Meditação para a Segunda-feira da 4ª Semana depois da Páscoa. Causas  da Desconsolação

Meditação para a Segunda-feira da 4ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Meditaremos:

1.° Sobre as causas mais ordinárias das desconsolações espirituais;

2.° Sobre os meios de as evitar.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De conservarmos em nós o espírito de contemplação com frequentes orações jaculatórias e a oferta das nossas ações a Deus;

2.° De combatermos a distração, causa principal das nossas desconsolações, com a mortificação dos sentidos exteriores e interiores.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho do Apóstolo a Timóteo:

“Olha por ti” – Attende tibi (1Tm 4, 16)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus fazendo-nos saborear, de tempos a tempos, para amparar a nossa fraqueza, a doçura do Seu serviço e o leite de Suas consolações. Humilhemo-nos, na Sua presença, por deixarmos tantas vezes, como diz São Bernardo, correr esse leite precioso pela abertura dos nossos sentidos distraídos (1), Supliquemos-Lhe a graça do corrigir em nós este grande mal.

PRIMEIRO PONTO

Causas mais ordinárias das nossas Desconsolações

Há entre os cristãos uma ilusão muito comum, que atribui todas as dores interiores a Deus e à virtude, como se Deus não chamasse o homem para o Seu serviço senão para o tornar desgraçado, como se a virtude fosse uma terra, que devora os seus habitantes, e a perfeição cristã um estado, em que só se acha amargura. Sem dúvida Deus envia algumas vezes desconsolações às melhores almas para as santificar, para as purificar e aumentar os seus méritos. Mas as mais das vezes as desconsolações e dificuldades, que experimentamos na oração e meditação, tem a sua causa em nós. A causa geral é a tibieza como já a meditamos; mas esta causa divide-se em diferentes ramos, que nos importa conhecer bem. São as paixões que nos desregram, o amor-próprio que nos distrai, os desejos que nos preocupam, a curiosidade que, enchendo-nos das novidades do século e da imagem dos objetos exteriores, não pode já fixar-se em Deus; é a negligencia em dirigir a nossa imaginação errante, em reprimir a nossa vontade própria, em separar o nosso coração de tudo o que o prende à terra. Estranha contradição! Quiséramos estar atentos na oração e estamos voluntariamente distraídos em qualquer parte; quiséramos ter em nós a unção da piedade, e conservamos mil pensamentos vãos, afeições e desejos que, semelhantes a uma esponja, tiram toda a unção do coração, entibiam-o e consomem-o até não deixar nele nem gosto nem sentimento pelas coisas divinas.

Milhares de vezes na meditação, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, Deus nos tem dado um sentimento de fervor, uma consolação espiritual que, em seus desígnios, devia amparar a nossa fraqueza; e ao sair dali, temos deixado a nossa vista espraiar-se por toda a parte aonde a curiosidade a atraía; temos cedido a uma fantasia, a um capricho, tomado uma parte multo viva numa conversação frívola, numa notícia, perdido o tempo num pensamento vão, numa quimera: imediatamente se evaporou toda a doçura da piedade; achamo-nos frios, desfalecidos, enfastiados.

Não nos admiremos disto; o nosso Deus é um Deus zeloso (Ex 34, 14; Dt 4, 24; 5, 9; 6, 15). Deixamo-lo pela criatura, e Ele deixa-nos por Seu turno. O espírito de graça, de oração não pode ligar-se com a leveza do entendimento que divaga, do coração que se afeiçoa, da imaginação que volteia. Não devemos pois imputar senão a nós mesmos as nossas desconsolações, e em vez de as atribuir a Deus e à virtude, buscar a causa delas em nós sós, suprimir essa causa, e sofrer com paciência o estado, em que nos achamos, como um justo castigo da nossa culpa.

SEGUNDO PONTO

Meios de evitar a maior parte das Desconsolações

De certo não podemos evitar as desconsolações, que provém de Deus, pois que entram no plano da nossa salvação; mas podemos evitar as que provém de nós mesmos. Podemos evitá-las:

1.° Pela Meditação, construindo no fundo do nosso coração como um santuário, onde estejamos sós com Deus. Conservar-nos-emos com uma doce e pacífica atenção, como uma sentinela à porta deste santuário, para impedir que nele entrem os pensamentos estranhos, os desejos inúteis; e bem depressa a consolação celeste no-lo converterão como que em um novo Tabor, de que diremos com São Pedro:

“Bom é que aqui estejamos! Bom é que aqui oremos, adoremos, e amemos!” – Bonum est nos hic esse (Mt 15, 4)

2.º Pela Mortificação, que separa alma das criaturas, ao mesmo tempo que a meditação a une a Deus. Um pequeno sacrifício feito para com Deus atrai a graça e enche o coração de um delicioso sentimento, Está~se contente do haver feito alguma coisa por um Deus tão bom, tão amável, e tão grande, Então ora-se bem, fazemos bem, todos os nossos exercícios, e a unção da graça torna-os fáceis; enquanto que, se recusamos a Deus um sacrifício, que Ele pede, estamos descontentes de nós mesmos, o coração entibia-se, cobre-se de não sei quê de sombrio, que tira todo o gosto à oração e às coisas de Deus. Tenhamos ânimo para nos entregarmos à meditação e mortificação; e bem depressa Deus nos fará sentir a doçura do Seu serviço.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pleni rimarum undequoque difiluimus

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 46-49)