Meditação para a Décima Quarta Segunda-feira depois de Pentecostes. 3.º Meio de virmos a ser Humildes: A Vida Oculta

Meditação para a Décima Quarta Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Prosseguindo as nossas meditações sobre a humildade, meditaremos sobre um novo meio de nos tornarmos humildes, que nos ensina o Apóstolo São Paulo, quando nos diz: Estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus; e veremos que esta vida escondida:

1.° Corta a raiz da maior parte da tentações contra a humildade;

2.° Torna fácil a humildade.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nunca dizermos nem fazermos coisa alguma com o fim de conseguir a estima e louvor das criaturas;

2.° De gostarmos das posições modestas, que dão menos nas vistas e menos que falar de nós.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo aos fiéis do seu tempo:

“Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” – Mortui estis, et vita vestra est abscondita cum Christo in Deo (Col 3, 3)

Meditação para o Dia

Admiremos, louvemos, e amemos a vida escondida de Jesus Cristo. O Deus da glória cobre-Se com o véu de uma natureza mortal; esconde-Se no seio de uma Virgem, e a sua mesma conceição virginal fica encoberta com o véu do matrimônio. Quando aparece sobre a terra, todo o universo O ignora; cresce, e permite que o mundo ignore a sua ciência divina, a ponto de que se diga dEle:

“Onde aprendeu o que sabe, se nunca estudou?”

Durante trinta anos, vive retirado na pobre morada de Nazaré; durante os três anos da sua missão, deixa que digam dEle: «É um embusteiro, um samaritano, isto é, um herege, um ímpio, um possesso»; e no da sua Paixão, tolera que digam:

«É o último dos homens, é um bicho da terra, é um ladrão, um assassino: Barrabás é-lhe preferível»

Honremos a Jesus Cristo assim escondido, para nos ensinar a amar a vida retirada, como elemento da humildade Cristã.

PRIMEIRO PONTO

A vida escondida com Jesus Cristo em Deus corta a raiz da maior parte das tentações contra a humildade

A primeira tentação contra a humildade é louvarmo-nos e querer ser louvados. É difícil não sucumbir a esta tentação, quando nos vemos honrados, estimados, louvados, exaltados por toda a gente. O odor do incenso queimado em nossa honra, torna-nos doidos, embriaga-nos, e acabamos por ser soberbos. Ao contrário, a vida retirada afasta de nós essas honras, esses louvores, esses aplausos que nos agradam tanto, e de que São Francisco de Sales dizia:

“Não posso pensar nisto sem tremer; falta-me a força para lhe resistir”

Ela deixa o homem na presença de Deus e de si próprio: na presença de Deus, que vê o que realmente somos; e diante de um tal juiz, não somos tentados a louvarmo-nos nem a querer ser louvado; na presença de nós mesmo, e quando só com a nossa consciência nos vemos tal qual somos, sentimos toda a falsidade dos juízos humanos, reconhecemos facilmente que nada valemos, e que não somos dignos de nenhum louvor.

A segunda tentação consiste nas palavras do mundo, que nos diz que nos mostremos, que nos descubramos: Não éreis feito, nos dizem, para esta obscuridade, em que se vai passando tristemente a vossa vida, para essa nulidade a que estais reduzido; tínheis nascido para coisa muito diferente, para uma posição ao menos igual à daquele ou daquela, que certamente não vale mais do que vós. Porque vos haveis, pois, de sepultar vivo, de esconder-vos? Cala-te, mundo enganador, responde aquele que soube gostar a vida retirada; cala-te! Se te desse ouvidos, farias de mim um soberbo na terra, um condenado no inferno. Ó! Quanto prefiro esconder-me neste mundo, para aparecer um dia no céu! Na minha modesta vida não poderá seduzir-me nem com as tuas palavras, nem com os teus exemplos. Ali gozarei de Deus só, com as suas infinitas perfeições (1); falar-Lhe-ei, e Ele me ouvirá; ouvi-lO-ei, e Ele me falará; santo comércio que será para mim um começo do paraíso (2).

A terceira tentação consiste nas palavras do demônio. Por mais que digais, objeta por seu turno o inimigo da salvação, é belo granjear o louvor e a estima dos homens, ocupar um lugar em que se seja visto, e ostentar os nossos dotes naturais, vencer a inveja ou obrigá-la a calar-se. É ainda mais belo, responde o homem de vida retirada, viver escondido com Jesus Cristo em Deus. É muito mais seguro: porque, se procurasse agradar aos homens, deixaria de ser Cristão (3). É muito mais agradável, porque se vive mais tranquilo e feliz; é muito mais nobre, porque se vem a superar a opinião pública em vez de ser escravo dela; é muito mais honroso para Deus, porque equivale a dizer-lhe que só Ele nos basta.

SEGUNDO PONTO

A vida escondida com Jesus Cristo em Deus torna fácil a humildade

Como se está escondido em Deus, só se reputa real e digno de atenção o que Deus conhece e julga de nós: Deus que não somente vê o exterior dos atos, mas penetra o âmago dos corações; e com isto a alma consegue subtrair-se a todos os juízos humanos. Como se está escondido com Jesus Cristo em Deus, está-se na companhia dos seus santos exemplos, das suas adoráveis máximas, do seu coração tão humilde; e em tal companhia, diante do rei e amigo dos humildes, cuja vida foi toda de humildade, quem poderia não ser humilde?

Um dia, diz consigo a alma, que compreende este mistério, Jesus Cristo há de aparecer cheio de glória, e então aparecerei com Ele. Mas até então devo estar escondida como Ele no seu presépio, como Ele no seu sepulcro. Portanto não haja mais louvor, não haja mais glória para mim neste mundo! Não os quero. Não quero senão aparecer com Ele, quando Ele aparecer glorioso; e, entretanto, viverei escondida em Deus, no seio da luz eterna, onde O verei, O admirarei, O gozarei; e encantada de tão digno e delicioso espetáculo, desprezarei as vaidades, a falsa honra e glória do mundo.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Abscondes eos in abscondito faciei tuae a conturbatione hominum (Sl 30, 21)

(2) Laetatum est in abscondito cor meum (Jó 31, 27)

(3) Si hominibus placerem, Christi servus non essem (Gl 1, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 153-156)