Meditação para o 18º Domingo depois do Pentecostes. Recorrer a Deus nas aflições

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 9, 1-7

1Depois disto, subiu para o barco, atravessou o mar e foi para a sua cidade. 2Apresentaram-lhe um paralítico, deitado num catre. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados.» 3Alguns doutores da Lei disseram consigo: «Este homem blasfema.»

4Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações? 5Que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados te são perdoados’, ou: ‘Levanta-te e anda’? 6Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder para perdoar pecados – disse Ele ao paralítico: ‘Levanta-te, toma o teu catre e vai para tua casa.»

7E ele, levantando-se, foi para sua casa. 8Ao ver isto, a multidão ficou dominada pelo temor e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

Meditação para o 18º Domingo depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o Evangelho do dia, e aprenderemos:

1.º A recorrer a Deus em todas as penalidades da vida;

2.° A preocupar-nos mais do eterno destino da nossa alma que de todos os males temporais.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos Nosso Senhor confidente de nossas aflições, e de lh’as declararmos;

2.° De antepormos os nossos interesses eternos a tudo o que somente respeita à vida presente.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Senhor, para quem havemos nós de ir? Vós tendes palavras, de vida eterna” – Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes (Jo 6, 69)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo acolhendo com bondade o paralítico do nosso Evangelho e os que lh’o apresentam. Quando se recorre a Ele com confiança, tem-se sempre a certeza de ser bem recebido. Como Ele é bom! Quanto digno é de todo o nosso culto! Ele é o único e verdadeiro amigo das almas! Prostremo-nos à seus pés, e expandamos no seu coração toda a nossa gratidão.

PRIMEIRO PONTO

Devemos recorrer a Deus em todas as penalidades da vida

É o que nos ensina o nosso Evangelho. Logo que Nosso Senhor chegou à sua cidade, isto é, a Cafarnaum, onde era a sua residência mais ordinária, trazem-Lhe um paralítico que jazia no seu leito. A casa e todas as suas entradas estão cheias de gente; e para lh’O apresentar, não acham outro meio senão destelhar a casa, fazerem uma abertura, e arrearam o leito em que estava deitado o enfermo. O exemplo de tão grande fé ensina-nos a recorrer a Deus em todas as penalidades da vida. É porque, efetivamente, Ele é o único que dispõe dos acontecimentos que nos afligem, que nos consola, e nos recompensa. Dispõe deles: porque nada sucede neste mundo senão por vontade ou permissão da Providência, que é sempre cheia de amor e benevolência. Se fere, sara a ferida; se dá o golpe, a sua mão cura (1). Porque pois, em vez de recorrer aos homens, que nada podem, não recorrer a Deus, que pode tudo?

Demais, só é Ele que consola de todos os males. Os homens, como o dizia Jó (2), não são senão consoladores importunos; declaramos-lhe as nossas aflições, e a maior parte não se compadecem delas, ou não sabem dizer-nos palavras de fé, que seriam as únicas que poderiam consolar-nos. Declaremos às nossas tribulações a Deus em uma fervorosa oração ou aos pés do crucifixo, ou em uma visita ao Santíssimo Sacramento, e voltaremos de lá melhores, confortados, consolados.

Finalmente, só Deus nos recompensa dos males cristãmente suportados. Se declaramos as nossas aflições às criaturas, perdemos muitas vezes o seu mérito; o nosso amor-próprio leva-nos a fazer com que nos lastimem e admirem; se delas falamos a nós mesmos, exasperamo-nos, lançamos as culpas a Deus e aos homens, e somente daí tiramos maior tristeza, descontentamento e pecado. Ao contrário, se confessamos as nossas penas a Deus, santificamo-las com a resignação, com a oração, com a esperança dos bens eternos e com a certeza de que a nossa esperança não ficará frustrada.

Reconheçamos diante de Deus o dano que temos causado a nós mesmos, referindo todas as nossas dores e tribulações às criaturas.

SEGUNDO PONTO

O eterno destino da nossa alma deve preocupar-nos mais que todos os males temporais

É o que Nosso Senhor nos ensina no Evangelho deste dia. Os judeus apresentam-lhe o paralítico pedindo-Lhe que cure o seu corpo enfermo. Nosso Senhor responde-lhes, curando-lhe a alma ainda mais enferma. Ilumina-a, comove-a, penetra-a de uma sincera contrição, de um verdadeiro amor de Deus, e diz-lhe:

“Filho, tem confiança, perdoados te são os teus pecados”

A cura do corpo virá, mas será em segundo lugar. O essencial deve antepor-se ao acessório; o céu à terra; o bem eterno ao bem temporal; a alma ao corpo. É assim, que apreciamos as coisas?

O santo pároco d’Ars acendeu um dia por engano a sua alampada com uma nota de banco. A sua criada grita e aflige-se.

«Que pouca fé tens! Lhe diz o santo sacerdote. Se me tivesses visto cometer um pecado venial, nada terias dito, e por um pouco de dinheiro perdido, soltas esses gritos!»

Quantos cristãos há no mundo, que se importam menos com a salvação do que com o seu dinheiro; que temem menos um pecado do que a perda de sua fortuna, de sua honra e reputação! Examinemos se não somos deste número.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ipse vulnerat et medetur, percutit et manus ejus sanabunt (Jó 5, 18)

(2) Consolatores onerosi omnes vos estis (Jó 16, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 40-43)