Meditação para a Quarta-feira Santa. Jesus no Calvário

Meditação para a Quarta-feira Santa

SUMARIO

Hoje na nossa oração, acompanharemos Jesus Cristo:

1.° Subindo ao Calvário;

2.° Quando ali O crucificam.

A meditação destes dous mistérios nos fará tomar a resolução:

1.° De suportarmos de boa vontade todas as penalidades da vida;

2.° De nos renovarmos no amor de Jesus crucificado.

O nosso ramalhete espiritual será esta palavra de um santo:

“O meu amor é crucificado”

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo sentenciado a morte no tribunal de Pilatos; admiremos nesta sentença um mistério de amor. Os homens julgavam só servir o seu ódio, e serviam os desígnios de Deus: serviam o amor do Pai, entregando por nós à morte seu Filho amado; serviam o amor do Filho, contente de morrer, 1.º para nos salvar, 2.° para nos ensinar, com o Seu exemplo, a conservar a mansidão e a imperturbabilidade entre os juízos injustos do mundo ou as provações da Providência. Mil graças, ó Jesus, por esta grande lição. Os Judeus clamam que mereceis a morte; que convém que não vivais mais (1). É a meu respeito, ó meu Salvador, é a respeito da minha vaidade, da minha sensualidade, que esta palavra é verdadeira. Sim, estas paixões merecem a morte; não devem viver mais. Ó Jesus, matai-as em mim, para que eu Vos ame e só viva para Vós.

PRIMEIRO PONTO

Jesus subindo ao Calvário

Apenas foi proferida a sentença de morte, apresentam a cruz ao Salvador, ordenando-Lhe que a leve às costas até ao Calvário. Quem poderia dizer com que amor Ele pegou nessa cruz, porque suspirava há tanto tempo, nessa cruz que ia salvar o mundo e reconciliar a terra com o céu, nessa cruz que ia ensinar a todo o gênero humano a paciência nas provações e o caminho do paraíso! Ó cruz, para sempre amável, eu vejo o meu Salvador curvar-Se ao teu peso e partir para o lugar do suplício; sigo-O, e digo comigo:

Poderei depois disto levar a minha cruz com paciência? Poderei não a levar de boa vontade, sem murmurar e sem me queixar? Ó cruz! Qualquer que sejas, dor do corpo ou da alma, vem a mim; aceito-te com todo o gosto, te levarei de hoje em diante com afoiteza; lhe juntarei voluntárias mortificações, a fim de me assemelhar mais ao meu Jesus, quando levava à Sua cruz.

Foi meditando neste mistério que os Santos se encheram de amor pela cruz: um São Paulo, até lhe chamar um dom preciso (2); um São Pedro, até dizer:

“Alegrai-vos, quando levais a cruz com Jesus Cristo” – Communicantes Christi passionibus, gaudete (1Pd 4, 13)

Um Santo André, até exclamar, vendo a cruz em que vai morrer:

“Ó boa cruz, tão vivamente desejada!” – O bona crux, diu desiderata (Vita S. And.)

Uma Santa Tereza, até dizer: Ou padecer ou morrer! Não posso viver sem a cruz; uma Santa Catarina de Sena, até acrescentar: Não morrer ainda, mas padecer mais tempo! Jesus, durante o caminho do Calvário, encontrou:

1.° Maria, para nos ensinar a recorrer a ela em todas as nossas aflições;

2.° Simão Cirineu, para nos fazer lembrar que todo o cristão pode aliviar o peso da cruz de Jesus, seja diminuindo os pecados, que pesam tão dolorosamente sobre o seu coração, seja levando cristãmente todas as cruzes, que só formam uma com a Sua;

3.° As filhas de Jerusalém, que choram vendo o triste estado a que Ele está reduzido:

“Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas” (Lc 23, 28)

É assim, ó Salvador, que Vos esqueceis de Vós mesmo para pensar só em nós; enquanto que nós, desgraçadamente, sabemos tão pouco compadecer-nos, seja das Vossas dores, seja das do próximo; só pensamos em nós e esquecemos tudo o mais. Oxalá nos aproveitemos da lição que aqui nos dais!

SEGUNDO PONTO

Jesus Crucificado

Logo que o nosso adorável Salvador chega ao alto do Calvário, despem-O da Sua túnica. Esta túnica estava unida ao Seu corpo todo ensanguentado, e arrancando-a, tornam a abrir todas as Suas chagas. Ó mistério de dor! Ei-lO diante de todo o povo, que O escarnece; ó mistério de ignomínia! Dizem-Lhe que se deite sobre a cruz, e Ele deita-Se sobre esse leito tão duro, dando graças a seu Pai por ter chegado a hora do sacrifício. Dizem-Lhe que estenda as Suas mãos, depois os Seus pés; estende-os, e tolera que sejam traspassados pelos cravos, para expiar o mau uso que temos feito das nossas mãos e dos nossos pés, das nossas afeições e obras: ó mistério de obediência! Depois levantam a cruz, fixam-na na terra; o abalo renova todas as Suas dores, o peso do Seu corpo alarga a chaga dos pés o das mãos; durante três horas, fica ali suspenso entre o céu e a terra: é o Pai Eterno, que oferece o Seu sacrifício pela nossa salvação. É o Mestre supremo que, do alto deste novo púlpito, ensina ao mundo a abnegação, a pobreza, a humildade, a obediência, a paciência, a resignação ou conformidade com a vontade de Deus. Ó mistério de amor! É o amor que se sacrifica, que atrai em compensação todo o amor dos nossos corações (3).

Ó Jesus, eis aqui este pobre coração que pedis! Douvo-Io, prendei-o à Vossa cruz, para que eu possa dizer com o Apóstolo:

“Estou encravado com Jesus Cristo na cruz” – Christo confixus sum cruci (Gl 2, 19)

Vós dissestes:

«Quando for levantado da terra, todas as coisas atrairei a mim mesmo» –  Si exaltatus fuero a terra, omia traham ad meipsum (Jo 12, 32)

Cumpri a Vossa palavra, Senhor, atrai-me a Vós; atrai todo o meu coração; não viva ele senão para Vós (4), seja ele todo Vosso na vida e na morte.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Reus et mortis (Mt 26, 66). Tolle, tolle; crucifge eum (Jo 19, 15)

(2) Vobis donatum est… ut patiamini (Fl 1, 29)

(3) Praebe, fili mi, cor tuum mihi (Pr 23, 26)

(4) Trabe me post te (Ct 1, 3)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 218-221)