Meditação para a Terça-feira da 5ª Semana depois da Epifania. Peregrinação de Jesus a Jerusalém

Meditação para a Terça-feira da 5ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Consideraremos Jesus Cristo, na idade de doze anos, indo a Jerusalém entregar-Se no templo aos exercícios da piedade, usados durante os oito dias que durava a festa da Páscoa; admirável lição, que nos ensina que todo o cristão deve ter certos exercícios de piedade regulares, que cumpra fielmente. É:

1.º O  que ensina o exemplo de Jesus Cristo;

2.º O que exige o interesse da nossa salvação.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De compormos um regulamento de vida, que fixe a hora e o modo de fazer cada um dos nossos exercícios;

2.º De nunca nos afastarmos deste regulamento sem verdadeira necessidade, e neste caso, de anteciparmos o exercício, se podemos prever o transtorno; senão, de o continuarmos no primeiro momento livre.

O nosso ramalhete será a palavra de Nosso Senhor a Maria:

“Importa ocupar-me nas coisas que são do serviço de meu Pai” – In his quae Patris mei sunt oportet me esse (Lc 2, 49)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo oculto, desde o Seu regresso do Egito, na morada de Nazaré, e não saindo dela senão para ir orar no templo, quando São José e Maria lá o conduzem. Sigamo-lO pelo pensamento nesta piedosa peregrinação. Que santas conversações durante todo o caminho! Que recolhimento de espírito! Que união com Deus! Tributemos os nossos respeitos a Jesus, Maria e José.

PRIMEIRO PONTO

O exemplo de Jesus Cristo ensina-nos que devemos ter certos exercícios de piedade regulares, que cumpramos fielmente

Sem dúvida Jesus em Nazaré Se entregava a certos exercícios de piedade, com Maria e José. Nós não conhecemos as Suas particularidades, mas podemos conjecturá-las pela Sua ida a Jerusalém: Ele que era o templo da divindade, nenhuma necessidade tinha de fazer essa jornada para honrar a Seu Pai; mas tinha tanto a peito dizer-nos, com o Seu exemplo, que não desprezássemos nenhum exercício exterior de religião e de piedade, que pouco Lhe custa fazer a pé, de Nazaré a Jerusalém, uma jornada de trinta léguas. Depois de chegar ao templo, ali passa, não só os oito dias que durava a festa da Páscoa, mas também os três dias seguintes, e lá se demoraria muito mais, se não viessem buscá-lO. Não se diz nem para onde se retirou durante este tempo, nem se tomou algum alimento, porque, provavelmente, ficava de noite e de dia no templo ou nas suas vizinhanças; e porque o Seu principal alimento era fazer a vontade de Seu Pai; mas o que se sabe, é que Ele assistia assiduamente aos exercícios religiosos; ali adorava, orava, ouvia a palavra divina. E quem poderia dizer com que modéstia, com que espírito interior assistia aos sacrifícios e às orações! Com que atenção, com que respeito e fervor falava a Deus! Quanto o Seu exemplo excitava à piedade todos os que o viam! Com isto, ensinava-nos a fazer do oratório ou da igreja a nossa mais prezada morada, assim como dos exercícios espirituais as nossas principais delícias; a escolher sempre o lugar em que poderemos melhor fazê-los; a não omiti-los senão com má vontade, quando nos são impossíveis, e a continuá-los logo que pudermos. São estas as nossas disposições?

SEGUNDO PONTO

O interesse da nossa salvação exige que tenhamos certos exercícios de piedade regulares, que cumpramos fielmente

Estes exercícios consistem em refletir e orar. Se não refletirmos, perdemos de vista a nossa salvação, a nossa eternidade, a nossa alma, a nossa fé. Se não oramos, a graça falta, a natureza prevalece e perde- nos. Se, ao contrário, refletimos seriamente cada dia a respeito de Deus, dos meios de nos salvarmos, reavivamos cada dia no nosso coração o fogo sagrado; e se oramos, atraímos sobre nós a graça que ajuda a fraqueza humana, a graça que forma os santos. Estes exercícios são para a alma o que o alimento é para o corpo: se lhos recusamos, desfalece e morre (1). São para a alma o que o azeite é para a alampada: se o não renovamos, a luz extingue-se e é substituída por um fumo negro e maléfico. São para ela o que a lenha é para o fogo: por falta de lenha, o fogo pára; da mesma sorte, sem os nossos exercícios espirituais, o coração entibia-se, resfria-se. São para ela, finalmente, o que a arma é para o soldado: quando este sagrado escudo já nos não cobre, somos logo abatidos e derrotados pelo mundo e pelas paixões. Enojados de nós mesmos, buscamos a sociedade, contraímos o seu veneno, imitamos os seus maus exemplos, e entregamo-nos a uma vida toda natural, dissipada, sensual, às conversações frívolas, aos passatempos inúteis; daí deixamo-nos dominar pelas paixões que se agitam no nosso coração, do amor-próprio e do nosso bem-estar; daí culpas inevitáveis, e a perda da salvação.

Examinemos se cumprimos fielmente os nossos exercícios espirituais, e cumprindo-os, como os fazemos? Temos nós um regulamento de vida que fixe a hora e o modo de os cumprir?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Arruit cor meum, quia oblitus sum comedere panem meum (Sl 101, 4)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 277-279)