Meditação para o Sábado da 4ª Semana depois da Páscoa. A Desconsolação como um meio de crescer no amor de Deus

Meditação para o Sábado da 4ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Consideraremos as desconsolações como um meio de crescer no amor de Deus:

1.° Porque fazem sobressair a Sua bondade;

2.° Porque dispõem a alma a que Lhe tenha um amor mais vivo;

3.° Porque fazem que Lhe tenha um amor mais puro.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De bendizermos a Deus nas desconsolações, e de exaltarmos o Seu amor, que desce até à nossa miséria;

2.° De O chamarmos a nós com santos desejos muitas vezes repetidos, tais como estes:

“Vinde a mim, ó Jesus! Vinde em meu auxílio; ame-Vos eu, Senhor” – Veni, Domine Jesu,… Deus, in adjutorium meum intende… Diligam te Domine

Estas palavras nos servirão de ramalhete espiritual.

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus escondendo-se de Maria e de José na peregrinação, que fez a Jerusalém na idade de doze anos. Os seus aflitos pais buscam-O e acham-O ao cabo de três dias. É assim, que Ele muitas vezes se esconde da alma; ela busca-O, acha-O, e ama-O mais. Era o que Ele queria: porque tudo é amor na conduta de Deus para com as almas. Bendigamo-lO por esta bondade, e roguemos-Lhe que aumente o nosso amor pelas mesmas desconsolações.

PRIMEIRO PONTO

Nas Desconsolações, a alma fiel preza mais a Bondade de Deus

Toda a gente compreende, que o amor é tanto mais apreciável quanto de mais alto parte e mais baixo desce; que quanto mais extrema é a miséria de uma pessoa, mais admirável seria a bondade do monarca, que descesse a sua afeição até ela. Ora é na desconsolação, que a alma se vê mais miserável, pobre, desprezível, abjeta; por conseguinte é então que mais preza a bondade de Deus. Como sucede, diz ela consigo, que o Deus eterno se digne amar-me; que não só me não desampare, sendo eu tão indigna da Sua atenção, mas que venha a mim pela Sua graça; que se digne neste mesmo momento mostrar-me a minha miséria, que sem Ele eu não teria visto; que se una a mim pela comunhão, que me prodigalize os Seus dons na ordem natural e na ordem sobrenatural? Ó amor incompreensível! Que Ele ame os misericórdias! (1). É assim, que as desconsolações fazem prezar mais a bondade de Deus. E nós nem sequer pensamos nestes diversos estados que poderiam ser-nos tão proveitosos debaixo deste ponto de vista!

SEGUNDO PONTO

Nas Desconsolações, a alma fiel busca a Deus com um Amor mais Vivo

A ausência de uma pessoa amada torna-a mais prezada, quando a achamos, e o coração sente-se possuído para com ela de um amor mais vivo. Enquanto um filho vê a sua mãe, parece esquecê-la, e só pense nos seus brinquedos; mas esconda-se ela um instante, logo ele chora, a chama; e depois que ela aparece, abraça-a, e ama-a mais do que antes. É porque a falta da sua mãe lhe fez sentir o que ela valia, e duplicou o amor que lhe tinha. Da mesma sorte, quando Deus se esconde na noite das desconsolações e privações, só é para fazer que O desejem mais, para nos fazer sentir melhor o que vale a Sua posse, e nos ensinar a conservá-lO com mais cuidado, quando temos a felicidade de O possuir. Apenas a Esposa dos cantares perdeu aquele que a sua alma amava, busca-o em sua casa, busca-o pelas ruas da cidade, pergunta por ele a todos os que elá encontrava. Não o acha ainda (2): busca-o de novo; acha-o afinal; e o seu amor tornado mais vivo pela ausência, exclama:

“Achei aquele a quem ama a minha alma; aferrei dele e não o largarei” – Juveni quem diligit anima mea: tenui eum, dimittam (Ct 3, 4)

Oh! Porque não apreciamos nós do mesmo modo a felicidade de possuir a Deus! A Sua ausência pela desconsolação faria que o desejássemos mais vivamente, que O buscássemos com mais ardor, que O achássemos com mais amor, e O guardemos em nós com mais cuidado.

TERCEIRO PONTO

Nas Desconsolações, a alma fiel tem a Deus um Amor mais Puro

Muitas vezes na piedade buscamo-nos a nós mesmos: queremos amar a Deus, mas com a condição de acharmos prazer nesse amor. Buscamos menos o Deus das consolações do que as consolações de Deus. Recreamo-nos com os gozos interiores; e amando a Deus, é a nós mesmos que amamos. Mas a desconsolação depura este misto do próprio interesse, e aperfeiçoa a pureza das nossas intenções. A alma que ama, então ama a Deus por ser Ele quem é, com um amor desinteressado, que só é sustentado pela fé. Oh! Quão agradável a Deus é a alma neste estado! Deus só lhe basta e a contenta: Deus só no entendimento, sem nenhum raio de luz; Deus só na vontade, sem nenhuma chama de fervor; Deus só no coração, sem nenhuma doçura de consolação! Consiste nisto o mérito, consiste
nisto a perfeição! Aspiremos a este estado, e peçamo-lo a Deus.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Misericordias Domini in aeternum cantabo (Sl 88, 2)

(2) Quaesivi illum, et non inveni (Ct 3, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 61-64)