Meditação para a Décima Sexta Segunda-feira depois de Pentecostes. Mortificação das Paixões

Meditação para a Décima Sexta Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

O primeiro objeto sobre que devemos praticar a mortificação, são as nossas paixões. Veremos:

1.° A necessidade de as mortificar;

2.° A necessidade de mortificar principalmente a paixão dominante.

— Tomaremos a resolução:

1.° De aproveitarmos com alegria todas as ocasiões, que se ofereceram durante o dia, de mortificar-nos;

2.º De nos examinarmos cada dia acerca da paixão dominante.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“A medida dos vossos progressos será a medida das violências que a vós mesmos fizerdes” – Tantum proficies quantum tibi ipsi vim intuleris (1 Imitação 25, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor regulando no seu interior como supremo poder todos os movimentos da alma, a que chamamos paixões. Conserva-os tão perfeitamente regulados, tão sujeitos, que nem um só surpreendia a razão, nem se levantava nEle senão sob a direção do Espírito Santo. Admiremos este divino interior, em que tudo é tão bem regulado, e regulemos e mortifiquemos as nossas paixões, segundo o ensino do Apóstolo:

“Os que são de Jesus Cristo crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências” – Qui sunt Christi carnem suam crucifixerunt cum vitiia et concupiscentiis (Gl 5, 21)

PRIMEIRO PONTO

Necessidade de Mortificar as Paixões

As nossas paixões são os mais poderosos agentes do demônio para nos perder; é preciso domá-las, senão perdem-nos.

“São, diz São Bernardo, inimigos irreconciliáveis; se não as esmagarmos, esmagar-nos-ão” – Nisi calcati fuerint, calcabunt nos; nisi permantur, oppriment nos (São Bernardo, Sermão de Ascens.)

Se depois de as termos esmagado, deixamos de as vigiar e de acautelar-nos, renascem, acometem-nos de novo, e põem a nossa salvação em perigo (1). É, pois, necessariamente uma guerra quotidiana a sustentar: guerra não contra uma paixão isolada, mas contra todas as paixões, que todas, têm os seus germens no coração; guerra, em que é preciso empregar armas diversas, e usar de meios diferentes, segundo a variedade dos ataques. À lascívia é preciso opôr a supressão dos prazeres sensuais, que lhe servem de incentivo, a modéstia no olhar para as criaturas, que podem enervar o coração, a pronta diversão do primeiro pensamento perigoso, que sobrevier, finalmente a meditação do crucifixo, dizendo interiormente, como São Bernardo:

“Quando o meu Deu pende do patíbulo, poderia eu entregar-me ao prazer?” – Deus meus pendet in patibulo, et ego voluptati opramdabo?

Aos vãos desejos é preciso opôr à força da alma que os modera e se contenta com pouco; às alegrias profanas, o desprezo dos gozos efêmeros, que um cristão deve julgar indignos de sua afeição; ao ódio, a consideração de que Deus só perdoa aos que perdoam; ao temor, o elevado sentimento de que um cristão não teme senão o pecado; à presunção, a humildade, que confessa a sua fraqueza e inaptidão sem o auxílio de Deus; à desesperação, a consideração das misericórdias de Deus, dos merecimentos de Jesus Cristo e da excelente e onipotente proteção da Santíssima Virgem; à ira, o silêncio que fecha a boca, quando se está excitado, a consideração da mansidão de Jesus Cristo e da oposição desta paixão com a razão; finalmente, é preciso opor à inveja a caridade cristã.

— Tal é a guerra que devemos travar sempre conosco, ora recusando a nós mesmo o que é doce, ora impondo-nos o que é amargo. Felizes se, à força de lutas, pudermos alcançar este venturoso estado, em que a alma, dominadas as suas paixões, livre e desembaraçada, só vive sob a direção do Espírito de Deus e de sua adorável vontade! Quem não o consegue completamente, não deve esmorecer. Quem morre combatendo, não deixará de receber a palma da vitória; mas quem não combate, perder-se-á. Quanto mais paixão se tem, menos razão se tem. Quem consulta a sua paixão, consulta um louco. Antes de obrar, devemos sempre abrir o nosso espírito à razão, o coração à graça, e pôr-nos do lado da virtude contra a índole, e não do lado da índole contra a virtude.

SEGUNDO PONTO

Necessidade de Combater a Paixão Dominante

Entre todas às paixões há uma mais perigosa, que as outras: é a paixão dominante. Reconhecemo-la, porque é como o caráter distintivo de cada uma; de sorte que toda a gente a nota, a ponto de poder dizer, por exemplo: este é um homem colérico, aquele um vaidoso, este outro é melindroso, aquele outro avarento; e que até cada homem pode discerni-la em si examinando os pensamentos e sentimentos que mais o preocupam. Eis aqui a paixão que devemos mais combater:

1.° Porque é a que dá impulso a todas as outras e põe mais em perigo a nossa salvação; ela é para as outras paixões o que é o chefe para um exército: matar o chefe, é a derrota de todo o exército; do mesmo modo abafar esta paixão, é a ruína de todas as outras paixões;

2.° Porque em vão venceremos as outras; enquanto esta subsistir, será capaz de nos perder.

Examinemo-nos a este respeito.

1.° Conhecemos bem esta paixão dominante, que devemos combater? Não a ignoramos por irreflexão, por negligência da nossa salvação?

2.° Combatemo-la todos os dias, ou fugindo dela, se tenta seduzir-nos com o atrativo do prazer, ou lutando, se nos quer violentar?

Finalmente, tomamo-la por objeto do nosso exame particular de cada dia, a exemplo de Santo Inácio e de São Francisco de Sales que, com isto, passaram de um temperamento fogoso a uma inalterável mansidão?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Putata repullulant, effugata redeunt, reaccenduntur extincta, et sopita denuo excitantur (São Bernardo 61, in Cant.)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 197-200)