Meditação para o Sábado da Páscoa. As Tentações em Geral

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 1-11

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.

O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito:

Dará a teu respeito ordens aos seus anjos;
eles suster-te-ão nas suas mãos
para que os teus pés não se firam nalguma pedra.»
Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!»

Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.»

Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.

Meditação para o 1º Domingo da Quaresma

SUMARIO

Veremos na nossa oração:

1.° Que a tentação, longe de ser um mal, pode vir a ser um bem para nós;

2.° Com que condições a tentação se muda assim em bem.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De evitarmos o mais possível as tentações, vigiando sobre nós mesmos e unindo-nos com Deus;

2.° De nos desviarmos da tentação, logo que a descobrirmos, e não nos inquietarmos com isso.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo São Tiago:

“Bem-aventurado o homem que sofre com paciência a tentação” – Beatus vir qui suffert tentationem (Tg 1, 12)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo tentado no deserto pelo demônio. É esta, na verdade, a maior humilhação que pode sofrer um Deus; mas sofreu-a, porque viu que o Seu exemplo nos animaria no meio das nossas provações, e nos ensinaria que quanto mais prezada é a Deus uma alma, mais ela deve ser provada pela tentação (1). Agradeçamos-Lhe tão grande bondade.

PRIMEIRO PONTO

A tentação, longe de ser um mal, pode vir a ser um bem para nós

Nenhum mal moral é possível senão quando a vontade o quer: enquanto está fechada a porta da vontade, o demônio e a imaginação podem induzir ao mal o coração; não podem alterar-lhe a pureza. Eis aqui porque Jesus Cristo e todos os santos sofreram a prova da tentação, sem que esta prova haja causado o menor detrimento à sua santidade. Eis aqui porque toda a aflição nas tentações é desarrazoada: é, ou um enfado do amor-próprio descontente de se ver miserável, ou uma desconfiança da bondade de Deus, que nunca falta a quem O invoca, ou a frouxidão de uma alma que se vê só com a sua fraqueza, desajudada de Deus. Longe de ser um mal, a tentação pode, ao contrário, vir a ser-nos muito proveitosa. Porque:

1.° Dá-nos ocasião para glorificar a Deus, pois que, resistindo generosamente, Lhe provamos a nossa fidelidade, derrotamos os Seus inimigos e os vencemos;

2.° Afeiçoa-nos à humildade, revelando-nos o nosso mau interior; ao espírito de oração, fazendo-nos sentir a necessidade de recorrer a Deus; à vigilância, advertindo-nos que desconfiemos das nossas forças, e fujamos da ocasião do mal; ao amor divino, fazendo sobressair a bondade de Deus, que se digna descer a Sua graça, descer Ele mesmo, pela comunhão, até um interior tão depravado como o nosso; previne a frouxidão, desperta o fervor, dá à virtude um caráter mais firme e mais solido (2); ensina-nos a conhecer-nos a nós mesmos (3); alcança à alma mais graças nesta vida, mais glória na outra, em proporção dos merecimentos de que a enriquece, e a torna mais digna de Deus, como os santos, de quem está escrito:

“Deus os tentou, e os achou dignos de si” – Deos tentavit eos, et invenit illos dinogs se (Sb 3, 5)

Eis aqui porque Deus dizia ao povo de Israel: «Eu não quis extinguir os cananeus para que os tenhais por inimigos e os combatais» (4); e o Papa São Leão diz no mesmo sentido:

“É bom para a alma temer que não caia, e ter constantemente que sustentar uma luta” – Bonum est animae timere ne cadat et habere quod vincat (Serm. 3)

A alma fiel tira da tentação do mal o mesmo fruto que da inspiração do bem. É para ela o ocasião de inclinar-se à perfeição da virtude contrária com toda a boa vontade de que é capaz. Nas tentações dos sentidos, eleva-se à infinita majestade de Deus, colocado tão acima das vistas baixas e sensuais; nas tentações do espírito, ela abisma-se no seu nada; nas tentações do prazer, ama e abraça a cruz: é de esta forma que nos temos aproveitado da tentação?

SEGUNDO PONTO

Com que condições a tentação se muda em bem?

Há certas condições requeridas antes da tentação, durante ela, e depois dela:

1.° antes da tentação, devemos evitar tudo o que expõe ou inclina ao mal. por exemplo, as ligações e leituras perigosas, as vistas pouco recatadas, as maneiras demasiadamente livres, as delícias de uma vida efeminada e sensual: quem ama o perigo nele perecerá; quem se fia na sua força será confundido. A desconfiança é mãe da segurança; e expormo-nos voluntariamente ao perigo, é tentar a Deus, é tornarmo-nos indignos do seu socorro. Por outro lado, não devemos temer a tentação: temendo-a, fazemo-la nascer; o melhor é dirigirmos a imaginação para outro objeto, e cuidarmos unicamente no que temos a fazer;

2.° Durante a tentação devemos não zombar dela, a pretexto de que é leve, doutra sorte vencer-nos-ia; mas devemos desviar-nos dela sem demora e tranquilamente; voltar-lhe as costas, sem nem sequer olhar para ela; e se ela nos causar alguma impressão, devemos desprezá-la com sossego, entregando-nos à ação presente. Quem lutasse com ela correria o risco de se manchar, e quem a repelisse com excessivos esforços perderia a paz da alma, o recolhimento do espírito e a unção da piedade.

Se não é possível consegui-lo deste modo, devemos recorrer humildemente a Deus, dizendo-Lhe:

Senhor, quão profunda é a minha miséria! Quão injusto eu seria, se tivesse ainda amor-próprio! E quão bom Sois por amar um pecador como eu! Ó Jesus! Ó Maria! Ó vós todos, anjos e santos, bendizei ao Senhor, que se digna baixar o Seu amor até à minha humildade.

3.° Depois da tentação, devemos esquecê-la: porque a reflexão a faria reviver. Vale mais animarmo-nos tranquilamente a reparar o mal passado, se o houve, fazendo com a maior perfeição a ação presente; unirmo-nos a Deus e lançarmo-nos nos Seus braços com confiança e amor, dizendo-Lhe, como o filho pródigo: “Meu Pai, pequei contra o céu e contra vós” (Lc 15, 18); ou como o publicano: “Meu Deus, sede propício a mim pecador” (Lc 18, 13).

Examinemos se temos observado etas regras, antes da tentação, durante ela, e depois dela.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quia acceptus eras Deo, necesse fuit ut tentatio probaret te (Tb 12, 13)

(2) Virtus in infirmitate perficitur (2Cor 12, 9)

(3) Qui non est tentatus, quid seit? (Eclo 24, 9)

(4) Nolui delere eos… ut habeatis hostes (Jd 2, 3)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 89-93)