Meditação para a Terça-feira da Terceira Semana da Quaresma

SUMARIO

Consideraremos, na nossa próxima oração, dois outros caracteres essenciais da contrição; e veremos que ela deve ser:

1.º Suma;

2.° Sobrenatural.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De despertarmos na nossa alma a fé nestas duas verdades, e de conservarmos em nós o sentimento habitual delas;

2.° De fazermos atos de fé mais decisivos, todas as tardes, no nosso exame de consciência e cada vez que nos confessarmos.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Eu aborreci e abominei a iniquidade” – Iniquitatem odio habui, et abominatus sum (Sl 128, 163)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo cheio de angústia no Horto das Oliveiras (1). Ele vê os terríveis males que produz o pecado: o inferno aberto, o céu fechado, Deus desprezado, o demônio exaltado; e esta vista entristece-O a ponto de ser preciso que um anjo do céu venha confortá-lO (2). Tributemos ao Seu amor desconsolado todos os respeitos de que os nossos corações são capazes.

PRIMEIRO PONTO

Devemos ter nas nossas Confissões uma Contrição Suma

Uma contrição suma é aquela pela qual temos mais dor de haver ofendido a Deus que de todos os males do mundo. E que há mais justo, ó meu Deus, do que uma tal dor? Existe sobre a terra algum mal comparável ao pecado ou ao inferno, que é o Seu castigo? Pode a perda da fortuna, da reputação, a mesma sorte dos nossos parentes ou amigos, ser posta em paralelo com a perda da nossa graça e amizade, com a perda do céu na eternidade, que é a consequência do pecado? Não, sem dúvida. O menor bom senso no-lo diz. Não é porque a dor de ter pecado deva ser tão sensível como a dor de ter perdido um pai ou uma mãe: Deus não nos exige a sensibilidade, porque ela não depende de nós; mas o que exige é que detestemos o pecado como o supremo mal, e que estejamos prontos a perder e a sofrer antes tudo do que cometê-lo uma só vez. Não é também porque seja oportuno representarmo-nos todos os males, como os tormentos dos mártires, para perguntarmos a nós mesmos se estamos dispostos a antes suportá-los do que pecarmos: porque não temos atualmente a graça necessária para esta prova. Basta dizer:

“Se me achasse neste caso, pediria a Deus, de todo o meu coração, que me concedesse essa graça; tenho a firme esperança de que não m’a recusaria, e esta esperança anima-me a dizer: Antes todos os males do que o pecado”

Examinemos se temos tido nas nossas confissões esta contrição suma.

SEGUNDO PONTO

Devemos ter nas nossas Confissões uma Contrição Sobrenatural

Com efeito, se a nossa contrição fosse puramente natural em seu principio, não poderia ter valor na ordem sobrenatural. A nossa só natureza não pode elevar-se até à ordem sobrenatural; não podemos por nós mesmos, diz São Paulo, nem ter um pensamento útil à salvação, nem dizer uma só palavra meritória. É por conseguinte a Vós, Espírito divino, que devemos pedir a verdadeira contrição, e é somente de Vós que a podemos obter; mas com uma condição: é que a basearemos em motivos sobrenaturais como o Seu princípio. Se detestássemos o pecado unicamente porque nos tornou desgraçados, nos encheu de remorsos e cuidados, arruinou a nossa fortuna, a nossa saúde ou reputação, seria uma contrição vã e estéril. A contrição útil tem vistas mais elevadas: por ela a alma, tirando da fé os seus motivos, tem supremo horror ao pecado, profundo pesar de o haver cometido, porque cometendo-o, renunciou à amizade de Deus e à sua parte no paraíso, entregou-se ao demônio, e expôs-se à condenação eterna, incorrendo no ódio e na maldição do seu Criador e Pai celestial, foi a causa da Paixão de Jesus Cristo, das Suas mortais angústias no Horto das Oliveiras, e da Sua agonia na cruz; mas principalmente porque desagradou a Deus, que ela ama sobre todas as coisas; porque ofendeu a Sua infinita majestade, ultrajou a Sua bondade e o Seu amor. Eis o que torna a alma inconsolável por causa das Suas culpas, e que aflige e humilha o seu coração mais do que se pode exprimir (3).

Ó Jesus Crucificado pelos meus pecados, só Vós podeis incutir-me estes sentimentos; deixai cair no meu coração algumas gotas do Vosso sangue para o mover; falai a este coração por todas as Vossas chagas como por outras tantas bocas; e inspirem-me essas chagas essa contrição sobrenatural que purifica a alma e a dispõe a não viver senão para Vós, a não amar senão a Vós.

Entremos aqui em nós mesmos, e vejamos se tivemos nas nossas confissões uma contrição verdadeiramente sobrenatural em seu princípio e em seus motivos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Caepit contristari et maestus esse, pavere et taedere (Mt 26, 37; Mc 14, 33)

(2) Apparuit ille angelus de caelo, confortans eum (Lc 22, 43)

(3) Cor contritum et humiliatum (Sl 50, 19)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 141-144)