Meditação para a Décima Sétima Sexta-feira depois de Pentecostes. Mortificação do Gosto e do Tato

Meditação para a Décima Sétima Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Continuaremos a meditar sobre a mortificação dos sentidos, e em particular:

1.° Sobre a mortificação do gosto;

2.° Sobre a mortificação do tato.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De não buscarmos nas refeições satisfazer a nossa sensualidade, e de somente atendermos à vontade de Deus, que nos alimenta como Lhe apraz, sem que tenhamos direito a alegrar-nos, se as iguarias são do nosso gosto, nem a entristecer-nos, se o não são;

2.° De aceitarmos de bom grado todos os padecimentos que sobrevierem ao nosso corpo, e de nunca procurarmos causar-lhe prazer.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão para que não suceda venha eu mesmo a ser reprovado” – Castigo corpus meum et in servitutem redigo, ne… reprobus efficiar (1Cor 9, 27)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor dando-nos um belo exemplo da mortificação do gosto e do tato. Para não satisfazer o seu gosto, priva-se muitas vezes da bebida e comida. Quando bebe ou come, nunca o faz por gosto que nisso ache, e durante a sua Paixão somente se sacia de fel e vinagre. É mais admirável ainda na mortificação do tato, pois na sua paixão não deixa, desde a planta dos pés até ao alto da cabeça, uma só parte de seu corpo sem dor (1). Demos-Lhe graças por estes grandes exemplos, que condenam tanto a nossa delicadeza.

PRIMEIRO PONTO

A Mortificação do Gosto

A mortificação do gosto proíbe-nos buscar a boa mesa, as iguarias que os santos chamam o alimento da sensualidade. No uso da comida comum, ela quer que tomemos o que achamos; se ela agrada ao paladar, que agradeçamo-lo a Deus, que nos trata tão bem; se não nos agrada, que lhe agradeçamos ainda por nos oferecer a ocasião de mortificar-nos; e se nos é permitido escolher, que deixemos aos outros a melhor.

Proíbe que se atenda ao maior ou menor sabor dos alimentos, que pensemos nisso fora da refeição e mais ainda que conversemos a esse respeito. Não é digno de uma alma cristã pensar e falar em coisas tão baixas.

A mortificação do gosto proíbe ainda que se coma depois das refeições, nem sequer um fruto ou uma dessas gulodices usadas pelas pessoas mundanas, e que não são senão gozos concedidos à sensualidade. Compraz-se em comer as coisas dissaborosas, e devagar, para melhor sentir a sua amargura, e em honrar deste modo a amargura que Nosso Senhor experimentou na cruz.

São estas as nossas normas de proceder?

SEGUNDO PONTO

A Mortificação do Tato

Como o sentido do tato está espalhado por todo o corpo, nada há mais perigoso (2), diz São João Clímaco; os seus assaltos são mais frequentes e multíplices, e a guerra, que se tem à sustentar, mais contínua. É o que levou todos os santos a atormentar a sua carne com mortificações exteriores, e São Paulo, em particular, a castigar o seu corpo e a reduzi-lo à servidão, para que ele mesmo, não fôsse reprovado (1 Cor 9, 27).

Conformes com estes grandes exemplos, não devemos nem apalpar-nos a nós mesmos, nem apalpar os outros sem necessidade; nem termos essa delicadeza efeminada, que não quer que chegue à sua carne coisa áspera e grosseira; que busca sempre o que é mais cômodo, mais sensual, mais agradável à carne, e todos os meios inventados pelo amor do bem-estar para se satisfazer no sentido do tato.

Devemos sofrer, senão com alegria, ao menos com paciência e sem nos queixarmos, o frio, o calor, todas as intempéries, e guardar-nos deles tanto quanto a saúde o exige, sem demasiada pressa.

Devemos sofrer da mesma sorte as doenças, as enfermidades, tudo o que aflige o corpo, vendo em tudo isto a ocasião de mostrar a Deus o nosso amor, extinguir as nossas paixões e expiar as nossas culpas passadas.

Finalmente, não contentes com os sofrimentos que a Providência nos envia, devemos impôr-no-los a nós mesmos de boamente, seguindo a máxima do Apóstolo, que todo o cristão crucifique a sua própria carne (3), para honrar a Paixão do Salvador, para cumprir na nossa carne, como São Paulo, o que lhe resta a padecer (4).

Examinemos a nossa consciência : observamos nós estas regras?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) A planta pedis usque ad verticem non est in eo sanitas (Is 1, 6)

(2) Nihil sensu isto periculosius (São  João Clímaco)

(3) Qui sunt Christi, carnem suam crucifixerunt (Gl 5, 24)

(4) Adimpleo eo quae desunt passionum Christi, in carne mea (Col 1, 24)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 34-37)