.C.), às quais foram acrescentadas normas e explanações que podem ter origem nos séc. IV/III a.C.

Veja a Introdução geral aos livros sapienciais no Módulo l desta Subetapa.

O titulo Provérbios traduz o hebraico Meschalim, que significa “sentenças, máximas, normas”. O conteúdo de Pr apresenta admoestações e considerações, que tendem a orientar sabiamente a vida do leitor, seja no plano individual, seja no social. O tom religioso dessas páginas é um tanto pálido, embora afirmem muito claramente que o temor do Senhor é o princípio da verdadeira sabedoria (cf. 15,16.33; 16,6; 22,4) e que só em Javé deve o homem depositar sua confiança (20,22; 29,25). É precisamente essa característica quase profana das máximas de Pr que revela a sua índole arcaica: nas cortes dos reis, nas famílias e nas escolas do Oriente antigo, os sábios visavam a preparar os jovens para o bom desempenho da sua vida civil.

2. O livro consta de nove coleções, assinaladas quase todas por um título próprio. Veja 1,1; 10,1; 22,17; 24,23; 25,1; 30,1; 30,15; 31,1; 31,10. Estas coleções eram originariamente independentes entre si; devem ter sido constituídas a partir de coleções menores, pois nelas se encontram algumas repetições; ver 10,1 e 15,20; 10,2b e11,4b; 10,6b e 10,11 b; 10,l3b e 19,29b. Raramente os provérbios estão agrupados segundo temas dominantes; se obedecem a alguma ordem, esta é de caráter poético ou pedagógico, tendendo a facilitar a memorização.

As mais antigas coleções são as atribuídas ao rei Salomão: 10,1-22,16 e 25,1-29,27. A primeira consta de 375 sentenças e a outra de 128; foram os oficiais do rei Ezequias que, por volta de 700 a.C., recolheram os provérbios da segunda coleção(cf. 25,1). Salomão foi sempre considerado o maior sábio de Israel, autor de três mil sentenças, conforme 1Rs 5,12. Visto que estas duas coleções formam o núcleo originário do livro, este foi chamado “Provérbios de Salomão” (1,1), embora este rei não possa ser tido como autor de toda a obra.

As coleções chamadas “Palavras dos Sábios” (22,17-24,22 e 24,23-34) são anteriores ao exílio, dada a sua analogia com as máximas de Salomão e visto o seu paralelismo com os provérbios egípcios de Amenemope, escritos no começo do primeiro milênio antes da era cristã. As palavras de Agur (30,1-14) e de Lamuel (31,1-9) devem-se a sábios da cidade de Massa, colocada a norte da Arábia (cf. Gn 25,14), não de autores israelitas, mas eram consideradas tão verídicas que foram assumidas no livro dos Provérbios.

Entre uma e outra está a coleção de provérbios numéricos (30,15-33). Enumeram pessoas, coisas ou situações, pondo em relevo especial a última unidade; esta é a mais enfatizada. Visam às maravilhas da natureza e aos costumes dos animais em Pr. Ocorre este tipo de máximas em outros livros: assim, por exemplo, com os números 1 e 2 em Dt 32,30; Jr 3,14; SI 61(62), 12; J633, 14; com os números 3 e 4 em Ex 20,5; Dt5,9; Jr26,3; 36,23; Am 1,3-2,6; Pr 30,15.18.21.29; com os números 4 e 5 em Is 17,6; com os números 5 e 6 em 2Rs 13,19; com os números 6 e 7 em Pr 6,16; Jo5,19; com os números 7 e 8 em Mq 5,4; Ecl 11,2; com os números 9 e 10 Eclo 25,7; 26,5.19.

A coleção introdutória (1,1-9,18) é talvez dos séculos III/IV a.C. Consta de poemas maiores, em que um pai ou mestre interpela seu filho ou seu(s) discípulo(s); cf. 1,10-19; 2,1-22; 4,1-27; 6,20-35; dá avisos a respeito da mulher alheia, precavendo contra o adultério (2,16-19; 5,1-23; 6,20-35; 7,1-27). A Sabedoria aparece personificada em 1,10-33; 8,1-36; 9,1-6; também a Loucura é personificada em 9,13-18- o que bem mostra que se trata de figuras literárias; não há aí alusão direta à segunda pessoa da Santíssima Trindade. Todavia verifica-se a evolução do pensamento israelita, que prepara a revelação do Verbo.

O elogio da mulher virtuosa (31,10-31) é de época incerta, mas tardia (talvez séc. IV-II a. C.). Revela grande estima pela mulher, como existia em Israel depois do exílio (pensemos nos livros de Judite, Ester e Rute).

3. Os estudiosos descobrem paralelos entre o livro dos Provérbios e coleções de dizeres dos sábios do Oriente extra-bíblico: não somente as idéias, mas também as expressões são, por vezes, as mesmas.
Entre os documentos egípcios, menciona-se:

  • Instrução de Ptah-hotep, que recomenda cuidado ao falar (Pr 12,17-19), ao receber presentes (Pr 15,17); elogia a solicitude para com os pobres (Pr 21,13), o filho sábio que alegra seus pais (Pr 10,1).
  • a Instrução de Amenemope, que muito se aproxima de Pr 22,17-24,22 (Palavras dos Sábios);
  • a Instrução de Meri-Ka-re, que exorta à serenidade (Pr 15,17; 26,21).

Entre os documentos não egípcios, merece atenção a sabedoria de Aquior, famoso personagem assírio, que recomenda a atenção reverente às palavras dos sábios (Pr 4,22; 16,24), a necessidade de preservar o coração (Pr 4,23), a Providência Divina (16,1.9).

Não nos surpreende essa afinidade de Provérbios com textos dos sábios não israelitas. A experiência da vida e as normas que ela dita, são as mesmas em todos os povos, independentemente das respectivas crenças religiosas. Essa sabedoria humana e universal foi assumida pelo autor sagrado, que a reconsiderou sob a luz dos seus princípios de fé: a vida e o comportamento do homem são colocados em relação com o Criador (Pr 17,5; 22,19); é o Senhor quem tudo vê e providencia, e não o homem ou o rei (Pr 5,21; 15,3); Ele pune a iniqüidade (Pr 24,18; 25,22); assume a si a causa dos pequeninos (Pr 17,5; 22,22s; 23,10s). Assim os clássicos dizeres dos sábios orientais são aprofundados e mais valorizados em Pr.

4. Os escritores do Novo Testamento parecem aludir, mais de uma vez, a Pr 8,22-36, passagem em que a Sabedoria é personificada. Cristo é dito Sabedoria e Poder de Deus em 1Cor 1,24.30; Cl 2,3; existia junto ao Pai desde toda a eternidade (Pr8,22s = Jo 1,1; 8,58); por Ele tudo foi feito (Pr 8,24-31 – Jo 1,3; Cl 1,16); habitou entre os homens por própria iniciativa (Pr 8,31 = Jo 1,14) ; a estes comunica verdade e vida (Pr 8,32-36 = Jo 14,6; Lc 11,9s).

A Liturgia adapta a Maria Virgem os textos de Pr 8,22-36. Este procedimento é justificado, pois Maria foi a sede da Sabedoria e a obra-prima da Sabedoria Divina; a estes títulos, ela participa do elogio da Sabedoria.


Para aprofundamento:
GRELOT, P., Introdução à Bíblia. Ed. Paulinas 1971.
GRUEN, W., O tempo que se chama hoje. Ed. Paulinas 1977.
VAN DEN BORN, A., Dicionário Enciclopédico da Bíblia, verbetes Provérbios e Salmos. Ed. Vozes 1971.

Perguntas sobre os livros dos Salmos e dos Provérbios

1) Como é que um cristão pode rezar os salmos imprecatórios ?
2) Como é que o Sl 72 (73) encara o problema do mal? Como o resolve?
3) Compare Sl 21(22), 2 e Mt 27,46. Como é que Jesus podia rezar o Sl 21(22)?
4) Leia 1Rs 3,4-15 e diga como se exprimia a sabedoria de Salomão.
5) Compare entre si a Sabedoria e a Loucura em Pr 9,1-6 e 9,13-18. Quais as diferenças?