Meditação para a Sexta-feira da 4ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Consideraremos as desconsolações debaixo de um novo ponto de vista:

1.º Como um corretivo do amor-próprio;

2.° Como uma lição de humildade.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos humilharmos diante de Deus por essas desconsolações nos nossos exercícios;

2 De nos humilharmos diante dos homens, reputando todos os outros melhores do que nós, e aceitando todos os desprezos ou faltas de atenção.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Senhor em Isaías:

“Para quem olharei eu senão para o pobrezinho e quebrantado de espirito?” – Ad quem respiciam, nisi ad pauperculum et contritum spiritu? (Is 66, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos o imenso amor de Jesus Cristo por nós. Da mesma subtração das Suas graças, ensina-nos a tirar a preciosa graça da humildade, como outrora fez sair a água da pedra para apagar a sede ao Seu povo, um excelente mel das fendas da rocha, e um azeite delicioso dos mais duros rochedos (1). Louvemo-lO por um procedimento tão cheio de amor.

PRIMEIRO PONTO

As Desconsolações são um corretivo do Amor-Próprio

O homem é tão naturalmente induzido ao orgulho, que tudo o que o eleva expõe-o a cair; tudo o que o santifica, logo que ele o adverte, expõe-o a pecar, e as mesmas graças de Deus se lhe convertem na mais delicada tentação. Seja cheio de sensível fervor, aflua a graça de todas as partes à sua alma e a faça nadar na alegria e nas delícias, imediatamente o amor-próprio lhe diz baixinho, que esse fervor é obra sua, que Deus deve estar contente com ele, que ele progride nas virtudes; que vale mais que outros, cujo exterior parece indicar um interior frio e distraído. É o que explica o amor-próprio tão melindroso de certas almas, piedosas aliás, e a queda de mais que um solitário do deserto depois de oito anos de fervor.

O amor-próprio então nutre-se de tudo o que julgamos ser amor de Deus. Estamos tão contentes de nós, que nem sequer pensamos em nos desprezarmos e nos colocarmos no mais ínfimo lugar. — Mas retirem-se as desconsolações, chegue o fervor; então não mais amor-próprio, não mais tentações de nos julgarmos superiores aos outros; então a humildade é fácil, e a pouca virtude que há em nós está mais segura. Nunca se conserva melhor um tesouro do que na obscuridade. Nunca a formosura conserva melhor o seu brilho do que velada. Eis aqui porque o autor da Imitação nos dirige estas belas palavras:

“Quando recebeis a consolação espiritual, compreendei que é um dom de Deus e não um mérito vosso. Não vos ensoberbeçais, não vos alegreis demasiado, nem vos deixeis possuir de uma vã presunção; mas sede mais humildes e conservai-vos mais acautelados e timoratos” (II Imitação 9, 4)

A Deus só toda a honra e todo o louvor, a nós a vergonha e a confusão. É este o fruto que tiramos da nossa sequidão, da nossa distração, das nossas desconsolações na oração? Saímos nós dela menos melindrosos, menos cheios de amor-próprio, mais dispostos a desprezar-nos, a julgar-nos menos que os outros? São as vistas de Deus permitindo estas desconsolações. Correspondemos nós ao Seu alto desígnio?

SEGUNDO PONTO

As Desolações são uma poderosa lição de Humildade

Vemos muitas vezes em torno de nós almas santas, que oram de todo o seu coração, que mostram que só respiram o santo amor; e nós, ao seu lado, somos frios como gelo, nada podemos tirar de nós mesmos. Deus permite este contraste para nos indicar, que somos nada; que, longe de termos algum direito à estima, ninguém há mais miserável do que nós; que toda a estima de nós mesmos é mentira, e que merecemos ser desprezados por toda a criatura. Oh! Quão boas são estas trevas, em que se perde o amor-próprio! Quão preciosa é esta insensibilidade, em que a estima de nós mesmos acha a morte! É então que a alma, confundida da sua fraqueza, se prostra humildemente diante do trono de Deus, O adora confessando o seu nada, se admira de ter padecido na Sua presença, e se aniquila diante da Sua eterna majestade. Na confusão, em que a lança a sua insensibilidade, ela não ousa pretender, que lhe voltem as consolações; porque as delícias da piedade, diz ela consigo, são criadas para as almas santas; quanto a mim, pecador que sou, indigno de que fixe a Sua vista e pense em mim, acho muita honra em estar aqui a Seus pés para satisfazer à Sua justiça com as privações, as desconsolações, os combates, e dizer-Lhe, mostrando-me a Ele na minha pobreza:

Ó meu Deus, quão pouco valho! Sim, na verdade, eu sou todo o mal, e Vós sois todo o bem; não sou senão trevas, e Vós sois toda a luz; senão insensibilidade, e Vós sois a consolação; senão pobreza, e Vós sois toda a riqueza. A partilha é para mim humilhante, mas é gloriosa para Vós, e disso me alegro: consola-me que as minhas misérias façam sobressair as Vossas perfeições e sirvam para a Vossa glória. Sinto complacência no meu nada e na minha ignorância, contente de que só Vós sejais louvado e glorificado! (2)

Oh! Se nós soubéssemos fazer este uso das nossas desconsolações, como elas nos obrigariam a crescer em humildade, e atrairiam sobre nós a vista benévola d’Aquele que disse:

“Para quem olharei eu senão para o pobrezinho e quebrantado de espírito?” – Ad quem respiciam, nisi ad pauperculum et contritum spiritu? (Is 66, 2)

Então se realizaria em nós a verdade desta palavra, que a melhor oração é a de que se sai mais humilde.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ut suggeret mel de petra, oleumque de saxo durissimo (Dt 32, 13)

(2) Soli Deo honor et gloria

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 58-61)