Meditação para a Décima Oitava Quinta-feira depois de Pentecostes. Do amor de Benevolência

Meditação para a Décima Oitava Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado sobre o amor de complacência ou de santa alegria, que excita na alma a contemplação das perfeições divinas, meditaremos sobre o amor de benevolência, que é um segundo efeito do amor de Deus no coração; e veremos:

1.° Em que consiste este amor;

2.° Qual deve ser a sua prática.

— Tomaremos depois a resolução :

1.° De promovermos em toda a ocasião a glória de Deus e da sua religião, da sua Igreja, e do seu culto;

2 Todas as vezes que virmos ou ouvirmos ofender a Deus, de Lhe fazermos reparação por isso com atos de amor.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Elias:

“Eu me consumo de zelo por vós, Senhor Deus dos exércitos, porque os filhos de Israel deixaram o vosso pacto” – Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercitum, quia dereliquerunt pactum tuum filii Israel (1 Rs 19, 10)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor no amor de benevolência incomparável que Ele manifestou a seu eterno Pai. Desce à terra para aí destruir os seus inimigos, para que todo o mundo o conhecesse, para lhe alargar o seu reino, para lhe alcançar toda a sorte de honras. Admiremos este amor de benevolência, e agradeçamos a Nosso Senhor o belo exemplo que nos dá.

PRIMEIRO PONTO

Em que consiste o Amor de Benevolência para com Deus?

Este amor consiste num grande desejo de que Deus seja conhecido, amado, e servido, o seu nome santificado e exaltado, e a sua vontade feita por todos os homens (1). Pela causa de Deus e de sua glória, a alma, que ama com amor de benevolência, sacrificaria com a melhor vontade os seus bens, a sua reputação, o seu descanso, a sua saúde, a sua vida, e para obter que mais um coração no mundo ame ao Senhor, nada há, que não esteja disposta a fazer. Por isso não pode ver sem extrema dor, que no mundo se ofenda a Deus, e quando ouve blasfemar o seu santo nome, e vê os seus mandamentos desprezados, o seu culto abandonado, o seu santo dia transgredido, a sua Igreja insultada e espoliada, sente como que uma punhalada traspassar-lhe o coração. Chora, pede perdão a Deus, faz penitência, e oferece-se com todas as suas obras como vítima expiatória, consentindo de bom grado em padecer tudo, até a morte, para que Deus não seja mais ofendido e ps pecadores se convertam.

Finalmente, não podendo amar e fazer que amem a Deus quanto ela deseja, convida todas as criaturas, até as inanimadas, a juntar-se a ela para cantar os seus louvores:

«Bendizei ao Senhor todas as que sois obras suas; louvai-o, exaltai-o por todos os séculos… Publicai comigo: Quão grande é o Senhor! E glorifiquemos todas juntas o seu santo nome» – Benedicite, omnia opera Domini, Domino: laudate et superexaltate eum saecula. (Dn 3, 57) – Magnificate Dominum mecum, et exaltemus nomen ejus in idipsum (Sl 33, 4)

E desejaria abrasar todo o universo em amor para com o Deus, que ela ama.

«Oh! Quanto desejara… dizia Santa Tereza, ter todos os corações dos homens na minha mão para os consumir todos num incêndio de amor!»

Examinemos se são estas as nossas disposições; se não temos visto com indiferença a religião insultada, a Igreja, desprezada; se não temos buscado os interesses de Deus, e anteposto em muitas ocasiões, os nossos interesses particulares aos da sua honra e glória.

SEGUNDO PONTO

Qual deve ser a prática do Amor de Benevolência para com Deus?

Quando um cristão tem verdadeiro amor de Deus, busca todos os meios possíveis de O honrar. Ao longe, segue com vivo interesse as missões católicas, que procuram ganhar para a fé novos filhos; e auxilia-as, de um lado, com as suas orações, do outro, com os esforços que emprega para aumentar as belas obras da propagação da fé e da sagrada infância.

Na sua pátria, vendo os maus atacar a sua Santa Igreja, o seu augusto chefe e os seus ministros, deplora tantas calamidades, opõe-lhes com a oração uma linguagem altiva sem acrimonia, quando se oferece à ocasião.

À vista dos esforços que emprega o gênio do mal, das associações que funda, dos trabalhos e despesas a que se sujeita para perverter os povos, sente um veemente e santo desejo de fazer ao menos outro tanto pela glória de Deus, e de se opor a que o demônio possa gabar-se de ser melhor servido pelos seus sequazes do que Jesus Cristo pelos seus discípulos.

Por conseguinte, está sempre em ação, para fazer todo o bem que lhe seja possível; nada lhe custam os sacrifícios. Vendo os pecadores correr às cegas para a sua eterna perdição, geme, reza, diligencia convertê-los, ora com um bom conselho, uma boa palavra, ora com alguma santa indústria, sempre com o bom exemplo; e sabendo a influência que o culto exterior tem sobre o espírito dos povos, promove quanto pode a decoração das igrejas, o adorno dos altares, o asseio dos vasos sagrados, a decência do culto e das cerimônias, a perfeita devoção na administração dos sacramentos e das coisas santas; finalmente, sedento da glória de Deus, ele diz todos os dias do fundo do seu coração: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; comunga, e faz diversas boas obras pela conversão dos pecadores, pela exaltação da santa Igreja, pelo triunfo da religião.

É deste modo que praticamos o amor de benevolência para com Deus?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pater, sanctificetur nomen tuum, adveniat regnum tuum, fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 54-57)