Meditação para a Décima Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes. Sobre a Soberba

Meditação para a Décima Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o vício mais oposto à humildade, que é a soberba; e veremos:

1.° O que é a soberba;

2.° Como nos deixamos dominar pela soberba.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De vigiarmos bem o nosso interior, para nos guardarmos das sugestões da soberba, da estima própria e do desejo de ser estimados;

2.° De detestarmos a soberba, e de procurarmos todos os dias corrigir-nos dela.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho de Tobias a seu filho:

“Nunca permitais que a soberba domine nos vossos pensamentos ou nas vossas palavras, porque nela teve princípio toda a perdição” – Superbiam nunquam in tuo sensu aut in tua verbo dominari permittas: in ipsa enim initium sumpsit omnis perditio (Tb 4, 14)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus castigando a soberba na pessoa de Lúcifer e dos maus anjos. Apenas estes rebeldes conceberam o primeiro pensamento de se elevarem acima do que eram, logo Deus os precipita do mais alto do céu no mais profundo do inferno, e os faz passar de uma extrema felicidade a uma extrema desgraça. Assim é castigado um simples pensamento de soberba. Ó meu Deus, quem não temerá à vista de tão espantoso castigo? (1)

PRIMEIRO PONTO

O que é a Soberba?

A soberba é um desordenado desejo de nossa própria excelência com respeito aos outros. É um veneno sutil, que se insinua insensivelmente na alma, e corrompe, se não o destruímos, as mais sublimes virtudes. É uma doença mental, que faz perder o juízo, conduz à loucura, não havendo maiores loucos que os soberbos, que se embalam em esperanças ilusórias, e perdem uma eterna glória por uma momentânea. É uma fonte envenenada, de onde dimanam todos os pecados (2); e este mal é mais comum do que se pensa: porque é a soberba que, depois de ter perdido os maus anjos, perde ainda todos os dias grande número de homens. Mal execrando, que não tende a nada menos que a destronar Deus nas almas, arrebatando-lhe a sua glória; mal, que o Espírito Santo por esta razão, diz ser aborrecível a Deus e aos homens (3). Por isso Deus se compraz em confundir os soberbos, primeiramente neste mundo, permitindo que eles caiam em vergonhosos pecados; depois no outro, precipitando-os no mais profundo do inferno, para lá serem eternamente insultados pelos demônios. É esta a ideia que formamos da soberba? E compreendemos nós bem todo o horror que ela deve inspirar-nos?

SEGUNDO PONTO

Como nos deixamos dominar peta Soberba

Deixamo-nos dominar pela soberba de muitas maneiras: por pertinácia, que faz que sigamos a nossa própria opinião contra a dos outros; por vaidade, que faz que nos gloriemos das boas qualidades que julgamos ter; que nos anteponhamos aos outros, e para motivar esta preferência, os olhemos unicamente pelo lado de seus defeitos, que os estimemos pouco, os censuremos, escarneçamos, achemos que censurar em tudo o que fazem, só aprovemos o que fazemos; e que exijamos, que ninguém ache nisto que censurar; por ambição, que é o desejo desordenado das honras e dignidades; por presunção, que faz que nos julguemos capazes de tudo, que empreendamos temerariamente coisas superiores às nossas forças; por jactância, que faz, que falemos de nós em qualquer ocasião, que nos louvemos a cada passo, busquemos dar-nos importância, distinguir-nos; que aspiremos às dignidades; que nos julguemos dignos delas, e pensemos nos meios de as alcançar; por hipocrisia, que faz que mostremos ter mais piedade e virtude, mais talento e capacidade do que realmente temos.

Examinemos a nossa consciência: não existem em nós alguns caracteres de soberba?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si enim sic actum est cum angelo, quid de me fiet terra et cinere (São Bernardo, Sermão 54 in Cant.)

(2) Initium omnis peccati est superbia (Ecl 10, 15)

(3) Odibilis coram Deo est hominibus superbia (Ecl 10, 7)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 160-162)