Meditação para a Sétima Quarta-feira depois de Pentecostes. Fazer cada ação pensando no Juízo Final, na Vida Eterna e na Morte Eterna

Meditação para a Sétima Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos dois outros meios de fazer bem todas as coisas; o primeiro é o pensamento do Juízo Final; o segundo é o pensamento da Vida Eterna ou da Morte Eterna.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De perguntarmos muitas vezes a nós mesmos:

Que dirá Deus, no último juízo, acerca desta ação, desta oração, desta conversação, do emprego deste dia, desta confissão, desta comunhão?

2.º De dizermos muitas vezes conosco para nos animarmos a obrar o bem e a evitar o mal:

Ó céu, quão desejável és! Ó inferno, quão, tremendo és!

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Depois disto o juízo” – Post hoc autem judicium (Hb 9, 27)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo declarando no Evangelho, que no dia de juízo Lhe havemos de dar conta de todas as nossas ações e palavras ociosas (1), isto é, das que nenhum motivo razoável justifica; e que este juízo será seguido de um suplício eterno para uns, e de uma vida eterna para outros (2). Demos-Lhe graças por uma advertência tão própria para nos induzir a fazer santamente todas às coisas.

PRIMEIRO PONTO

O pensamento do Juízo Final, meio de fazer bem todas as coisas

Com efeito, quem não havia de fazer bem todas as coisas, se dissesse consigo: A ação que faço será examinada perante Deus, em si mesma, com todas as suas circunstâncias, com a intenção que levou a fazê-la, e com o maior ou menor zelo com que a fiz? Desde a ação mais comum até à mais elevada, desde a mais secreta, que só de mim é conhecida, até à mais insigne, que é notória, tudo será julgado (3). Não estarei eu então no caso do feitor iníquo, quando seu amo lhe disse:

“Dá conta da tua administração” – Redde rationem villicationis tuae (Lc 16, 2)

Ou no caso desse rei de Babilônia, a que foi dito:

Fostes pesado na balança, e achou-se que tinhas menos peso do bem que do mal – Invetus es minus habens (Dn 5, 27): o meu reino te será tirado! – Divisum est regnum (Dn 5, 28)

Oh! Se este pensamento acompanhasse cada uma das nossas ações, quão santas seriam todas! Pensemos nisto seriamente. Se nos examinarmos a nós mesmos, não seremos julgados – Si nosmetipsos dijundicaremus, non utique judicaremur (1Cor 11, 31).

SEGUNDO PONTO

O pensamento da Morte Eterna ou da Vida Eterna, outro meio de fazer bem todas as coisas

Sendo verdade, como é, que Deus nos oferece de barato o Seu paraíso, pois que o promete às nossas ações mais pequenas e comuns, quão própria é a esperança de tanta felicidade para nos animar a fazer bem todas as coisas! Se para alcançar as recompensas, que dá o mundo, recompensas tão vãs, tão ineficazes para nos tornar felizes, andamos tão afadigados e inquietos, que não devemos nós fazer pelas recompensas do céu, tão sólidas, tão certas, tão deliciosas, e que ninguém poderá tirar-nos? (4) — Tão próprio é o pensamento do céu para nos animar a fazer bem todas as coisas, quão eficaz é o pensamento do interno para nos incitar a obrar o bem: porque à vista dos sacrifícios e dos atos de abnegação, que nos impõe a perfeição das nossas ações ordinárias, basta que digamos conosco:

Que é isto comparado com o inferno, onde, se eu não for um santo, arderei sempre?

Não há tentação que resista a esta pergunta. Nós lemos nas vidas dos padres do deserto, que um jovem religioso, aborrecido de estar na caverna, onde vivia solitário, foi declarar o seu aborrecimento a um santo ancião, que lhe respondeu:

Meu filho, não meditastes o que é o inferno, de que vos livrais com a vossa soledade: por quanto que comparação há entre um e a outra? – Quid hoc ad aeternitatem?

Usamos destes graves pensamentos para nos animarmos a evitar o mal e a obrar o bem?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omne verbum otiosum quod locuti fuerint homines, reddent rationem de eo in die judicii (Mt 12, 36)

(2) Ibunt hi in supplicium aeternum, justi autem in vitam aeternam (Mt 25, 46)

(3) Post hoc autem, judicium (Hb 9, 27)

(4) Et gaudium vestrum nemo tollet a vobis (Jo 16, 22)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 286-288)