A quarta etapa do nosso Curso apresenta a exegese de textos bíblicos seletos, a começar pela “pré-história bíblica” (Gn 1-11).

Lição 1: A pré-história bíblica

A seção de Gn 1-11 chama-se “pré-história bíblica” porque se refere a acontecimentos anteriores à história bíblica, que começou com o Patriarca Abraão (séc. XIX ou 1850 a.C.). Por conseguinte, a pré-história bíblica não coincide com a pré-história universal, que vai desde tempos imemoriais até o aparecimento da escrita (8000 a.C.?).

O gênero literário dessa seção é o da história religiosa da humanidade primitiva. O autor sagrado não intencionou propor teses de ciências naturais, mas quis apresentar, em linguagem simbolista, alguns fatos importantes que constituem o fundo de cena e a justificativa da vocação de Abraão. Tais seriam:

1) a criação do mundo bom por parte de Deus, a elevação do homem à filiação divina e a violação dessa ordem inicial pelo pecado (Gn 1,1 -3,24);

2) o fratricídio de Caim, conseqüência do fato de que o homem abandonou a Deus; perdeu também o amor ao seu semelhante (Gn 4,1-16);

3) a linhagem dos cainitas, que mostra o alastramento do pecado (Gn 4,17-24);

4) a linhagem dos setitas ou dos homens retos (Gn 5,1-32);

5) o dilúvio, provocado pela propagação do pecado (Gn 6,1-9,28);

6) a tabela dos setenta povos (Gn 10,1-32);

7) a torre de Babel, nova expressão do pecado (Gn 11,1-9);

8) as linhagens dos semitas (Gn 11,10-26) e dos teraquitas (11,27-32), que fazem a ponte até o Patriarca Abraão.

Em síntese:

O mundo, criado bom, à Fratricídio à Genealogias à Dilúvio é violado pelo pecado (4,1 -16) (4,17-5,32) (6-9) (gn1-3) à Tabela à Babel à Genealogias (10) (10) (11,1-9) (11,10-32).

Desta maneira, o autor mostra que Deus fez o mundo bom e convidou o homem para o consórcio da sua vida (ordem sobrenatural). Todavia o homem disse Não. Deus houve por bem reafirmar seu desígnio de bondade, prometendo restaurar, mediante o Messias, a amizade violada pelo pecado (Gn 3,15). Este foi-se alastrando cada vez mais, como atestam os episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel. Então, para realizar seu intento de reconciliação do homem com Deus, o Criador quis chamar Abraão para constituir a linhagem portadora da fé e da esperança messiânicas. Assim chegamos a Gn 12 (a vocação de Abraão).

Passemos agora à consideração de cada qual dos blocos integrantes de Gn 1 -11.

Lição 2: O hexaémeron (Gn 1,1-2,4a)

O primeiro bloco não é unitário, mas consta de duas narrações: Gn 1,1- 2,4a, a obra dos seis dias (hexaémeron, em grego), da fonte P (século V a.C.), e Gn 2,4b-3, 24, da fonte J (séc. X a.C.)¹. Isto se deduz do estilo e do vocabulário próprios de cada uma dessas seções como também do fato seguinte: em Gn 2,1 -4a o mundo está terminado, o homem e a mulher foram criados; todavia, em Gn 2,4b.5, o autor sagrado afirma que não havia arbusto, nem erva, nem chuva, nem homem, e narra a criação do homem a partir do barro como se ignorasse a criação já narrada em Gn 1,27.

Se, pois, há duas peças literárias justapostas em Gn 1,1-3,24, é preciso estudar cada uma de per si, pois cada qual tem sua mentalidade e sua mensagem próprias. Comecemos pelo hexaémeron (Gn 1,1-2,4a).

Para poder depreender a mensagem deste trecho bíblico, precisamos, antes do mais, observar a sua forma literária.

Ora verifica-se que tal peça apresenta um cunho fortemente artificioso: após a introdução (1,1 s), o autor descreve uma semana de seis dias de trabalho e um de repouso; os dias de trabalho poderiam dispor-se em duas séries paralelas, das quais a primeira trata da criação das regiões do mundo e a segunda aborda a povoação dessas regiões, como se vê abaixo:

Ora verifica-se que tal peça apresenta um cunho fortemente artificioso: após a introdução (1,1 s), o autor descreve uma semana de seis dias de trabalho e um de repouso; os dias de trabalho poderiam dispor-se em duas séries paralelas, das quais a primeira trata da criação das regiões do mundo e a segunda aborda a povoação dessas regiões, como se vê abaixo:

Notemos também que cada um dos dias da criação é descrito segundo fórmulas que se repetem e que constituem estrofes de um hino litúrgico:

“Deus disse… E houve… E assim se fez… E Deus chamou… E Deus viu que era bom… Deus fez… Deus abençoou… Houve tarde e manhã… dia”.

A imagem do mundo pressuposta pelo autor é bem diferente da nossa: haveria a região dos ares, a das águas e a da terra. Esta seria uma mesa plana, pousada sobre colunas; debaixo da terra haveria as águas donde emergem as fontes, e também a região dos mortos ou o cheol. A luz era concebida como algo independente do sol e das estrelas, pois mesmo nos dias em que o sol não brilha, temos luz (por isto a luz é criada no 1º dia, ao passo que os astros no 4º dia). A vegetação seria o tapete verde inerente à terra; por isto terá sido criada no 3º dia, anteriormente ao sol. – Tais concepções podem parecer irrisórias ao leitor moderno; notemos, porém, que elas não são objeto de afirmação da parte do autor sagrado; o autor se refere a elas tão somente para propor uma mensagem religiosa a respeito do mundo e do homem, sem tencionar definir algum sistema de cosmologia. A propósito veja-se a noção de inspiração bíblica no Modulo l da 1ª Etapa deste curso.

Pergunta-se, pois: qual a mensagem de Gn 1,1-2,4a?

Lição 3: A mensagem do hexaémeron

Três são as finalidades do texto em foco:

1) Antes do mais, o texto quer incutir a lei do repouso do sétimo dia (sábado). Com efeito, imaginemos um grupo de sacerdotes recebendo fiéis judeus para celebrarem o culto do sábado²: era óbvio que explicassem a esses fiéis o porquê daquela assembléia e do repouso do sétimo dia. Conceberam então um hino litúrgico, no qual Deus é apresentado a trabalhar no quadro de seis dias úteis e a repousar no sétimo dia; em vez de fabricar mesas ou cadeiras, como o homem, o Senhor Deus terá fabricado o mundo. O importante, porém, é que nesse hino Deus observa o repouso do sétimo dia. Esse exemplo imaginário do Senhor seria a melhor recomendação da lei do sábado; o homem deveria, pois, trabalhar em seis dias e no sétimo dia afastar-se do trabalho para, no repouso, elevar mais detidamente o seu espírito a Deus. O exemplo divino é evocado em Ex 20,11. Deve-se notar, porém, que a lei do sábado é anterior ao texto do hexaémeron (séc. V a.C.); ela decorre do ritmo natural da Lua, muito importante para os trabalhadores rurais (de sete em sete dias a Lua passa de nova para crescente, de crescente para cheia…). Por conseguinte, Deus repousa poeticamente por causa do ritmo da semana do homem, e não vice-versa.

Alguns perguntarão: o cristão não deveria então observar o sábado assim incutido? – A propósito lembramos que a palavra sábado vem deshabbath. A Bíblia prescreve o repouso do sétimo dia (cf. Ex 20,8-11) sem definir qual deva ser o primeiro dia da semana. Ora os cristãos sabem que Jesus ressuscitou no dia seguinte ao sétimo dia (sábado) dos judeus; por isto começaram a contar os dias da semana no segundo dia (ou na segunda-feira) dos judeus para fazer o sétimo dia coincidir com o da ressurreição de Jesus. Assim fazendo, os cristãos observam todo sétimo dia (sábado); não é a materialidade do nome sábado que importa, mas é a observância de todo sétimo dia; o domingo dos cristãos vem a ser o sábado (sétimo e repouso) dos cristãos.

2) Os autores sagrados quiseram também relacionar o mundo todo (como os hebreus o podiam conhecer) com Deus, mostrando que tudo é criatura de Deus e, por conseguinte, não há muitos deuses. Com outras palavras, estas são as verdades teológicas que o hexaémeron nos transmite:

a) Deus é um só. Não há, pois, astros sagrados (como os caldeus da terra de Abraão admitiam). Nem há bosques sagrados (como os cananeus da nova terra de Abraão professavam). Nem há animais sagrados (como os egípcios, entre os quais viveu Israel, professava).

b) Deus é bom e, por isto, fez o mundo muito bom. Se há mal no mundo, não vem de Deus, mas do homem (como explica o relato de Gn 3). Os autores assim rejeitavam toda forma de dualismo ou de repúdio à matéria como se fosse essencialmente má.

c) O mundo não é eterno, mas foi criado por Deus e começou a existir. Afirmando isto, o texto sagrado não tenciona dirimir a questão “fixismo ou evolucionismo?”, mas apenas assevera que a matéria e o espírito têm origem por um ato criador de Deus; qualquer teoria científica que admita isto, é aceitável aos olhos da fé.

d) O homem é o lugar-tenente (imagem e semelhança) de Deus, não por sua corporeidade (Deus não tem corpo), mas por sua alma espiritual, dotada de inteligência e vontade. Tenhamos em vista o relevo que o autor dá à criação do homem: quebrando o esquema habitual, o texto refere as palavras de Deus:

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança…”

(Façamos é um plural intensivo, que põe em realce a grandeza do sujeito falante). Note-se, aliás, que não há origem diversa, neste texto, para o homem e para a mulher, mas ambos surgem simultaneamente.

e) O casamento é abençoado por Deus, tornando-se uma instituição natural, que não
depende dos deuses da fecundidade admitidos fora do povo bíblico.

f) O trabalho do homem é continuação da obra de Deus; é santo, qualquer que seja a sua modalidade, desde que executado em consonância com o plano do Criador.

De maneira geral, pode-se dizer que toda a tendência do hexaémeron é apresentar o homem como mediador entre o mundo inferior e Deus; esse mediador exerce, por sua posição e sua atividade na terra, um sacerdócio ou a missão e fazer que todas as criaturas irracionais, devidamente utilizadas pelo trabalho do homem, dêem glória ao Criador.

3) Pode-se também dizer que o autor sagrado, utilizando o esquema 6†1=7, quer realçar a índole boa da obra de Deus. Sete é, sim, um símbolo de perfeição conforme os antigos; essa índole é enfatizada pelo fato de se pôr em evidência a sétima unidade (há seis dias de trabalho, homogêneos entre si, e um último, o sétimo, de índole diferente). Estes ensinamentos, como se vê, não pretendem dirimir questões de ciências naturais. Podem parecer pobres aos olhos de quem procura na Bíblia uma resposta para indagações de astronomia, cosmologia, geologia, botânica, zoologia… Todavia, são de enorme valor, pois nenhum povo anterior a Cristo, fora Israel, chegou a tão sublime conceito de Deus e de origem do mundo. O Deus da Bíblia é o Senhor único que, com sua onipotência, domina a natureza; por conseguinte, tudo produz a partir do nada ou por sua vontade criadora. Aliás, o verbo bará (= fez), ocorrente em Gn 1,1, é sempre usado na Bíblia para indicar a ação prodigiosa e singular de Deus; cf. Is 48,7; 45,18; Jr 31,22; SI 50(51), 12; 103(104), 30…

Resta ainda observar que os dias do hexaémeron não significam eras ou períodos geológicos. No século passado, quando as ciências naturais mostraram claramente que o mundo não pode ter surgido em seis dias de 24 horas, muitos autores julgaram que os dias de Gn 1 eram períodos longos correspondentes aos da formação do globo terrestre (era azóica, primária, secundária…). Assim a Bíblia teria antecipadamente descrito a origem do mundo, que só a ciência do século XIX conseguiu averiguar! Tal atitude chama-se “concordismo”, porque tenciona obter concórdia (ainda que forçada) entre a Bíblia e as ciências, como se visassem ao mesmo objetivo de narrar os fenômenos físicos da origem do mundo. O concordismo é errôneo por causa deste seu pressuposto. O autor sagrado não tinha as preocupações de um cientista; não queria senão oferecer um ensinamento religioso tal como acabamos de enunciar; por isto ele tinha em mira dias de 24 horas (nos quais houve tarde e manhã, cf. 1, 5.8.13.1923.31); em outras palavras: ele imaginou uma semana como a nossa, mas uma semana que nunca existiu,… a semana na qual Deus, como primeiro trabalhador, teria fabricado o mundo.

Dito isto, ficam ainda abertas certas questões como “monogenismo ou poligenismo?”, “fixismo ou evolucionismo?”, “origem das raças?”… que serão abordadas no Módulo seguinte. Recomenda-se, pois, o estudo deste.


Referências:

(1) A respeito das fontes do Pentateuco, veja 3- Etapa, 1- Subetapa, Módulo I, que aborda sobre o Pentateuco.

(2) Sabemos que o hexaémeron é do Código P ou tem origem em ambientes de sacerdotes

Para ulterior aprofundamento:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia, 11/1. Ed, Vozes, Petrópolis, 1975.
DANIELOU, J., No princípio… Ed. Vozes, Petrópolis.
DE TILLESSE, C.M., Hino da criação, em “Revista Bíblica Brasileira”, ano 1/1, pp. 7-39.
LEON-DUFOUR, X., Vocabulário de Teologia Bíblica, E. Vozes, Petrópolis, verbete Criação.

Perguntas sobre o Hexaémeron

1) Os dias de Gn 1,1-2,4a são dias de 24 horas ou são eras?
2) Como se explica que, conforme o hexaémeron, a luz e a vegetação tenham sido criadas antes do sol?
3) Que é que o hexaémeron quer dizer de válido para todos os tempos?
4) O dia do Senhor é sábado ou domingo?