Meditação para a Terça-feira da Quarta Semana da Quaresma. O Firme Propósito

Meditação para a Terça-feira da Quarta Semana da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos sobre o firme proposito que faz parte essencial da contrição, e veremos:

1.° Qual é a sua natureza e absoluta necessidade;

2.° Quais são os seus caracteres.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos com cuidado todas as ocasiões de pecado;

2.° De não desprezarmos meio algum de nos tornarmos melhores, por mais sacrifícios que isto nos custe, por mais preciso que nos seja violentar-nos.

O nosso ramalhete espiritual será as palavras do Salmo:

“Jurei, Senhor, e determinei guardar os juízos de vossa justiça” – Juravi, et statui custodire judicia justitiae tuae (Sl 118, 106)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito de Deus inspirando aos santos de um e outro Testamento um firme propósito, tão enérgico como constante, da vida perfeita. Davi exclama:

«Eu aborreço e abomino o pecado: disse: agora começo, esta mudança vem da destra do Altíssimo» – Iniquitatem odio habui et abominatus sum (Sl 118, 163). Dixi. Nunc caepi: haec mutatio dexterae Excelsi (Sl 76, 11)

São Pedro deixa escapar de seus olhos duas fontes inexauríveis de lágrimas e repara o seu pecado com uma vida toda de sacrifício; Madalena converte as suas chamas profanas em um incêndio de amor; os mártires levam para o cadafalso o firme propósito de não fraquear na fé; Santo Inácio e São Francisco Xavier renunciam ao mundo e à sua glória, para cuidarem unicamente da sua própria salvação.

Louvemos o Espírito Santo, que infundiu àquelas grandes almas estas sublimes resoluções, e neste intuito prestemos-Lhe todos os nossos respeitos.

PRIMEIRO PONTO

Natureza e necessidade do Firme Propósito

O firme propósito, muito diferente dessas veleidades, de que o inferno está cheio, desses desejos esterais, que nos deixam sempre os mesmos, é uma decisão enérgica, uma resolução tomada de mudar de vida, por mais que isso custe, de ser para o futuro solidamente virtuosos, ainda que seja necessário constrangermo-nos e sacrificar muitas repugnâncias. A alma, depois deste firme propósito, não diz: «Eu bem quisera não recair»; mas diz com energia:

«Assim o quero; é uma resolução formal; se fosse a recomeçar, preferiria perder tudo, sofrer tudo, a cometer o pecado de que me tomei culpada»

É finalmente uma deliberação, como a que toma um homem do mundo, de não fazer certa coisa, que arriscaria a sua fortuna, a sua honra, a sua liberdade, a sua vida.

— Assim compreendido, o firme propósito é inerente à contrição e confunde-se com ela, pois que o pesar do passado encerra necessariamente a vontade de fazer o contrário. Os motivos de uma são essencialmente os motivos do outro, de sorte que sem firme propósito não pode haver verdadeira contrição, por conseguinte nem sacramento, nem justificação. Deus não pode perdoar o pecado senão quando se está resolvido a não recair, e seria fazer-Lhe uma nova ofensa, dizer-Lhe: «Acuso-me e arrependo-me» quando no fundo do coração se está disposto a renovar o pecado, se se apresentar a ocasião, diz Lactancio (1).

Entremos aqui em nós mesmos; quantas confissões, na nossa vida, sem resolução séria, sem decisão tomada de nos corrigirmos; de outra sorte, seriamos sempre os mesmos!

SEGUNDO PONTO

Caracteres e sinais do Firme Propósito

O firme propósito deve, como a contrição, ser:

1.° Universal, isto é, estender-se a todos os pecados sem exceção. Com Deus, é tudo, ou nada (2); mas deve aplicar-se principalmente aos pecados habituais, isto é, àqueles a que o coração tem uma afeição que o faz recair facilmente e sem grande resistência, que até o leva a buscar as ocasiões de o cometer. Está ali o verdadeiro perigo da alma, o lado fraco da praça que temos a defender do demônio; para ali, por conseguinte, deve tender principalmente o nosso firme propósito.

2.° O firme propósito deve ser sumo, isto é, superior a todas as inclinações até extingui-las, a todas as dificuldades até vencê-las, se o serviço de Deus o exigir. Deus deve prevalecer a tudo: é este o seu direito.

3.° O firme propósito deve ser prático, isto é, descer da resolução geral aos meios de atingir o fim proposto:

– O primeiro é a oração, canal da graça, sem a qual nada podemos;

– O  segundo é a vigilância sobre o que se diz e se faz, sobre o que se ouve e se ver sobre os nossos pensamentos, as nossas intenções, as nossas faltas mais frequentes, mormente sobre a nossa paixão dominante; e esta vigilância deve ter por objeto principal separarmo-nos das ocasiões de pecado e castigarmo-nos depois de cada queda.

– O terceiro meio é a mortificação, única que pode fazer voltar à ordem a nossa má natureza, terminar a sua distração e extinguir a paixão, recusando-lhe o que a lisonjeia.

4.° O firme propósito deve ser perseverante. Não vale nada querer o bem por certo tempo; é preciso querê-lo para sempre. Quem recusa a Deus um só instante de sua vida, não pode agradar-lhe (3).

Examinemos se o nosso firme propósito tem estes quatro caracteres.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Avere paenotentiam, nihi altude est quam profiteri se ulterius non peccatorum

(2) Quicumque… offendat in uno, factus est omnium reus (Zc 2, 10)

(3) Non satis est dedisse propre totum, sed fraudis est retinuisse vei minimum (São Próspero)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 165-168)