Meditação para o 4º Domingo depois da Páscoa. A Desconsolação Espiritual
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 5-14

5«Agora vou para aquele que me enviou, e ninguém de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, por vos ter anunciado estas coisas, o vosso coração ficou cheio de tristeza. 7Contudo, digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.

8E, quando Ele vier, dará ao mundo provas irrefutáveis de uma culpa, de uma inocência e de um julgamento: 9de uma culpa, pois não creram em mim; 10de uma inocência, pois Eu vou para o Pai, e já não me vereis; 11de um julgamento, pois o dominador deste mundo ficou condenado.»

Quinta promessa do Espírito – 12«Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. 14Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer.

Meditação para o 4º Domingo depois da Páscoa

SUMARIO

Meditaremos uma palavra do Evangelho do dia: A vós convém-vos que eu vá (1); e para a compreender, veremos:

1.° Quais são as desconsolações espirituais úteis à alma;

2.° O que se deve fazer neste estado de desconsolação.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não cercearmos os nossos exercícios de piedade, os nossos deveres, pequenos ou grandes, ainda quando isso nos desgoste;

2.° De não nos deixarmos entristecer nem desanimar por estas provações, mas de continuarmos em paz e com humildade o serviço de Deus.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Sede fervorosos do espirito ; servi ao Senhor” – Spiritu ferventes, Domino servientes (Rm 12, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo dirigindo aos seus Apóstolos esta estranha palavra: A vós convém-vos que eu vá. Como, Senhor, podia convir aos vossos Apóstolos, que se separassem de Vós, sua luz, sua fortaleza, sua consolação? Não era, ao contrário, perder tudo? Não, nos afirmais Vós, isso lhes convirá muito: eles têm à minha humanidade uma afeição demasiadamente natural; amam muito as consolações sensíveis, que lhes causa a minha presença; importa que eles aprendam a amar mais o Deus de todas as consolações que as consolações de Deus. O coração, que quer ser de Deus, deve separar-se de toda a afeição à criatura, por mais excelente que esta seja. É por esta razão que a vós convém-vos que eu vá. Dou-Vos graças, Senhor, por tão útil advertência; ajudai-me a compreendê-la bem e a aproveitar-me dela.

PRIMEIRO PONTO

Quais são as Desconsolações Espirituais úteis à alma?

Entende-se por desconsolações a falta de luz de Deus, que esclarece a alma, ou da sua unção, que a toca; de sorte que então os exercícios de piedade são sem atrativo, o serviço de Deus sem gosto, o dever sem encanto. Estas desconsolações são de duas espécies: umas são uma prova que Deus envia às almas fervorosas; outras são um efeito ou um castigo da tibieza. Meditemos os três caracteres que as distinguem:

1.° A alma fervorosa, que é provada pela desconsolação, deplora diante de Deus o estado de miséria e de fraqueza, em que se acha; envergonha-se disso e desejaria abrasar em amor todo o mundo para suprir a frieza do seu coração. Ao contrário, a alma tíbia não deplora a sua fraqueza; não se importa com o seu estado e nem sequer o sente.

2.° A alma provada está em violenta crise, de que procura incessantemente sair; pensando no mal, em que cai por fraqueza, no bem que deveria fazer e que não fez, comparando-se com as almas fervorosas e vendo-se afastada delas, experimenta esse temor e tremor, com que o Apóstolo quer que se obre a salvação. Envergonhada de ter feito tão pouco para Deus, concebe um imenso desejo de fazer mais, e anima-se a uma vida melhor. Ao contrário, a alma tíbia acha-se bem como está. Considerando o mal que não faz e o pouco bem que faz, comparando-se com as pessoas relaxadas, a que se antepõe, confessando além disto não aspirar à alta perfeição e conservar-se na mediocridade, vive tranquila e presunçosa no seu estado, sem temor de Deus, sem pensar em se tornar melhor.

3.º A alma fervorosa, apesar das suas desconsolações, não é por isso menos exata em todos os exercícios, que ela faz o melhor que pode; em todos os seus deveres, a que ela sacrifica de bom grado as suas comodidades e o seu prazer; em todas as pias práticas, que ela julga serem-lhe necessárias em razão do estado, em que se acha. Ao contrário, a alma tíbia faz mal os seus exercícios, encurta-os ou omite-os inteiramente, não quer sujeitar-se a coisa alguma que a incomode, a enfastie ou lhe desagrade; despreza essas pequenas coisas que não são do seu gosto e não quer reconhecer que nada há pequeno no serviço de Deus, que as grandes coisas somente se conservam pelas pequenas, e que é uma grandíssima coisa ser fiel às minimas coisas (2).

Decidamos, depois disto, se as nossas desconsolações são uma prova de Deus ou um efeito da nossa tibieza.

SEGUNDO PONTO

O que devemos fazer nas Desconsolações?

1.º Se as desconsolações provém evidentemente da nossa tibieza, é preciso sair logo desse estado, que o Espírito Santo declara ser pior que o pecado mortal (3), e a que chama um começo de reprovação (4); e para sair dele, convém corrigir os três caracteres da tibieza, que acabamos de meditar.

2.º Se as nossas desconsolações não são mais que uma prova, é preciso aceitá-las sem desalento e sem perturbação, oferecer a Deus o nosso coração como uma terra árida, extenuada que tem sede da graça e do santo amor. Esta sede falará por si mesmo a Deus, e essa humilde exposição das nossas misérias Lhe dirá tudo; e esperando que nos ouça, continuamos a servi-lO.

3.º Velemos bem sobre nós para não passar das desconsolações à tibieza; nada é tão fácil como esta passagem, e ao mesmo tempo nada é tão perigoso, porque então está-se tranquilo nesse estado, como se fosse uma dessas provas, que Deus envia aos seus melhores amigos; e debaixo do encanto desta ilusão, cai-se em um funesto sono, que conduz à morte.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Expedit vobis ut ego vadam

(2) In minimis fidelem esse maximum est

(3) Utinam frigidus esses! (Ap 3, 15)

(4) Incipiam te evomere ex ore meo (Ap 3, 16)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 42-46)