Quão útil é à alma a suma estima de Deus

Meditação para o Sábado depois da oitava do Santíssimo Sacramento

SUMARIO

Continuaremos a meditação desta manhã, e veremos, que a suma estima de Deus, de que o santo sacrifício é a expressão, é para a alma:

1.° Uma preservação do pecado;

2.º Um meio de progredir nas virtudes.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De conservarmos sempre em nós um elevado sentimento das grandezas de Deus, e com esta consideração, de fazermos cada uma das nossas ações o melhor possível para a tornar menos indigna de tão augusto Ser;

2.° De não nos descuidarmos mais das coisas pequenas que das grandes, porque importa, que se agrade a tão augusto Ser até nas mínimas coisas.

O nosso ramalhete espiritual será estas três palavras, com que São Miguel fulminou os anjos rebeldes:

“Quem é como Deus?” – Quis ut Deus?

Meditação para o Dia

Adoremos em Deus a grandeza infinita, à vista da qual nada somos. Humilhemo-nos na Sua presença, confessando a Sua incomparável excelência acima de todo o ser, e dizendo-Lhe do fundo do coração:

“Meu Deus, quem Sois Vós, e quem sou eu!” – Quis tu, Domine? Quis ego?

Sois a própria grandeza, e eu não sou senão baixeza; a santidade infinita, e eu não sou senão pecado. A minha fraqueza confunde-se diante da Vossa força, a minha indigência diante da Vossa riqueza, a minha miséria diante da Vossa misericórdia; e o meu coração dilata-se na admiração das Vossas maravilhas.

PRIMEIRO PONTO

A suma estima de Deus, de que o Santo Sacrifício é a expressão, é para a alma uma preservação do pecado

A alma, uma vez penetrada de um elevado sentimento das grandezas de Deus, detesta os menores pecados, porque todo o pecado encerra um desprezo implícito ou ao menos uma menor estima de Deus, e só o pensamento da desestima de um Ser tão adorável lhe causa horror. Nem as promessas do mundo podem seduzi-la, nem as suas ameaças intimidá-la, porque na suma estima que faz de Deus, diz de si para si:

Quem é grande como Deus? – Quis it Deus? – Quem é terrível como Ele, e ao mesmo, tempo amável como Ele?

Nem os assaltos do demônio, nem as tentações da carne, nem o receio do respeito humano tem o menor poder sobre ela, porque diz consigo como Jonas:

“Eu temo o Senhor Deus do céu” – Dominum Deum caeli ego timeo (Jn 1, 9)

Ou como São Pedro:

“Importa obedecer mais a Deus do que aos homens” – Obedire oportet Deo magis quam homiribus (At 5, 29)

Ou como Davi:

“Que há para mim, Senhor, no céu e sobre aterra senão vós?” – Quid mihi est in caele et a te quid volui super terram? (Sl 72, 25)

Cheia destes elevados pensamentos, despreza tudo o que se estima no mundo, e não pode tolerar, que, por amor de coisas tão desprezíveis, se queira obrigá-la a ofender o seu Deus. Assim, a todas as sugestões do mundo, do demônio, ou da natureza, responde com uma só palavra:

“Quem é como Deus?” – Quis it Deus?

Não estimo senão a Deus, e tudo o que não é Deus, nenhum valor tem para mim. Com este pensamento, não se peca; roguemos a Deus, que nos penetre dEle, e tenhamo-lO sempre presente em todas as nossas tentações, como em todos os abatimentos do nosso ânimo.

SEGUNDO PONTO

A suma estima de Deus, de que o Santo Sacrifício é a expressão, e para a alma um meio de progredir nas virtudes

A alma cheia de um elevado sentimento das grandezas divinas é facilmente humilde, porque, julgando que só Deus é digno de ser louvado e estimado, não quer para si nem o louvor nem a estima, que pertence essencialmente só a Deus. Não tem menos facilidade em crer as verdades da fé; vê com alegria, que Deus é tão superior a todas as nossas concepções, que a nossa só razão nada pode dizer dEle dignamente, porque é o inefável; nem compreender dEle coisa alguma com exatidão, porque é essencialmente incompreensível a qualquer outro que não seja Ele. A confiança em Deus parece-lhe coisa muito simples, porque, imersa nos sagrados abismos das misericórdias divinas, compreende, que nunca pode confiar nelas como deve.

Verdade é, diz ela entre si, que sou cheia de misérias; mas Vós, meu Deus, Sois ainda mais cheio de misericórdias. Estou carregada de pecados; mas Vós dais-me o sangue, que os apaga. Sou fraca; mas Vós Sois a minha força. Pus em Vós a minha confiança, não serei confundida.

Não lhe custa desprender-se de tudo, porque, quando ouve o seu Deus dizer-lhe, como a Abraão:

“Eu sou a tua recompensa” – Ego sum… merces tua magna nimis (Gn 15, 1)

Ou como a Moisés:

“Eu te mostrarei todo o bem” – Ostendum omne bonum tibi (Ex 37, 19)

Já não quero, diz ela consigo, os pequenos bens que me oferece a terra. Não aspiro já senão a Vós, meu Deus! A Vós, que Sois todo o bem, o bem universal, eterno, infinito. Os outros bens são emanações de Vós mesmo; mas essas emanações não me bastam: tenho sede da fonte de vida, que está em Vós (1). Já não quero pequenas gotas de prazer; quero essas torrentes de delícias, de que saciam os Vossos filhos no Vosso seio. Já não quero esses gozos, que só tocam levemente a alma; aspiro à alegria infinita, que gozais em Vós mesmo; estou impaciente de nela me imergir.

Nestas santas disposições, ela tem um insaciável desejo de agradar o mais possível a Deus, até nas mínimas coisas, porque a seus olhos é uma honra infinita fazer a mínima coisa pela glória de tão grande Senhor; e por mais que faça, julga sempre ter feito pouco. Imita esses santos, de que fala Santo Tomás (2), que obram grandes coisas e as julgam pequenas, com relação às grandezas de Deus, para quem trabalham; que obram muitas e as julgam poucas; que trabalham largo tempo e esse largo tempo lhes parece curto (3).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Apud te est fons vitae (Sl 35, 10)

(2) S. Thom., Opus., 61

(3) Operantur magna, et reputant parva; operantur multa, et reputant pauca; operantur diù, et reputant brève

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 184-187)