Meditação para o 22º Domingo depois do Pentecostes. A Paciência

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 22, 15-21

Naquele tempo, 15 os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras. 16Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. 17Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?»

18Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» 21«De César» – responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»

Meditação para o 22º Domingo depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a paciência, que é o terceiro caractere da caridade, e de que Jesus Cristo, no Evangelho do dia, nos dá um exemplo; e veremos:

1.° Que esta paciência faz parte essencial do preceito da caridade;

2.° Que Deus manda que sejamos pacientes;

3.° Que a mesma justiça nos obriga a sê-lo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De suportarmos os defeitos e fraquezas do próximo sem nos queixarmos, sem lh’os lançarmos em rosto, e principalmente sem os humilharmos;

2.° De não censurarmos os seus erros e desacertos, mas, ao contrário, de os encobrirmos, e de não mostrarmos que os conhecemos, quando não temos a nosso cargo repreendê-los.

O nosso ramalhete espiritual serà a palavra de São Paulo:

“Devemos suportar as fraquezas dos que são débeis, e não buscar a nossa própria satisfação” – Debemus… imbecilitates infirmorum sustinere, et non nobis placere (Rm 15, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos a paciência de Nosso Senhor no Evangelho deste dia. Os seus inimigos, que buscavam ocasião de O desacreditar, vêm fazer-Lhe esta pergunta cavilosa: É lícito dar o tributo a Cesar ou não? Se respondia que sim, tornava-se odioso ao povo, que pretendia, como povo de Deus, não depender de Cesar; se respondia que não era lícito, tornava-se odioso ao mesmo Cesar, cuja autoridade desacatava. Jesus Cristo suporta a perfídia dos que Lhe fazem tal pergunta com toda a paciência e mansidão. Não se irrita, e dá-lhes uma resposta cheia de uma sabedoria toda divina: belo exemplo, digno da nossa admiração e louvor, que nos ensina a sofrer com paciência a malícia dos homens. Demos-Lhe graças por isso.

PRIMEIRO PONTO

A Paciência faz parte essencial do preceito da Caridade

Estas duas coisas ligam-se por tal forma uma à outra, que sem a paciência não haveria caridade possível, e seria preciso riscar o seu preceito do Evangelho: porque cada homem na terra tem seus defeitos e imperfeições: não há anjos senão no céu; se não suportais esses defeitos, a união rompe-se, a caridade desaparece. Cada homem tem sua constituição própria: as inclinações e gênios não são os mesmos; os juízos e modos de ver contradizem-se; as vontades opõem-se umas às outras; os gostos variam. Ora, entre tantos elementos diversos ou contrários, a união dos corações, como a caridade o exige, não é possível sem que nos suportemos mutuamente, ou sem que desculpemos os defeitos e fraquezas dos outros, e sem que soframos com caridade e paciência (1) o que ofende, o que desagrada, o que contraria os nossos gostos e gênio. Sem esta paciência, seria tão impossível a união dos corações como a união da água com o fogo, a luz com a escuridão: necessariamente haveria desunião, disputas, discórdia. Atesta-o a experiência quotidiana; e vós, santa caridade, virtude tão bela, que fazeis as delícias do nosso desterro, a consolação das nossas dores, desapareceríeis da terra!Que desgraça! Quanto não devemos ser pacientes para o futuro!

SEGUNDO PONTO

Deus manda que sejamos Pacientes

Sem dúvida, Deus dando-nos o preceito da caridade, manda-nos ser pacientes, pois que não pode existir a caridade sem a paciência. Devemos, nos diz São Paulo, suportar as fraquezas dos que são débeis. Se devemos suportá-las, não é um favor que lhes fazemos, é um dever que cumprimos, é uma dívida que pagamos (2). Levai as cargas uns dos outros, continua o Apóstolo, e desta maneira cumprireis a lei de Jesus Cristo (Gl 6, 2). Ele parece reduzir a este só preceito todo o Evangelho: por isso folga de o desenvolver. Sofrei-vos uns aos outros, diz Ele, com toda a humildade; o que exclui o melindre e a filáucia; com toda a mansidão e paciência; o que exclui as murmurações e censuras, as antipatias e impaciências contra os dissabores que nos causam; com toda a caridade; o que nos ensina a tratar o próximo como quiséramos que ele nos tratasse (3). Lei amável, digna do Pai comum de todos os homens; lei benévola e indulgente, que tolera todas as misérias, e não permite nem que se despreze a fraqueza, nem que se escarneça dos defeitos, nem que se censure os desvarios que não estamos encarregados de repreender; lei a que se ligam os mais caros interesses, pois está escrito que Deus só será indulgente para com os nossos defeitos à medida que o formos para com os defeitos dos nossos irmãos (4). De onde São João Crisóstomo conclui que, se não suportarmos o próximo, Deus não nos suportará; se não simpatizarmos com os outros, Deus não simpatizará conosco; e nós mesmos aprovamos esta lei, quando dizemos: Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam, isto é, sede indulgente para com as minhas culpas como eu o sou para com as dos outros: palavras que são uma sentença de morte na boca de todo aquele que as profere cheio de ira contra seu irmão. Se fosse aceite a sua promessa, um fogo viria do céu devorá-lo vivo.

TERCE IRO PONTO

A mesma justiça nos obriga a ser Pacientes

Com efeito, quem não sente a necessidade que tem de ser paciente? Se queremos que os outros sejam, pacientes para conosco, não seria uma grande injustiça não o querermos, ser para com eles? Queixamo-nos das imperfeições dos nossos irmãos; mas não devem eles suportar as nossas? Do seu gênio; mas não temos nós os nossos caprichos? Das suas grosserias e impaciências; mas nunca proferimos alguma palavra grosseira e picantes? Das desculpas, com que encobrem as suas faltas sem as querelem jamais confessar; mas não sucede isso também conosco, até chegarmos a julgar-nos menos perversos, algumas vezes até melhores, que os outros? Somente aquele que estivesse sem pecado, poderia apedrejá-lo (5). Quanto a nós, não nos convém querer a perfeição nos outros, a ponto de não tolerarmos que tenham um defeito.

Examinemos a nossa consciência a este respeito: como suportamos nós os defeitos do próximo, o seu gênio ou muito alegre ou muito triste, o seu caráter muito frouxo ou muito austero, os seus modos muito tardos ou muito arrebatados? Em vez de desculpar e encobrir as imperfeições dos nossos irmãos, as suas enfermidades corporais ou espirituais, a sua falta de polidez, o seu pouco talento, a sua leviandade, a sua pertinácia, os seus erros, o que há de defeituoso na sua pronúncia, no seu andar, na sua maneira de estar, não os temos nós escarnecido? Como suportamos nós as importunações de: certas pessoas, as queixas dos aflitos ou enfermos; finalmente tudo o que achamos que sofrer de uns ou dos outros?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) In charitate Dei et patientia Christi (2Ts 3, 5)

(2) Depemus, non donamus (São João Crisóstomo, in hinc locum)

(3) Cum omni humilitate et mansuetudine, cum patientia, supportantes invicem in charitate, siollicit servare unitatem spiritus in vinculo pacis (Ef 4, 2)

(4) Eadem quippe mensura qua mensi furitis, remetietur vobis (Lc 6, 30)

(5) Qui sine peccato est vestrum, primus… lapidem mittat (Jo 8, 7)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 134-138)