Meditação para a Segunda-feira da Terceira Semana da Quaresma

SUMARIO

Prosseguiremos as nossas meditações sobre o Sacramento da Penitência, interrompidas pelos Evangelhos, tão cheios de interesse, que temos meditado, e veremos que devemos ter nas nossas confissões:

1.° Uma contrição verdadeiramente interior;

2.° Uma contrição verdadeiramente universal.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos todas as tardes, em seguida ao nosso exame de consciência, um ato de contrição interior e universal;

2.° De fazermos, de dia ou de noite, a cada pecado que cometamos, um ato de contrição interior.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmo:

“Sacrifício para Deus é o espírito atribulado; ao coração contrito não o desprezareis, ó Deus” – Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum… Deus, non despicies (Sl 1, 19)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, de onde via distintamente os pecados de todos os séculos, cuja expiação tomou sobre Si. Esta vista lança-O em uma mortal tristeza, que chega até à agonia; deplora a ofensa feita a Deus e a perdição dos homens, não somente com as lágrimas dos Seus olhos, mas com o sangue do Seu corpo; chora com todos os Seus membros, diz São Bernardo (1), e cobre a terra de lágrimas de sangue (2). Compadeçamo-nos deste Salvador tão aflito, choremos com Ele: porque é por causa dos nossos pecados que Ele chora (3).

PRIMEIRO PONTO

Devemos ter nas nossas Confissões uma Contrição verdadeiramente Interior

Jesus Cristo, esse modelo de contrição no Horto das Oliveiras, ensina-no-lo claramente: o Seu coração sente tão viva dor do pecado, que está numa tristeza mortal (4). Demais, a só razão nos diz a necessidade desta contrição interior. Visto que é o coração que ofendeu a Deus, e o coração que deve reparar a ofensa, sentindo profundo pesar de ter desagradado a um Deus tão bom, tão digno de ser amado. Deus não pode perdoar senão quando o coração se arrepende até querer, por quanto há no mundo, não ter cometida o pecado que deplora. Voltai para dentro do vosso coração (5), diz Deus aos pecadores; rasgai os vossos corações (6), fazei-vos um coração novo (7). O Senhor olha, não para os olhos, que choram, nem para os lábios, que falam, mas para o coração que detesta o pecado cometido (8). Portanto, debalde a boca proferiria atos de contrição; debalde o espírito e a imaginação nos suscitariam a ideia da dor até nos persuadirmos que estamos contritos; debalde soltaríamos gemidos e suspiros, derramaríamos lágrimas, faríamos longas orações e protestos de renunciar ao pecado: tudo isto de nada servirá, se no fundo do coração não houver um sincero pesar de ter ofendido a Deus, uma firme detestação, um decidido ódio ao pecado, com uma verdadeira dor de o haver cometido.

Examinemo-nos aqui diante do Senhor: temos nós nas nossas confissões uma verdadeira contrição de haver ofendido a Deus (9), dizendo-lhe como São Bernardo:

“Com que cara ousarei olhar para Vós, eu que sou tão mau filho de tão bom Pai?” –  Quonam fronte attolle oculos da vultum tam boni patris, tam malus filius? (Serm. 16, in Cant.)

Em vez de deplorar sinceramente os nossos pecados,não temos nós recusado convir nisto, e diligenciado oculta-los aos nossos olhos e aos do confessor, desculpando-os, para não termos de que envergonharmo-nos, justificando as nossas iras e impaciências com os erros dos outros, as nossas maledicências e críticas com o mau procedimento do próximo?

SEGUNDO PONTO

Devemos ter nas nossas Confissões uma Contrição verdadeiramente Universal

Isto é evidente, quando se trata dos pecados mortais: havendo um só que não detestássemos sinceramente e do íntimo da alma, a nossa contrição é nula, a nossa confissão sacrílega. Deus não pode amar um coração que ama o pecado, o qual Lhe desagrada essencialmente; e é zombar de Deus, dizer-Lhe: Amo-Vos, quando se tem afeição ao que Ele detesta infinitamente.

Tratando-se dos pecados veniais, a contrição não é nula, por isso só que não é universal, porque como o pecado venial não faz mais do que diminuir a amizade de Deus sem a destruir, pode uma pessoa arrepender-se de uns sem se arrepender dos outros; mas disto resultam para a alma muitos e graves prejuízos:

1.° Os pecados, a que se conserva afeição, não são perdoados, e persistem na alma como uma nodoa hedionda, que a desfigura, que resfria a amizade de Deus para com ela e diminui as Suas graças;

2.º A absolvição, não sendo aplicada a estes pecados, não confere a graça para deles nos emendarmos, e não produz na alma essa plena justificação que teria obtido um coração que pertencesse todo a Deus.

Examinemos aqui se não há em nós certos pecados prediletos, a que não queremos sinceramente renunciar, certas ligações que não queremos quebrar, certas culpas para que temos mais tendência, que nos causam mais prazer, e de que não temos sincera contrição.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Membris omnibus felvit

(2) Factus est sudor ejus, sicut gutta sanguinis deccurrentis in terram (Lc 22, 44)

(3) Compatitur in die illa Filius Dei et plorat; compatiar et illi, ac simul cum lugente lugebo (Serm. 3, in Nativ. Dom., 4)

(4) Tristis est anima mea usque ad mortem (Mt 26, 38)

(5) Reddite, praevaricatores, ad cor (Sl 46, 8)

(6) Scindite corda vestra (Jl 2, 3)

(7) Facite vobis cor novum (Ez 18, 31)

(8) Dominus intuetur cor (1Rs 21, 7)

(9) Cor contritum

Voltar para o Índice das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 138-141)