Meditação para a Décima Segunda Quinta-feira depois de Pentecostes. Vigésima Primeira razão de sermos Humildes: O Amor-próprio é uma loucura e nos tira o juízo

Meditação para a Décima Terceira Quinta-feira depois de Pentecostes

Vigésima Primeira razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma vigésima primeira razão de sermos humildes, e é:

1.° Que o amor-próprio é uma loucura;

2.° Que esta loucura nos tira o juízo no modo de proceder.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De expulsar, logo que o advirtamos, toda a complacência em nós mesmos e todo o desejo da estima;

2.° De nunca faltarmos em nosso favor, e de aceitarmos de boamente as humilhações que nos sobrevierem.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra dos livros santos:

“Onde ha humildade, aí há igualmente sabedoria” – Ubi est humilitas, ibi est sapientia (Pr 11, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo ocultando-Se na Eucaristia com todas as Suas divinas perfeições, para nos ensinar a não nos tomarmos escravos da opinião, adoradores da fama, e a contentarmo-nos somente com o agrado e estima de Deus, que recompensará tudo o que fizermos por Ele em segredo (1). Admiremo-lO, louvemo-lO, e demos-Lhe graças por tão precioso ensino.

PRIMEIRO PONTO

O amor-próprio é uma loucura

Qual é o homem que se não surpreende algumas vezes com ilusões de amor? Qual é o homem que se não envergonharia de que toda a gente conhecesse os vãos projetos, os ridículos desvarios, as loucas conjecturas que o amor-próprio lhe mete na cabeça: verdadeira fantasmagoria de sua pobre pessoa, que causaria riso a todo aquele que dela tivesse conhecimento? Quem, fazendo justiça a si próprio, não teria exclamado:

«Que louco sou em me entreter com tais pensamentos!»

Com efeito, triste loucura da humanidade, que inspirava a São Vicente de Paulo estas humildes palavras:

«Sou o mais ridículo e tolo de todos os homens»

Não temos nós mais motivo para nos arrogarmos estas palavras do que este santo sacerdote? Não temos a loucura de nos julgarmos capazes de todos os empregos e de querermos sempre elevar-nos mais, sem nunca dizer: Basta; a loucura de querermos ser preferidos a todos, os outros, de reputar-nos mais hábeis, mais inteligentes, de pensar que obraríamos melhor que eles; a loucura de nos aferrarmos unicamente à nossa opinião, sem consultar os sábios; a loucura de querermos ser estimados de toda a gente, de não podermos tolerar uma desconsideração, uma censura, uma exprobração, e de estarmos ainda por compreender que não é possível agradar a toda a gente, que a sociedade é formada de modo que cada um estude o lado fraco do próximo para o censurar, que, ainda quando não se ache que censurar, se interpretam as intenções, supõem-se pensamentos dissimulados, de sorte que ninguém esteve nem estará jamais livre da crítica? Não temos a loucura de nos preocuparmos demasiadamente com juízos humanos, com a opinião, essa coisa tão miserável, que nada tem de constante senão a sua inconstância, nada de fundado senão o capricho, que tantas vezes exalta o homem desprezível e rebaixa o homem mais honrado? Não aspiramos nós à fama, essa coisa tão vã, que neste mundo só serve para nos encher de soberba, para nos perturbar e tornar desgraçados, e que no outro mundo de nada nos servirá, se a estima de Deus a não acompanhar? Porque, de que nos servirá ser exaltados na terra, onde já não estaremos, se somos atormentados onde já estaremos? (2). Não temos nós a loucura, finalmente, de mendigar por todos os lados a estima dos homens, até mesmo das pessoas que menos estimamos, de nos enganarmos com ela e de gostarmos dos menores sinais de consideração que nos dão, de uma palavra, um gesto, um olhar, uma ninharia, com tanto que daí possamos concluir que pensam favoravelmente de nós, e que na ocasião nos elogiarão? Pedro de Blesio compara justamente esses ambiciosos de fama, que passam toda a sua vida em busca de uma coisa tão vã, como a aranha que se esforça por apanhar na sua teia o quê? Uma mosca (3). Humilhemo-nos diante de Deus por essas ilusões do amor-próprio, princípio da loucura desses desgraçados que perderam a razão, e que quase todos imaginam ser reis ou grandes fidalgos; e reconheçamos que é próprio de uma suprema sabedoria contentarmo-nos com a estima de Deus, a única estima sólida, a única útil no tempo e na eternidade, a única que estejamos seguros de possuir, quando quisermos.

SEGUNDO PONTO

O amor-próprio tira muitas vezes o juízo no modo de proceder

O homem, que é dominado pelo amor-próprio, diz consigo mesmo, como os homens de Babel: Façamos célebre o nosso nome (4); e perde o juízo, lança-se às cegas nas empresas arriscadas, sem desconfiar de sua própria inteligência, sem se aconselhar; topa com os obstáculos e fica vencido. Ainda quando reconheça, que se enganou, não quer convir nisso, e tomando em ponto de honra não recuar, segue o mau caminho em que entrou, sem temer arriscar a sua fortuna e a dos que se fiaram nele, a sua reputação, algumas vezes até a honra da religião! Tão verdadeiras são as máximas do Espírito Santo: Onde houver soberba, aí haverá também ignomínia (5); aquele que tem menos conhecimentos merece mais confiança que o homem que crê de si que é sábio (6); a soberba do insensato será a sua ignomínia (7); e estas outras palavras: Onde há humildade, aí há igualmente sabedoria (8): o que equivale a dizer que a humildade é a conselheira do bom senso, que o homem humilde é prudente na sua conduta, porque reflete antes de obrar; desconfiando de si, aconselha-se, só empreende o que pode fazer sem risco de sucesso incerto. Examinemos se é assim que obramos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pater tuus, qui videt in abscondito, reddet tibi (Mt 6,  4)

(2) Laudantur ubi non sunt, cruciantur ubi sunt (Santo Agostinho)

(3) Quid aliud facit homo qui se eviscerat in curis, ut muscam opnionis requirat? (Petr. Bles. 1, 16)

(4) Celebremus nomen nostrum (Gn 11, 4)

(5) Ubi fuerit superbia, ibi erit et contumelia (Pr 11, 2)

(6) Vidisti hominem sapientem sibi videri? magis illo spem habebit insipiens (Pr 26, 12)

(7) Stultorum exaltatio, ignominia (Pr 3, 35)

(8) Ubi est humilitas, ib est sapientia (Pr 11, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 139-142)