Capítulo I

“Eis que teu rei vem a ti cheio de mansidão, montado sobre uma jumenta e um jumentinho, filho da que tem jugo” (Mt 21,5).

Nosso Redentor, avizinhando-se o tempo de sua paixão, parte de Betânia para entrar em Jerusalém. Que humildade de Jesus Cristo em querer entrar nessa cidade sentado sobre um jumento, sendo ele o rei do céu. Ó Jerusalém, contempla o teu rei, como ele vem humilde e manso. Não temas que ele venha para reinar sobre ti e apossar-se de tuas riquezas; não, ele vem todo amor e cheio de compaixão para salvar-te e trazer-te a vida com sua morte. Entretanto, o povo, que já o venerava por causa de seus milagres e especialmente por causa da ressurreição de Lázaro, vem ao seu encontro. Uns estendem suas vestes sobre o caminho em que devia passar, outros espalham folhagens de árvores para o honorificar. Quem diria então que esse Senhor, recebido com tantas honras, dentro de poucos dias teria de aparecer aí mesmo como réu condenado à morte com uma cruz às costas?

Meu caro Jesus, quisestes, pois, fazer essa entrada solene para que vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa quanto maior fora a honra recebida. Os louvores, que agora vos dá essa ingrata cidade, em poucos dias serão transformados em injúrias e maldições. Agora vos dizem:

“Hosana ao Filho de Davi, bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9).

E depois levantarão a voz, dizendo: Tira-o, tira-o, crucifica-o. Agora despojam-se de suas próprias vestes, e depois vos despojarão das vossas para vos flagelar e crucificar. Agora cortam as palmas para as colocar debaixo dos vossos pés e depois cortarão ramos de espinhos para com eles vos atravessarem a cabeça. Agora vos bendizem e louvam e depois vos encherão de contumélias e blasfêmias. Ao menos tu, minha alma, dize-lhe com amor e gratidão: Bendito o que vem em nome do Senhor. Meu amado Redentor, sede sempre bendito, já que viestes salvar-me: se não tivésseis vindo, estaríamos todos perdidos.

“E tendo-se aproximado e vendo a cidade, chorou sobre ela” (Lc 19,14).

Jesus, ao se aproximar da infeliz cidade, a contemplou e chorou, pensando na sua ingratidão e ruína. Ah, meu Senhor, vós, chorando então sobre a ingratidão de Jerusalém, choráveis também sobre a minha ingratidão e a ruína de minha alma. Meu amado Redentor, vós chorais vendo o dano que eu mesmo me causei, expulsando- vos de minha alma e obrigando-vos a condenar-me ao inferno depois de haverdes morrido para me salvar. Oh! deixai que eu chore, pois é a mim que compete o chorar ao considerar o mal que vos causei, ofendendo-vos e separando-me de vós, que tanto me amastes. Eterno Pai, por aquelas lágrimas que vosso Filho derramou sobre mim, dai-me a dor de meus pecados. E vós, ó amoroso e terno Coração de meu Jesus, tende piedade de mim, pois eu detesto acima de todos os males os desgostos que vos dei e estou resolvido a nada mais amar afora vós.

Jesus Cristo, tendo entrado em Jerusalém e se ocupado o dia inteiro com a pregação e cura dos enfermos, pela tarde não encontrou ninguém que o convidasse a repousar em sua casa; viu-se por isso obrigado a voltar novamente a Betânia. Meu amado Senhor, se os outros vos expulsam, eu não quero expelir-vos. Houve, é verdade, um tempo desgraçado em que eu vos expulsei de minha alma: agora, porém, estimo mais estar unido a vós do que possuir todos os reinos do mundo. Ah, meu Deus, o que poderá jamais separar-me do vosso amor?

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