Meditação para o Duodécimo Sábado depois de Pentecostes. Décima Oitava razão de sermos Humildes: O Amor-próprio tira-nos todos os nossos méritos

Meditação para o Duodécimo Sábado depois de Pentecostes

Décima Oitava razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma décima oitava razão de sermos humildes: é que o nosso amor-próprio nos tira:

1.° O mérito de nossas boas obras;

2.° Muitas vezes sem o sabermos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos todas as nossas obras com a intenção de agradar a Deus;

2.° De afastarmos com cuidado qualquer outro intento que poderia viciar a nossa intenção.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Jeremias:

“Vede, Senhor, e considerai quão miserável sou” – Ego vir videns paupertatem meam (Lm 3, 1). Vide Domine, et considera quoniam facta sum vulis (Lm 1, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus como o último fim e o primeiro princípio de todo o nosso ser. Nós somos diante dEle nada e pecado, e não temos direito de fazer, dizer, e pensar coisa alguma senão por Ele. A Ele só pertence essencialmente toda a honra e glória. Abismemo-nos diante de sua adorável majestade no sentimento da nossa miséria.

PRIMEIRO PONTO

O amor-próprio tira-nos o mérito de nossas boas obras

Devemos estar precavidos contra o amor-próprio como se está contra um ladrão, que quer roubar-nos o que temos de mais precioso. Com efeito, que temos nós de mais precioso na terra que o mérito de nossas obras, que é como a moeda com que compramos o céu, e com que ainda podemos obter, a cada momento da nossa existência, um acréscimo de glória e de felicidade por toda a eternidade? Nem riquezas nem tesouros valem tão grande bem. O homem humilde conserva esse bem integralmente, e junta-lhe o novo mérito da humildade, que realça infinitamente as suas obras; mas o amor-próprio estraga todo esse rico tesouro. Por mais trabalhos, cuidados e desvelos, que se tenha tido, sobrevindo o amor-próprio, não só nada restará do que teria podido enriquecer-nos, mas se ficará ainda mais pobre que antes. O que teria podido utilizar-nos tanto, se voltará contra nós, e só teremos que esperar de Deus o castigo dos soberbos. Que perda! Que desgraça não sermos humildes! Eis a razão porque Nosso Senhor, em seu admirável sermão no monte (Mt 6, 1ss), nos repete tantas vezes:

“Guardai-vos, não façais as vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos, por eles, de outra sorte não tereis a recompensa da mão de vosso Pai que está nos céus. Quando dares esmola, procurai ignorá-lo vós mesmo, evitando comprazer-vos na vossa boa obra, e não saiba a vossa mão esquerda que fez a direita. Então vosso Pai, que vê o que fazeis em segredo, vos pagará. Quando orais, não vos deis em espetáculo ao mundo, mas orai em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará”

Oh! Quão bom é, pois, ser humilde, fechar os olhos a todos os juízos humanos, para só agradar a Deus! Que grandes danos nos causa, pois, o amor-próprio! Ainda que tivéssemos dado todos os nossos bens aos pobres, passado a nossa vida a fazer boas obras, entregue o nosso corpo às chamas, tudo isto será sem mérito para o céu, se o amor-próprio for o motor disso.

Examinemo-nos diante de Deus. Quantas obras na nossa vida, cujo mérito nos tirou o amor-próprio! Que riquezas para o céu perdidas, e em seu lugar talvez que motivos de condenação no tribunal de Deus!

SEGUNDO PONTO

O amor-próprio tira-nos o mérito das nossas obras muitas vezes sem o sabermos

Assim como o que é habitual e contínuo acaba por não ser notado, assim também o amor-próprio, que quase nunca nos deixa, escapa à nossa observação e se esconde dos nossos olhos. É a palpitação do coração, que não se nota, porque é habitual ou porque se cobre com a aparência da virtude. Julgamos que trabalhamos para Deus, e trabalhamos para nós. Vemos o bem à superfície, mas no fundo está o amor-próprio, que dá, sem que se saiba, impulso a tudo. Tínhamos começado a nossa obra com uma reta intenção; mas sobrevieram os intuitos do amor-próprio, e prevaleceram, porque agradavam mais ao nosso egoísmo natural. Daí tantas ilusões na piedade e nas boas obras; daí a impaciência que se toma por ardente zelo; daí o desalento, quando o amor-próprio não obtém logo o exito que esperava. Examinemo-nos sobre um assunto tão importante e prático.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 124-126)